Fernando tentou erguer a mão para afastar Antonella, mas seus braços não obedeceram; estavam pesados como chumbo. Sua expressão, já gélida, tornou-se ainda mais sombria ao perceber sua vulnerabilidade.
Antonella percebeu a resistência e torceu os lábios em um desdém involuntário.
- Nenhuma boa ação fica impune, não é? Acabei de tratar seu ferimento e aplicar anestesia local. Não se mexa se não quiser que os pontos se abram.
Ela jamais teria trazido um estranho perigoso para seu refúgio se não tivesse sentido o cano de uma arma em sua testa momentos antes. Sentia que estava caminhando sobre cristais finos.
Ao ouvir a voz firme dela, Fernando estreitou os olhos e, pela primeira vez, olhou-a com atenção absoluta.
Ela estava concentrada, terminando de enfaixar o braço dele com movimentos precisos. Quando finalmente ergueu os olhos, deparou-se com o rosto pálido do homem. Era inegável: ele possuía uma beleza quase agressiva. Traços esculpidos, impecáveis, como uma obra de arte fria.
A memória daquela noite turbulenta voltou como um flash. Sua avó o havia drogado para forçar um encontro com a herdeira da família Lizz, mas ele escapou, sendo atacado logo em seguida. No meio do caos, essa "mulherzinha" surgiu em seu caminho como um bote salva-vidas inesperado.
Ao notar que ele encarava seu decote - o vestido de noiva tomara que caia estava amarrotado e revelador -, Antonella instintivamente cobriu o peito, lançando-lhe um olhar furioso.
Antes que o silêncio tenso pudesse ser quebrado, um celular tocou abruptamente. Ao ver o nome de Afrânio Ventura na tela, o coração dela disparou. Ela tentou recusar a chamada, mas seus dedos trêmulos deslizaram e acabaram atendendo.
- ANTONELLA VENTURA! - o grito de Afrânio ecoou, carregado de fúria. - Você foi longe demais! Como ousa fugir do seu próprio casamento? Volte aqui agora mesmo!
Nesse momento, uma tosse seca e masculina vinda da cama preencheu o ambiente e chegou aos ouvidos de Afrânio. O silêncio do outro lado da linha foi seguido por uma explosão de raiva.
- Onde você está?! Quem é esse homem?!
Antonella sentiu uma onda repentina de coragem ao encontrar o olhar profundo de Fernando.
- Não te interessa onde estou! E nem pense em me forçar a casar com aquele velho gagá. Eu já sou casada, Afrânio. Se tentar me vender de novo, será bigamia, e você sabe como preza pela sua preciosa reputação. Cancele esse casamento agora!
Ela desligou na cara do pai, o peito subindo e descendo. O pânico, porém, veio logo em seguida. Onde ela encontraria um marido de verdade para sustentar aquela mentira?
Foi então que um braço forte envolveu sua cintura. Com um puxão firme, ela foi arrastada para um abraço carregado de eletricidade.
- Case-se comigo!
Antonella arregalou os olhos, em choque. O tom dele não era um pedido; era uma proposta pragmática, tingida com a arrogância de quem costuma dar ordens.
- O que você disse?
- Você me salvou. Eu me casarei com você e assumirei a responsabilidade.
Horas depois... no Cartório
Antonella segurava a certidão de casamento vermelha, sentindo-se em um sonho febril. Ela havia acabado de se casar com um completo desconhecido. Ao assinar os papéis, finalmente descobriu o nome dele: Fernando Bakker.
Ao lado dela, Fernando parecia uma miragem de 1,90 metro de altura. Ele tirou uma foto do documento e enviou para a avó. Ele detestava as tentativas de controle da matriarca, mas os valores que recebera eram claros: um homem deve assumir suas responsabilidades. E ele sabia que Antonella era virgem. Além disso, tê-la como esposa oficial seria o escudo perfeito contra novos arranjos familiares.
- A propósito - Antonella começou, tentando soar casual enquanto guardava o documento. - Onde você mora e com o que trabalha? Se meu pai perguntar, preciso ter as respostas prontas.
Apesar da atração física inegável, ela não pretendia se apaixonar. Queria apenas paz.
Fernando ergueu uma sobrancelha, com um brilho indecifrável no olhar.
- Minha casa fica em outra cidade... e não tenho emprego no momento.
Ele não mentiu tecnicamente. A sede do império Bakker ficava em Leiden, e ele estava temporariamente afastado da linha de frente devido aos conflitos internos da família.
- Desempregado? - Antonella o examinou de cima a baixo. - Você vive às custas dos seus pais?
Ela sentiu um frio na barriga. Teria se casado com um gigolô preguiçoso?
- O quê? Acha que sou pobre? - Fernando sorriu, achando a situação curiosamente divertida. Ele, cujo patrimônio pessoal já ultrapassava os dez bilhões, estava sendo julgado por uma "médica de bairro".
- Não me importo se você é pobre - ela rebateu, mordendo o lábio. - Só não quero alguém preguiçoso. Homens com dinheiro demais tendem a se corromper, como o Afrânio. Eu só quero uma vida simples. Se está desempregado, pode trabalhar na minha farmácia. Melhor do que ficar vagando por aí.
Pela primeira vez, a máscara gélida de Fernando se quebrou com uma ponta de diversão. Fábio, seu fiel assistente que observava de longe, quase deixou cair o queixo. O "Grande Tubarão de Negócios" acabara de receber uma oferta de emprego em uma farmácia de esquina.
- Certo. E quanto será o meu salário? - ele perguntou, entrando no jogo.
- Salário base de três mil reais - respondeu ela, séria.
Fernando franziu a testa. Três mil não pagavam nem o vinho que ele costumava abrir no jantar. Mas, ao ver a expressão de preocupação dela, ele soltou um sorriso enviesado.
- Fechado. Mas não tenho onde cair morto no momento. Terei que me mudar para a sua casa.
- Então descontaremos o aluguel e seu salário líquido será de dois mil!
Fernando se aproximou, os dedos longos tocando o queixo de Antonella com uma possessividade que a fez estremecer.
- Minha cara esposa... já somos casados. É natural que vivamos juntos. Por que ser tão rigorosa com os detalhes?
O lampejo de perigo nos olhos dele deixou claro: ela podia até ser a dona da farmácia, mas ele, definitivamente, não seria um funcionário fácil de domar.
Diante dela, o rosto de Fernando Bakker parecia ainda mais imponente de perto. Antonella podia ver a perfeição de sua pele, sem poros, e a intensidade de seu olhar. Ela mordeu o lábio inferior; as palavras dele faziam um sentido perturbador. Ela ainda não havia processado o fato de que, em menos de vinte e quatro horas, sua vida mudara completamente: ela agora era uma mulher casada, e o homem à sua frente era seu marido.
- Não preciso de salário, Antonella - ele disse, a voz baixa e rouca, carregada de um magnetismo que a fez estremecer. - Mas não tenho intenção de manter um casamento apenas no papel. Trabalharei para você, mas em troca, você terá que se entregar a mim.
O coração de Antonella saltou. Ela percebeu, naquele instante, que ele não queria apenas um acordo de negócios; ele queria uma união real.
- Informo que você não tem o direito de recusar - completou ele, com uma arrogância dominadora que a deixou sem palavras.
Apesar da audácia, ela percebeu que não sentia repulsa. Havia algo nele que, apesar de perigoso, a atraía.
Os dois retornaram à Clínica Ventura. Assim que cruzaram a porta, foram recebidos pelo som de vidros estraçalhados e pelo rugido furioso de Afrânio Ventura.
- Destruam tudo! Queimem essas ervas inúteis! - gritava Afrânio, fora de si.
A expressão de Antonella mudou drasticamente. Aquela clínica era o legado de sua mãe. Ela fez menção de correr para dentro, mas foi impedida por Fernando, que a segurou firmemente pelo ombro. Sua figura alta e imponente bloqueou o caminho dela como uma muralha.
- Aguarde aqui - ordenou ele.
Antes que ela pudesse protestar contra o tom autoritário, Fernando já havia entrado. Para Antonella, ele parecia vulnerável por causa dos ferimentos, mas o que aconteceu a seguir destruiu essa percepção. Em menos de cinco minutos, os capangas de Afrânio estavam estirados no chão, gemendo de dor, incapazes de revidar.
Afrânio, vendo seus homens derrotados, ficou ainda mais possesso.
- Bando de lixo inútil! - Ele agarrou uma cadeira pesada e avançou contra Fernando, tentando atingi-lo na cabeça.
Antonella gritou e tentou intervir, mas Fernando foi mais rápido. Com um movimento fluido, ele desviou do golpe, empurrou a cadeira para o lado com uma mão e, com a outra, protegeu Antonella, puxando-a para trás de si. Afrânio recuou, chocado com o olhar gélido e letal que emanava de Fernando.
- Quem é você?! Vim buscar minha filha, saia da frente! - praguejou Afrânio, apontando o dedo trêmulo.
A aura de Fernando era sombria e perigosa, emanando um poder que assustava até mesmo Antonella. Ao notar que o ferimento no braço dele havia se aberto com o esforço, ela segurou a mão dele.
- Pare com isso! - ela pediu, vendo o sangue manchar as mãos dele. O rosto dela empalideceu, mas ela se colocou à frente de Fernando, encarando o próprio pai. - Pai, ele é meu marido! Nós já somos casados!
Ela tirou a certidão de casamento e a atirou contra o peito de Afrânio.
- Se você encostar nele ou em mim de novo, eu te processo!
Afrânio pegou o documento, os olhos saltando das órbitas. Ele achou que ela estava blefando ao telefone, mas a prova estava ali, em papel e tinta. Os dez milhões de Mario Jansen estavam escapando por entre seus dedos.
- O que estão fazendo aí parados? - gritou Afrânio para os capangas. - Matem esse homem!
Mas ninguém se mexeu. Os bandidos já tinham sentido a força de Fernando e não estavam dispostos a morrer por aquele dote. Sem saída, Afrânio apontou para a filha.
- Se você ainda me considera seu pai, vá se divorciar agora!
Antonella observou o comportamento repugnante do homem que a criou. Seu coração, antes cheio de esperança, tornou-se gélido. Desde a morte de sua mãe, há um ano, quando Afrânio trouxe sua amante e a filha ilegítima para dentro de casa, tudo havia mudado.
- Você ainda pode se arrepender - disse Fernando suavemente, observando a dor nos olhos dela.
- Não me arrependo - ela respondeu com firmeza. Voltando-se para o pai, completou: - Eu não vou deserdar você, mas se não aceitar meu marido, não voltaremos a nos ver. Siga sua vida e nos deixe em paz.
- Sua filha rebelde! Você vai se arrepender disso! - ameaçou Afrânio antes de sair, bufando.
O silêncio caiu sobre a clínica. Antonella sentiu as pernas fraquejarem; a adrenalina estava desaparecendo, deixando apenas o cansaço e a tristeza. Fernando a amparou com calma.
Ao ver o sangue no braço dele, ela recobrou os sentidos e o fez sentar para tratar o ferimento novamente.
- Parece que você está muito relutante em ser minha esposa - comentou ele, usando a mão ilesa para erguer o queixo dela.
- Eu já disse que não me arrependo - rebateu ela, tentando desviar o olhar, mas ele era dominador demais.
O olhar de Fernando se intensificou. Ele entendia a dor dela; ele também tinha um pai que só sabia usá-lo e que chegara a envenená-lo para manter o controle. Uma malícia cruzou seus olhos por um segundo, mas logo foi substituída por uma gentileza rara.
- De agora em diante, se você não tem uma casa para onde voltar, eu serei a sua casa, ok?
A voz dele era fria, mas as palavras eram o que ela mais precisava ouvir.
- Agora que estamos casados, somos uma família - respondeu ela, timidamente, sentindo as bochechas corarem.
Aquele lampejo de doçura nela despertou algo em Fernando. Ele acariciou o rosto dela com um sorriso preguiçoso.
- Querida... me chame de marido mais uma vez.
Antonella ficou completamente vermelha. Ela só tinha gritado aquilo para afastar o pai, mas agora, a sós com ele, a palavra parecia pesada demais.
- Nem pense nisso! - bufou, irritada.
Ela terminou de aplicar o remédio, mas notou que Fernando começou a suar frio. Ele estava tentando se conter, mas a dor parecia insuportável.
- Adicionei analgésicos fortes, ainda dói tanto assim? - perguntou ela, preocupada.
Ele franziu a testa, recuperando a expressão intimidante.
- Não estou sentindo dor - mentiu ele, secamente.
- Se dói, eu posso receitar algo mais forte - insistiu ela, mas ele agarrou seu pulso.
- Não adianta. Desde criança, eu sinto a dor com muito mais intensidade do que uma pessoa comum.