Capítulo 2

Uma dor aguda latejava na minha cabeça, como se mil agulhas estivessem a perfurar o meu cérebro. Tentei abrir os olhos, mas a luz forte fez-me fechá-los novamente.

"Liza, sua ladra! Devolva a sobremesa do meu filho!"

Uma voz estridente cortou o ar, seguida pelo choro alto de uma criança.

Abri os olhos com esforço e vi uma mulher de meia-idade a apontar para mim, com o rosto vermelho de raiva. Ao seu lado, um menino chorava histericamente.

Eu estava confusa. Que sobremesa? Onde é que eu estava?

Memórias fragmentadas inundaram a minha mente. Lembro-me de estar a conduzir, do som ensurdecedor de metal a torcer, da dor excruciante e depois... escuridão.

Mas também me lembro de uma vida de confusão, de ser tratada como uma idiota, de fazer coisas sem sentido e de ver o desapontamento constante no rosto do meu marido.

As duas realidades colidiram, e a minha cabeça doeu ainda mais. Percebi que tinha vivido os últimos três anos num nevoeiro mental, uma consequência do acidente de carro que sofri aos dezassete anos. Agora, de repente, a clareza tinha voltado.

Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, um braço forte agarrou-me e puxou-me com força.

"Chega, Liza! Para casa, agora!"

A voz era fria e dura. Era o meu marido, o Capitão William Schultz. O seu rosto bonito estava contraído numa máscara de fúria e vergonha. Ele arrastou-me pela multidão de vizinhos curiosos, ignorando os seus sussurros e olhares de desprezo.

"William, eu não..."

"Cala a boca," ele rosnou, sem me olhar.

Ele arrastou-me para dentro da nossa casa e bateu a porta com força. A casa estava uma bagunça, com pratos sujos na pia, roupas espalhadas pelo chão e um cheiro azedo no ar. Era o reflexo perfeito da minha vida nos últimos três anos.

Ele soltou o meu braço com um empurrão. Olhei para ele, para o homem que eu amava desde a infância, o homem que me prometeu proteger. Os seus olhos, que antes me olhavam com carinho, agora estavam cheios de exaustão e desgosto.

"Não aguento mais isto, Liza," disse ele, com a voz carregada de uma fadiga profunda.

Ele foi até uma gaveta, tirou uns papéis e atirou-os para cima da mesa à minha frente.

"Divórcio."

A palavra atingiu-me como um soco no estômago. Olhei para os papéis e depois para ele, com os olhos a encherem-se de lágrimas.

"Não, William. Por favor," implorei, a minha voz um sussurro rouco. "Eu posso mudar. Eu vou mudar. Dá-me uma chance."

Ele riu, um som amargo e sem alegria. "Mudar? Tu dizes isso sempre. E depois, no dia seguinte, fazes algo ainda mais estúpido. Estou farto de ser a anedota da base por tua causa."

Ele virou-se para sair. Corri até ele, agarrando a sua manga. "Por favor, não me deixes. Eu amo-te."

Ele arrancou o braço do meu aperto. "O teu amor é sufocante e embaraçoso. Já chega."

Ele saiu, batendo a porta atrás de si. Caí de joelhos, as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto. Sozinha no meio da confusão, olhei em volta. Esta era a vida que eu tinha criado.

Mas agora, eu estava desperta. A "Liza boba" tinha desaparecido.

Levantei-me, com uma nova determinação a queimar dentro de mim. Fui até à pia e comecei a lavar a loiça. Limpei a cozinha, depois a sala, esfregando cada superfície até brilhar. Dobrei as roupas, arrumei a desarrumação.

Horas mais tarde, a casa estava impecável. Fui tomar um banho, sentindo a água quente lavar a sujidade e a confusão dos últimos três anos. Olhei-me ao espelho. O meu rosto estava mais magro, mas os meus olhos estavam claros e focados. A amnésia tinha levado a minha inteligência, mas agora, ela tinha voltado.

Fui ao meu armário para me vestir, mas todas as minhas roupas estavam sujas ou amarrotadas. A única coisa limpa que encontrei foi uma das camisas brancas de William, pendurada no armário dele. Vesti-a. O tecido era macio contra a minha pele, e o cheiro dele, uma mistura de sabão e algo unicamente masculino, encheu os meus sentidos.

A camisa era grande demais para mim, caindo até meio das minhas coxas. Deixei o meu cabelo húmido solto, caindo em ondas sobre os meus ombros.

A porta da frente abriu-se de repente. William entrou, parecendo exausto. Ele parou abruptamente quando me viu, os seus olhos a percorrerem o meu corpo, da camisa branca às minhas pernas nuas.

Ele engoliu em seco, uma expressão de surpresa e algo mais a passar pelo seu rosto antes de ser substituída pela sua habitual carranca fria.

Capítulo 3

A tensão na sala era palpável. William olhava para mim, os seus olhos escuros fixos na sua camisa que eu vestia. Senti um rubor a subir-me pelas bochechas, subitamente consciente da minha aparência.

"O que é que estás a fazer?" a voz dele era rouca. "Vai vestir alguma coisa."

"Eu não tinha nada limpo," respondi, a minha própria voz soando mais firme do que eu esperava.

Ele desviou o olhar, o seu desconforto evidente. Os seus olhos percorreram a sala, notando pela primeira vez a sua limpeza imaculada. A sua expressão de surpresa era inconfundível.

"Tu... limpaste?" perguntou ele, incrédulo.

"Sim," disse eu. "Eu disse que ia mudar, William."

Aproximei-me dele, o coração a bater descontroladamente. "Eu sei que te desapontei. Sei que te envergonhei. Mas essa não era eu. Eu estive... perdida. Mas agora encontrei-me. Por favor, acredita em mim."

Ele olhou para mim, o ceticismo a lutar com uma centelha de algo que eu não conseguia identificar. Talvez fosse uma memória do que éramos antes.

"Palavras são fáceis, Liza."

"Então deixa-me mostrar-te com ações," disse eu, a minha voz a tremer ligeiramente. "Dá-me um mês. Apenas um mês. Se eu te envergonhar outra vez, eu assino esses papéis sem dizer mais uma palavra."

Ele ficou em silêncio por um longo momento, a sua mandíbula cerrada. Ele olhou para os papéis do divórcio na mesa e depois de volta para mim.

Eu estava prestes a dizer mais alguma coisa quando precisei de espirrar. Levei a mão à boca, mas o espirro foi forte. Quando baixei a mão, vi que estava com o nariz a sangrar.

"Oh," murmurei, surpreendida.

William agiu por instinto. Ele deu um passo em frente, pegou num guardanapo da mesa e pressionou-o suavemente contra o meu nariz, inclinando a minha cabeça para trás. As suas mãos eram quentes e firmes.

"Fica quieta," disse ele, a sua voz agora desprovida da dureza anterior.

Ficámos assim por um momento, tão perto que eu podia sentir a sua respiração no meu rosto. O seu olhar suavizou-se enquanto olhava para mim, e por um segundo, vi o William que eu conhecia, o meu William.

Mas o momento foi quebrado por uma batida na porta.

"Willy, querido, estás aí?" era a voz melosa de Nicole Lawrence, a nossa vizinha.

A expressão de William endureceu instantaneamente. Ele afastou-se de mim, a sua máscara fria de volta no lugar.

"O que é que ela quer?" ele murmurou, mais para si mesmo do que para mim.

Ele foi abrir a porta. Nicole estava lá, com um prato de biscoitos na mão e um sorriso falso no rosto.

"Oh, Willy! Eu fiz os teus biscoitos favoritos," disse ela, ignorando-me completamente. "Pensei que talvez precisasses de um mimo depois de um dia tão stressante."

"Obrigado, Nicole, mas não era preciso," disse William, a sua voz educada mas distante.

"Não sejas bobo! É claro que era," disse ela, tentando entrar. O seu olhar passou por William e fixou-se em mim, um brilho de malícia nos seus olhos. "Oh, Liza. Estás a sentir-te melhor? Fiquei tão preocupada quando te vi a causar aquela cena toda."

Antes que eu pudesse responder, Nicole virou-se para William. "Ela precisa de dinheiro outra vez, não é? A dona da loja da esquina veio queixar-se a mim. Aparentemente, a Liza acumulou uma dívida enorme em doces e bugigangas. Pobrezinha, não consegue controlar-se."

A raiva ferveu dentro de mim. Era Nicole. Tinha sido ela o tempo todo, a sussurrar veneno no meu ouvido, a encorajar os meus comportamentos "bobos", a alimentar a minha confusão. E agora, ela estava a tentar usar isso para me separar de William.

"Sai da minha casa," disse eu, a minha voz baixa e perigosa.

Nicole riu. "Oh, querida. Não precisas de ser tão defensiva. Só estou a tentar ajudar."

"Eu disse, sai," repeti, dando um passo em frente.

William olhou de mim para Nicole, a sua expressão confusa.

"Liza, acalma-te," disse ele.

"Não! Ela tem-me manipulado, William! Ela é a razão de tudo isto!" gritei, a frustração a transbordar.

Nicole fingiu-se chocada. "Eu? Manipular-te? Willy, ela está a delirar. Acho que o stress a afetou."

"Chega!" William rugiu, a sua paciência finalmente a esgotar-se. Ele virou-se para mim, o seu rosto uma tempestade de raiva. "Não culpes os outros pelos teus problemas. É sempre a mesma coisa. Estou farto."

Ele pegou no prato de biscoitos de Nicole. "Obrigado, Nicole. É muito amável da tua parte."

Ele fechou a porta na minha cara, deixando-me sozinha com a minha raiva e o meu coração partido.

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