Capítulo 2

Valentina respirou fundo antes de bater na porta do escritório dele.

Apenas trabalho, repetiu para si mesma. É só trabalho.

- Entre - a voz dele ecoou grave do outro lado.

Ela girou a maçaneta e encontrou Bryan atrás de uma mesa ampla, cercado por telas, pastas e uma vista panorâmica da cidade que fazia qualquer pessoa se sentir pequena. Qualquer pessoa - menos ele.

Ele não olhou imediatamente. Terminou de assinar um documento com precisão quase meticulosa.

Só então ergueu os olhos.

E quando ergueu, foi como se o ambiente mudasse.

- Sente-se, Valentina - disse, pronunciando seu nome com uma calma que contrastava com a intensidade do olhar.

Ela se sentou, cruzando uma perna sobre a outra com a confiança que não estava exatamente sentindo.

- Li seu currículo - ele começou. - E admito que não esperava que alguém com a sua experiência aceitasse um cargo subordinado.

O tom não foi ofensivo.

Foi... curioso.

- O cargo é estratégico - respondeu ela. - E eu queria trabalhar numa empresa onde há espaço para crescer.

Ele observou cada palavra como se analisasse incômodos invisíveis.

- Crescer exige disciplina - ele disse.

- E eu tenho - ela rebateu.

Um silêncio se instalou. Não desconfortável... apenas carregado.

Ele reclinou-se levemente na cadeira, cruzando os braços - gesto que deixou ainda mais evidente a largura dos ombros.

E a força.

E a presença.

- Há algumas regras que preciso deixar claras - disse ele por fim.

Valentina ergueu o queixo.

- Estou ouvindo.

- Eu exijo pontualidade absoluta.

- Eu exijo precisão.

- Eu exijo que você me traga problemas junto com soluções.

- E, acima de tudo... - os olhos dele pousaram diretamente nos dela - ...eu exijo lealdade.

Valentina franziu o cenho.

- Lealdade?

- Não estou falando de submissão - esclareceu. - Estou falando de foco. De comprometimento. De prioridade.

Ela não piscou.

- Eu não falho nesses pontos.

- Veremos.

A forma como ele disse aquilo fez um arrepio subir pelo corpo dela. Não por ameaça - mas porque parecia que Bryan estava acostumado a testar limites.

E ela estava acostumada a não recuar.

- Algo mais? - ela perguntou.

Ele ficou olhando por um tempo que ela não conseguiu decifrar.

Como se estivesse tentando entender o que, exatamente, nela o incomodava tanto.

Ou o atraía.

Embora ele jamais admitisse isso. Nem ela.

- Sim - ele disse, finalmente. - Quero você comigo na reunião das nove. Prepare um relatório com os números atualizados e... - seus olhos percorreram o rosto dela por um instante breve, quase imperceptível - ...mantenha essa postura. Não tente agradar. Apenas faça o que precisa ser feito.

Valentina arqueou uma sobrancelha.

- Não se preocupe. Nunca tentei agradar ninguém para conquistar nada.

Ele inclinou a cabeça, quase com aprovação.

- Até logo, Valentina.

Ela se levantou e caminhou até a porta.

Estava prestes a sair quando ouviu a voz dele novamente:

- E, Valentina...

Ela virou.

Ele a olhava com aquele mesmo ar de comando - mas havia algo novo ali. Uma curiosidade que ele tentava ocultar.

- Não gosto de ser desafiado.

Ela segurou o sorriso. Não deveria. Mas segurou.

- Não estou aqui para desafiar - respondeu. - Mas também não estou aqui para me curvar.

Os olhos dele escureceram um pouco, como se aquela fosse a resposta exata que ele esperava... ou temia.

- Interessante - ele repetiu, mais baixo desta vez.

Valentina saiu, fechando a porta com cuidado.

A pulsação estava acelerada, e ela odiava admitir isso.

Bryan Ellison era... perigoso.

Não de um jeito físico.

Mas de um jeito que abalava certezas.

E, pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu algo que não queria sentir:

Uma inquietação que tinha tudo para se transformar em algo maior.

Algo que nenhum dos dois estava pronto para enfrentar.

Capítulo 3

A sala de reuniões era ampla, moderna e rodeada por paredes de vidro. Quando Valentina entrou, os diretores já estavam acomodados, folheando documentos ou checando mensagens no celular. O único assento vazio era ao lado de Bryan. 

Ótimo. 

Exatamente onde ela não queria estar. 

Ele entrou dois minutos depois, caminhando com a precisão de alguém que controlava até a própria respiração. O silêncio formou-se naturalmente, como sempre que Bryan Ellison aparecia. 

Ele ocupou seu lugar - e, sem olhar para ela, disse: 

- Relatório, Valentina. 

Ela deslizou a pasta para ele. Sua mão não tremeu, mas por dentro... bem, por dentro ela estava tão tensa quanto a mesa envernizada. 

Bryan abriu o documento. 

E parou. 

Valentina não desviou o olhar. 

Das duas, uma: ele tinha encontrado um erro - ou estava impressionado. 

Ele virou a página devagar, como se avaliasse cada detalhe. 

- Isso foi preparado hoje de manhã? - ele perguntou, sem erguer a cabeça. 

- Sim. - 

A resposta saiu firme. 

Bryan fechou a pasta. 

Finalmente, olhou para ela. 

- Excelente trabalho. 

Três palavras. 

Simples - Mas ditas em um tom que fez algo no estômago de Valentina se contrair. 

Os diretores trocaram olhares discretos. Todos sabiam: Bryan raramente elogiava alguém. E nunca elogiava no primeiro dia. 

Ela agradeceu com um aceno curto, tentando não permitir que aquilo a afetasse. 

Mas ele não desviou os olhos. 

Continuou ali, observando-a por um segundo a mais do que deveria. 

Um segundo que ninguém na sala notou - exceto ela. 

A reunião começou. Bryan comandava a mesa com firmeza, fazendo perguntas diretas, cortando rodeios, exigindo clareza. Seu estilo era rígido, mas eficiente. 

Valentina o acompanhava, anotando tudo, respondendo quando necessário. 

Em determinado momento, ele a interrompeu: 

- Valentina, qual a sua projeção para o fechamento do trimestre? 

A pergunta pegou alguns diretores de surpresa. 

Era uma questão que normalmente só seria feita a alguém com meses de casa. 

Mas ela respondeu sem hesitar: 

- Crescimento de 4,8%. Se as duas contas pendentes forem convertidas até o dia 20, podemos chegar a 5,1%. 

Bryan encarou-a com atenção. 

Aquela atenção que perfurava mais do que analisava. 

- Concordo. - Ele assentiu lentamente. - E quero que apresente isso ao conselho na próxima semana. 

Alguns diretores arregalaram os olhos. 

Ela? Reunião do conselho? 

Com uma semana de empresa? 

Mas ninguém ousou questionar. 

Valentina respondeu com profissionalismo: 

- Claro. 

A reunião seguiu até que, ao final, todos começaram a levantar suas pastas. Quando ela se virou para sair, sentiu uma presença se aproximar. 

Bryan. 

- Preciso falar com você - disse ele em voz baixa. 

Ela ficou imóvel por um instante. 

Não pelo pedido - mas pela proximidade. 

Ele não tocou nela. 

Mas o calor do corpo dele, a sombra da postura firme, a forma como ele dominava o espaço... tudo fazia a sala parecer menor. 

- Sobre o relatório? - ela perguntou, tentando manter o controle. 

- Sobre você - ele respondeu, simples assim. 

O coração dela deu um salto que o corpo não demonstrou. 

- Algo errado? - Valentina manteve o queixo erguido. 

- Não. - Ele passou os olhos discretamente pelo rosto dela. - Só notei uma coisa. 

Ela esperou. 

- Você não se intimida - disse ele, como se estivesse verbalizando uma descoberta recente. - E isso é... incomum. 

Valentina respirou fundo. 

- Não estou aqui para ter medo de você, Bryan. 

O nome dele dito assim fez algo cruzar o olhar dele. Algo que ele tentou esconder, mas falhou por uma fração de segundo. 

- Eu sei - respondeu. - E acho que foi exatamente isso que me fez escolher você. 

Ela franziu o cenho. 

- Me escolher? 

- Para trabalhar diretamente comigo. - O tom dele era baixo, firme. - Achei que você aguentaria. 

Valentina sentiu o corpo inteiro despertar diante daquele desafio implícito. 

- Aguento - disse ela. - Mas isso não significa que vou baixar a cabeça. 

Bryan deu um passo ainda mais próximo. 

Não tocou. 

Mas o gesto foi quase... íntimo. 

- Eu não quero que você baixe - disse, em voz baixa. - Só quero ver até onde você vai. 

O ar pareceu mudar. 

A tensão entre eles não era sexual - não ainda - mas era tão forte que parecia acender lâmpadas. 

Valentina sustentou o olhar. 

- Isso vai muito além do trabalho, não vai? 

Um músculo no maxilar dele se contraiu. 

Bryan Ellison nunca demonstrava nada. 

Mas com ela... alguma coisa escapava. 

- Ainda não sei - admitiu. - Mas vou descobrir. 

E antes que ela pudesse responder, ele simplesmente saiu da sala. 

Deixando-a com algo novo dentro do peito: 

Não era medo. 

Não era irritação. 

Era... inquietação. 

E nenhum dos dois conseguia controlar aquilo.

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