Capítulo 2

Ponto de Vista de Alice Pontes:

As vozes dentro do escritório de Augusto recomeçaram, me puxando de volta da beira do meu abismo pessoal.

"Ela é uma interesseira, sabe", disse Léo, sua voz um desprezo baixo. "Sempre foi. Você está melhor sem ela, Augusto. A Carolina sempre foi a mulher certa."

Interesseira. A palavra me atingiu, afiada e imerecida. Sim, eu procurei Augusto em busca de segurança, um refúgio da família que me expulsou. Mas em algum momento, eu me apaixonei de verdade. Minhas intenções iniciais se confundiram, substituídas por um afeto genuíno. Mas eles não saberiam disso. Eles não se importariam.

"É", Nando concordou, "a Alice sempre pareceu um pouco... conveniente demais. Aparecendo bem quando você precisava de alguém para te ajudar a processar a situação com a Carolina."

Conveniente. Era isso que eu era. Uma distração conveniente, uma lição conveniente. O desdém casual em suas vozes, a maneira como dissecavam minha existência como se eu fosse um problema a ser resolvido, alimentou a brasa fria no meu peito. Ela estava crescendo, quente e feroz.

Eu não aguentava mais. Minhas pernas, ainda trêmulas, encontraram sua força. A caixa de veludo escorregou dos meus dedos, batendo suavemente no piso de madeira polida, o som um eco fraco contra o rugido que crescia em meus ouvidos. Eu empurrei a porta, o rangido repentino soando alto na sala silenciosa.

Augusto, Léo e Nando ergueram os olhos, seus rostos registrando uma surpresa passageira antes que o de Augusto se endurecesse em uma máscara fria. Ele estava de pé ao lado de sua grande mesa de mogno, um copo meio vazio de um líquido âmbar na mão. Léo e Nando estavam esparramados nos sofás de couro, parecendo confortáveis demais na minha casa em ruínas.

"Alice?" A voz de Augusto era desprovida de calor, um contraste gritante com o tom terno que ele usara para Carolina momentos antes. "O que você está fazendo aqui?"

Minha voz, quando saiu, era um sussurro rouco. "Um treino? Era isso que eu era pra você, Augusto? Três anos da minha vida, meu amor, minha devoção... tudo um 'treino'?"

Augusto não vacilou. Ele simplesmente pousou o copo, o tilintar do vidro na madeira soando impossivelmente alto. "Alice, você ouviu errado. Não é o que você pensa." Seus olhos não continham pedido de desculpas, nem remorso. Apenas uma parede em branco.

"Não minta pra mim!" O sussurro deu lugar a um grito rasgado. Minha voz falhou, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Eu ouvi tudo! Você me usou. Você me usou para aprender a reconquistar a Carolina. Como você pôde? Como pôde ser tão cruel?"

Ele finalmente encontrou meu olhar, seus olhos como lascas de gelo. "O que você esperava, Alice? Você veio até mim. Deserdada, desesperada. Você precisava de segurança, e eu ofereci. Nós dois ganhamos algo com isso, não foi?" Ele gesticulou vagamente pela cobertura opulenta. "Essa vida. Os contatos. Você aproveitou."

"Eu te amei!" As palavras rasgaram minha garganta, guturais e dolorosas. "Eu te amei de verdade, Augusto!" Meu peito doía, uma dor aguda e cortante.

Ele soltou uma risada curta e sem humor. "Amor? Alice, não sejamos ingênuos. Você precisava de um porto seguro. Eu precisava de uma distração, alguém descomplicado enquanto eu resolvia as coisas." Seu olhar varreu meu rosto manchado de lágrimas, desprovido de qualquer piedade. "Você era fácil de ler. Fácil de lidar. Fácil de... substituir."

Suas palavras eram veneno, pingando lentamente em minhas feridas abertas. "Fácil de substituir?" Eu engasguei, minha voz quase inaudível. "É isso que você pensa de mim? Que eu sou tão descartável?"

"Você entrou nisso sabendo o que queria, Alice", disse ele, sua voz ganhando um tom duro. "Não finja que era uma inocente de olhos arregalados. Você tinha um plano. Você me mirou. Digamos apenas que meu plano foi melhor executado."

Ele foi até sua mesa, pegou seu talão de cheques e rabiscou algo rapidamente. Ele o arrancou e estendeu para mim. Um cheque em branco. "Aqui. Pelos seus problemas. Pelos seus 'três anos'. Preencha com o que você acha que vale. E então, sugiro que você vá embora. Acabou."

Minha mão tremeu enquanto eu olhava para o cheque, depois para seu rosto impassível. Era isso. A demissão final. Ele queria me comprar. Me apagar com dinheiro.

"Você acha que dinheiro pode consertar isso?" Eu sussurrei, minha voz embargada por lágrimas não derramadas. "Você acha que pode comprar de volta minha dignidade?"

Ele não respondeu, apenas me encarou, a mandíbula tensa. Léo e Nando observavam, em silêncio, do sofá. Seus olhares pareciam punhais.

"Saia, Alice", disse Augusto, sua voz plana. "Acabou."

Ele virou as costas, caminhando em direção à janela, apresentando seus ombros largos como uma parede final e intransponível. Ele não me deu outro olhar.

Léo, sempre o prático, pigarreou. "Alice, ele está certo. É hora de ir. Você conseguiu um bom acordo por três anos. Não force a barra."

Olhei para o cheque em branco na minha mão, depois para a caixa de veludo no chão. O anel, o símbolo da minha esperança tola, jazia ali, zombando de mim. A raiva, fria e pura, surgiu dentro de mim. Com um grito gutural, rasguei o cheque em cem pedacinhos, deixando-os flutuar até o chão como flocos de neve patéticos.

"Eu não preciso do seu dinheiro sujo!" Eu cuspi, minha voz rouca. "Fique com a porcaria do seu cheque!"

Virei-me para Léo, meus olhos em chamas. "Quem é ela? Carolina Paes. O que ela é para o Augusto?"

Léo trocou um olhar com Nando, um acordo silencioso passando entre eles. "Ela é a ex dele", disse Léo lentamente, "aquela com quem ele sempre deveria estar. Aquela que ele nunca superou. Agora, se nos der licença."

Eles não ofereceram mais explicações, seus rostos fechados. Não havia mais nada a dizer, nada mais a aprender com eles. Apenas a verdade nua e brutal da minha situação.

Eu saí cambaleando da cobertura, a porta se fechando atrás de mim, selando meu destino. O ar frio da noite bateu no meu rosto, refrescando as lágrimas que ainda corriam livremente. Eu andei sem rumo, meus pés me carregando pelas ruas silenciosas de São Paulo. Cada passo parecia pesado, sobrecarregado pelo peso do meu coração partido e dos meus sonhos despedaçados.

Uma garoa fina começou a cair, suave e rodopiante, molhando o asfalto. Lembrou-me das promessas que Augusto sussurrou em meu ouvido, promessas que pareciam tão reais, tão sólidas, assim como as gotas de chuva que apareciam, apenas para derreter em nada.

Ele me prometeu um futuro, um lar, um amor que duraria para sempre. "Você é diferente, Alice", ele dissera, segurando minha mão, seu polegar traçando padrões na minha pele. "Você é tudo que eu nunca soube que precisava." Mentiroso. Tudo. Uma performance calculada para seu "treino".

Eu procurei Augusto, sim, quebrada e deserdada pela minha família. Eu busquei sua riqueza, sua estabilidade, sua proteção. Eu não negaria isso. Mas com o passar dos meses e anos, o cálculo inicial se desfez, substituído por algo real, algo vulnerável. Eu realmente acreditei em nós. Eu realmente me apaixonei. E ele pegou esse amor genuíno e o esmagou sob seus pés.

Sem emprego, sem apartamento e, agora, sem Augusto, eu só tinha um lugar para ir. O lugar ao qual jurei nunca mais voltar. A casa do meu pai.

A pesada porta de carvalho da mansão dos Pontes parecia um portal para um passado do qual eu tentei desesperadamente escapar. Quando a empregada a abriu, meu pai, o Sr. Pontes, estava no hall de entrada, seu rosto uma máscara de desaprovação.

"Olha só quem apareceu", disse ele, sua voz gélida, seus olhos percorrendo minha aparência desgrenhada. "Perdeu sua galinha dos ovos de ouro, Alice?"

Minha madrasta, a Sra. Paes, saiu da sala de estar, um sorriso sacarino estampado no rosto. "Alice, querida. Que surpresa. Ouvimos dizer que as coisas não iam muito bem com o Sr. Armstrong. Que pena." Seus olhos, no entanto, brilhavam com um prazer malicioso.

"Você sempre mirou alto demais, Alice", meu pai continuou, suas palavras como agulhas afiadas. "Uma garota como você, com sua... linhagem, deveria saber seu lugar. Augusto Armstrong nunca ia fazer de você sua esposa. Ele é muito mais exigente."

A exaustão, a traição, a humilhação das últimas horas combinadas com as palavras cruéis do meu pai. Algo dentro de mim se quebrou. A represa se rompeu. Todos os anos sendo a segunda opção, sendo dispensada, sendo a filha indesejada, vieram à tona.

"Linhagem?" Eu cuspi, minha voz tremendo com uma fúria que eu não sabia que possuía. "Você quer falar de linhagem, pai? Vamos falar da sua, e de onde você encontrou sua atual esposa 'exigente'!" As palavras saíram antes que eu pudesse detê-las, cruas e venenosas.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Alice Pontes:

O rosto do meu pai se contorceu em uma mistura de choque e fúria. Ele deu um passo em minha direção, a mão levantada. Eu recuei, mas o desafio queimava mais forte que o medo.

"Não se atreva!" Eu gritei, minha voz rouca. Peguei um delicado vaso de porcelana da mesa do hall, suas flores pintadas de repente feias. Eu o arremessei contra a parede perto da cabeça dele. Ele se estilhaçou com um barulho ensurdecedor, fragmentos se espalhando como meus sonhos quebrados.

"Vamos falar sobre como você traiu minha mãe, pai!" Eu esbravejei, as palavras jorrando, anos de dor e raiva reprimidas alimentando cada sílaba. "Vamos falar sobre como você trouxe ela", gesticulei descontroladamente para a Sra. Paes, "para nossa casa antes mesmo do corpo da minha mãe esfriar no túmulo!"

A Sra. Paes ofegou, seu sorriso sacarino finalmente desmoronando. "Alice, como ousa! Sua mãe esteve doente por anos!"

"Doente pela sua traição!" Eu retruquei, lágrimas se misturando com a fúria. "E não finja que você é inocente, Sra. Paes. Você sabia exatamente o que estava fazendo. Você roubou meu pai, roubou minha casa e tentou me apagar!"

"Esta é a minha casa, Alice!" meu pai rugiu, o rosto roxo. "E você não tem o direito de falar com sua madrasta desse jeito!"

"Esta também era a casa da minha mãe!" Eu gritei de volta, apontando um dedo trêmulo para ele. "Metade desta propriedade, desta 'linhagem' da qual você tanto se orgulha, me pertence! Ou você esqueceu desse pequeno detalhe em sua pressa para me deserdar?"

A Sra. Paes, vendo a situação escalar, deu um passo à frente, colocando uma mão apaziguadora no braço do meu pai. "Querido, por favor. Agora não. Temos convidados chegando em breve para a festa de noivado." Ela me lançou um olhar venenoso. "A festa de noivado da Carolina."

Meu pai me fuzilou com o olhar uma última vez, uma promessa silenciosa de retribuição futura em seus olhos, antes de sair furioso, presumivelmente para se recompor. A Sra. Paes me deu um sorriso apertado e triunfante antes de segui-lo, me deixando sozinha no hall estilhaçado, cercada por cacos de porcelana e o cheiro acre do meu próprio desespero.

Eu não dormi naquela noite. Cada rangido da casa velha, cada sussurro de folhas lá fora, parecia um lembrete do meu fracasso total. A imagem dos olhos frios de Augusto, o nome de Carolina em seus lábios, o desprezo do meu pai – tudo girava em um vórtice nauseante em minha mente.

Na manhã seguinte, eu era um fantasma. Meus olhos ardiam, minha cabeça latejava e meu coração parecia um tambor oco. Arrastei-me para o andar de baixo, esperando sair sem ser notada, mas a casa já estava fervilhando de atividade. Arranjos de flores, buffet, um turbilhão de rostos desconhecidos.

Então eu o vi.

Augusto.

Ele estava na grande sala de estar, rindo à vontade com meu pai, uma imagem de charme relaxado. Meu pai, que me condenara apenas algumas horas antes, sorria para ele, a mão batendo afetuosamente no ombro de Augusto. Parecia um pesadelo surreal.

Minha madrasta, a Sra. Paes, aproximou-se apressada, bajulando Augusto, sua voz pingando doçura artificial. "Augusto, querido, está tudo do seu agrado? Carolina descerá em um instante."

Augusto. Aqui. Na casa do meu pai. Para a festa de noivado da Carolina. Um pavor frio se infiltrou em meus ossos, pior do que qualquer traição que eu já senti.

Então ela apareceu. Carolina. Minha meia-irmã, radiante em um elegante vestido marfim, desceu a escadaria, seu sorriso brilhante e inocente. Ela olhou diretamente para Augusto, seus olhos brilhando com uma intimidade que pareceu um soco no meu estômago.

O rosto de Augusto se suavizou, uma ternura genuína e desprotegida que eu só sonhara em ver dirigida a mim. Ele caminhou em direção a ela, estendeu a mão, e ela a pegou, seus dedos se entrelaçando com os dele como se sempre devessem estar ali.

"Alice", disse Augusto, sua voz um murmúrio baixo e suave, virando-se para mim como se só agora notasse minha presença. Seus olhos, os mesmos olhos que me viram rasgar seu cheque em branco, não demonstravam surpresa, apenas um leve e desdenhoso divertimento. "Você está aqui. Bom."

Meu pai e minha madrasta se juntaram a eles, formando uma frente unida. Meu pai colocou o braço em volta de Carolina, seu olhar orgulhoso em Augusto. "Alice, querida", a Sra. Paes ronronou, seus olhos brilhando de triunfo. "Você se lembra do Augusto, claro. Ele está prestes a se tornar da família."

Minha respiração falhou. Meu mundo inteiro girou, a sala se inclinando violentamente. Família. Augusto. Carolina.

"Augusto e Carolina estão noivos", anunciou meu pai, sua voz retumbando de orgulho. "Estamos comemorando o noivado deles hoje."

O ar me faltou. Meus joelhos cederam. Agarrei-me ao batente da porta, tentando me firmar. A humilhação, a traição absoluta e esmagadora, me atingiu com uma força que roubou minha voz, minha visão, minha capacidade de pensar.

Não. Não podia ser. Isso era uma piada. Uma piada cruel e elaborada.

Mas Augusto estava sorrindo para Carolina, um sorriso genuíno e amoroso. Carolina estava se inclinando para ele, a mão delicadamente apoiada em seu braço, um diamante brilhando em seu dedo. E meu pai, meu próprio pai, olhava para eles com mais afeto do que jamais me demonstrou.

Minha meia-irmã. Minha nêmesis de longa data. A garota que sem esforço usurpou meu lugar no coração do meu pai, agora estava prestes a reivindicar o homem que sem esforço partiu o meu. Era um quadro distorcido e grotesco de tudo que eu perdi.

A ironia era um gosto amargo na minha boca. Fui expulsa pela mãe dela, substituída por ela. E agora, o homem que me prometeu segurança, o homem a quem entreguei meu coração, estava escolhendo ela. Não apenas escolhendo ela, mas me usando como um degrau para voltar para ela.

Minha mente repassou suas palavras: "Carolina precisava de alguém emocionalmente disponível... Alice foi um bom treino." Ele treinou comigo, moldou-se no homem que ele achava que Carolina queria, e agora estava apresentando sua obra-prima a ela, adornada com meu amor desperdiçado.

Senti um grito preso na garganta, um rugido silencioso e agonizante de desespero e raiva. Eu estava completamente sozinha, à deriva em um mar de engano e traição. Minha própria família, o homem que eu amava, todos conspirando contra mim, ou assim parecia. Eles eram uma frente unida, e eu era a estranha, a indesejada, a descartada.

Augusto encontrou meu olhar novamente, sua expressão indecifrável. Ele sabia que eu estaria aqui. Ele sabia. Isso não era apenas uma coincidência; era parte de sua crueldade calculada. Ele queria que eu visse, que testemunhasse seu triunfo, que esfregasse na minha cara minha própria tolice patética.

A percepção acendeu um novo fogo frio em meu âmago. Meu coração estava quebrado sem conserto, mas um tipo diferente de força começou a se formar em seu lugar. Uma força nascida da desolação absoluta. Eles me levaram ao limite, me despojaram de tudo. E ao fazer isso, eles libertaram algo sombrio e inflexível dentro de mim.

Olhei para Augusto, depois para Carolina, depois para meus pais, seus rostos radiantes com uma alegria doentia. Eles pensaram que tinham vencido. Eles pensaram que tinham me esmagado. Mas eles apenas plantaram as sementes de algo muito mais perigoso.

Meus olhos, agora secos, queimavam com uma promessa silenciosa. Isso não acabou. Longe disso. O jogo apenas começou. E eles não tinham ideia contra quem realmente estavam jogando.

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