Capítulo 2

INFÂNCIA

Que tempos aqueles:

A vida, uma bola

A alegria era escola

E o mundo inteiro feliz.

As tardes de pescaria

Nadar, jogar, brincar.

O tempo - eterno folgar

E tudo pedia bis!

À noite, a meninada,

Sentadinha na calçada,

A ouvir ‘causos’ de terror.

Lobisomens, que maçada!

O medo era quase nada,

Em meio a tudo, tanto amor!

As brincadeiras de pique-esconde

Salva-cadeia e balança caixão.

Histórias de reis e viscondes

Um mundo de amor e paixão.

Tudo isso ficou tão longe

E o tempo passou ligeiro,

Nas asas do meu coração...

ENGOLIR LAMBARI

Ia para lá com meu irmão. Eu deveria ter uns seis anos e ele quatro anos mais velho que eu. O poço era uma maravilha, mas como não sabia nadar, eu só ficava tomando conta das roupas dos moleques e, de guarda, para dar o grito no caso de aparecer o dono, que volta e meia, levava as roupas, fazendo com que a molecada voltasse para casa, vestida de Adão.

E ali, enquanto a turma nadava, dava pontas, mergulhava, eu ficava pensando em aprender a nadar, e para isto tinha que, religiosamente, engolir pequenos lambaris, que se pegava com uma peneirinha, nos pequenos regos que mourejavam naqueles brejos.

O poção, entancado com pedaços de troncos de árvores, galhos e embiras, ficava parecendo como uma pequena lagoa funda, e no barranco a turma improvisava um escorregador, jogando bastante água no barro, que ficava divertidamente escorregadio.

E era uma delícia! Brincadeiras e mais brincadeiras, naquele paraíso mágico de minha infância. Havia de tudo também: moleques, árvores, cipós – para brincar de ‘Tarzan’ - pássaros, natureza e muita felicidade-criança no coração.

A minha única preocupação era aprender a nadar e, para isto tinha que, toda vez, ou quase todos os dias, pegar os peixinhos para engoli-los vivos.

O tempo ia passando, eu engolindo lambaris e nada de aprender a nadar. Vez por outra, o dono daquelas terras aparecia, e, então, saía moleque correndo para todos os lados, enquanto o homem corria atrás, mas, sem êxito de pegar um moleque sequer, que espertos, se refugiavam na mata que ficava nas cercanias. Eu acho que também não era intenção dele pegar um moleque que seja. Era apenas para nos assustar, que assim ficávamos à espreita, esperando que ele se fosse, para voltarmos ao poço das delícias.

Foi assim, que um dia ensolarado de primavera, meu irmão, teve o impulso de me atirar dentro daquele poço fundo. Bebendo água, me afundando, batendo os braços, consegui, com muito esforço agarrar ao barranco e sair, engasgado, assustado e, ao mesmo tempo alegre, por haver aprendido a nadar, depois de longa demora e de muita vontade.

Consequentemente, o aprendizado brota da necessidade, que deve estar sempre aliada ao interesse e à motivação, pois tornei-me um grande nadador de córregos, riachos e ribeirões, por todo aquele meu reino dourado de Sant’Anna dos Olhos D’Água.

FLASH GORDON

Tudo no cinema era magia! A começar pelas bilheterias, que no começo eram altas, quase inacessíveis, a escadaria da entrada, de cortinas aveludadas, com uma moça ou um rapaz, às vezes, a pegar os ingressos, as poltronas, de madeira, o apagar das luzes, o abrir das cortinas, algumas vezes, com uma música de banda – marcha militar -, e aquela telona, imensa, do tamanho do mundo que ela mostrava!

Esse era o meu cinema – o Cine Theatro Santana, templo sagrado do prazer, da minha infância e juventude, a minha primeira escola de letras e de palavras, um mundo que fazia rir e também às vezes, fazia chorar...

No começo, pequeno ainda, só frequentava as matinês de domingo, a ver filmes, geralmente de Tarzan ou de faroeste – Durango Kid, Charles Starrett, Randolph Scott, e depois o tão aguardado, comentado, sonhado, ansiado – seriado do Flash Gordon – uma aventura espacial, nos mundos da lua, do rei Ming, e seus malefícios!

Dentro da sala escura, um silêncio sepulcral! Todos sabíamos que naquela sala escura era só para ouvir e ver! E então ficávamos muitas vezes agoniados, e até parecendo que vivíamos as aflições, os apuros e as vitórias do Herói e da sua bela heroína Dale!

O tempo dedicado ao seriado – que ficava para o final – após o filme – era um pouco mais ou menos de meia hora, e ele sempre parava numa cena de suspense, onde o herói estava encrencado e até parecia que não tinha jeito de escapar.

Mas bastava chegar o próximo domingo e então na continuação, a gente via que, não se sabe, se por magia, ou outro encantamento qualquer, o herói se safava e novamente, para nossa alegria, estava livre das garras tenebrosas do rei Ming, o Imperador da Lua!

RAIA

Bons tempos... Momentos felizes que ficaram gravados na memória e no coração. Lembro-me muito bem de um deles, célebre acontecimento que ocorreu em dois lugares naquele arraial de Sant’Ana dos anos 50. O primeiro, na saída para o rio Sapucaí, próximo à chácara dos Dias. Não me recordo se fui a este lugar. Mas, no entanto, o outro lugar, que ficou eternizado na minha lembrança, localizava-se na estrada velha para São Joaquim da Barra, entre a 1ª e a 2ª Mata.

Tratava-se de corrida de cavalos, numa pista, que lembrava um hipódromo, mas, apenas reta, sem curvas. A população, quase toda, se dirigia para lá nas tardes de domingo, e a maioria ficava desfrutando das sombras refrescantes da 1ª Mata, onde se improvisavam barzinhos debaixo das frondosas árvores. Que delícia as sodinhas e os guaranás, cujas garrafas empalhadas vinham embaladas em sacos rústicos e, que depois eram colocadas para gelar em meio às pedras de gelo, em tinas feitas de tambores.

Na raia empoeirada, logo após a estrada, a corrida se desenvolvia entre gritos de entusiasmo e de alegria, onde as apostas eram feitas nos cavalos concorrentes. Eu não entendia muito, mas sei que corria também muito dinheiro. E havia um belo alazão, um majestoso cavalo negro de nome Suíngue que era um verdadeiro campeão, eis que vencia quase todas as corridas.

Todos os domingos ia, em companhia de meus pais, para aquele lugar que nos enchia de alegria e felicidade. Não fiquei, no entanto, sabendo do destino de Suíngue, nem o que foi feito da raia, que terminou melancolicamente, sem avisos e sem notícias.

O que sei e que guardo até hoje é uma lembrança querida daqueles tempos de ouro que não voltam mais...

REZAS, BANDEIRAS E TROPEÇÕES

COMO EU GOSTAVA daquela procissão! Quantas recordações trago no coração e na alma, daqueles tempos de menino, participando da vida religiosa da cidade.

ACORDAVA CEDO, mais ou menos às 4 da manhã. Tinha que me preparar, arrumar para ir com minha mãe até a Igreja Matriz, de onde sairia a procissão da 5ª. Feira Santa.

MORÁVAMOS BEM no alto da cidade e até a igreja tinha mais ou menos um quilômetro.

NÃO VIA A HORA chegar para encontrar com meus colegas. Juntos – formávamos um batalhão – ou seria, a infantaria, pois o padre e seus ajudantes nos colocavam em fila a puxar a procissão, somente atrás da alta cruz, do andor e das bandeironas azul e branco, lindas, mais parecendo torcida da Argentina. (No quintal de outra casa que havíamos residido passava um pequeno córrego, e eu mais Noé, um amigo de infância – que já se bandeou pro lado eterno – saíamos pelos quintais com folhas de bananeira a cantar, a plenos pulmões: “A Bandeira de ‘gódia’, O pendão de Jesus Salvador...”)

NESTA PROCISSÃO só iam os homens. As mulheres formavam outra procissão, sendo que uma subia a avenida Dona Tereza e a outra a avenida Carlos Fernandes.

SAÍAM AS DUAS do mesmo lugar e depois de uma boa caminhada, novamente se encontravam no mesmo lugar. Era emocionante! Dava-se então o encontro de Jesus flagelado com sua mãe. Era tudo muito triste, com a maioria das pessoas se vestindo de cores escuras em sinal de luto e de dor.

DE VEZ EM QUANDO o séquito parava e então, surgia uma mulher - toda vestida de preto - que começava um canto triste, numa linguagem ininteligível, que nos fazia chorar de tanto dó.

EU NÃO GOSTAVA desses momentos. O bom era quando estávamos caminhando em fila, pelas ruas da cidade, onde íamos arregimentando munições para os nossos propósitos. Como as ruas eram de terra batida, e estando na frente, pegávamos pedras, pedaços de pau e tijolos, que íamos deixando estrategicamente no caminho, para que, algum incauto pudesse neles tropeçar. E quando acontecia, para nós era como se fosse um gol e uma verdadeira festa! Era um verdadeiro jogo, onde disputávamos um campeonato, a fila do lado direito contra a fila do lado esquerdo.

Isso também acontecia nas outras procissões, realizadas no período noturno, à luz de velas, naquelas ruas escuras e esburacadas daquele mundinho querido de Sant'Anna.

E HAVIA UM PADRE, que dizia: "meninas pra cá, meninos pra lá!" E era um saco! – aí ficava difícil, porque nos separavam das meninas, e com elas não tinha papo, nem jogo, e a procissão passava a ser uma coisa chata, que demorava acabar.

MAS TUDO PASSA nas contas do tempo...

A MAGIA DAS PALAVRAS ANDANTES

“No tempo que eu não te conhecia, aprendi numa lousa de palavras andantes que se movimentavam na casa do silêncio e da escuridão... Foi assim que comecei a descobrir que Felicidade é uma ave passageira, que voa horizontes no coração de poucos seres...”

(in “Reflexos da Alma”)

Mal comecei a andar e já me bandeava, gurizinho, para os lados daquela casa que eu acreditava mágica e, onde na maioria das vezes, se ria, e outras tantas, muita gente grande chorava, principalmente, as mulheres e as mocinhas.

Na minha miúda visão eu achava que as imagens moravam ali mesmo, detrás daquela telona branca, que era encoberta por uma cortina num tom vermelho grená.

E então, nesta casa que não se podia conversar e que ficávamos às escuras, foi que comecei a prestar atenção nas letras e palavras que iam passando na tela, depois que as cortinas bonitas se abriam. Minhas irmãs e também suas colegas, iam contando para mim o que elas diziam.

‘E assim com o passar do tempo fui me familiarizando com aquela casa mágica e já sozinho ia me virando com as palavras, que vinham acompanhadas de músicas e de imagens.

Quando entrei no grupo escolar, com seis anos de idade, já estava totalmente familiarizado com as letras e com as palavras, que havia conhecido na casa do silêncio e da escuridão.

Esta é toda a minha admiração e meu amor pelo cinema. Chamava-se Cine Theatro Santana, e era o melhor cinema do mundo, do meu mundo! No começo frequentava apenas as matinês de domingo, e não via a semana passar, para, principalmente assistir ao seriado, ora de Flash Gordon, ora de Rod Cameron e outros tantos que povoaram de encanto, de graça e de ternura o meu pequeno mundo.

Os filmes eram todos em preto e branco, mas nossa vida era toda ricamente colorida, o que fazíamos também colorindo as imagens ao nosso gosto e à nossa imaginação.

E com o passar do tempo foram surgindo heróis e heroínas, a desfilar na tela e na alma e em nossos corações: Roy Rogers, Randolph Scott, Gary Cooper, Cary Grant, Burt Lancaster, Clark Gable, Audi Murphi, Stewart Granger, Ava Gardner, Rita Hayword, Susan Hayword, James Stewart, Elisabeth Taylor, Rock Hudson, Oscarito e Grande Otelo, Cantinflas, O Gordo e o Magro, Charlie Chaplin, Dean Martin & Jerry Lewis, Humphrey Bogard, Laureen Bacall, Sofia Loren, Gina Lollobrigida e outras centenas...

Religiosamente ia ao cinema todas as noites, muitas vezes, acompanhado por meia dúzia de expectadores. Todas as noites lá estava eu para ver um filme ou revê-lo, se fosse em reprise. Como eu era apaixonado pelo cinema!

A magia que existia me acompanhou pela vida e ainda hoje, sinto uma emoção gratificante e alegre quando, raras vezes, me dirijo a um cinema.

Os tempos são outros e hoje, com a preponderância da televisão, dos aparelhos de DVD e outros recursos mais sofisticados fecharam as salas de cinemas nas pequenas cidades, e praticamente as restringiram em Shopping Centers nos grandes centros.

CAÇADORES DE OSSOS

“Decidi caminhar no pó das estradas, e sentir o aroma do araçá dos longes... ...e olhar pro céu para encontrar despojos, a troco de vinténs, na seca do destino.

Aquela casa, escondida numa curva, sugeria prazeres que meu sonho ansiava. E eram os mesmos, os vinténs que aplacavam a sede e a fome.

E tudo era tão bom...”

(in “Reflexos da Alma”)

1960. Começo de um novo tempo, linha divisória entre o velho e o novo, década que daria início a revoluções em todos os sentidos.

A seca impiedosa se estendia por toda aquela região de Sant’Ana dos Olhos D’Água, onde os últimos pingos de chuva há muito haviam deixado de cair por aquelas bandas e cercanias. O pó das estradas, vermelho e fino penetrava silenciosamente na vida e na alma de cada um. Os regos d’água deixaram de existir, secando também os brejos, os banhados, as nascentes e as lagoas. Tudo era seca, era pó, era tristeza infinda.

O pequeno comércio vivia quase às traças e nas ruas empoeiradas, as gentes do lugar não tinham coragem de deixar suas casas, naquele triste cenário de seca e de pobreza.

Foi aí que tivemos a ideia,- uma meia dúzia de moleques, a maioria ainda usando calças curtas,- de arrumarmos uma carrocinha de mão, para procurar ossadas, pois com a terrível seca, o gado estava morrendo nos desérticos pastos.

Zé Martim, cujo pai era dono de um bar, encarregou-se de arrumar a carrocinha, enquanto meu irmão Mauro, exercia o comando da molecada, por ser o mais velho.

E lá fomos nós, puxando aquela coisa, pelas estradas empoeiradas, com os olhos para o céu, na esperança de avistar urubus, os anunciadores dos despojos que apodreciam pelos pastos ressequidos.

Mesmo assim, com toda aquela seca inclemente, a natureza nos oferecia, ora uma goiabinha do mato, ora um saboroso araçá, cujo aroma era pressentido de longe.

E então, as ossadas iam surgindo, aqui e ali, muitas vezes, com os restos do couro e das gorduras que ficavam fritando no sol impiedoso.

Obedecendo às ordens do “Capitão”, íamos colocando os ossos na carrocinha, até enchê-la, com uma certa rapidez e também muito cuidado, porque meu irmão, que tinha um coração de ouro, também sabia ser austero e bravo, conforme a ocasião.

Com a carga completa, ‘mandávamos’ para a cidade a fim de fazer a entrega ao dono do único ferro-velho, onde também funcionava um engenho, ‘tocado a burro’, cujo pobre animal ficava o dia inteiro, tocando de roda, para moer a cana.

E assim, muitas viagens fizemos com esta carroça, à cata de ossos, que trocávamos por míseros vinténs e, muita garapa, melado e rapadura nos alegraram, naquela casa que ficava escondida numa curva, na saída para a cidade de Guaíra.

A LAGOA ENCANTADA 2 [Saved by the Bell...]

Era um dia como os outros: repleto de alegria, de sol e de calor. Em bando, após a aula da manhã, saímos, alegres e felizes rumo à lagoa maravilhosa.

Pouco tempo depois já estávamos nos deliciando com a suavidade e o prazer da sua água e da sua beleza. Passados das 4 da tarde ouvimos um barulho estranho, parecendo um tropel de cavalos. Afoitos, saímos da água, pegamos nossas roupas e nos arrumamos.

Mal nos voltamos para onde estava vindo o barulho, avistamos três homens a cavalo, correndo em nossa direção.

Nem é preciso dizer que saiu moleque para tudo quanto é lado e, nesta estratégia conseguimos nos safar dos perseguidores.

Corri tanto que cheguei à mata e então foi que me deparei sozinho. Meus companheiros estavam em qualquer lugar, ou escondidos ainda ou já estavam na minha frente.

De repente o caminho foi ficando esquisito, parecendo desconhecido, e eu avançava uns passos e retrocedia depois, totalmente perdido, numa mata diferente e nunca vista. Será, meu Deus, que havia ‘relado’, sem querer, no cipó do esquecimento, planta que, acreditávamos, fazia a gente se perder no meio do mato?

E agora, sozinho, nesta mata desconhecida, “como vou fazer para voltar pra casa” e a noite logo vai chegar.

Resolvi ficar andando, pra lá e pra cá até que esbarrei meu pés num garrancho de um outro cipó, e rolando por uma perambeira me dei conta que havia caído num buraco escuro e tenebroso.

Olhei ao redor e, com o coração aos saltos, vi restos de ossos e pedaços de madeira apodrecida. Olhei para cima e divisei um velho cruzeiro, numa madeira velha e carcomida. Saí dali num átimo e descobri que estava perdido, seguramente dentro do cemitério velho, que já ouvira meu pai várias vezes mencionar este lugar, que ficava nos limites da fazenda que ele até a alguns anos possuía.

É era mesmo o cemitério, cujas pessoas ali foram sepultadas, bem distante do lugarejo, porque morreram de uma doença altamente contagiosa, praticamente no começo do século 20.

Saí dali e voltei para onde estava, antes de haver caído. Nem mal estava tentando procurar um caminho que me levasse de volta para casa, eis que ouço um som conhecido: os sinos da igreja estavam badalando e eram, aqueles toques de enterro.

Marquei o rumo de onde vinha o som e consegui encontrar o caminho de volta.

Como nas lendas e histórias que percorrem o mundo, comigo também havia ocorrido a mesma coisa: salvo por um sino, ‘saved by the bell’...

PERFUME DE GARDÊNIA

“Perfume de gardênia/ Tem em sua boca/ E um lindo arco-íris/ De luz em seu olhar...”

(de uma canção)

Como era bom aquele tempo de outrora, quando nos meses de junho e julho se realizava a quermesse em louvor à padroeira Sant’Ana.

A população da cidade e também das cidades vizinhas compareciam aos festejos que se realizavam nas noites dos fins de semana.

Uma belíssima barraca no formato circular, de estilo exótico e de belas formas acomodava uma multidão de pessoas, que de suas mesas participavam do leilão de prendas, da alegria contagiante que imperava no recinto, em forma de correio-elegante, de música agradável, do ‘quimbol’ (uma espécie de bingo), e de outras diversões que muito alegravam a vida e encantavam a alma.

“Uma cervejinhaaaa... bem geladinhaaaa....”, gritava “Tide” (Erotides Zanini) - o locutor do serviço de som, onde os apaixonados ofereciam música à suas amadas, como prova de muito amor.

Garoto ainda, não via a hora de estar nesta quermesse, que tinha outras atrações, como o ‘Homem Misterioso’, uma figura com a cabeça encoberta e toda dissimulada, - um cidadão escolhido na cidade - e que para votar tinha que pagar tentando descobrir quem poderia ser o que só seria desvendado no última dia de quermesse e a ‘Cadeia’, onde as mulheres eram as policiais que prendiam os homens, os quais só eram libertos mediante fiança e mais e mais atrativos que nos enchiam de alegria e de prazer.

Um pequeno conjunto musical animava a festa: Miguelzinho no trombone, Carlão Jacaré no pistão, Louzinho no pandeiro, Hélio na guitarra, e muitas vezes, a presença de Sô Belmiro (trombone de vara), Maestro Romualdo (violino), Mobrice Marqueto no clarinete e outros, que de uma forma ou de outra, davam sua colaboração, abrilhantando os festejos.

A nossa preocupação de menino não eram mais do que duas ou três: escrever correio elegante para as meninas, ganhar uma prenda no quimbol (bingo) e muitas vezes, sair atrás do carro que levava o Homem Misterioso, para descobrir quem poderia ser a figura mascarada, e que, para isso, íamos de bicicleta, mas, eles de carro, nos despistavam facilmente e decepcionados e cansados voltávamos para a festa, sem poder descobrir quem era.

A recompensa para quem descobrisse era muito boa: muitas vezes era em dinheiro e outras, em prêmios, como geladeira, rádio, e outros eletrodomésticos.

Várias vezes a gente ia preso a mando das meninas e, sem dinheiro para pagar a soltura ficávamos lá, dentro daquela ‘cadeiazinha’, à vista de todos, envergonhados, e só sendo soltos, já no fim da festa, quando o movimento diminuía.

E os correios elegantes que a gente escrevia – muitas vezes com pseudônimo - e de longe ficava observando a reação de quem o recebia... ansiosamente aguardando a resposta, com o coração a mil...

Sem dúvida alguma, esses festejos marcaram minha infância e minha juventude e, hoje relembro com ternura e com saudade daqueles bons tempos, naquele mundinho encantado de Sant’Anna dos Olhos D'Água.

Capítulo 3

LEMBRANÇAS

Nem sei porque

Escrevo isso,

Nem jeito tem

De compromisso,

Verdade, imposição ou lei.

Mas como doem as lembranças,

De um tempo terno e doce

Que sempre pensei que fosse

Tudo o que vivi e sonhei

Que saudade das auroras

Singelas – belas – amarelas

Quando acordava de um sonho

Para em outro adentrar.

Eram dias de bonança

Onde festiva

Dançava a esperança

Ao ritmo das horas mais belas

De um mais dolente sonhar.

SÓ SAUDADE

"O passado não é aquilo que passa, mas o que fica do que passou."

FOI NA OCASIÃO em que lecionava na Fazenda São José, no município de Ipuã, minha querida terra natal, no Estado de São Paulo, mais exatamente no ano de 1967, que tive o primeiro contato com a música "Três Boiadeiros", cantada pelo inesquecível Moacir de Oliveira e seu irmão Totonho. Era uma canção de rica musicalidade e ritmo e que cantava as desventuras de um boiadeiro pelas estradas da vida.

NAQUELE TEMPO, nós vivíamos e ouvíamos intensamente a música dos Beatles e dos Rolling Stones, e não importávamos em nada com músicas sertanejas, mas, não sei porque, aquela música gravou fundo em minha memória e em meu coração.

AS DESVENTURAS de “Chico Mineiro” me trazem doces e longínquas lembranças, lá pelos idos dos anos 50, quando viajando para o Estado do Paraná com meus pais, ouvi essa música pela primeira vez, no rádio do Ford 'Coupé', não sei, se em alguma estrada de terra ladeada de cafezais ou numa balsa na travessia de um dos muitos rios que havia no longo percurso.

É NESSE MESMO TEMPO, tempo de uma infância feliz, que eu acordava ao som do programa "Na Beira da Tuia", e ouvia envolto em sonhos e ternuras, músicas que contavam as mágoas e tristezas de um caboclo que falava de haver nascido "num ranchinho beira-chão, todo cheio de buraco adonde a lua faz clarão" e, que logo depois outros versos afirmavam a certeza do caboclo de não trocar seu "ranchinho amarradinho de cipó, por uma casa na cidade, nem que seja bangaló."

EU ACORDAVA, em meio a esse clima de magia, embalado com essas dolentes músicas que eram, quase sempre acompanhadas pela doce voz de minha querida Mamãe, ao sabor agradabilíssimo do café, que ela, com muito amor, preparava para todos nós.

LEMBRO-ME DE PAPAI, impecável com sua vestimenta de boiadeiro, com suas grandes e longas botas, seu chapéu Prada e seu imenso carinho que me envolvia quando chegava em casa, depois de uma longa e dura jornada. Ele sempre me trazia alguma coisa e, me pegando ao colo, dava-me balas, doces, beijos e muito amor. Quando anoitecia e chegava a hora de dormir, eu era embalado por Mamãe a cantar "Vai boiadeiro que a noite já vem, traz o seu gado e vai pra junto do seu bem". E a gente dormia feliz.

E HAVIA OS MOMENTOS FELIZES de ouvir músicas no "picape" movido à corda e que a todo momento ou quase sempre se trocava a agulha. Os discos, eram aqueles pesadíssimos 78 rotações, com músicas de Catulo da Paixão Cearense, Torres, Florêncio e Serrinha, Alvarenga e Ranchinho, Palmeira e Biá, Zico e Zeca, Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Carreirinho e uma infinidade de outros mais, que nos enchiam de alegria e encantavam o nosso viver.

COM O PASSAR DO TEMPO, com a vinda da eletricidade, Papai comprou um rádio-vitrola, que, por muitos e muitos anos, nos proporcionou momentos de infinitas alegrias.

FORAM MUITAS AS VEZES que vi Papai dedilhando uma viola e também não foram poucas as vezes que o acompanhei numa roda de catira, que naquele tempo acontecia amiúde em nosso pequeno e querido mundo de Sant'Anna dos Olhos d'Água.

E HOUVE TAMBÉM UMA ÉPOCA que, menino, andava grudado no lombo de um cavalo, de nome ‘Balaio’ ou coisa assim, tocando boiada, pela estrada quase sempre empoeirada que nos levava até a vizinha cidade de Guaíra, com Papai e outros peões. Foi um tempo, fugaz e efêmero, do qual tenho ínfimas e queridas lembranças, mas que se vivificam fortalecidas quando ouço, extasiado, em qualquer festa ou local que esteja, uma canção que conta a estória ou história de um menino "que vinha correndo abrir a porteira" só pra "ouvir o som manhoso de um berrante preguiçoso nos confins do meu sertão."

... E ENTÃO, O TEMPO PASSOU, eu cresci, estudei e me formei Professor. Década de 60, anos de revoluções, de conquistas espaciais, anos dos Beatles e dos Rolling Stones, dos hippies, de Bob Dylan, Jane Joplin, Jimmy Hendrix, de Woodstock, época de contestações, da guerra fria, de dúvidas, de incertezas.

COMO ERA NATURAL, meus pais ficaram arraigados nos bons tempos e dificilmente aceitavam os novos costumes que o mundo inteiro passava a adotar e, não foram poucas as vezes que ocorreram desentendimentos entre nós.

MÚSICA SERTANEJA, para nós, jovens, era coisa de caipira, assim como samba era música de malandro.

O SOM QUE DOMINAVA era o do Rock 'n Roll, dos Beatles, dos Rollings, das orquestras de Ray Conniff e de Billy Vaughn, das músicas italianas de Endrigo, Donaggio, Fidenco e Bobby Solo e dos conjuntos dos Incríveis, The Jordans e Renato e seus Blue Caps.

TÍNHAMOS VERGONHA de ouvir música sertaneja, que era coisa de pessoas iletradas, ignorantes, de palavreado errado, de viver simples e humilde.

COMO VIVIA ENGANADO naquela época! Hoje, tudo faria para resgatar aquela infância dourada, de doces recordações, que agora enchem de saudade alma e coração, e rever meu pai sentado na sala de nossa casa, a ouvir os anos de glória de Tonico e Tinoco, ao som de "Saudade" e "Alembrando de Você" .

NO ANO DE 1975, num fim de semana, em casa de um amigo, administrador da fazenda Milho Vermelho, no município vizinho de São Joaquim da Barra, conheci uma música que começou a mudar o meu modo de pensar em relação à música sertaneja. Ao ouvir "Mágoa de Boiadeiro", cantada por uma dupla que morava nas cercanias da fazenda, comecei a lembrar dos tempos de menino, quando Papai era um boiadeiro imponente, que tinha muito orgulho e prazer naquilo que fazia. Comecei a pensar em Papai, que ora nem era mais boiadeiro, nem mais boi tinha e nem cavalo. Mas na garagem lá de casa, ainda havia, uma tralha (de) pendurada, uma "capa", um laço de couro, pares de esporas e outros apetrechos mais, marcas de um passado de glórias, de lutas, de sofrimentos, mas também de muitas alegrias. Fiquei muito emocionado e, por muitas vezes solicitei que eles cantassem essa canção que dizia sobre a vida triste de um boiadeiro aposentado, relegado no tempo e no espaço. Pensava em Papai, naquele pai de minha infância, boiadeiro garboso, valente, sério, austero, mas honesto, trabalhador, bondoso e dono de um coração do tamanho do mundo!

O TEMPO PASSOU e levou meu pai e minha mãe para morarem com Deus. Tudo daria, se tudo tivesse, para resgatar o mundo maravilhoso que vivi e que tive o orgulho e a felicidade de ser filho de pai e mãe tão preciosos e queridos.

ENSAIO AO REDOR DE MIM

NUMA CERTA TARDE de minhas andanças, ao dobrar a esquina de uma rua qualquer, vi pelo reflexo de uma vitrina um senhor vestido de um azul cinzento, com fisionomia gasta e ombros encurvados. Como ia desprevenido, quase lhe disse boa tarde, respeitosamente, como em menino fazia vendo passar um professor do ginásio. Mas logo percebi, assustado, que era eu mesmo que levava, debaixo da roupa azulada e sob os ombros encurvados, o incômodo de ter setenta anos. Sabia perfeitamente que chegara àquela idade e tinha também uma consciência nítida da figura que fazia meu rosto, com meus bigodes embranquecidos.

DA IDADE SABIA de um modo repetido, constante, pelo habitual joguinho de gracejos a propósito da velhice. Até hoje não atinei com a razão de certas idades serem consideradas sob a ótica da pilhéria. Quando somos crianças, todo mundo nos acha jocosos e os adultos trocam risinhos cheios de cumplicidade. Na adolescência, encontramos novamente a facécia em torno de nossos modos desengonçados e sobretudo por causa de nossos pobres ensaios amorosos. Agora, na velhice, mais uma vez somos atingidos pela pilhéria. Eu tenho, pois, consciência vigilante de meus 70 anos. Isso eu sei hora por hora, minuto por minuto. Na rua, nas escolas, nas festas, nas casas de amigos, nas minhas viagens, em toda parte eu carrego a idade. Estou impregnado dela até o incômodo. Mas... Qual foi então o motivo daquele espanto súbito diante de uma vitrina?

CONSULTEI-ME ATENTAMENTE. Queria a explicação, não da tristeza, que seria fácil, mas do espanto. Procurei investigar os momentos imediatos antes do susto. Não me ocorriam os pensamentos que naquela ocasião levava comigo e mal me recordava que estivera assobiando baixinho uma canção antiga. Voltei atrás; repeti a experiência; tornei a passar diante do espelho assobiando baixinho, mas só vi então uma imagem familiar, tendo nos olhos um ardor inquieto de investigação. Pouco tempo depois, em outro lugar, descia por uma alameda, com o intuito de me espairecer após o jantar, quando numa casa clara e com amplo jardim na frente, abriu-se uma janela e do alto veio uma voz moça: “Marcelo, vem para dentro, olha o sereno!”

TAL FATO TROUXE impetuosamente a lembrança de minha meninice na rua Luiz Pereira, região da cidade que na ocasião era chamada de ‘Vila Querosene’, porque a rede elétrica ainda não havia sido instalada por aquelas bandas da minha querida Santana. Era um momento de magia numa noitinha assim; havia no ar brando e suave, uma repetição misteriosa, qualquer concordância sutil que me enchia o peito de ar novo e antigo. Uma janela se abrira com aquele ruído e do alto viera uma voz assim de mãe moça: “Meninos, olhem o sereno!” O sereno também ficara ausente de minha memória, porque hoje ninguém mais alude a esse gênio levemente úmido e um pouco malfazejo que fazia as crianças de meu tempo largarem suas brincadeiras de rua. Quem não terá encontrado por várias e várias vezes a sua infância, assim? Quem não andará, certas tardes, assobiando uma antiga canção pelas ruas, ou ziguezagueando na calçada para não pisar no cimento fresco?

NÃO BASTA DIZER que algumas associações nos fazem encontrar toda uma manhã de sol de uma meninice dentro de uma xícara de chá ou toda uma noitinha no perfume penetrante de um jasmineiro em flor. Essa brusca invasão da infância é mais do que uma evocação, uma espécie de experiência azul que fazemos na memória. De fato, parece que a infância persiste dentro de nós, enrolada como uma espiral de mola, e salta de repente, e assusta, e fere, e dói, quando vemos num reflexo de vitrina um senhor de longa idade. Temos vontade de prevenir em volta, envergonhados, que nosso eu não é aquele lamentável adulto encurvado e vestido de azul-cinzento; temos ímpetos de perguntar aos transeuntes por aquele menino da rua Luiz Pereira ou daquele da avenida Dona Tereza. Onde está ele? Quem o viu? Era um bom menino...

MINHA INFÂNCIA FOI livre e feliz, em casa grande, antiga, pintada de azul-claro, com um belo alpendre e um córrego atravessando o quintal. Eu tive um amigo de infância, que era meu vizinho. Ele morava numa chácara, cujos limites davam para o córrego maior, que atravessava a cidade, onde fazíamos dele, o nosso clube de natação. Quase todos os dias, meu amigo e eu, catávamos folhas de bananeira e saíamos pela rua cantando em alto e bom som: “A bandeira de ‘gódia’. O pendão de Jesus Redentor” * Era o hino que cantavam as senhoras sérias de medalhões com fitas vermelhas, nas procissões que íamos com nossas mães. Como adorava aquelas procissões!

APRENDI A LER nas matinês de domingo, naquela lousa grande e brilhante em meio à escuridão e silêncio. Tabuada, aprendi decorando, enquanto colocava os barquinhos com as folhas roxas que cobriam as flores dos cachos das bananeiras, para navegarem no pequeno córrego da minha casa. Felizmente, minha mãe não tinha lido Rousseau, que a teria talvez convencido de me mandar aprender com as galinhas que cresciam soltas no grande quintal. Meu aprendizado foi livre e gratuito, como os barquinhos a deslizarem pelas águas claras do córrego de minha infância. Mais tarde viriam as primeiras lições de coisas, quando o mundo começava a girar em torno de minha adolescência. Mas, entre todas as coisas havia uma imensa solidariedade porque tudo estava na casa de meu pai.

CADA COISA TINHA nesse tempo o seu próprio direito de existir. Por isso, o mundo, o meu mundo era vasto e muito seguro. O tempo também não existia; ou era uma espécie de dança de todas as coisas. E quando as pessoas dançavam, não deixavam de ser elas mesmas. Quando o teto vinha ao meu encontro, oscilando, crescendo também não deixava de ser teto. O tempo era a regra dum brinquedo enorme: fazia meu pai sair e depois fazia-o voltar. Aliás, o mais certo era dizer que a regra vinha de meu próprio pai. Bastava uma tosse sutil ou um simples limpar de garganta e tudo se tornava silêncio.

TUDO ERA ARBITRÁRIO, o que dava-me uma enorme segurança porque os árbitros eram pai e mãe. Não sentia nenhuma injustiça com as contradições dos adultos, mas um vexame de não ter aprendido uma certa regra, como nos brinquedos de pique ou de roda. Nas horas de estudo, minha mãe não se sentava no chão da nova pedagogia para me ensinar números jogando ‘bugalho’, mas apenas dizia que hora de estudar era hora de estudar. E tinha imensa razão, porque tudo tem seu tempo. Tempo para brincar, tempo para estudar, tempo para comer, e tempo para rezar na hora de dormir. Bicho é que dorme sem rezar. Padre nosso... Onde estaria aquele Pai do Céu?

NUM DOMINGO, à tarde, estávamos brincando debaixo de um caramanchão coberto de maracujás, um pouquinho antes do córrego. Meus dois irmãos juntavam pedrinhas e pedaços de planta. Não conseguia ver direito o que eles estavam fazendo e ficava plantado atrás, encabulado de ser tão pequenino. Quis ajudar, mas só consegui desmanchar o monte que estavam fazendo. Mandaram-me embora, porque eu era sem jeito; fiquei à toa. Então olhei para o céu e vi umas nuvens que pareciam algodão. Eram branquinhas, branquinhas. Com certeza, era atrás daquelas nuvens que estava o Pai do Céu.

“PRA QUE SERVEM AS NUVENS?” – perguntei ao irmão um pouco mais velho que eu e ele disse: “Que bobo! Nuvem não serve para nada!”. Então, o meu outro irmão, já mocinho, disse que tinha ouvido alguém dizer que nuvem serve para marcar hora. E assim o tempo passou... e trouxe você para compartilhar desse ensaio, enquanto eu imagino o espanto que teria ao se deparar com o fantasma que vi refletido naquela vitrina, de uma certa rua de minhas andanças...

Fantasia inspirada no conto “Era um bom menino”, de Gustavo Corção.

Nota - *Levantai-vos Soldados de Cristo!/Sus! Correi! sus! voai à vitória,/Desfraldando a bandeira de glória,/O pendão de Jesus Redentor!

VERMELHO, SEMPRE O VERMELHO

DESDE CRIANÇA aprendi que o vermelho é a cor do perigo. Se fosse passear pelo campo, em algum sítio ou fazenda, nunca vestiria vermelho, pois segundo os mais velhos, a cor acabaria atraindo vacas e touros e isso só implicaria em confusão e perigo.

DEPOIS, já no ginásio, aprendi que o comunismo era vermelho, pois quando se referiam à União Soviética e seus assemelhados sempre mostravam uma bandeira vermelha. Nesse tempo, a primeira ideia de comunismo que tive foi em relação a posses: se você tivesse uma casa com varanda, todos teriam igual, se você tivesse um trator, todos teriam também e assim por diante. Vivíamos, naquele tempo, o período histórico chamado guerra fria e nós ocidentais e aliados aos Estados Unidos da América, temíamos os países vermelhos que mostravam a sua garra em forma de foice e de martelo e que se escondiam atrás de uma cortina de ferro. Foi o tempo dos grandes espiões e mirabolantes casos de espionagem, que inspiraram apaixonantes histórias e espetaculares filmes de ação e aventura.

O TEMPO PASSOU. A cor vermelha foi, aos poucos, ganhando a simpatia de muitos daqueles que a temiam no passado, inclusive eu. E de acordo com os conceitos e significados ela passou a ser vista como a cor da paixão, da energia e da excitação. Uma cor quente que estava associada ao poder, à guerra, ao perigo e à violência. Mas a cor do elemento fogo, do sangue e do coração humano!

NO ENTANTO, nestes tempos de falência da elite política, de desgovernos e roubalheiras, a cor vermelha teve o seu esplendor nas bandeiras de alguns partidos de esquerda, que se preocuparam mais em encher os seus cofres do que governar, jogando o país num precipício sem fim. E agora? Agora, só me resta voltar ao doce tempo da infância, onde o perigo sempre vinha indicado com a cor vermelha...

COME TOGETHER

A chuva fininha e fria caia sobre nós na estrada enlameada. De vez em quando, em meio às poças e escorregões, acordes sonoros repetiam: come together!...

ERA 1969. Fim de ano. Estávamos acampados na zona rural, num local denominado “Pindaíba” onde havia um casarão abandonado, situado à beira de uma pequena lagoa. Éramos uma turma de uns dez rapazes. Um tempo antes, cerca de mês e meio, um fazendeiro amigo atendera ao meu pedido e havia me arrumado um lugar para, juntamente, com alguns amigos passar uns dias no campo.

PARA LÁ FOMOS, na segunda-feira, 22 de dezembro, com o objetivo de ficarmos até o final do ano, mas nosso plano não se realizou. Na casa não havia nada. Apenas portas, janelas, paredes e telhado. Dormíamos no chão de terra batida.

À NOITE, enquanto alguns rapazes acendiam uma fogueira, munidos de faroletes, saímos caminhando ao redor da lagoa, a fim de pegar algumas rãs para assar, mas nossa caçada foi infrutífera. Numa batida no entorno da pequena lagoa nem cobras encontramos, sendo que aquela região era famosa pela presença de cobras venenosas, principalmente a jararaca, a cascavel e a jaracuçu do papo amarelo.

PASSAMOS AQUELA PRIMEIRA NOITE ao redor da fogueira ouvindo músicas, inclusive o último lp dos Beatles, o Abbey Road, magnífico em quase a sua totalidade, destacando “Come Together”, “Something”, “Oh! Darling”, “Here comes the Sun” e “You Never Give Me Your Money”. Ouvíamos também, na nossa sonata Philips, músicas dos Rollings, Bee Gees, Credence, Aphrodite Child, as italianas e algumas francesas, não faltando na nossa coleção a coqueluche da época, a proibidíssima “Je T’Aime [Moi Non Plus]”, num compacto simples.

NO ALVORECER do dia seguinte, saímos, em turma de três rapazes, armados de nossos estilingues, à caça de codornas e inhambus que viviam nos cerrados próximos dali. Não os encontramos, mas tivemos alguma sorte, pois conseguimos caçar algumas juritis e rolinhas. Seriam, juntamente com o arroz, a nossa mistura para o almoço. À tarde, fomos pescar no ribeirão que atravessava pela propriedade, onde pegamos alguns lambaris e piaus. A nossa janta estava garantida.

DE NOVO, mais uma noite a enfrentar, naquele lugar ermo e inóspito, que, de uma forma ou outra se tornava maravilhoso e encantado, com a nossa união, alegria, companheirismo e fraternidade. Uns goles de cachaça e de conhaque, os peixes assados na fogueira, e a música a nos manter despertos e animados. Que felicidade!

NA TARDEZINHA de 24 de dezembro, véspera de Natal, resolvemos levantar acampamento e retornar a Ipuã. Em meio à chuva fina e fria caminhamos uma distância de 5 a 6 quilômetros, carregando nossas coisas, enquanto a sonata movida à pilha tocava as nossas músicas preferidas. "Come together, right now, over me!...".

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