POV Eloísa:
Meus olhos estavam secos, sem piscar, enquanto eu o encarava. O choque inicial em seu rosto deu lugar a uma máscara cuidadosamente construída de preocupação.
"Eloísa? O que você está fazendo aqui?", ele perguntou, sua voz tensa, uma tentativa desesperada de normalidade.
Eu me levantei lentamente, meus membros pesados. "A Ana ligou", eu disse, minha voz surpreendentemente firme. "Ela disse que você estava com problemas. Fiquei preocupada."
Seu olhar piscou para a pequena pasta azul escura que eu segurava. O folheto da clínica de fertilidade. Ele provavelmente pensou que eu ainda estava envolvida na minha ignorância feliz.
"Estou bem, querida", ele disse, dando um passo em minha direção, sua mão se estendendo. "Apenas um desentendimento familiar. Nada para você se preocupar."
Seus olhos, no entanto, continuavam a se desviar para o celular. Vibrou novamente, um tremor silencioso em seu bolso. Ele era um péssimo mentiroso, agora que eu sabia o que procurar.
Eu vi o sorriso forçado, a ansiedade fugaz em suas pupilas. Era tudo uma performance, um eco da vida que havíamos construído sobre mentiras.
"Você parece exausto", eu disse, fingindo preocupação. "Talvez você devesse ir. Eu... eu vou esperar pela Ana."
Ele hesitou, uma batalha clara travando-se por trás de seus olhos. A ligação de Bruna versus manter as aparências. Bruna venceu.
"Tem certeza?", ele perguntou, sua voz ainda carregada de falsa preocupação. "Eu posso ficar."
"Não, vá", insisti, uma pressão sutil em meu tom. "Ela precisa de você."
Ele assentiu, um movimento rápido, quase imperceptível. Então ele se foi, um borrão de terno caro e urgência frenética, me deixando sozinha no silêncio ecoante do hall de mármore.
No momento em que a porta da frente se fechou, a máscara que eu usava se estilhaçou. Uma onda de náusea me invadiu, do tipo que vem de uma traição profunda e avassaladora.
Meus olhos caíram sobre uma grande porta de carvalho no final do corredor. O escritório particular de Bruno. O único lugar nesta casa em que eu era proibida de entrar sem sua permissão explícita.
Parecia um desafio, uma provocação. Caminhei em direção a ela, meus passos anormalmente altos no chão polido.
A porta estava destrancada. Eu a abri.
A sala estava mal iluminada, pesada com o cheiro de couro velho e seu perfume. Em sua enorme mesa de mogno, uma fotografia emoldurada se destacava. Era Bruna, seu cabelo selvagem, seus olhos brilhando, rindo para a câmera. Uma foto de anos atrás, antes que ela tivesse aperfeiçoado seu ato frágil.
Meu olhar estava frio, vazio. Estendi a mão, meus dedos roçando a moldura. Houve um clique fraco.
Uma trava escondida.
A parte de trás da moldura se abriu, revelando um pequeno compartimento recesso. Dentro, empilhadas ordenadamente, havia mais fotografias. Todas de Bruna.
Minha respiração ficou presa na garganta, não de surpresa, mas de uma confirmação arrepiante. Preto e branco, tons de sépia, cores vibrantes. Uma linha do tempo de sua devoção secreta.
Peguei uma. Era Bruna, radiante, segurando uma taça de champanhe. A data estampada no canto me deu um choque, frio e agudo. 15 de outubro, cinco anos atrás. Nosso aniversário de casamento.
Naquele dia, eu havia surpreendido Bruno com um pequeno bolo, esperando um jantar tranquilo. Ele me disse que tinha uma viagem de negócios urgente, lamentando não poder estar lá. Ele até mandou flores. Mandando flores, percebi agora, enquanto estava com ela.
Outra foto. Bruna em uma camisola de hospital, parecendo pálida, mas serena, um pequeno sorriso brincando em seus lábios. Abaixo, uma nota manuscrita na caligrafia familiar de Bruno: "Minha garota corajosa. Você finalmente está segura." A data: 2 de março, dois anos atrás.
2 de março. O dia em que eu desmaiei, agarrando meu abdômen em agonia, os médicos lutando para controlar uma hemorragia interna de meus intermináveis tratamentos de fertilidade. Bruno ficou inacessível por horas, depois ligou de volta, sua voz grossa de preocupação, dizendo que estava preso em uma reunião crítica e não programada.
Ele nunca esteve preso. Ele nunca esteve preocupado. Ele estava sempre com ela, sempre a colocando em primeiro lugar. Estas não eram meras fotos; eram carimbos de data e hora do meu abandono, evidências de sua crueldade calculada.
Um vazio profundo se espalhou por mim, entorpecendo tudo. Ele não apenas me traiu; ele me apagou sistematicamente de sua vida, substituindo-me por ela em todos os momentos cruciais.
Meus dedos tremeram, segurando as fotos. Eu precisava me mover. Eu precisava agir.
Peguei meu celular, discando um número que não usava há anos. "Alô, Dr. Esteves? Estou ligando sobre a transferência do Felipe. Gostaria de agilizar o processo para a instalação especializada em Campos do Jordão. Imediatamente."
Em seguida, enviei uma mensagem concisa e codificada para um contato discreto, um velho amigo da universidade que agora se especializava em perícia digital. "Preciso de todas as informações que você puder encontrar sobre Bruna Bittencourt, retrocedendo dez anos. Foco em transações financeiras, comunicações e quaisquer incidentes relacionados a uma 'agressão' ou 'trote' durante nossos anos de faculdade. Não deixe pedra sobre pedra. Discrição absoluta necessária. A compensação será... significativa."
O relógio de pêndulo no corredor bateu meia-noite. O carro de Bruno entrou na garagem.
Rapidamente, recoloquei as fotos, ajeitei a moldura e saí do escritório. Corri para o nosso quarto, deslizando para debaixo das cobertas, fingindo dormir. Meu coração martelava contra minhas costelas, um tambor caótico contra o silêncio.
Ele entrou no quarto silenciosamente. Senti a cama afundar enquanto ele se despia, depois o roçar de sua mão enquanto ele tentava me mover, me puxar para mais perto.
Eu me encolhi, um movimento brusco e involuntário. Meu celular, ainda em minha mão sob as cobertas, escorregou, sua tela piscando com o último e-mail que eu havia enviado. "Assunto: Urgente – Investigação Bruna Bittencourt."
Ele parou. "Eloísa?" Sua voz era baixa, cautelosa. "O que você está fazendo com seu celular?"
Meus olhos se abriram, fingindo sonolência. "Apenas checando e-mails", murmurei, puxando o celular de volta rapidamente. "Coisas do trabalho. Coisas de arquiteta. Você sabe."
"Deixe-me cuidar disso para você", ele ofereceu, sua mão ainda pairando sobre a minha. "Você teve um dia longo."
Minha respiração engatou. Ele tinha visto? Não, impossível. Balancei a cabeça levemente. "Não, está tudo bem. Apenas um projeto atrasado. Eu consigo."
Ele não insistiu, mas senti seu olhar demorar. Um lampejo de suspeita, rapidamente mascarado. "Você esteve na mansão hoje, não foi?" Sua voz estava calma, calma demais. "Mamãe disse que você saiu abruptamente."
"Ah", eu disse, virando-me para encará-lo, minha expressão cuidadosamente neutra. "Sim. Eu só... me senti um pouco mal depois da viagem. Não queria incomodar ninguém."
Olhei para ele, meus olhos cheios de uma preocupação fabricada. "Você saiu tarde. Está tudo bem? Com... sua amiga?"
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo. "É complicado. Ela é... delicada. Precisa de muitos cuidados."
"Claro", eu disse, uma nota suave e compreensiva em minha voz. "Ela sempre precisou. Talvez... seria mais fácil se ela ficasse aqui? Conosco?"
Bruno congelou, seus olhos se arregalando em descrença. Ele me encarou, sua boca ligeiramente aberta.
"É o mínimo que podemos fazer", continuei, minha voz doce, uma borda oculta de aço por baixo. "Ela é da família, afinal. E ela realmente precisa de você. Nós dois sabemos disso."
Ele me puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto em meu cabelo. "Eloísa", ele sussurrou, sua voz grossa de emoção. "Você é verdadeiramente a mulher mais compreensiva que eu já conheci."
POV Eloísa:
Acordei com os sons estridentes de móveis sendo movidos, vidros tilintando e gritos abafados do andar de baixo. Meus olhos se abriram de repente, um pavor frio já apertando meu peito.
Sentei-me, balançando as pernas para o lado da cama. Isso não era apenas barulho; era uma invasão.
Caminhei até o corrimão, espiando para baixo. O hall de entrada, meu santuário, estava em desordem. Caixas, malas e uma decoração brega estavam sendo carregadas por uma equipe de carregadores. E no centro de tudo, dirigindo o caos como uma rainha malévola, estava Bruna.
Ela estava envolta em um robe de seda, seu cabelo loiro platinado uma bagunça em volta dos ombros, seus movimentos bruscos e imperiosos. Seus olhos, geralmente tão calculistas, agora estavam arregalados com um júbilo febril.
Um dos carregadores, um jovem com olhos nervosos, encontrou meu olhar. Ele gesticulou vagamente para Bruna, depois para as pilhas de caixas, um pedido de desculpas silencioso em sua explicação apressada. "Sra. Monteiro, a Srta. Bittencourt... ela disse para colocar tudo onde ela queria. O Sr. Monteiro confirmou."
Eu simplesmente assenti, uma calma que eu não sentia se instalando sobre mim. "Obrigada", eu disse, minha voz baixa, mas firme. "Isso é tudo por agora. Podem deixar o resto." Os carregadores, sentindo uma tensão não dita, rapidamente pegaram suas coisas e fugiram.
Bruna se virou, seus olhos se estreitando. "Ora, ora, se não é a Eloísa", ela ronronou, sua voz pingando doçura falsa. "Ainda vagando por esta casa como um fantasma, eu vejo. Esqueceu onde fica seu quarto?" Ela fez uma pausa, um sorriso malicioso brincando em seus lábios. "Ou esqueceu da última vez que tentou se impor?"
Meu silêncio era meu escudo. Eu simplesmente a observei, minha expressão indecifrável. Eu não lhe daria a satisfação de uma reação.
Seu sorriso vacilou ligeiramente. A crueldade casual em seus olhos se aguçou quando ela viu meu olhar inabalável. Ela estava acostumada com meu encolhimento, minhas lágrimas. Este novo olhar vazio parecia perturbá-la.
Ela caminhou em direção a uma pequena mesa lateral antiga no canto do hall, uma mesa que eu havia escolhido com cuidado. Com um movimento deliberado e amplo, ela derrubou um delicado vaso de cerâmica, fazendo-o se espatifar no chão de mármore.
Era o vaso que Bruno me comprara em nossa lua de mel, uma coisinha insignificante, mas um símbolo do que eu pensei que tínhamos compartilhado. Ele se quebrou em um milhão de pedaços.
Mantive meu olhar fixo nela. Ainda nada.
Seus olhos brilharam de frustração. Ela precisava de uma reação, uma confirmação de seu poder. Ela pegou um controle remoto na mesa de centro.
A grande TV de tela plana na parede piscou, ganhando vida, exibindo uma imagem nítida e granulada. Era um vídeo. Uma gravação trêmula e distorcida daquela noite.
A noite do trote. A noite em que meu mundo se fraturou. Meu coração bateu forte contra minhas costelas, uma nova onda de medo gelado me invadindo.
A tela mostrava figuras borradas, sombras contra as luzes duras do dormitório da faculdade. Eu me vi, mais jovem, mais ingênua, sendo empurrada, empurrada, humilhada. O terror em meu rosto era inconfundível. Ouvi as zombarias, as provocações. Meus próprios gritos, crus e desesperados. E então... a violência. A dor. O momento em que meu futuro foi roubado.
Minhas mãos se fecharam em punhos, as unhas cravando em minhas palmas. Minha respiração engatou, uma batalha silenciosa para manter o pânico crescente sob controle.
Bruna, enquanto isso, continuava olhando para a porta da frente. Ela estava esperando uma audiência. Bruno, sem dúvida. Ela estava atuando.
"Ainda se lembra disso, Eloísa?", ela zombou, sua voz alta, ecoando na sala cavernosa. "A noite em que você aprendeu seu lugar? A noite em que percebeu que o Bruno sempre me escolheria?" Ela se inclinou, sua voz caindo para um sussurro venenoso. "Ele sempre escolheu, e sempre escolherá. Você é apenas um lindo tapa-buraco, uma mentira conveniente."
Algo dentro de mim estalou. A calma evaporou, substituída por uma onda de raiva pura e sem adulteração. Movi-me antes que pudesse pensar, meu braço se esticando, um empurrão rápido e brutal.
No exato momento em que o som da minha mão se conectando com seu ombro ecoou, a porta da frente se abriu.
Bruna cambaleou para trás, um grito surpreso escapando de seus lábios, então ela desabou no chão, uma imagem de delicada fragilidade.
Bruno estava lá, pasta ainda na mão, seu rosto gravado com choque. Ele largou a pasta, correndo para frente. "Bruna! O que aconteceu?!"
Ele a pegou nos braços, seus olhos ardendo enquanto olhava para mim. "Eloísa, o que você fez?!", sua voz estava tensa de raiva.
Bruna gemeu, agarrando seu braço. "Ela... ela me atacou, Bruno! Ela me empurrou! Ela sempre foi tão ciumenta, tão irracional!" Seus olhos, arregalados e lacrimejantes, olharam para ele.
O olhar de Bruno endureceu, a decepção nublando suas feições. "Eloísa", ele disse, sua voz fria, "eu pensei que você fosse melhor do que isso."
Eu não falei. Eu simplesmente apontei, um único dedo inabalável, para a tela atrás dele. Para o loop horrível do meu trauma passado se desenrolando em clareza silenciosa e brutal.
Ele se virou, seguindo meu olhar. Seus olhos se fixaram na tela, depois se arregalaram, seu maxilar se contraindo. A cor sumiu de seu rosto enquanto ele assistia à filmagem horrível.
A raiva em seus olhos se dissolveu lenta e dolorosamente em uma percepção doentia. Ele se afastou de Bruna, apenas uma fração, uma mudança sutil, mas o suficiente para eu ver.
Uma única lágrima silenciosa traçou um caminho pelo meu rosto. Era fria, cortante. Não por ele, não por ela, mas pela tola ingênua que eu tinha sido.
Ele estendeu a mão, sua mão pairando, incerta. "Eloísa... eu..."
Eu me afastei de seu toque, uma repulsa visceral. A ideia de suas mãos, que tão gentilmente enxugaram minhas lágrimas, agora parecia contaminada por sua traição.
Ele puxou a mão para trás como se estivesse queimado. Seu rosto se contraiu, uma pontada de dor real piscando em seus olhos.
"Bruna!", ele rugiu, sua voz tremendo com uma mistura de raiva e descrença. "O que é isso?! Por que você faria isso?!"
Bruna, assustada com sua fúria, de repente começou a soluçar dramaticamente. "Eu... eu vi, Bruno! Agora mesmo! Foi tão horrível! Minha cabeça começou a doer, e então... e então ela simplesmente me atacou!" Ela agarrou a cabeça, balançando dramaticamente.
Seu ato foi impecável. Projetado para puxá-lo de volta, para reafirmar sua lealdade equivocada. E funcionou.
Ele a alcançou, seu braço envolvendo instintivamente sua forma trêmula. Ele a puxou para perto, murmurando palavras suaves, acariciando seu cabelo. O gesto familiar, o mesmo que ele usara para me confortar inúmeras vezes, agora uma adaga em meu coração.
Eu observei, entorpecida, enquanto ele a embalava, seus olhos cheios de preocupação. A ironia era um gosto amargo em minha boca. Ele estava confortando a algoz, usando os mesmos gestos que uma vez usara para "curar" a vítima.
Ele fez sua escolha. O pensamento me atravessou, mais frio que qualquer lâmina. Ele sempre a escolherá.
Um peso sufocante se instalou em meu peito. Eu não conseguia respirar, não conseguia me mover. Ela sorriu, um flash rápido e triunfante em seus olhos cheios de lágrimas enquanto encontrava meu olhar por cima do ombro de Bruno. Ela havia vencido.
Mas ela ainda não sabia. Ela apenas pensava que havia vencido esta batalha. A guerra estava longe de terminar.
Endireitei minha coluna, uma desafio silencioso endurecendo minha expressão. Eu não quebraria. Não agora. Nunca mais.
Ele estava alheio, murmurando para ela. Meu olhar percorreu sua cabeça curvada. Ele nem me vê mais. Eu não sou nada.
Virei-me, meus passos silenciosos, e me afastei.
Uma hora depois, Bruno me encontrou na cozinha, olhando pela janela. Ele parecia exausto, sua gravata afrouxada, seus olhos sombreados. "Eloísa", ele disse, sua voz pesada de exaustão. "Sinto muito. Pelo vídeo. Por... tudo." Ele esfregou a mão no rosto. "Eu nunca quis que você descobrisse dessa maneira."
Ele se aproximou, parando a alguns metros de mim. "Eu tive que proteger a Bruna. Você conhece o pai dela e o meu. A dívida. Tem sido um fardo, uma promessa que carrego desde a infância."
Ele olhou para mim, seus olhos suplicantes. "Eu sei que parece uma desculpa, mas... minha família dependia de mim. A família dela dependia de mim." Sua voz baixou. "Eu realmente sinto muito, Eloísa. Por tudo isso. Pelas mentiras, pela maneira como você descobriu."
Virei-me, meus olhos encontrando os dele. Meu rosto estava cuidadosamente em branco. "Você está certo", eu disse, minha voz suave, calma. "É uma desculpa. E não é o suficiente." Respirei fundo. "Eu tenho um pedido."
Ele parecia confuso. "Qualquer coisa, Eloísa. Qualquer coisa. Apenas... me diga o que você precisa."
"Eu preciso do histórico médico e psicológico completo da Bruna", afirmei, minha voz clara e inabalável. "Cada arquivo, cada registro, cada detalhe. Quero acesso a isso, agora."