Erica POV:
A chuva era uma cortina impiedosa, colando meu cabelo no rosto e encharcando meu pijama cirúrgico até a pele enquanto eu cambaleava para fora do O Ébano. Eu não sentia o frio. Não sentia nada, exceto o eco de suas vozes, uma ladainha cruel tocando em loop na minha cabeça.
Farsa. Não é das mais espertas. Vadia. Sempre foi por ela.
E aquele nome. Bianca.
O som era um golpe físico, uma mão fantasma se fechando em volta da minha garganta, roubando meu fôlego. Me jogou de volta no tempo, para os pisos frios de linóleo de um alojamento universitário, para os sussurros venenosos que me seguiam pelos corredores, as zombarias que ecoavam na sala de aula.
Bianca Tavares não era apenas uma garota má; ela era uma virtuosa da crueldade. Começou com boatos, pequenos sussurros de que eu havia colado nas provas ou dormido com professores por notas. Depois, a coisa piorou. Meus livros didáticos desapareciam antes das finais. Uma garrafa de água sanitária "acidentalmente" derramou no meu único vestido de festa antes de uma entrevista para bolsa de estudos. Eles me trancaram em um depósito escuro por horas, sua risada ecoando do lado de fora enquanto minhas respirações de pânico se transformavam em soluços irregulares, reacendendo uma claustrofobia de infância que eu pensei ter superado. O tormento foi sistemático, implacável, e culminou em uma agressão física brutal por seus amigos em um estacionamento deserto que me deixou com uma costela quebrada e um caso grave de estresse pós-traumático.
Eu tranquei a faculdade por um semestre, uma garota quebrada e aterrorizada de uma família de classe trabalhadora que não tinha recursos para lutar contra a filha de uma dinastia rica e influente.
E então, Antônio Fontes apareceu.
Ele estava na minha aula de economia remarcada, uma presença silenciosa e atenta que se sentava no fundo. Ele começou deixando um café extra na minha mesa. Depois, me acompanhava até o carro após as sessões de estudo noturnas. Ele nunca forçou, nunca bisbilhotou, apenas ofereceu uma força silenciosa e sólida que eu precisava desesperadamente. Ele ouviu, realmente ouviu, quando eu finalmente, hesitantemente, contei a ele sobre Bianca. Ele me abraçou, seus braços uma fortaleza, e sussurrou: "Ela nunca mais vai te machucar. Eu prometo."
Ele parecia tão diferente dos outros garotos ricos, tão desdenhoso de seus jogos superficiais. Ele me ajudou a conseguir uma nova bolsa de estudos quando a minha foi inexplicavelmente revogada. Ele pagou a dívida médica repentina e esmagadora da minha mãe, descartando-a como "uma gota no oceano". Ele reconstruiu meu mundo em pedaços, peça por peça.
Ele se tornou meu salvador.
E eu, em minha fome desesperada por amor e segurança, acreditei nele. Confiei a ele os pedaços quebrados da minha alma.
"Enfermeirazinha ingênua", a voz zombeteira de Emanuel ecoou na tempestade.
Ele estava certo. Eu fui uma tola. Uma completa e absoluta tola.
Um soluço rasgou minha garganta e eu tropecei na calçada escorregadia, meus joelhos batendo no concreto com um baque seco. Eu nem tentei me levantar. Apenas fiquei ajoelhada ali em uma poça, a água suja da cidade encharcando os joelhos da minha calça, e ri. Um som oco e quebrado que foi engolido pela tempestade. Eles me manipularam tão perfeitamente, usando meus traumas mais profundos, minhas necessidades mais desesperadas, como armas contra mim.
Meu celular vibrou no bolso, uma vibração frenética e insistente. Ignorei. Provavelmente era o hospital, um colega, ou — uma nova onda de náusea me atingiu — Antônio, continuando a farsa.
Mas vibrou de novo. E de novo. Finalmente, peguei-o com os dedos dormentes. A tela estava rachada e escorregadia de chuva, mas consegui ver o identificador de chamadas. Vovó.
Meu coração deu um salto. Deslizei para atender. "Vovó? Você está bem?"
Não era a voz quente e crepitante da minha avó. Era uma enfermeira frenética da casa de repouso dela. "Erica? É sua avó. Ela teve um derrame maciço. Os paramédicos a estão levando para o Sírio-Libanês. Você precisa vir para cá. Agora."
O mundo se dissolveu em uma tempestade de pânico e chuva. "Estou a caminho", ofeguei, me levantando com dificuldade.
A cidade, que parecia vibrante de promessas uma hora atrás, agora era um labirinto hostil. Todos os táxis estavam ocupados. A entrada do metrô estava inundada. Fiquei na esquina, acenando com os braços como uma louca, lágrimas e chuva se misturando no meu rosto, cantando: "Por favor, por favor, por favor."
Um sedan preto freou bruscamente ao meu lado. A janela de trás desceu, revelando um homem em um uniforme militar impecável. Seu rosto era todo de ângulos agudos e autoridade silenciosa. "Você parece estar com problemas. Entre."
Não hesitei. Joguei-me no banco de trás, ofegando: "Hospital Sírio-Libanês. Por favor. É minha avó."
Ele apenas assentiu, seus olhos encontrando os meus no retrovisor por uma fração de segundo, e o carro disparou no trânsito caótico.
Cheguei à UTI no momento em que o médico saía do quarto dela. Seu rosto estava sério. "Fizemos tudo o que podíamos", disse ele, sua voz gentil, mas firme. "É uma questão de horas. Sinto muito."
Entrei no quarto dela com pernas de chumbo. Vovó, minha rocha, a mulher que me criou depois que meus pais morreram, parecia tão pequena e frágil contra os travesseiros brancos, uma teia de tubos e fios a prendendo a este mundo.
Seus olhos se abriram, turvos, mas lúcidos. "Erica, meu bem", ela sussurrou, sua mão buscando fracamente a minha.
"Estou aqui, vovó", engasguei, apertando seus dedos frios.
"Onde... onde está o Antônio?", ela sussurrou. "Quero vê-lo. Quero ver o homem que finalmente fez minha menina feliz."
Uma nova onda de agonia me atingiu. Peguei meu celular, meus dedos desajeitados enquanto discava o número dele. Tocou uma, duas vezes, e caiu na caixa postal. Liguei de novo. Desta vez, a chamada foi imediatamente rejeitada.
Desesperada, mandei uma mensagem, meus polegares voando pela tela. Vovó está morrendo. UTI do Sírio-Libanês. Ela está perguntando por você. Por favor, Antônio. Por favor.
Esperei. Um minuto. Cinco. A mensagem permaneceu não lida. Os pequenos tiques cinzas eram um símbolo do meu completo abandono.
"Ele... ele está a caminho, vovó", menti, as palavras grossas e venenosas na minha boca. "Ele ficou preso em uma reunião, mas está correndo para cá. Ele te ama muito."
Um leve sorriso tocou seus lábios. "Bom menino", ela murmurou, seus olhos se fechando. "Cuide da minha Erica..."
Sua mão ficou mole na minha. O bipe constante do monitor cardíaco se dissolveu em um tom longo, final e penetrante.
Desabei sobre ela, meu corpo convulsionando em soluços, um grito primal de perda rasgando minha alma. Eu havia perdido o último pedaço da minha família. Eu havia perdido o futuro lindo em que tão tolamente acreditei. Eu havia perdido tudo.
Não me lembro das horas seguintes. Foi um borrão de papelada, condolências silenciosas e uma dormência profunda e oca. Antônio nunca ligou. Ele nunca respondeu.
Enquanto eu estava sentada no silêncio estéril da sala de espera do hospital, esperando a funerária, uma curiosidade mórbida tomou conta de mim. Abri meu celular, meus dedos se movendo por conta própria, e naveguei até a página do Instagram de Bianca Tavares.
Era pública. E o primeiro post, postado há uma hora, era uma foto. Bianca, radiante e delicada, nos braços de Antônio. Eles estavam no O Ébano, uma garrafa de champanhe na mesa entre eles. Ele estava sorrindo, aquele sorriso raro e deslumbrante, mas não era para mim. Era para ela. A legenda dizia: Celebrando meu futuro com meu único e verdadeiro amor. @AntonioFontes
A foto foi uma confirmação final e brutal. Enquanto minha avó estava morrendo, enquanto eu tentava desesperadamente contatá-lo, ele estava comemorando com ela. Ele a havia escolhido. Ele sempre a escolheria.
Algo dentro de mim, algo que estava chorando e se quebrando, silenciou. Congelou, depois endureceu em um caco de gelo.
Levantei-me, meus movimentos calmos e deliberados. Caminhei até o posto de enfermagem, minha própria máscara profissional se encaixando no lugar.
Fiz duas ligações.
A primeira foi para o consultório do meu ginecologista. "Preciso agendar uma interrupção", disse eu, minha voz desprovida de qualquer emoção.
A segunda foi para o chefe do meu departamento no hospital. "Dr. Esteves, é a Erica Richards. Minha avó acabou de falecer. Preciso tirar as próximas duas semanas de licença por luto."
"Claro, Erica. Leve o tempo que precisar. O casamento é em três semanas, não é? Não se preocupe com nada aqui."
"Sobre isso", disse eu, minha voz tão fria quanto o gelo em minhas veias. "O casamento está cancelado. Vou tirar uma licença de seis meses após o meu luto. Acabei de ser aprovada para a missão de ajuda humanitária na Síria."
Houve um silêncio atordoado do outro lado da linha.
"Meu voo sai na manhã do que deveria ser o dia do meu casamento", continuei calmamente. "Mas antes de ir, tenho um presente de casamento para entregar. Um presente muito, muito grande."
Erica POV:
A semana seguinte foi um borrão de luto silencioso e planejamento frio e metódico. Organizei a cremação da vovó, suas cinzas colocadas em um simples medalhão de prata que pendurei no pescoço. Era frio e sólido contra minha pele, um pedaço tangível do único amor incondicional que eu já conheci.
Fiquei diante de seu nicho no columbário, traçando seu nome gravado no mármore. "Ele não é um bom menino, vovó", sussurrei, minha voz embargada. "Mas não se preocupe. Eles vão pagar. Eu prometo, todos eles vão pagar."
A parte mais difícil foi voltar para o apartamento — nosso apartamento. O lindo loft na Vila Madalena que Antônio insistiu em comprar, um lugar cheio de três anos de memórias fabricadas. Enquanto eu estava do lado de fora da porta, procurando minha chave, eu ouvi. Risadas. A risada alta e tilintante de uma mulher, entrelaçada com os barítonos mais profundos de Antônio e Emanuel.
Foi tão chocante, tão completamente desrespeitoso, que pareceu um golpe físico. Meu luto, que tinha sido um manto silencioso e pesado, se incendiou em uma fúria branca e quente.
Antes que eu pudesse recuar, a porta se abriu. Era Antônio. Seu sorriso desapareceu quando me viu, substituído por um lampejo de irritação.
"Erica", disse ele, seu tom plano. "Você voltou."
Ele se afastou, um comando silencioso para que eu entrasse. Meus pés pareciam de chumbo, mas me forcei a entrar na cova dos leões.
Lá, sentada no meu sofá, aninhada entre Emanuel e uma pilha de revistas de casamento, estava Bianca Tavares. Ela olhou para cima, seu rosto de boneca arranjado em uma expressão de doce preocupação. O braço de Emanuel estava possessivamente sobre o encosto do sofá, seus dedos a centímetros do ombro dela.
Ao vê-la, um tremor violento percorreu meu corpo. Foi involuntário, uma reação primal de presa sentindo seu predador. O armário escuro, a risada zombeteira, o chute forte nas minhas costelas — tudo voltou correndo.
"Erica, querida, você está tremendo", disse Bianca, sua voz pingando falsa simpatia enquanto ela deslizava em minha direção. Ela estava ainda mais bonita do que eu me lembrava, sua beleza uma arma que ela empunhava com precisão de especialista. "Estávamos tão preocupados com você."
Ela estendeu a mão para tocar meu braço e, quando seus dedos roçaram minha pele, ela se inclinou para perto, seu hálito um sussurro venenoso em meu ouvido. "Ainda a mesma ratinha patética e trêmula, não é?"
As palavras eram uma citação direta de uma de suas tiradas atormentadoras na faculdade.
O instinto tomou conta. Eu recuei, empurrando-a para longe de mim. Não foi um empurrão forte, mais um recuo reflexivo, mas Bianca era uma mestra do teatro. Ela tropeçou para trás com um suspiro dramático, sua mão voando para o peito como se eu a tivesse golpeado.
"Erica!", ela chorou, seus olhos se enchendo de lágrimas de crocodilo. "Eu só estava tentando te consolar!"
A mudança na sala foi instantânea. A diversão casual desapareceu dos rostos dos gêmeos, substituída por máscaras gêmeas de fúria fria.
"Qual é o seu problema?", Antônio rosnou, colocando-se entre nós para proteger Bianca. Ele olhou para mim como se eu fosse um pedaço de lixo que ele encontrou em seu sapato. "Peça desculpas a ela. Agora."
"Por cada lágrima que a Bianca derramou por causa daquela vadia. Isso é justiça." Suas palavras do clube ecoaram em minha mente. Esta era a performance. Esta era a raiva justa que ele sentia por seu amor delicado e vitimizado.
A dor era tão aguda, tão absoluta, que era quase esclarecedora. Eu não disse nada. Apenas me virei para sair. Eu não conseguia respirar naquele espaço, sufocada por mentiras e pelos fantasmas do meu passado.
"Onde você pensa que vai?" Antônio agarrou meu braço, seu aperto como ferro. Foi a primeira vez que ele colocou a mão em mim com raiva, e o choque foi tão doloroso quanto a pressão em meus ossos.
"Ela precisa aprender uma lição, Antônio", disse Emanuel, seus olhos brilhando com uma luz cruel. "Ela está ficando um pouco arrogante demais para sua origem humilde."
"Você está certo", concordou Antônio, sua voz caindo para um registro perigosamente baixo. "Ela foi mimada por muito tempo. É hora de um pouco de disciplina."
Meu coração martelava contra minhas costelas. Ele começou a me arrastar pela sala de estar, passando pela cozinha de conceito aberto, por um corredor curto que eu raramente usava.
"Antônio, o que você está fazendo?" Lutei contra seu aperto, mas ele era imovível.
Ele parou em frente a uma pequena porta sem marcação. Um depósito. Ele a destrancou e abriu, revelando um espaço pequeno e sem janelas, totalmente escuro por dentro.
Ele me empurrou para dentro.
"Não!" O grito foi arrancado da minha garganta enquanto eu recuava, minha antiga fobia subindo como bile. "Não, por favor, Antônio, não!"
A escuridão, o confinamento — era uma réplica perfeita do tormento que Bianca havia me infligido anos atrás.
Ele sabia. Ele sabia sobre o armário na faculdade, os ataques de pânico, os anos de terapia que levei para conseguir andar de elevador sem hiperventilar. O homem que me abraçou durante meus pesadelos, que prometeu ser minha luz na escuridão, agora estava usando essa mesma escuridão como uma jaula.
"Você vai ficar aqui até aprender a respeitar a Bianca", disse ele, sua voz fria e final do outro lado da porta. "Pense nisso como uma punição por um crime que você não cometeu." Suas palavras eram um eco arrepiante de nossa primeira conversa sobre ela, distorcidas em um novo e monstruoso significado.
A fechadura clicou.
Escuridão absoluta. Silêncio absoluto.
"Antônio!", gritei, batendo com os punhos na madeira pesada até meus nós dos dedos ficarem em carne viva. "Me deixe sair! Por favor!"
Apenas o som fraco dos murmúrios preocupados de Bianca e dos irmãos me responderam.
Deslizei pela porta, encolhendo-me em uma bola apertada no chão, meu corpo tremendo incontrolavelmente. Cada momento terno, cada promessa sussurrada, cada toque gentil se repetia em minha mente, agora manchado e grotesco. Tudo tinha sido uma mentira. Uma performance. Ele havia coletado minhas vulnerabilidades como segredos preciosos, não para me proteger, mas para encontrar a maneira mais eficaz de me quebrar.
Este armário não era apenas uma punição. Era um inferno feito sob medida, projetado com conhecimento íntimo e amoroso dos meus medos mais profundos. E enquanto eu estava sentada ali, sufocando no escuro, finalmente entendi. Isso não era apenas vingança. Isso era aniquilação.