Capítulo 2

O pavor gelado da aparição súbita de Eduardo ainda me assombrava, mas eu o empurrei para o fundo, bem lá dentro. O jogo de fato havia começado, e eu tinha que ser impecável.

"Ah, Eduardo", gemi, deixando meu corpo cair um pouco, projetando vulnerabilidade. "Minha cabeça dói muito. E meu rosto... está ardendo." Toquei minha bochecha, fingindo uma lembrança fresca do tapa. "Aquela mulher... quem era ela? Por que ela me bateu?"

A expressão de Eduardo suavizou, uma mudança sutil que eu sabia ser falsa. Ele se ajoelhou ao meu lado, sua mão gentil em meu braço. Um arrepio de repulsa percorreu meu corpo, mas me forcei a suportar.

"Aquela era Amélia, querida", ele disse, sua voz tingida de uma falsa simpatia. "Ela é... um pouco possessiva. Ela acreditou que você estava tentando me seduzir. Um mal-entendido, só isso." Ele suspirou, balançando a cabeça como se estivesse frustrado com a infantilidade dela. "Ela é muito jovem, muito insegura. Mas inofensiva, de verdade."

Inofensiva. A palavra tinha gosto de cinzas na minha boca. Inofensiva, a mulher que me atacou brutalmente, desencadeando o retorno de minhas memórias. Inofensiva, a mulher que roubou minha vida inteira.

Olhei para ele, meus olhos arregalados e aparentemente confusos. "Te seduzir? Mas... não somos casados? Você disse que éramos. Por que ela pensaria isso?" O tom de questionamento inocente era difícil de manter, mas eu consegui.

Ele desviou o olhar por uma fração de segundo, um brilho de algo indecifrável em seus olhos. Culpa? Não, não Eduardo. Irritação, talvez, por ter que navegar em sua própria teia de mentiras.

"Claro que somos casados, Elisa", ele disse, sua voz firme, atraindo meu olhar de volta para o dele. "Ela só... ela teve uma vida difícil. Ela te admira, sabe. Sempre admirou. Ela só estava com ciúmes da nossa felicidade."

Suas palavras reviraram meu estômago. Admiração parecia uma piada cruel agora. Ele era bom nisso, pensei. Tão bom em distorcer a realidade, em se pintar como o protetor benevolente. Mas eu sabia a verdade. Eu me lembrava do nosso passado.

Lembrei-me de encontrar uma pilha de documentos incriminadores, provas de seus negócios escusos, suas contas no exterior. Eu o ameacei de expô-lo se ele não concordasse com o divórcio e ficasse fora da minha vida. Devia ser por isso. Por que ele precisava que eu sumisse. Por que o acidente. Por que a perda de memória foi tão conveniente. Ele não queria perder o controle. Nem de mim, nem do legado da minha família. Ele tentou acabar comigo, depois me reivindicou.

Ele se inclinou, seu hálito quente em meu ouvido. "Não se preocupe com a Amélia, meu amor. Ela é apenas uma criança. Ela precisa aprender uma lição, claramente. Vou me certificar de que ela entenda seu lugar." Ele acariciou meu cabelo, seu toque me arrepiando. "Você é minha esposa, Elisa. Sempre foi, sempre será."

Uma risada amarga ameaçou escapar de mim. Sua esposa. Enquanto ele era casado com Amélia. A audácia. O mal puro e absoluto. Mas mantive minha expressão em branco, meu corpo imóvel.

"Ela precisa entender seu lugar", repeti suavemente, minha voz ainda pequena, mas com uma sutil nova borda que só eu podia ouvir. "Ela me machucou, Eduardo. Fisicamente. Isso não está certo." Olhei para ele, deixando uma única lágrima traçar um caminho pela minha bochecha. "Ela não deveria poder simplesmente... machucar as pessoas."

Ele assentiu, a mandíbula tensa. "Você está certa, querida. Absolutamente certa. Eu vou cuidar dela." Ele me ajudou a levantar, seu braço em volta da minha cintura, me guiando em direção à porta. O ambiente familiar da mansão agora parecia opressivo, cada detalhe opulento um lembrete da minha gaiola dourada.

Assim que chegamos ao corredor, um cheiro familiar flutuou em nossa direção. Perfume doce e enjoativo. Amélia. Ela apareceu de uma esquina, seus olhos dardejando entre Eduardo e eu, um sorriso triunfante brincando em seus lábios. Ela usava um robe de seda, um dos meus robes, reconheci o bordado intrincado.

"Eduardo, querido!", ela arrulhou, ignorando completamente minha presença. "Você vem? Pensei que íamos discutir os projetos da nova ala. Sabe, aquela para nossa suíte master." Seu olhar se voltou para mim, um flash de pura malícia. "Ah, ela ainda está aqui? Pensei que ela estaria... descansando."

Meu sangue gelou. A nova ala. A suíte master. Minha suíte master.

"Amélia", disse Eduardo, sua voz agora afiada, um aviso. "Estávamos apenas conversando. Elisa está bastante chateada."

Amélia riu, um som áspero e quebradiço. "Chateada? Com o quê? Que ela não é mais a abelha rainha? Que eu sou?" Ela se aproximou, seus olhos brilhando com confiança predatória. "Olhe para ela, Eduardo. Uma sombra de quem já foi. A grande Elisa Esteves. Reduzida a isso. É quase patético."

Ela enfiou a mão no bolso do meu robe e tirou algo. Um medalhão de prata. Meu medalhão. Aquele que minha mãe me deu no meu aniversário de dezoito anos. Dentro havia fotos dos meus pais, jovens e rindo.

"Isso é seu?", ela perguntou, balançando-o na minha frente, sua voz pingando uma inocência fingida. "Eu encontrei. Tão antiquado, não é? Mas Eduardo disse que você costumava adorar. Engraçado como as coisas mudam." Ela o abriu, revelando as imagens minúsculas e desbotadas.

Minha respiração falhou. As imagens dos meus pais, seus rostos gravados com alegria. Agora, esses rostos se foram, vítimas de uma mentira cruel. Uma dor crua e penetrante atravessou meu peito. Meu medalhão. Meus pais.

Olhei para o medalhão, depois para Amélia, depois de volta para Eduardo. Meu rosto permaneceu uma máscara de confusão, mas por dentro, um vulcão entrou em erupção.

"O que... o que é isso?", perguntei, minha voz trêmula, lágrimas brotando em meus olhos. A confusão era real, uma mistura da amnésia fingida e da sobrecarga emocional genuína. "Por que você está me mostrando isso?"

Amélia sorriu. "Ah, ela não se lembra nem disso? Que triste." Ela se virou para Eduardo. "Viu? Eu te disse que ela estava completamente perdida. Ela nem reconhece as próprias heranças de família."

Eduardo agarrou o braço de Amélia, seu aperto firme. "Chega, Amélia."

"Não, não chega!", ela retrucou, puxando o braço. "Ela precisa saber seu lugar! Ela precisa saber que eu sou a mulher desta casa agora. Eu sou quem você ama. Eu sou Elisa Esteves!"

Olhei para Eduardo, deixando minha confusão se transformar em um espanto infantil. "Elisa Esteves? Mas... não é esse o meu nome?"

O rosto de Eduardo empalideceu. Ele olhou de Amélia para mim, um brilho de pânico em seus olhos. "Chega!", ele rugiu, sua voz ecoando no grande corredor. "Vocês duas! Isso é ridículo." Ele se virou para mim, sua voz rapidamente recuperando sua falsa calma. "Elisa, querida, ela está... ela está um pouco confusa. Ela só quer ser como você. Você era o ídolo dela, afinal."

Ele se virou de volta para Amélia, sua voz um silvo baixo. "Vá para o seu quarto, Amélia. Agora. Conversaremos sobre isso mais tarde."

Amélia me fuzilou com o olhar, depois para Eduardo. Ela saiu batendo o pé, o robe de seda balançando, mas não antes de me dar um último olhar de desprezo.

Observei-a ir, meu coração batendo forte. Eduardo se virou para mim, seu rosto uma máscara complexa de frustração e ternura forçada.

"Sinto muito por isso, Elisa", ele disse, pegando minha mão. Seu toque era frio, úmido. "Ela é apenas... ela é muito emotiva. E ela é muito protetora comigo. Ela entendeu tudo errado." Ele suspirou dramaticamente. "Seu acidente... foi tão traumático para todos. Ela sofreu muito. Ela se sentiu tão culpada por não poder te proteger."

Minha mente girou. Ele era bom. Tão bom. Culpando Amélia, mudando a narrativa, torcendo a faca. Ele estava culpando a própria mulher que orquestrou minha queda, por sua culpa.

"Mas... ela disse que era Elisa Esteves", sussurrei, minha voz ainda frágil. "Mas você disse que eu era Elisa Esteves. Eu não entendo."

Ele apertou minha mão. "É uma longa história, meu amor. Mas a versão curta é que ela é... ela é uma parente distante. Ela pegou seu nome, como uma homenagem. Após sua 'morte', foi... uma forma de ela continuar seu legado. Foi a maneira dela de lidar com a perda. E uma forma de manter as Indústrias Esteves à tona. A família precisava de um rosto, um nome. E ela se voluntariou." Ele sorriu tristemente. "Foi bastante corajoso da parte dela, na verdade. Assumir um papel tão grande."

A pura audácia de suas mentiras me fez tremer, um tremor que disfarcei de medo. O legado dos meus pais. Assumir meu papel. Ele era um monstro. Ambos eram monstros.

"Mas... ela me machucou", eu disse novamente, minha voz falhando. "Por que ela me machucaria se me admirava? Se estava continuando meu legado?"

Ele me puxou para mais perto, envolvendo-me em seus braços. Eu enrijeci, lutando contra o impulso de empurrá-lo para longe. "Ela está com medo, meu amor. Com medo de me perder. Com medo de perder o que ela construiu. Ela te vê como uma ameaça. Mas ela não entende. Não há ameaça. Só existe você. Minha Elisa."

Ele beijou o topo da minha cabeça, um gesto possessivo que me arrepiou. "Eu nunca deixaria nada acontecer com você, minha querida. Nunca mais."

As palavras ecoaram em minha mente. "Nunca mais." Soavam como uma promessa, mas eu ouvi uma ameaça. Ele nunca me deixaria sair de sua vista. Ele nunca me deixaria escapar de seu controle.

"Eu... eu não sei, Eduardo", murmurei, afastando-me um pouco. "Sinto-me tão confusa. Só quero que tudo pare. Tudo."

Ele olhou para mim, um olhar calculado de preocupação em seu rosto. "Eu entendo, meu amor. Você passou por tanta coisa. Talvez... talvez seja melhor nos concentrarmos em nós. Em reconstruir suas memórias. Em nosso amor."

Ele se inclinou, tentando me beijar. Virei a cabeça, deixando minha "confusão" ser meu escudo. "Eu... não estou pronta. Minha cabeça ainda dói." Empurrei seu peito levemente, um gesto de rejeição gentil que não o provocaria. "E eu não gosto dela. Ela me machuca. Não a quero perto de mim."

Ele suspirou, um som de sofrimento prolongado. "Mas ela é minha... ela é minha família também, Elisa. Ela é o rosto público das Indústrias Esteves. Não podemos simplesmente mandá-la embora." Ele fez uma pausa, um brilho perverso em seus olhos. "A menos que... a menos que você queira ser o rosto público novamente? Reivindicar seu lugar?"

Meu coração bateu forte. Isso era um teste? Ou uma oportunidade?

"Eu não sei", sussurrei, fingindo desamparo. "Eu só... eu só quero paz. E que ela não me toque. Ou me machuque. Ou diga aquelas coisas terríveis."

Ele sorriu, um sorriso sombrio e calculista. "E se... e se vocês duas ficassem? E simplesmente... coexistissem? Pense nisso, Elisa. Vocês duas ao meu lado. Você, o verdadeiro coração das Indústrias Esteves, a mulher com quem eu realmente me casei. E Amélia, o rosto público obediente. Não seria... ideal?"

Meu sangue gelou. Ele queria nós duas. Ele queria manter seu império roubado, sua esposa roubada e sua prisioneira, a verdadeira dona de tudo. Ele era verdadeiramente desprezível.

Mas um novo pensamento surgiu. Uma ideia, fria e afiada. Essa era sua fraqueza. Sua ganância. Seu desejo de ter tudo.

"Não sei se consigo", eu disse, minha voz pouco acima de um sussurro. "Ela é tão... cruel. Ela me odeia."

"Então ela não será mais cruel", ele prometeu, sua voz firme. "Eu vou me certificar disso. Ela não ousará tocar em você novamente. Ela não dirá nada para te chatear. Você tem minha palavra. Contanto que você... tente entender a posição dela. E aceite que somos todos... uma grande família agora."

Olhei para ele, meus olhos cheios de incerteza fingida. "E ela não vai... ela não vai mais fingir ser eu? Ela não vai dizer às pessoas que é sua esposa?"

Ele hesitou, depois deu um sorriso tenso e artificial. "Ela já está nesse papel, meu amor. É tarde demais para mudar isso. Mas ela não vai te diminuir. Eu prometo. Você sempre será minha Elisa." Ele fez uma pausa, seus olhos brilhando. "Então, o que você me diz? Uma trégua? Por mim?"

Meu estômago se revirou. Uma trégua. Com a mulher que ajudou a destruir minha vida. Com o homem que ordenou minha morte. Mas essa era minha chance. Minha única chance. De ficar, observar, reunir provas.

"Ok", sussurrei, minha voz quase inaudível. "Mas... ela tem que ficar longe de mim. Sem mais toques. Sem mais tapas. Sem mais se chamar... pelo meu nome." Fiz um show de desviar o olhar, como se não pudesse suportar o pensamento.

Ele assentiu, um olhar triunfante em seus olhos. "Combinado. E em troca, meu amor, você será gentil com ela. Entenderá a situação dela. Afinal, ela assumiu quando você estava... incapacitada."

Minhas mãos se fecharam em punhos, escondidas de sua vista. Incapacitada. Ele quis dizer morta. Concordei com um pequeno e relutante aceno de cabeça, minha mandíbula tensa.

Uma resolução fria e dura se instalou profundamente dentro de mim. Ele achava que tinha vencido. Ele achava que me tinha presa. Mas ele acabara de me dar as chaves de seu reino. Eu encontraria uma saída. Eu reuniria cada pedaço de evidência. Eu reivindicaria meu nome, minha fortuna, minha identidade. E eu o faria pagar por cada mentira, cada momento roubado, cada gota de sangue, cada lágrima. Ele se arrependeria do dia em que cruzou o caminho de Elisa Esteves.

Isso não era uma trégua. Isso era guerra. E ele não tinha ideia de contra quem estava realmente lutando. Secretamente, peguei o celular pré-pago ainda escondido no meu bolso, pressionando o botão de gravação. Cada palavra a partir de agora seria uma arma.

"Boa menina", ele ronronou, acariciando meu cabelo. "Essa é a minha Elisa. Sempre tão compreensiva."

Engoli a bile que subia pela minha garganta. Compreensiva? Ele veria. Ele entenderia em breve.

Capítulo 3

No dia seguinte, Eduardo insistiu em me mudar da mansão de alta segurança em Angra dos Reis para nossa antiga cobertura em São Paulo. Ele chamou isso de "reintegrar-me", um passo em direção a uma vida mais normal. Eu sabia que era outra camada de seu controle distorcido.

No momento em que as portas do elevador se abriram para a cobertura, uma onda de náusea me invadiu. Era nossa casa, o lugar onde Eduardo e eu havíamos construído uma vida, onde havíamos compartilhado sonhos. Agora, estava irreconhecível.

O espaço minimalista e cheio de arte que eu havia curado com tanto cuidado se fora. Em seu lugar, havia uma profusão de móveis de veludo felpudo, detalhes dourados ornamentados e pinturas abstratas berrantes. As cores eram altas, conflitantes. Meu santuário silencioso havia sido profanado.

"Surpresa, querida!" Amélia apareceu da sala de estar, um sorriso triunfante no rosto. Ela estava envolta em um vestido de seda, a cor um fúcsia chocante que fazia meus olhos doerem. "Gostou do que eu fiz com o lugar? Eduardo disse que você adoraria meu toque moderno."

Meu olhar varreu a sala, pousando no lustre de cristal ornamentado que agora pendia onde antes havia uma luminária elegante e de design personalizado. Lembrei-me de passar semanas com um artesão renomado, projetando aquela peça. Tinha sido mais do que apenas uma luz; era um símbolo de nossa visão compartilhada, nosso futuro. Agora, se fora.

"Isto", Amélia ronronou, gesticulando grandiosamente com uma mão bem cuidada, "é nossa casa, Elisa. Eduardo me deixou redecorar completamente. Ele disse que seu estilo antigo era um pouco... datado. Frio demais."

Meu coração se apertou. Frio? Meu design era minimalista, elegante, um reflexo da minha alma. Eduardo sempre amou. Ele sempre elogiou meu gosto, meu olho para detalhes. Ou assim eu pensava. Lembrei-me dele dizendo, anos atrás, quando eu estava agonizando sobre um tom particular de cinza para as paredes: "Está perfeito, Elisa. Este espaço reflete você. É sereno, sofisticado. É lar."

Meu estômago se revirou. A hipocrisia. O desrespeito flagrante por tudo que um dia foi meu. Ele havia me negado uma simples troca de tecido de cortina quando eu pedi, alegando que as existentes eram "perfeitas". Agora, o apartamento inteiro era um monumento ao gosto brega de Amélia.

"É... diferente", consegui dizer, minha voz plana. Vi o flash de decepção nos olhos de Amélia, rapidamente substituído por uma satisfação presunçosa. Ela queria uma reação, um colapso. Eu não lhe daria essa satisfação.

Eduardo se aproximou por trás de mim, envolvendo um braço em minha cintura. "Viu, eu te disse que ela ficaria surpresa, Amélia." Ele beijou minha têmpora. "É lindo, não é, meu amor? Amélia fez um trabalho maravilhoso."

Afastei-me de seu toque, sutilmente, mas o suficiente para criar um pequeno espaço entre nós. "É certamente... ousado", eu disse, um sorriso fraco e sardônico tocando meus lábios. Deixe-os interpretar como admiração ou confusão. Eu não me importava.

"Eduardo", disse Amélia, sua voz baixando para um sussurro sedutor, "acho que deveríamos comemorar. Só nós dois. Tenho uma garrafa daquele champanhe vintage que você gosta." Ela puxou seu braço, seus olhos dardejando para mim com um olhar possessivo.

Eduardo hesitou, seu olhar se voltando para mim. Eu sabia o que ele queria. Ele queria manter a fachada de meu "amante", sua "esposa". Mas ele também queria Amélia. Ele sempre quis os dois. Sua ganância não conhecia limites.

Uma oportunidade perfeita.

"Ah, vá em frente, Eduardo", eu disse, forçando um sorriso cansado. "Vocês dois deveriam comemorar. Eu... acho que vou me deitar. Toda essa... mudança é um pouco avassaladora." Esfreguei minhas têmporas, fingindo uma dor de cabeça. "Talvez Amélia possa me mostrar qual é o meu quarto? Não quero me perder."

Os olhos de Amélia se arregalaram, um brilho de surpresa, depois de alegria maliciosa. Ela provavelmente pensou que eu estava finalmente aceitando meu lugar como a amante, a mulher esquecida.

"Claro, querida", Amélia ronronou, sua vitória evidente. Ela agarrou meu braço, seu aperto surpreendentemente forte. "Venha, vou te mostrar sua... suíte de hóspedes."

Ela me conduziu pelo corredor, seu perfume quase sufocante. Passamos pelo que costumava ser meu escritório particular, depois meu ateliê de arte, ambos agora redecorados além do reconhecimento. Cada passo era uma nova facada de dor, um lembrete do que eles haviam tirado.

Ela parou em uma porta, abrindo-a com um floreio. "Aqui está. Seu pequeno santuário."

Era um quarto pequeno, escondido, longe das áreas de estar principais e, crucialmente, longe da suíte master. Meu estômago se contraiu. Este costumava ser o quarto de hóspedes. O quarto que a própria Amélia ocupou quando ficou conosco pela primeira vez. A ironia era um gosto amargo.

O quarto estava cheio de móveis berrantes, claramente sobras da redecoração principal. Na cômoda, uma coleção de bolsas e sapatos de grife estava jogada casualmente.

"Estes são apenas alguns dos meus extras", disse Amélia, gesticulando vagamente para os itens. "Tenho tantos que nem sei o que fazer com todos eles. Eduardo é tão generoso." Ela pegou um relógio cravejado de diamantes. "Ele me comprou isso na semana passada. Para nosso terceiro aniversário."

Três anos. O aniversário da minha "morte". Meu sangue gelou.

"É lindo", eu disse, minha voz cuidadosamente neutra. Caminhei até uma vitrine de vidro, cheia de joias brilhantes. Amélia me seguiu, observando-me como um falcão.

"E estas são minhas peças do dia a dia", ela disse, sua voz pingando uma casualidade afetada. "Eduardo insistiu. Afinal, uma mulher na minha posição precisa parecer o papel, não é?"

Meu olhar varreu as joias cintilantes. Colares, pulseiras, anéis. Minha respiração falhou. Lá, aninhado em uma almofada de veludo, estava o pingente de esmeralda da minha mãe. Aquele que eu usei no dia do meu casamento. Aquele que deveria ser passado por gerações de mulheres Esteves.

Meu coração bateu forte, um tambor frenético contra minhas costelas. O pingente da minha mãe. Minhas joias de casamento. Nada era sagrado para eles? Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu as contive. Era tudo meu. Tudo.

Foquei em outra peça, um pequeno e intrincado broche de filigrana de prata. Era uma herança de família, um presente da minha avó, especialmente desenhado com o brasão dos Esteves. Não era chamativo, mas tinha um imenso valor sentimental. Meu pai costumava me contar histórias de sua avó usando-o.

Amélia notou meu olhar. "Ah, essa coisa velha?", ela zombou, pegando o broche com um movimento desdenhoso do pulso. "Eduardo disse que era da sua avó. Tão antigo. Nem sei por que ainda guardo. Não é bem o meu estilo, não é?" Ela o girou descuidadamente entre os dedos.

Um fogo ardente se acendeu dentro de mim. O broche da minha avó. O legado da minha família. Sendo profanado por essa... essa víbora.

"É... bastante único", eu disse, minha voz tensa. "Muito tradicional."

"Tradicional significa chato", declarou Amélia, uma torção feia em sua boca. "Mas suponho que você gostaria. Você sempre foi tão... clássica." Ela sorriu, um sorriso provocador e odioso. "Como uma peça de museu. Eduardo sempre disse que você era séria demais, antiquada demais."

As palavras doeram, mas a raiva que crescia dentro de mim era muito maior. Ele me chamou disso? O homem que uma vez amou minha elegância "clássica"?

"Acho que vou tomar um banho", eu disse, minha voz deliberadamente calma. Virei-me para sair, precisando escapar antes de perder o controle.

"Ah, não se preocupe", disse Amélia, sua voz me seguindo. "Não vou deixar o Eduardo vir te incomodar. Ele é todo meu esta noite. Temos que... colocar o papo em dia." Seu significado era claro, deliberadamente cruel. Ela queria torcer a faca, me lembrar do meu lugar.

Caminhei em direção ao banheiro, meus punhos cerrados ao lado do corpo. Podia ouvir a risada triunfante de Amélia ecoando atrás de mim.

Então, uma fúria súbita e cega me invadiu. Sem pensar, virei-me, pegando um pesado vaso de cristal de uma mesa próxima. Minha intenção era apenas quebrá-lo, fazer barulho, extravasar minha raiva. Mas Amélia havia dado um passo em minha direção, seu sorriso ainda zombeteiro.

Nossos olhos se encontraram.

"Você", rosnei, minha voz crua, a fachada de amnésia momentaneamente rachando. "Você roubou tudo."

Os olhos de Amélia se arregalaram, sua presunção momentaneamente substituída por choque. "O que você disse?"

Avancei, não para ela, mas para o broche que ela ainda segurava. Minha mão disparou, tentando arrancá-lo de sua palma descuidadamente aberta.

"Devolva!", gritei, minha voz ressoando com uma fúria que eu não sabia que possuía.

Amélia gritou, agarrando o broche contra o peito. "Fica longe de mim, sua vadia louca!" Ela atacou, suas unhas arranhando meu rosto.

Uma nova dor ardente irrompeu em minha bochecha, somando-se à latejante do tapa anterior. Foi o suficiente. Meu controle se quebrou. Os anos de manipulação, a vida roubada, os pais mortos, a identidade usurpada — tudo se fundiu em um único momento explosivo.

Agarrei o braço de Amélia, torcendo-o, forçando-a a soltar o broche da minha avó. Ele caiu no chão de mármore, a prata brilhando sob as luzes fortes.

"Você não merece!", cuspi, minha voz tingida de veneno.

Amélia gritou novamente, seu rosto contorcido em uma máscara de puro ódio. "Socorro! Guardas! Ela está me atacando!"

Antes que eu pudesse reagir, ela avançou, suas mãos voando em direção ao meu cabelo, arranhando, puxando. Tropeçamos, caindo sobre um tapete felpudo, indo ao chão. Ela se arrastou para cima de mim, seu peso me prendendo, suas mãos voando, batendo, arranhando.

"Sua vadia! Você está morta! Você deveria estar morta!", ela gritou, sua voz rouca de raiva. "Você estragou tudo!"

Lutei de volta, alimentada por pura adrenalina e anos de raiva reprimida. Dei-lhe uma joelhada, empurrei-a, tentei desalojá-la. Mas ela era forte, desesperada.

De repente, a porta se abriu com um estrondo. Dois guardas corpulentos, homens de Eduardo, entraram correndo. Amélia parou imediatamente, olhando para eles com olhos grandes e assustados, seu rosto se transformando em uma vítima inocente. Seu cabelo estava bagunçado, alguns arranhões em seu braço, uma única lágrima rolando por sua bochecha. Eu? Meu rosto estava um caos, manchas de sangue misturadas com lágrimas, meu cabelo desgrenhado, minhas roupas rasgadas.

"Ela me atacou!", Amélia lamentou, apontando um dedo trêmulo para mim. "Ela ficou completamente louca! Ela tentou me matar!"

Os guardas olharam para mim, seus rostos sombrios. Eles agarraram meus braços, puxando-me rudemente. Meu ombro gritou em protesto.

"Me soltem!", gritei, lutando contra seu aperto de ferro.

"Ela está louca, Eduardo!", Amélia soluçou, enquanto o próprio Eduardo aparecia na porta, seu rosto uma nuvem de tempestade. "Ela é perigosa! Você tem que mandá-la embora!"

Os olhos de Eduardo varreram a cena, absorvendo o rosto de Amélia manchado de lágrimas, minha aparência desgrenhada e sangrando, as bolsas espalhadas, o broche no chão. Seu olhar endureceu ao pousar em mim.

"Que diabos está acontecendo aqui?", ele rugiu, sua voz tingida de ameaça.

"Ela me atacou, Eduardo!", Amélia chorou, correndo para seus braços. "Ela está louca! Ela se lembra das coisas, ela disse que eu roubei! Ela está tentando estragar tudo!"

"Ela está mentindo!", retruquei, minha voz crua. "Ela me atacou primeiro! Ela estava zombando de mim! Ela tentou quebrar o broche da minha avó!" Apontei um dedo trêmulo para a filigrana de prata no chão.

Os olhos de Eduardo se estreitaram. Ele olhou para o broche, depois de volta para mim. Uma mudança sutil em sua expressão.

Amélia fungou, enterrando o rosto em seu peito. "Ela só está com ciúmes, Eduardo. Com ciúmes de que eu sou sua esposa agora. Com ciúmes de que eu sou Elisa Esteves." Sua voz estava abafada, mas as palavras eram claramente destinadas a mim.

Meu sangue gelou. A pura audácia. A humilhação pública.

"Você não é Elisa Esteves!", gritei, as palavras rasgando minha garganta. "Você é Amélia Barros! E você é uma ladra! Vocês dois!"

Amélia ofegou, afastando-se de Eduardo, seus olhos arregalados de choque fingido. "Ela sabe!", ela sussurrou, sua voz tingida de terror. "Ela se lembrou! Eduardo, ela vai contar a todo mundo!"

O rosto de Eduardo escureceu, seus olhos queimando com uma luz perigosa. Ele caminhou em minha direção, seus passos pesados. Os guardas apertaram seu aperto, cravando os dedos em meus braços.

"Então", ele disse, sua voz um rosnado baixo, "o passarinho finalmente se lembra de sua gaiola." Ele estendeu a mão, sua mão envolvendo meu queixo, forçando minha cabeça para cima. Seu aperto era brutal. "E você acha que pode simplesmente gritar a verdade agora? Depois de todo esse tempo?"

Minha mente acelerou. Eu havia subestimado a crueldade deles. Minha explosão foi um erro. Eu me expus cedo demais.

"Não, Eduardo", sussurrei, forçando-me a encolher sob seu olhar, deixando o medo tomar conta do meu rosto. "Eu... eu não sei o que eu disse. Minha cabeça... dói muito. Eu só..." Tentei parecer confusa, desorientada, como se a memória tivesse vindo e ido. "Eu só explodi. Ela estava sendo tão má." Soltei um soluço trêmulo. "Não sei por que disse aquelas coisas. Não me lembro."

Ele me encarou nos olhos, procurando por qualquer brilho de engano. Meu coração bateu forte, um tambor frenético contra minhas costelas. Eu tinha que convencê-lo. Eu tinha que voltar ao papel da amnésica.

"Ela só precisa aprender uma lição, Eduardo", disse Amélia, sua voz firme, tendo recuperado a compostura. Ela caminhou em direção ao broche amassado, pegando-o. "Ela precisa saber quem está no comando agora." Ela ergueu o broche, então, com um sorriso torcido, quebrou-o ao meio com um estalo doentio.

Meus olhos se arregalaram de horror. O broche da minha avó. Quebrado.

"Não!", gritei, um lamento genuíno de dor escapando de mim. "Como você pôde!"

Amélia riu, um som arrepiante e triunfante. "Viu, Eduardo? Ela ainda tem tanta raiva. Ela precisa ser disciplinada." Ela jogou os pedaços quebrados no chão aos meus pés. "Talvez um tempo na velha 'sala de terapia' conserte sua memória de vez."

Eduardo me observou, seu olhar ainda avaliador. Meu corpo estava devastado pela dor e pela humilhação fresca. O broche da minha avó, estilhaçado. Meus pais, perdidos. Minha identidade, roubada.

"Levem-na", Eduardo ordenou aos guardas, sua voz fria e desprovida de emoção. "Ela precisa aprender seu lugar. E Amélia está certa. Ela precisa entender quem ela é agora. Uma convidada. Nada mais."

Os guardas me arrastaram, meus pés arrastando no chão polido. Virei a cabeça para trás, encontrando o olhar triunfante de Amélia, depois o olhar frio e calculista de Eduardo.

Minha mente gritava, mas meu corpo estava dormente. Eu estava sendo arrastada para alguma "sala de terapia", um eufemismo para outro nível de tortura, outra camada de seu controle. Mas um novo pensamento se solidificou em minha mente, mesmo enquanto a dor ameaçava me sobrecarregar.

Ele havia quebrado o broche da minha avó. Ele havia permitido que Amélia destruísse um pedaço da história da minha família. Ele acabara de cometer seu erro. Ele me deu uma nova e mais visceral razão para odiá-lo, para lutar contra ele. Ele selou seu próprio destino.

"Você vai se arrepender disso, Eduardo", sussurrei, um voto silencioso para mim mesma, enquanto a porta da "sala de terapia" se fechava com um estrondo, mergulhando-me na escuridão.

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