Clara Azevedo POV:
O mundo voltou a ter foco com o cheiro antisséptico de um quarto de hospital. Paredes brancas, um monitor apitando ao meu lado e uma dor surda atrás dos meus olhos. Forcei-me a sentar, minha garganta ainda áspera. Ninguém estava lá. Apenas eu. Sozinha.
"Ela está bem, apenas exaustão e estresse", uma enfermeira dissera momentos antes, sua voz gentil, mas distante. "Seu marido saiu há algumas horas. Disse que tinha uma emergência." Meu marido. A palavra tinha gosto de cinzas. Ele me deixara de novo. Sempre uma emergência, sempre outra pessoa.
Olhei para o soro no meu braço, uma linha fina me conectando a este presente estéril. Este era o meu alerta. Fechei os olhos, uma única lágrima escapando. Eu estava farta. Farta das mentiras, farta da dor, farta dele. Um pensamento, claro e nítido, perfurou a névoa: Europa. Eu aceitaria aquela oferta de emprego. Lisboa. Uma nova vida.
Minha mente, no entanto, se recusava a ficar no presente. Ela reprisava nosso passado, um cruel rolo de destaques. Guilherme. Meu Guilherme. Aquele que costumava rastrear meus voos pelo país, que me surpreendia em aeroportos obscuros, com um buquê dos meus lírios favoritos na mão.
Ele aparecia sem avisar no meu apartamento em Florianópolis, tendo voado de São Paulo só para ver meu rosto por um fim de semana. Ele me mandava mensagens de seu escritório em São Paulo: "Contando os minutos para poder te abraçar de novo." Ele sempre me encontrava, não importava quão remota fosse minha localização para uma conferência de tecnologia. Sua dedicação era um farol em nossa realidade à distância, um testemunho do amor que eu acreditava ser inabalável.
Mas então, o farol começou a piscar. As ligações semanais se tornaram quinzenais, depois esporádicas. As chamadas de vídeo, que já foram nossa tábua de salvação, tornaram-se breves e tensas. "Ocupado demais", ele dizia. "Muitos prazos." Meu coração se contraía.
Lembrei-me das inúmeras vezes que mandei uma mensagem para ele, apenas um simples "Pensando em você". Às vezes, ele não respondia por horas. Às vezes, respondia com um genérico "Eu também". Meus dedos pairavam sobre o teclado, querendo exigir respostas, querendo gritar, mas o medo me segurava. Medo de afastá-lo ainda mais, medo de confirmar o abismo crescente entre nós.
Uma noite, pedi para fazermos uma chamada de vídeo. "Só cinco minutos", implorei. A resposta dele foi rápida, quase impaciente. "Não posso, Clara. Meu cabelo está uma bagunça. Não quero que você me veja assim." Essa era nova. Em dez anos, ele nunca se importou com sua aparência para mim. Senti uma pontada familiar de autorrecriminação. Eu estava sendo exigente demais? Eu não estava sendo compreensiva o suficiente com o estresse dele? Engoli minha decepção, pedindo desculpas por incomodá-lo.
Então veio a noite em que ouvi outra voz na ligação, leve e feminina, rindo ao fundo. "Quem era?", perguntei, um nó se formando no meu estômago. "É só a Karina", ele disse, "minha estagiária. Ela está trabalhando até tarde comigo." A linha ficou muda um momento depois. Ele havia desligado.
Parei de iniciar as ligações. Parei de mandar as mensagens de bom dia. Ele não pareceu notar. Ou se notou, não se importou. O silêncio se estendeu entre nós, um vazio crescente. Eu me sentia doente de saudade, com um luto que não tinha nome.
Uma manhã, meu mundo desmoronou ainda mais. Tentei ligar para ele, meu coração doendo para ouvir sua voz, mesmo que por um momento. Mas uma voz fria e robótica me informou: "O número para o qual você ligou não está disponível." Meu número estava bloqueado. Olhei para a tela, as lágrimas embaçando minha visão. Meu estômago se contraiu e uma onda de tontura me atingiu. O estresse do trabalho, o peso esmagador de nosso relacionamento moribundo, era demais. Eu sentia como se estivesse me afogando.
Ele ligou de volta horas depois, de um número diferente. "Clara", ele disse, sua voz tingida com uma estranha mistura de irritação e preocupação fingida. "A Karina deve ter mexido no meu celular. Sabe como ela é, sempre fazendo brincadeirinha. Sinto muito." Uma brincadeirinha? Eu deveria acreditar nisso?
Ele me mandou uma mensagem mais tarde, um pedido de desculpas embrulhado em uma notificação de transferência bancária. Uma quantia substancial. "Pelo seu incômodo", dizia. "Compre algo legal para você." Meu incômodo? Nossa década juntos, minha dor, era tão facilmente quantificável, tão baratamente descartada? Ele achava que podia comprar meu perdão, amenizar sua traição com dinheiro.
Não foram as brincadeiras de Karina que me machucaram. Não foi a distância ou as exigências de seu trabalho. Foi ele. Sua indiferença. Suas mentiras. Seu completo descaso pelos meus sentimentos. Ele era o maior dano. Ele era a maior ferida.
No entanto, mesmo depois de tudo isso, uma parte tola de mim se agarrou à esperança. Comprei uma passagem, decidi deixar minha carreira em ascensão em Florianópolis, me convenci de que a proximidade consertaria tudo. Eu me mudaria para São Paulo, fecharia a distância, reacenderia o que tínhamos. Contei a Júlio, nosso amigo em comum, sobre meus planos, minha voz cheia de um otimismo desesperado.
Ele fez uma pausa, então sua voz baixou, pesada de pena. "Clara", ele disse, "eu não sei como te dizer isso, mas... Guilherme e Karina? Eles estão em todos os lugares. Jantares, noites até tarde, até mesmo indo para a casa de campo da família dele nos fins de semana. Todo mundo no escritório sabe."
As palavras me atingiram com a força de um golpe físico. A esperança que eu havia nutrido tão desesperadamente, o futuro que eu havia imaginado, se estilhaçou em um milhão de pedaços. A verdade, feia e inegável, finalmente me encarou. Guilherme não havia mudado. Ele havia seguido em frente. Ele se fora. E eu, por tanto tempo, estive agarrada a um fantasma.
Clara Azevedo POV:
Arranquei a agulha do soro do meu braço, uma dor aguda e purificadora. Eu estava farta de hospitais, farta de esperar. Farta dele. Vesti-me rapidamente com as roupas com as quais cheguei, cada botão um fechamento definitivo.
Quando voltei para o apartamento, o ar ainda estava pesado com o cheiro de seu perfume e o leve perfume floral dela. Fui direto para o notebook dele. Ele o havia fechado, mas o registro de atividades recentes era condenatório. Uma nova janela de chat estava aberta, uma troca frenética entre ele e Karina. As mensagens dela eram uma torrente desesperada. "Você tem que escolher, Gui! Ou eu ou ela!" Ele não havia respondido às últimas cinco mensagens dela. As confirmações de leitura estavam ativadas.
Meu coração martelava. Ele finalmente estava vendo quem ela era, pensei, um lampejo de algo próximo ao triunfo misturado com os resquícios amargos da minha dor.
Naquele exato momento, a chave dele girou na fechadura. Ele entrou, o rosto tenso, parecendo não ter dormido. Ele me viu imediatamente, de pé ao lado do notebook. Seus olhos saltaram de mim para a tela, depois de volta para mim. Um rubor lento e agonizante subiu por seu pescoço.
"Você acordou", ele disse, a voz neutra. "Você... você viu?"
"Vi o quê, Guilherme?" Minha voz estava calma, calma demais. "Que a Karina te deu um ultimato? Ou que você está prestes a me pedir em casamento, tão casualmente, como se fosse uma consulta médica?"
Ele se encolheu. "Eu ia. Hoje à noite." Seus olhos imploravam por compreensão, mas não vi remorso, nem amor genuíno. Apenas um homem encurralado.
Ele caminhou até a mesa de jantar, tirou uma pequena caixa de veludo do bolso. Ele não se ajoelhou. Ele nem mesmo olhou para mim. Apenas a abriu, revelando um anel de diamante que brilhava zombeteiramente sob a luz forte da cozinha. "Case comigo, Clara. Vamos nos casar. Em breve. No próximo mês."
Meu estômago revirou. Era isso? O grande gesto, desprovido de qualquer sentimento genuíno? "No próximo mês?", ecoei. "E depois, vamos começar a tentar ter um bebê? É esse o cronograma que você traçou para nossas vidas, agora que a Karina está te causando problemas?"
Sua mandíbula se contraiu. "Estamos juntos há dez anos, Clara. Está na hora. Meus pais estão perguntando. Não estamos ficando mais jovens." Ele falou sobre isso como uma tarefa, uma caixa a ser marcada.
Uma raiva fria, diferente de tudo que eu já senti, começou a queimar dentro de mim. Minhas mãos se fecharam em punhos. "Hora? Pais? É por isso que você quer se casar comigo, Guilherme? Porque está na 'hora'? Onde está o romance? Onde está o pedido de casamento com que sonhei, aquele em que você realmente quer se casar comigo?"
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo. "Eu não tenho tempo para grandes gestos, Clara. Você sabe como estou ocupado. É desnecessário. Nós sabemos o que sentimos um pelo outro."
Desnecessário. A palavra ecoou em minha mente. Desnecessário para mim, mas não para Karina, não é? Lembrei-me dos presentes caros que ele comprou para ela, das viagens noturnas para buscá-la, do apelido cuidadosamente escolhido. Todos os floreios românticos que ele se recusou a me dar, ele prodigalizou a ela.
Ele tirou a carteira, extraindo uma pilha de notas de cem reais, depois vários cartões de crédito. Ele os colocou na mesa ao lado do anel. "Isso é uma entrada para o novo apartamento. E isso é para o seu vestido de noiva, sua lua de mel, o que você quiser. Apenas me diga que tipo de casamento você quer, e eu farei acontecer. É o suficiente?"
Olhei para o dinheiro, depois para o anel, depois para seu rosto impassível. Ele parecia um estranho. Este não era o homem que eu amava. Este não era o homem com quem passei dez anos. Esta era uma casca vazia, oferecendo-me dinheiro e obrigação em vez de amor.
Pensei nas inúmeras noites que ele passou pacientemente me explicando seus projetos arquitetônicos, seus olhos brilhando de paixão. Pensei na primeira vez que ele me disse que me amava, sua voz tremendo de sinceridade. Onde estava aquele homem? O que aconteceu com ele?
Eu estive tão focada na minha carreira, em provar a mim mesma, que o deixei escapar? Ele se sentiu negligenciado, desvalorizado? A culpa era toda minha? Procurei desesperadamente por uma razão, uma justificativa para sua traição que de alguma forma me deixaria menos quebrada. Não. Minha ambição não desculpava seu engano.
"Guilherme", eu disse, minha voz perigosamente suave. "Você ainda me ama?"
Ele hesitou. Uma pausa longa e agonizante. Ele desviou o olhar, depois voltou para mim, seus olhos nublados. "Claro, Clara. Você é... você é a minha vida." As palavras eram ensaiadas, desprovidas de calor. Seu olhar ainda vacilava, um sinal revelador que agora eu reconhecia como uma mentira.
"Não, você não ama", sussurrei, a percepção uma nova facada. "Você não me ama. E isso dói, Guilherme. Dói mais do que qualquer coisa." Lágrimas brotaram em meus olhos, não de tristeza, mas de uma clareza profunda e avassaladora.
"Não seja dramática, Clara", ele retrucou, sua paciência se esgotando. "Você é sempre tão emotiva. Apenas aceite o anel. Vamos seguir em frente."
Algo dentro de mim se partiu. Eu o empurrei, com força. "Seguir em frente?! Você acha que isso é seguir em frente?! Você acha que sou algum prêmio a ser reivindicado, um dever a ser cumprido?!"
Minha voz se elevou, crua e trêmula. "Eu não vou me casar com você, Guilherme. Não assim. Nunca."