Capítulo 2

Ponto de Vista de Helena

A chave para a minha fuga, percebi, era o silêncio. Se Ricardo sequer suspeitasse que eu sabia a verdade, eu estaria perdida de vez. Ele encontraria uma maneira de me manter, de me prender a ele para sempre. O amor dele não era amor; era um controle possessivo e sufocante.

Minha mente corria, juntando os fragmentos dos últimos cinco anos. Bianca. Ela sempre fora uma sombra, um espinho persistente no lado do meu relacionamento com Ricardo. Eu me lembrava dela do colégio. Uma garota com olhos intensos demais, um sorriso fixo demais quando olhava para Ricardo.

Ela tinha uma paixão descarada por ele, uma perseguição flagrante, quase agressiva. Ricardo, naquela época, era alheio, ou talvez apenas indiferente. Ele sempre foi gentil comigo, sua atenção totalmente em mim. Ele educadamente, às vezes duramente, rechaçava as investidas dela.

"Bianca, para", ele dizia, com o maxilar cerrado. "Eu estou com a Helena."

Mas Bianca era como uma erva daninha persistente, sempre encontrando uma maneira de brotar novamente. Ela ignorava minha presença, ignorava nossa história compartilhada como namorados de infância. Um dia, ela me encurralou no corredor, seus olhos brilhando com um desafio estranho e possessivo.

"Eu gosto do Ricardo", ela afirmou, sua voz surpreendentemente calma. "É problema meu. E um dia, vou fazê-lo me enxergar. Ele vai me amar."

Eu não a levei a sério na época. Como poderia? Ricardo era meu mundo, e eu era o dele. Seus olhos só me viam, suas mãos só buscavam as minhas. Ele evitava Bianca como a peste, quase enojado por sua adoração agressiva. Eu era tão ingênua, tão certa de que nada poderia ficar entre nós.

Na nossa formatura do ensino médio, ela fez um espetáculo público. Declarou seu amor por Ricardo na frente de todos, uma confissão dramática e chorosa.

Ricardo simplesmente balançou a cabeça. "Bianca, não. Eu só amo a Helena. Meu coração pertence a ela, sempre."

Ela saiu correndo em lágrimas, um caco. Ouvi dizer que ela se mudou para o exterior para fazer faculdade de medicina. Pensei que aquele era o fim dela, o capítulo final de uma rivalidade esquecida. Como eu estava errada.

Sete anos depois, a dor lancinante no meu abdômen me fez dobrar ao meio. Ricardo me levou às pressas para o Grupo Médico Montenegro. Deitada na sala de emergência, desorientada e em agonia, eu a vi novamente. Bianca. Ela era a assistente de Ricardo. Sua presença foi um choque, mas a dor era avassaladora demais para questionar.

Ricardo, com o rosto marcado pela preocupação, segurou minha mão enquanto os médicos explicavam meu diagnóstico. Não era apendicite, como eu suspeitara inicialmente, mas algo muito pior. Um câncer raro e agressivo. Meu mundo desabou. Eu chorei, um som oco e desesperado. O quarto ficou embaçado. Ricardo estava lá, seus braços ao meu redor, sussurrando palavras de conforto.

"Vamos lutar contra isso juntos, Helena. Você vai superar isso. Você tem que superar."

Sua devoção se tornou minha tábua de salvação. Seu toque gentil, seu cuidado incansável, suas promessas intermináveis de que eu melhoraria. Ele pesquisou cada novo tratamento, cada droga experimental. Ele era meu médico, meu marido, meu salvador. E eu, quebrada e aterrorizada, me agarrei a ele.

Foi meses depois, durante um dos meus muitos períodos de "recuperação", que uma pergunta casual escapou.

"Quando a Bianca começou a trabalhar aqui, Ricardo?", perguntei, com uma vaga curiosidade.

Ele hesitou por um instante. "Ah, remanejamento do hospital. Eles precisavam de uma boa assistente, e ela estava disponível." Seu tom era leve demais, quase displicente.

Minha mente, ainda confusa pelos analgésicos e pela névoa constante da doença, arquivou a informação. Mas agora, com a clareza arrepiante da traição, aquele momento ressurgiu. A família de Ricardo era dona do hospital. Ele tinha controle absoluto sobre as contratações. Ele era meticuloso, exigente. Bianca, com seu histórico, não teria simplesmente "aparecido". Ele tinha que ter permitido. Ele tinha que tê-la trazido.

Cada "pequeno procedimento" que ele realizou, cada medicamento cuidadosamente prescrito, cada toque gentil, cada palavra tranquilizadora... tudo fazia parte da encenação. Uma prisão meticulosamente construída de amor e mentiras. Ele me manteve doente, me manteve dependente, tudo enquanto agradava a mulher que sempre o quis.

A percepção me atingiu com uma força física, uma onda de náusea me invadindo. Cinco anos. Cinco anos agonizantes da minha vida, presa nesta decepção monstruosa. Ele não me salvou; ele me quebrou. E eu, tão desesperada por seu amor, o deixei. Ignorei cada sinal de alerta, cada inconsistência sutil, porque acreditava em nosso amor. Eu acreditava nele.

As lágrimas vieram, silenciosas e quentes, mas agora eram diferentes. Não eram lágrimas de desespero, mas de uma raiva fria e incandescente. Eu fui um peão, um brinquedo em seu jogo doentio. Mas não mais. O jogo acabou. E eu ia vencer. Eu ia me libertar.

Minha mão instintivamente foi para o meu estômago, traçando as cicatrizes que cruzavam meu corpo. Cada uma uma mentira, uma traição, uma marca permanente de sua crueldade. Meu corpo, antes vibrante e saudável, fora sistematicamente violado, esculpido e costurado de volta por uma doença fantasma.

A ideia da minha própria apendicite, uma condição simples e tratável, sendo distorcida neste pesadelo elaborado, fez meu sangue gelar. E Ricardo, o cirurgião brilhante, meu marido amoroso, era quem segurava o bisturi, infligindo conscientemente essa dor. A percepção se instalou em meu estômago como um bloco de gelo. Eu precisava agir rápido. Ele pensava que eu ainda era sua esposa obediente e doente. Essa era a minha vantagem.

Eu não era mais a Helena frágil que ele conhecia. Eu era Helena, renascida, forjada nas chamas de sua traição. E eu desmontaria o mundo dele, assim como ele desmontou o meu.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Helena

O silêncio da nossa casa grande e vazia parecia zombar de mim. Era quieto demais, vasto demais para uma pessoa só. Um toque repentino perfurou a quietude opressiva, me fazendo pular. Ricardo. Seu nome brilhou na tela, um lembrete arrepiante da teia de mentiras em que eu ainda estava presa.

"Helena? Você está em casa?" Sua voz, suave e terna, era um paradoxo cruel. Costumava ser minha âncora, minha única salvação no mar tempestuoso da minha suposta doença. Agora, era o canto de uma sereia, me atraindo para a perdição.

"Sim, Ricardo", eu disse, minha voz deliberadamente fraca, um retrato perfeito da esposa frágil que ele esperava.

"Ótimo. Tomou seu remédio? Você sabe como é importante. Não pule, não tente escondê-los." Seu tom era gentil, mas o comando subjacente era claro. Ele estava afirmando seu controle, mesmo à distância.

Meus olhos se desviaram para a mesa de cabeceira, para o frasco âmbar rotulado "Droga Milagrosa Contra o Câncer". Por cinco anos, engoli aquelas pílulas, acreditando que eram minha linha da vida. Agora, eram um símbolo amargo do meu autoengano, da performance cruel que ele havia orquestrado.

Um tremor percorreu meu corpo. Fechei os olhos com força, empurrando para trás a onda de nojo. "Ricardo", sussurrei, deixando minha voz falhar, "eu vou realmente melhorar algum dia? Cinco anos... estou tão cansada dos tratamentos, de me sentir assim."

O receptor estalou levemente, uma pausa momentânea. Então, sua voz voltou, tingida de um pânico súbito e desesperado. "Helena! Não me assuste assim. Você não pode desistir. Eu... eu não posso viver sem você. Você é forte. Lembra? Cinco anos atrás, eles disseram que você só tinha mais três anos. Olhe para você agora. Você desafiou todos eles."

Seu desespero era quase convincente. Quase. Ele estava apavorado de perder sua marionete, sua ilusão cuidadosamente construída.

Ele suavizou o tom, recuando da beira do pânico. "Já estou pesquisando novas terapias, Helena. Experimentais, da Suíça. Você vai vencer isso. Eu prometo. Eu sou o melhor cirurgião de São Paulo, lembra? Estarei com você a cada passo do caminho."

Suas palavras, uma ladainha de promessas vazias e autoengrandecimento, reviraram meu estômago. Ele não estava tentando me salvar; estava tentando me manter. Manter-me nesta gaiola dourada, dependente e grata. Minha garganta se apertou, um soluço silencioso preso no peito. Eu o contive. Ele não merecia minhas lágrimas.

"Ok", eu disse, minha voz mal um sussurro, desprovida de qualquer emoção genuína. "Ok, Ricardo."

Desliguei, o clique ecoando no quarto vazio. Meu olhar caiu sobre uma velha caixa de madeira guardada debaixo da cama, quase esquecida. Ela continha as relíquias do nosso passado, símbolos de um amor em que eu antes acreditava.

Dentro havia trezentas cartas de amor, meticulosamente preservadas. Sua caligrafia, traçando a evolução do nosso relacionamento – dos rabiscos desajeitados de um adolescente aos traços confiantes de um homem maduro. Cada carta, uma declaração. "Minha Helena... meu para sempre... nesta vida, e em todas as outras, prometo ser seu... nunca te trairei."

E então, a última carta. A mais querida, a mais dolorosa. Era sua promessa romântica, assinada e selada pouco antes do nosso casamento. Uma cláusula, ele a chamara, um testamento de sua devoção eterna. Afirmava, em escrita fluida, que se ele algum dia me traísse fundamentalmente, esta carta serviria como um contrato, me concedendo o divórcio imediato e toda a liberdade que eu desejasse. "Aposto minha vida nisso, Helena", ele escrevera. "Considere este meu vínculo inabalável."

Ele há muito esquecera aquelas palavras doces, aqueles votos sinceros. Mas eu não. Eu podia recitar cada palavra, lembrar o calor de sua mão enquanto as escrevia. As memórias, antes preciosas, agora pareciam cacos de vidro, rasgando meu interior.

Ricardo, o garoto que uma vez escalou minha janela só para me trazer flores, o homem que segurou minha mão em cada medo, o marido que me prometeu o para sempre... essa imagem colidiu com o monstro que acabara de confessar ter orquestrado cinco anos de tortura médica. A justaposição era uma dança cruel e agonizante em minha mente. Era uma faca, esculpindo meu coração em pedaços minúsculos e irreparáveis.

Minhas lágrimas haviam secado há muito tempo, substituídas por uma dor surda e latejante. Minhas mãos, ainda trêmulas, alcançaram a velha tesoura ornamentada em minha escrivaninha. Uma por uma, peguei as cartas, cada uma um testamento de um amor que nunca existiu de verdade. Uma por uma, eu as cortei em confete. O papel flutuou até o chão, uma nevasca silenciosa de sonhos desfeitos, cada pedaço um fragmento da nossa história de amor quebrada. Todas, exceto uma. A última carta. O contrato. Sua promessa assinada.

Este documento, antes um símbolo de amor eterno, era agora o projeto da minha liberdade. Ele havia assinado seus próprios papéis de divórcio anos atrás. Ele só não sabia disso.

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