Ponto de Vista: Isabella
Sua testa se franziu daquele jeito que antes parecia cativante, um sinal de seu foco em mim. Agora, parecia apenas uma performance superficial de preocupação.
"Eu sei", eu disse, minha voz cuidadosamente neutra. "Talvez fosse um lote ruim."
"Deveríamos fazer aquela viagem que eu te prometi", ele disse, tentando me apaziguar, suavizar essa pequena ondulação em seu mar doméstico perfeito. "Uma semana em Fernando de Noronha. Só nós dois. Longe de tudo isso." Ele gesticulou vagamente, englobando seus negócios, seu império, o peso esmagador de ser Don Giovanni Moretti.
"Parece bom", eu disse. Era uma mentira, mas minha vida estava se tornando uma tapeçaria delas.
"Vou pedir para a Sofia organizar tudo", ele acrescentou, e a maneira casual como o nome dela saiu de seus lábios foi outra pequena e afiada ferroada.
"Perfeito", eu disse. "Eu também tenho um presente para você. Pelo nosso aniversário. Vou te dar quando voltarmos." A pequena bolsa com o ouro derretido parecia pesada em minha memória.
Ele sorriu, satisfeito que o problema estava resolvido. "Você não esqueceu, então."
"Esqueci o quê?", perguntei, genuinamente confusa.
Seu sorriso vacilou. "Nosso aniversário, Bella."
"Claro que não", eu disse, as palavras parecendo cinzas na minha boca. Eu estava tão consumida pela traição que a data em si havia se tornado sem sentido.
Ele se inclinou para me beijar, mas eu virei a cabeça, oferecendo minha bochecha. Ele parou, um lampejo de irritação em seus olhos, antes de pressionar um beijo seco ali. O cheiro dela era mais forte de perto. Senti minha pele se arrepiar.
Isso tudo era uma peça de teatro agora. Eu era uma atriz nas cenas finais de uma tragédia, e só eu sabia como a cortina iria cair.
Entrei no banheiro e vi. No balcão, ao lado de sua espuma de barbear. Um único e longo cabelo escuro que não era meu. Era um fantasma, um resquício da presença dela em nossa casa, em nossa vida. Meu primeiro instinto foi dar descarga, apagá-lo. Mas eu não fiz.
Discutir com um fantasma era inútil. Minha guerra não era com ela. Era com ele.
Na manhã seguinte, Gio se vestiu para o trabalho, seus movimentos nítidos e eficientes. "Tenho uma reunião cedo do outro lado da cidade", ele disse, ajustando a gravata. "Um possível problema com um de nossos armazéns de transporte. Posso chegar tarde."
Era uma mentira tão transparente. A Família Moretti não tinha "possíveis problemas". Eles os criavam para outras pessoas.
"Tome cuidado", eu disse.
No momento em que o carro dele saiu da garagem, fui ao seu escritório. Ele mantinha um segundo celular, um descartável, no fundo falso de sua caixa de charutos. Ele achava que eu não sabia. Ele achava que eu era apenas um ornamento bonito. Ele me subestimou grosseiramente.
Eu o liguei. A tela se iluminou com uma série de mensagens.
Sofia: A noite passada foi incrível.
Sofia: Mal posso esperar para você largar ela.
Sofia: Você já contou pra ela sobre o bebê?
As palavras se embaralharam. Um bebê. Meu estômago se contorceu num nó tão apertado que pensei que ia vomitar. Eu me inclinei sobre sua mesa de mogno, minhas mãos apoiadas na madeira fria, e respirei fundo, com dificuldade. O ar tinha um gosto amargo. Era o gosto de quinze anos da minha vida se transformando em pó.
Ele chegou em casa naquela noite parecendo satisfeito consigo mesmo, como um homem que apagou um incêndio com sucesso. Meu incêndio. O fogo que estava me consumindo por dentro.
"Tudo resolvido no armazém?", perguntei, minha voz impossivelmente calma.
"Claro", ele disse, jogando o paletó sobre uma cadeira. "Nada que eu não possa resolver."
Lutei para manter meu rosto uma máscara serena, mas meu corpo me traiu. Um tremor começou nas minhas mãos, um tremor violento e incontrolável. Agarrei o balcão da cozinha, meus nós dos dedos ficando brancos.
Ele notou. "Bella? Você está bem? São os frutos do mar de novo?" Ele colocou a mão no meu braço, seu toque uma marca de hipocrisia.
O tremor não parava. Não era tristeza. Era a última parte de Isabella Moretti sendo violentamente expulsa do meu corpo.
Ponto de Vista: Isabella
Eu me afastei de seu toque e me refugiei no jardim de inverno, as paredes de vidro parecendo uma jaula. Eu precisava ficar sozinha, para recompor minha compostura fraturada.
Através do vidro, eu o observei. Ele estava na cozinha, com o telefone no ouvido, sua expressão uma máscara perfeita de preocupação. Ele provavelmente estava ligando para o médico da nossa família, marcando uma visita em casa, fazendo o papel do marido dedicado. A performance era impecável. Ele era o homem mais poderoso da cidade, temido por seus inimigos e reverenciado por seus homens, e ele havia construído seu império com esse tipo de controle, essa habilidade de apresentar uma fachada perfeita para o mundo.
Enquanto eu o observava mentir, uma estranha sensação de clareza me invadiu. O tremor parou. A náusea recuou. O que restou foi uma certeza fria e dura. Eu sabia exatamente o que tinha que fazer.
Voltei para a cozinha. Ele desligou o telefone. "O Dr. Evans está a caminho."
"Não é necessário", eu disse. "Eu sei o que vai me fazer sentir melhor. Deveríamos convidar seus pais para jantar amanhã à noite. Já faz muito tempo."
Ele pareceu surpreso, depois cauteloso. "Jantar? Amanhã? Bella, eu tenho..."
"Você tem planos", completei por ele. "Eu sei. Cancele-os."
Ele mudou o peso do corpo, um lampejo de pânico em seus olhos escuros. Ele estava encurralado. Recusar um jantar em família com seus pais, o antigo Don e sua esposa, seria um insulto. Levantaria questões. Giovanni Moretti não gostava de questões.
"Claro", ele disse, as palavras tensas. "Vou remanejar as coisas. Por você."
Naquela noite, esperei até que ele estivesse dormindo, sua respiração profunda e regular. Saí da cama e voltei ao seu escritório. O laptop dele estava na mesa, em modo de espera. A senha era a data em que nos conhecemos. A ironia era tão espessa que sufocava.
Ele tinha uma pasta oculta. Dentro havia um vídeo.
Eu cliquei para reproduzir. Era Sofia. Ela estava em um quarto que eu não reconheci, usando um dos meus robes de seda, aquele que ele me comprou em Paris. Ela estava mostrando a mão para a câmera, exibindo um anel. Não uma aliança de casamento, mas um anel de compromisso de diamante.
"Em breve, serei a Sra. Moretti", ela disse para a câmera, sua voz escorrendo um triunfo venenoso. "E ela não será nada."
Então, a câmera se moveu, e Gio estava lá. Ele a beijou, um beijo profundo e possessivo que ele costumava me dar. Ele não disse nada. Não precisava.
Eu não senti nada. Nenhuma dor. Nenhum ciúme. Apenas um vazio profundo e arrepiante. Era como assistir a um filme sobre dois estranhos. A mulher na tela, Isabella Moretti, já estava morta. Eu era apenas seu fantasma, esperando o momento certo para desaparecer.
Ele se mexeu durante o sono, procurando por mim no espaço vazio da cama. "Bella", ele murmurou, a voz grossa de sono.
Eu deslizei de volta para debaixo das cobertas, meu corpo frio como mármore. Coloquei a mão em seu braço, um gesto de segurança. Uma mentira.
"Estou aqui", sussurrei na escuridão.
Na manhã seguinte, o celular descartável dele começou a vibrar às 6 da manhã. Estava na mesa de cabeceira, uma peça flagrante de arrogância. Ele resmungou, pegando-o.
"Agora não", ele sussurrou no telefone, a voz rouca de irritação. Ele desligou.
Ele se virou para mim, forçando um sorriso. "Vou fazer o café da manhã para você", ele anunciou, um grande gesto para compensar sua atenção dividida. "Panquecas. Suas favoritas."
Mais tarde, enquanto eu comia mecanicamente as panquecas que ele havia feito, ele disse: "Esta casa é demais para você. Deveríamos contratar uma governanta que more aqui. Alguém para ajudar."
Alguém para me substituir. As palavras pairavam no ar entre nós.
"Não", eu disse, minha voz mais afiada do que eu pretendia. "Esta é a minha casa. Eu cuidarei dela."
Ele me olhou, uma expressão estranha em seu rosto. "Bella, você ainda me ama?"
A pergunta era tão absurda, tão monumentalmente sem noção, que uma risada real quase escapou dos meus lábios. Eu a engoli.
"Claro que sim, Gio", menti, olhando diretamente nos olhos dele. "Não existe eu sem você."
Ele visivelmente relaxou, seu ego afagado. Ele acreditou. Ele realmente acreditava que eu não era nada sem ele.
"Bom", ele disse. Ele se inclinou e beijou minha testa. "Preciso ir. Aquele problema no armazém voltou a aparecer."
Enquanto ele saía, eu chamei seu nome. "Gio?"
Ele se virou.
"Você já consertou aquele vazamento na adega?", perguntei casualmente. Era um compromisso que ele havia feito meses atrás, um que ele havia esquecido completamente.
Um flash de pânico cruzou seu rosto. "Estou cuidando disso", ele disse, um pouco rápido demais, antes de se virar e sair de vez.