Capítulo 2

Eu me lembro de cada sacrifício que fiz por ela, por Sofia.

Para honrar a memória do meu pai, eu reabri sua academia de jiu-jítsu com o pouco dinheiro que tinha, a academia que era o sonho dele, o legado dele.

Eu vivia e respirava aquele lugar, o cheiro do suor no tatame, o som dos corpos se chocando, a disciplina da arte marcial.

E então Sofia apareceu, como uma luz na minha vida cinzenta.

Ela era carismática, cheia de vida, e parecia entender a minha paixão. Foi ideia dela organizar os torneios beneficentes, ela disse que isso ajudaria a academia a ganhar reputação e a honrar o espírito comunitário do meu pai.

Eu acreditei nela.

Eu me afundei em dívidas para fazer acontecer, trabalhei dia e noite, dei tudo de mim. Eu estava apaixonado, cego. Eu pensava que tínhamos construído algo juntos, um futuro, um legado.

Hoje era o grande dia, a final do maior torneio que já tínhamos organizado, a academia estava lotada, a energia era contagiante e eu me sentia no topo do mundo, com ela ao meu lado.

Foi então que o mundo desabou.

Um homem de terno caro, com um sorriso arrogante no rosto, entrou na academia como se fosse o dono do lugar.

Era Ricardo, o dono da maior rede de academias rivais, o homem que construiu seu império sobre as ruínas do sonho do meu pai. O ex-sócio que sumiu com tudo depois que meu pai desapareceu.

Eu o odiava com todas as minhas forças, e Sofia sabia disso.

Mas o que eu não sabia era o porquê de ela sorrir para ele daquele jeito, um sorriso de cumplicidade, de familiaridade.

Ele caminhou até ela, ignorando completamente a minha presença, e colocou a mão no ombro dela.

"Bom trabalho, minha filha. Você o enrolou direitinho."

A voz dele ecoou no silêncio que se formou de repente. "Minha filha". Aquelas duas palavras bateram em mim com a força de um soco no estômago.

Sofia. Filha de Ricardo.

O ar sumiu dos meus pulmões, o barulho da multidão se transformou em um zumbido distante e todos os olhares se viraram para mim. Eu conseguia ver os sussurros, os sorrisos de zombaria se espalhando como fogo.

O campeão, o herdeiro do grande mestre, enganado como uma criança.

"O que... o que ele está dizendo, Sofia?", eu consegui perguntar, a minha voz era um fio, trêmula e fraca.

Eu me virei para ela, buscando em seus olhos qualquer sinal de negação, qualquer faísca de que aquilo era um engano, uma piada de mau gosto.

Mas não havia nada. O rosto que eu amava agora me olhava com um desprezo frio, uma superioridade que me quebrou por dentro.

"Ele está dizendo a verdade, Rafael", ela disse, a voz dela era calma, quase entediada. "Você realmente achou que alguém como eu se interessaria por alguém como você? Por essa academia falida?"

Ela deu uma risadinha, um som que antes me parecia música e que agora era a coisa mais cruel que eu já tinha ouvido.

"Meu pai só queria garantir que o nome da sua família ficasse onde ele pertence, na lama. E você facilitou tudo."

Cada palavra era uma facada. A humilhação queimava no meu rosto, no meu peito, em cada parte do meu corpo. Eu era o palhaço no centro do picadeiro e todos estavam rindo de mim.

Eu olhei para os olhos dela uma última vez, procurando desesperadamente pela garota por quem eu me apaixonei, a garota que me ajudou a pintar as paredes, que cuidou de mim quando eu me machuquei, que prometeu ficar ao meu lado.

Mas ela não estava lá. No lugar dela, havia uma estranha, uma atriz fria e calculista, com os olhos do pai dela. Olhos de quem se diverte com a dor alheia.

Um cartaz do torneio estava pendurado na parede ao meu lado, uma foto nossa, sorrindo, com os braços um ao redor do outro. O símbolo de tudo que eu acreditei ser real.

Com um grito que rasgou a minha garganta, um grito de dor e fúria, eu arranquei o cartaz da parede. Minhas mãos tremiam enquanto eu o rasgava em pedaços, em mil pedacinhos, como ela tinha feito com o meu coração.

O esforço, a dor, a humilhação, tudo veio de uma vez. Minhas pernas cederam. A última coisa que eu vi antes de tudo ficar preto foi o sorriso vitorioso de Ricardo e o olhar indiferente de Sofia enquanto eu caía no chão.

Capítulo 3

Acordei em um quarto de hospital barato, com o cheiro de desinfetante e fracasso no ar.

A humilhação do torneio tinha me custado tudo. A academia, que já estava por um fio, faliu. Os alunos me abandonaram, os patrocinadores sumiram e as dívidas me engoliram.

Perdi o apartamento que ficava em cima da academia. Perdi o legado do meu pai. Perdi a mim mesmo.

Agora, para sobreviver, eu trabalhava como piloto de corrida de rua, um trabalho sujo e perigoso em um clube clandestino para gente rica. Era uma ironia doentia, eu, que sempre lutei com honra no tatame, agora arriscava a vida em rachas ilegais para pagar o aluguel de um quarto mofado.

Às vezes, no meio de uma corrida, com o motor gritando e o cheiro de pneu queimado, eu ria. Ria do idiota que eu fui, do quanto eu me sacrifiquei por uma mentira. O jiu-jítsu ensina a ter controle, a usar a força do oponente contra ele, mas eu simplesmente me deixei ser finalizado sem nem lutar.

Naquela noite, o clube estava mais movimentado que o normal. O cheiro de perfume caro e champanhe se misturava com a fumaça dos cigarros. Eu estava encostado em um canto, esperando a próxima corrida, tentando ser invisível.

E então eu a vi.

Sofia entrou no salão principal, rindo, cercada por um grupo de jovens ricos e barulhentos. O destino, com seu senso de humor cruel, a trouxe até o meu inferno particular.

Ela estava diferente. A garota de roupas simples e sorriso doce que me enganou tinha desaparecido. No lugar dela, havia uma mulher vestida em um vestido de grife que valia mais do que eu ganharia em um ano, com joias brilhando no pescoço e uma aura de arrogância que preenchia o ambiente.

Ela não era a garota simples que se encantou com a minha academia caindo aos pedaços. Ela era uma deles, uma princesa nesse mundo de excessos e superficialidade.

Uma onda de náusea me subiu pela garganta.

Eu me lembrei do nosso primeiro encontro. Eu estava consertando um vazamento no telhado da academia, sujo de graxa e cansado. Ela apareceu na porta, com um moletom simples e um olhar curioso.

Ela disse que estava passando e sentiu uma "boa energia" vindo do lugar. Disse que admirava a minha dedicação.

Que mentira bem contada.

Ela me perguntou sobre o meu pai, ouviu minhas histórias com uma expressão de falsa empatia. Me fez acreditar que entendia a minha dor, a minha luta.

Ela me falou sobre os torneios beneficentes com um brilho nos olhos, dizendo que era a nossa chance de mostrar ao mundo o verdadeiro espírito do jiu-jítsu, o legado do meu pai.

Cada detalhe, cada conversa, cada toque. Tudo tinha sido um roteiro. Uma peça de teatro bem ensaiada para me destruir.

Aquele primeiro encontro não foi um acaso. Aquele interesse súbito não era real. Aquele amor que eu senti, que eu pensei ser a coisa mais pura da minha vida, era apenas uma arma usada contra mim.

Eu a observei do meu canto escuro, rindo com seus amigos, bebendo champanhe, sem nenhuma preocupação no mundo. Para ela, eu era apenas um jogo, uma diversão passageira. E pelo visto, ela já tinha se esquecido completamente do seu brinquedo quebrado.

A raiva e a dor se misturaram dentro de mim, criando um veneno amargo que queimava no meu peito. Eu finalmente entendi. Não havia nada de real. Nunca houve.

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