Capítulo 2

Ponto de Vista de Alessandra:

"Preciso verificar o perímetro norte esta noite", disse Antônio na noite seguinte. Ele estava ajustando suas abotoaduras no espelho, parecendo polido demais para uma patrulha pela floresta lamacenta. "Lobos errantes foram vistos perto da fronteira."

"Tome cuidado", eu disse, entregando-lhe seu café. Eu havia dominado a arte de manter minha mão firme, mesmo quando queria jogar o líquido escaldante em seu rosto.

"Sempre, querida. Não me espere acordada."

Ele beijou minha testa. Parecia uma marca de vergonha.

Assim que sua SUV saiu da garagem, eu não fui para a cama. Fui para a garagem e descobri minha velha motocicleta. Eu não a pilotava há anos, não desde que me tornei a Luna "respeitável".

Vesti um moletom preto e um capacete. Meu cheiro era naturalmente fraco — um efeito colateral da minha condição — mas borrifei um neutralizador de odor por segurança.

Eu o segui. Não para as florestas do norte, mas direto para a cidade.

Ele parou no Hotel Luar da Montanha. Era um estabelecimento boutique de propriedade da alcateia, reservado para membros de alto escalão.

Estacionei a duas quadras de distância e me movi pelas sombras.

Eu não precisei de poderes sobrenaturais para entrar. Eu gerenciava a logística da alcateia. Eu conhecia os horários dos turnos, os pontos cegos nas câmeras que eu mesma paguei para instalar e o código mestre da entrada de serviço.

Cheguei à entrada dos fundos do hotel. Uma porta de serviço. Digitei o código: 0412. O aniversário de Tiago. Antônio era previsível.

Lá dentro, me concentrei. Eu não podia usar a Conexão Mental para encontrá-lo — ele sentiria minha sondagem. Em vez disso, estendi meu vínculo, tentando senti-lo.

Era fraco. Uma estática abafada e maçante. Os Bloqueadores de Vínculo estavam funcionando.

Mas eu ainda podia sentir o cheiro dele. E dela.

Subi as escadas até o andar da cobertura. Minhas pernas queimavam, minha constituição fraca protestando contra o esforço, mas eu continuei.

No final do corredor, quarto 505. Ouvi risadas.

Pressionei meu ouvido contra a porta.

"Para, Antônio!", uma voz feminina riu. "Você vai estragar minha maquiagem."

"Você não precisa de maquiagem, Kátia. Você precisa ser marcada."

Kátia.

O nome me atingiu como um golpe físico. Kátia Sampaio. A psicóloga da escola da alcateia. A mulher que estava "ajudando" meu filho Tiago com sua ansiedade pré-transformação nos últimos seis meses.

Peguei meu celular, deslizei-o pela fresta na parte inferior da porta e ativei a câmera.

O ângulo era baixo, mas claro.

Eles entraram no enquadramento. Antônio estava sem camisa. Kátia usava um robe de seda que definitivamente não pertencia a ela.

Ela se virou, e eu vi.

Na junção de seu pescoço e ombro, a pele estava em carne viva e vermelha. Uma marca de mordida fresca.

Uma Marcação.

Na cultura dos lobos, uma mordida no pescoço é uma reivindicação. Diz a todos os outros machos: "Ela é minha". Um Alfa não pode Marcar duas fêmeas. Ao Marcá-la, ele estava efetivamente sobrepondo nosso vínculo. Ele estava declarando nosso casamento nulo aos olhos da biologia, se não da lei.

Kátia estendeu a mão e traçou a mordida, sorrindo com desdém. Ela se inclinou e mordiscou a mandíbula de Antônio.

"Ela suspeita?", perguntou Kátia.

"Alessandra?", Antônio riu, um som cruel e desdenhoso. "Ela não suspeita de nada. Está ocupada demais assando biscoitos e tirando o pó dos móveis. Ela é... domesticada. Fraca."

"E o Tiago?"

"O Tiago está do nosso lado", disse Antônio.

Quase deixei o celular cair.

"Ele acha você o máximo", continuou Antônio. "Ele me disse ontem que gostaria que você fosse a mãe dele. Diz que a Alessandra é constrangedora. Uma Luna sem cheiro de loba? Ele a chama de um defeito."

O corredor pareceu inclinar.

Meu filho. Meu menino. O menino por quem eu sacrifiquei minha própria alma para salvar.

Ele sabia. Ele não estava sendo aliciado. Ele era um cúmplice.

Lágrimas arderam em meus olhos, quentes e picantes. Mas não as deixei cair. Eu não podia. Se eu desmoronasse agora, eles me ouviriam.

Puxei o celular de volta com cuidado. Salvei o vídeo.

Eu tinha a prova do caso. Eu tinha a prova da Marcação.

Virei-me para sair, mas meu pé roçou em um vaso decorativo no corredor. Ele balançou.

Eu o segurei pouco antes de atingir o chão, mas a cerâmica raspou na parede. *Scrrrtch*.

"Você ouviu isso?", a voz de Kátia era aguda.

"Provavelmente o serviço de quarto", resmungou Antônio.

Eu não esperei. Movi-me com o silêncio praticado de uma mulher que passou duas décadas tentando não ser notada. Deslizei para a escadaria no momento em que a porta se abriu com um clique.

"Olá?", a voz de Antônio ecoou.

Eu já estava dois andares abaixo, meu coração batendo um ritmo de guerra.

Eles achavam que eu era fraca. Eles achavam que eu era um defeito.

Toquei meu peito, sentindo a cicatriz irregular sob minha blusa.

Eles estavam prestes a descobrir exatamente para onde minha força tinha ido.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Alessandra:

Antônio chegou em casa às 3 da manhã.

Eu estava na cama, fingindo dormir. Controlei minha respiração, mantendo-a lenta e rítmica.

Ele deslizou para a cama ao meu lado. Ele fedia a sabonete, mas por baixo disso, o cheiro metálico da excitação de Kátia ainda se agarrava à sua pele.

Então, senti uma picada no meu braço.

Eu não me mexi. Deixei que ele me injetasse.

Era uma microdose de Feromônios Calmantes. Alfas usam para acalmar membros da alcateia angustiados, mas em altas doses, torna o receptor dócil, confuso e submisso. Ele estava me drogando para me manter controlável.

A piada era com ele. Meu metabolismo queimava sedativos quatro vezes mais rápido que um lobo normal. Era uma característica da minha linhagem — a linhagem da qual ele não sabia nada.

Esperei até que sua respiração se aprofundasse em sono. Então, saí da cama.

Eu precisava saber a extensão da podridão. Eu precisava ouvir de Tiago.

Fui sorrateiramente pelo corredor até o quarto do meu filho. A porta estava entreaberta. A luz azul de um monitor de jogos se derramava no corredor.

Ele estava em uma chamada de vídeo.

"É, o pai acabou de chegar", disse Tiago, rindo. Ele estava usando seu headset, girando em sua cadeira.

"Ele contou pra ela?", uma voz feminina. Kátia.

"De jeito nenhum", zombou Tiago. "A mamãe ia surtar. Ela é tão emotiva. É patético."

Eu fiquei nas sombras do batente da porta, minha mão agarrando a madeira com tanta força que deixei marcas.

"Ela só... ela não tem perfil de Luna, Kátia", continuou Tiago, sua voz cheia de arrogância adolescente. "Uma Luna deveria ser forte. Feroz. A mamãe é só... uma humana na pele de uma loba. Tenho vergonha de apresentá-la aos meus amigos."

"Não se preocupe, querido", Kátia arrulhou pelos alto-falantes. "Depois do Baile, as coisas vão mudar. Seu pai prometeu."

"Mal posso esperar", disse Tiago. "Imagina ter uma Luna que realmente fica bem em um vestido. Que tem poder. Você vai me ajudar a treinar para a minha transformação, né? A mamãe não pode me ensinar nada. Ela nem usa a loba dela."

Meus joelhos cederam. Deslizei pela parede, lágrimas silenciosas escorrendo pelo meu rosto.

Não era apenas que ele a preferia. Era o desprezo. A total falta de respeito pela mulher que havia enxugado suas lágrimas, curado seus arranhões e ficado acordada com ele em todas as febres.

Ele media o valor unicamente pelo poder. Pela agressão.

Ele era exatamente como o pai.

Arrastei-me até o banheiro, trancando a porta atrás de mim. Inclinei-me sobre o vaso sanitário e tive ânsia de vômito. A dor no meu peito era insuportável. Parecia que o tecido da cicatriz ao redor do meu coração estava se rasgando.

*Nos deixe sair.*

A voz na minha cabeça estava mais alta desta vez. Mais clara.

Olhei no espelho.

Meu reflexo estava pálido, com olheiras escuras sob os olhos. Mas meus olhos...

Normalmente, eram de um suave tom de avelã. Agora, eles estavam piscando. Uma prata brilhante e iridescente.

Minha Loba Interior estava arranhando a superfície.

*Eles nos traíram, Alessandra*, ela rosnou. *O companheiro. O filhote. Eles nos jogaram fora.*

"Eu sei", sussurrei para o espelho.

*Nós não choramos por traidores*, ela sibilou. *Nós os caçamos.*

Uma batida na porta me fez pular.

"Alessandra?", a voz de Antônio. "Você está bem aí? Ouvi um barulho."

Fechei os olhos. Forcei a prata a recuar. Empurrei a loba para baixo, trancando-a atrás das grades mentais que eu havia construído anos atrás.

"Só uma dor de estômago", gritei, minha voz tremendo apenas um pouco. "Volte a dormir."

"Vê se melhora até sábado", disse ele através da porta. "O Baile é obrigatório. Preciso de você lá para sorrir e acenar. Os Anciões estão observando."

"Eu estarei lá", eu disse.

Abri meus olhos. Eles eram avelã novamente, mas frios. Gelados.

"Eu não perderia por nada neste mundo", sussurrei.

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