LIANNE
Na manhã seguinte, a luz do sol invadia meu quarto pelas janelas que iam do chão ao teto.
Apesar da dor incessante nas minhas costelas quebradas, passei uma camada grossa de corretivo no meu rosto pálido antes de vestir um terninho elegante e bem cortado.
Ethan não era apenas o Alfa da Matilha Thorn, mas também o CEO do Grupo Voss, e eu era sua secretária executiva.
Para todos na empresa, eu era a pessoa em quem ele mais confiava — uma secretária calma, competente e eficiente, que resolvia qualquer problema sem hesitação.
No entanto, apenas alguns da matilha sabiam que eu era sua companheira.
Eu sabia que Ethan odiava que eu tivesse perdido minha loba, e era por isso que ele nunca assumia nosso vínculo em público.
Eu já havia esperado em silêncio por muito tempo, na esperança de que um dia ele me aceitasse abertamente, mas agora, nada disso importava mais.
Ao entrar no prédio da empresa, fui direto para o departamento de Recursos Humanos e coloquei minha carta de demissão sobre a mesa da gerente, que, incrédula, ajeitou os óculos.
"Está se demitindo? Lianne, você é a pessoa em quem o senhor Voss mais confia. A empresa desmoronaria sem você. O senhor Voss sabe disso?"
"Ele não vai se importar. Vou concluir o processo de transição nos próximos dias, e nada na empresa será afetado", respondi calmamente, mantendo o sorriso profissional que eu usava no trabalho todos os dias.
A gerente parecia querer dizer mais, mas no fim só suspirou e assinou a carta de demissão.
Depois de sair do escritório dela, parei no corredor para respirar fundo, mas uma dor aguda se espalhou de repente pelo meu peito, lembrando-me de que os ferimentos do acidente de carro eram muito piores do que pareciam.
Quando eu estava prestes a voltar para minha mesa, vozes baixas surgiram da sala de descanso próxima.
"Você soube? A mulher que o Alfa ama voltou."
"Está falando de Ivy? Não é à toa que o Alfa gastou tanto no leilão. Ele pagou 50 milhões pelo colar 'Lágrimas de Pedra da Lua'."
"Sério? Esse é o colar que representa a devoção eterna. Ele mesmo a trata como uma rainha."
Ao ouvir isso, parei de andar.
Lágrimas de Pedra da Lua...
Três anos atrás, no dia em que Ethan e eu nos tornamos companheiros, vi esse colar numa revista. Diziam que o cristal brilhava em azul sob a luz da lua, um presente abençoado pela Deusa da Lua para companheiros destinados.
Naquela época, apontei para a foto timidamente e sussurrei para Ethan: "É lindo."
Sem sequer olhar para a foto por mais de um segundo, ele respondeu casualmente: "Esse colar é para lobas que passaram pela cerimônia oficial de Luna. Você nem tem uma loba, Lianne. Se você usasse, a matilha só reclamaria. Pare de complicar as coisas para mim."
Agora, a verdade me atingiu: nunca se tratou das tradições da matilha, mas sim do fato de que eu simplesmente não era digna o suficiente aos seus olhos.
"Lianne, este documento precisa da assinatura do Alfa imediatamente. Pode levá-lo para mim?" Uma secretária júnior se aproximou apressadamente, me tirando dos meus pensamentos.
Peguei o documento, embora meus dedos estivessem ligeiramente trêmulos.
Em seguida, fui até o escritório do CEO e abri a porta, mas no momento em que entrei, a cena diante de mim me deixou paralisada.
Ethan estava sentado atrás da sua grande mesa, enquanto Ivy repousava casualmente na beirada ao lado dele, vestindo um impecável vestido de seda que a fazia parecer tão frágil que parecia prestes a se quebrar.
A frieza nos olhos de Ethan havia desaparecido completamente, e ele permitiu que ela envolvesse os braços em volta do seu pescoço, sem se afastar quando ela se inclinou para beijar sua bochecha.
De repente, o documento escapou dos meus dedos entorpecidos, e os papéis se espalharam pelo chão com um ruído seco, como se meu coração tivesse se despedaçado junto com eles.
Nesse momento, os dois olharam para mim. A ternura no rosto de Ethan desapareceu instantaneamente, substituída pela expressão gélida que eu conhecia muito bem.
A irritação cintilava nos seus olhos quando ele disse bruscamente: "Não sabe bater na porta antes de entrar?"
Ivy pulou da mesa rapidamente, fingindo estar assustada com a situação. Então, ela se aproximou de mim e pegou minha mão, como se estivesse tentando me confortar. "Lianne, por favor, não entenda mal. Só estou muito feliz hoje. Ethan me deu um presente incrível."
Seus dedos apertaram os meus enquanto ela inclinava a cabeça para exibir o colar em seu pescoço, cuja enorme pedra da lua brilhava tão intensamente sob a luz do sol que entrava pelas janelas que quase doía olhar.
"É lindo, não é?", ela perguntou com um sorriso doce, mas a provocação nos seus olhos era dirigida apenas a mim. "Ethan me disse que sou a única digna desse símbolo de devoção eterna."
Uma dor aguda se contorceu no meu peito — uma dor surda e brutal, como uma faca cega me perfurando.
Mesmo assim, me forcei a permanecer de pé e até consegui abrir um sorriso firme. "É lindo. Fica perfeito em você."
Agachei-me lentamente, a dor percorrendo minhas costelas enquanto eu juntava os papéis espalhados.
Após organizá-los cuidadosamente, os coloquei sobre a mesa de Ethan, dizendo: "Alfa, este documento precisa da sua assinatura."
Minha compostura pareceu desconcertar Ethan, e um traço de desconforto cruzou seu rosto enquanto ele me observava me virar em direção à porta.
Então, num tom quase constrangido, ele falou para se explicar: "Ivy acabou de voltar para a matilha. O colar foi apenas um presente de boas-vindas. Não pense demais sobre isso."
"Tudo bem", respondi com um aceno de cabeça, sem dizer mais nada antes de sair sem olhar para trás.
À noite, voltei para casa e comecei a arrumar minhas coisas em silêncio.
Tudo na casa tinha traços da vida que Ethan e eu havíamos compartilhado. Agora, tudo isso parecia um lembrete cruel de como eu havia sido tola.
Dobrei minhas roupas cuidadosamente e as coloquei na mala uma a uma. Quanto às joias caras que Ethan havia me dado ao longo dos anos, deixei todas para trás, pois só queria levar as coisas que realmente me pertenciam.
No momento em que fechei a mala, passos apressados ecoaram atrás de mim.
Então, a voz de Ethan ecoou em pânico: "Lianne! O que pensa que está fazendo?"
LIANNE
Eu não esperava que Ethan voltasse tão cedo, e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele atravessou o quarto em algumas passadas rápidas e agarrou meu pulso, impedindo-me de fechar a mala, seu aperto forte o bastante para machucar, Então ele pareceu perceber algo ao me encarar, e uma raiva escura agitou-se em seus olhos. "Já não expliquei que o colar era apenas um presente para celebrar a volta de Ivy? E agora está fazendo as malas para me ameaçar? Lianne, você não é mais criança. Você é a Luna desta matilha. Comece a agir como uma."
Olhei para seu rosto familiar, bonito como sempre, mas completamente desprovido de calor, e um profundo sentimento de amargura cresceu silenciosamente dentro de mim.
Não importava o que acontecesse, ele sempre tratava minha dor como uma tentativa imatura de chamar atenção.
Mas eu não queria discutir com ele, principalmente porque não podia deixar que ele descobrisse a Rejeição.
"Não estou te ameaçando", eu disse, baixando os olhos. "O armário está muito cheio, só isso. Pensei em tirar algumas roupas para abrir espaço. Às vezes, coisas antigas precisam dar lugar às novas."
Ethan me encarou por um longo momento, como se tentasse decidir se eu estava mentindo, mas meu rosto permanecia calmo, sem a mágoa e o ressentimento que ele esperava encontrar.
Aos poucos, a tensão em seu rosto diminuiu, e ele disse: "Ótimo. Fico feliz que você entenda."
"Ethan?" Uma voz suave soou na porta.
Ergui o olhar num sobressalto e deparei-me com Ivy parada na porta, vestindo uma camisola de seda fina e com uma jaqueta masculina jogada displicentemente sobre os ombros, da qual emanava o cheiro de Ethan.
Ela apoiou-se no batente, e seu rosto pálido a fazendo parecer uma flor branca e frágil, prestes a desabar.
"O que ela está fazendo aqui?" As palavras escaparam antes que eu pudesse impedi-las, e uma dor aguda perfurou meu peito.
"Ivy vai ficar aqui por um tempo", disse Ethan, que caminhou até Ivy e passou o braço pelos ombros dela com a naturalidade de quem já fizera isso incontáveis vezes. "Alguns dos fãs dela têm ultrapassado os limites ultimamente. Eles até descobriram o endereço dela. Não é mais seguro para ela. Até que encontre um lugar adequado, ficar aqui é a melhor opção."
Então ele olhou para mim, com um aviso claro nos olhos. "Trate-a bem. Não quero que as pessoas espalhem rumores de que a Luna da Matilha Thorn está intimidando outra integrante da matilha. Entendido?"
Eu encarei os dois juntos — como tudo isso era inacreditável! Meu companheiro trazendo outra mulher para nossa casa? Ele até esperava que eu a recebesse com um sorriso?
"Tudo bem", respondi com um sorriso amargo. "Vou garantir que ela seja bem cuidada."
Os empregados se moveram rapidamente depois disso, limpando e arrumando o quarto ao lado do meu para Ivy, que nada mais era do que o berçário que Ethan e eu tínhamos planejado para nosso futuro filho.
Ethan fez questão de ficar com ela enquanto os empregados arrumavam tudo, chegando ao ponto de pedir que trocassem a essência do difusor por lavanda, a fragrância preferida de Ivy.
As risadas vindas do quarto ao lado arranhavam meus nervos como uma lâmina em carne viva, rasgando ainda mais fundo um coração que já se desfazia em pedaços.
Tarde da noite, forcei meu corpo exausto a entrar no banheiro. A água quente escorria pelo meu corpo, mas calor nenhum era capaz de afastar o frio enterrado no fundo do meu peito.
Levantei os olhos para o espelho e vi meu rosto pálido e abatido e os hematomas do acidente se espalhando pelo meu peito.
Nesse instante, as lágrimas que eu vinha segurando finalmente caíram.
Apenas mais seis dias — se eu conseguisse aguentar mais seis dias, tudo acabaria.
Vesti uma camisola de seda simples e saí do banheiro, em meio ao vapor que ainda pairava no ar.
Com a visão turva, não percebi que havia alguém no quarto.
De repente, escorreguei no piso e meu corpo pendeu para trás, mas, em vez de ir ao chão, caí em um abraço firme e ardente.
Ethan travou um braço em minha cintura e, com a outra mão amparando minha nuca, puxou-me com força contra o peito, envolvendo-me no mesmo instante em seu forte cheiro de cedro, sua marca registrada.
"Nem consegue mais ficar de pé sozinha?" Sua voz saiu baixa e rouca perto do meu ouvido.
"Me solta", insisti, tentando me firmar. "Você não deveria estar com Ivy agora?"
Seus olhos escureceram imediatamente. Em vez de me soltar, ele me puxou com mais força para si.
Seus dedos deslizaram lentamente pelo meu cabelo úmido antes de se acomodarem na nuca, exatamente sobre a glândula sensível que todo lobisomem protegia instintivamente.
"Lianne, eu sou seu companheiro", ele murmurou contra minha pele, e seu hálito quente roçou minha clavícula, enviando um arrepio por todo o meu corpo. "Ontem foi nosso aniversário. Eu disse que ia compensar você."
Sua mão moveu-se lentamente pela minha pele, as pontas dos dedos ásperos roçando de leve e deixando um rastro de calor por onde passavam.
Três anos de casamento o haviam ensinado todas as minhas fraquezas, e ele sabia exatamente como derrubar minhas defesas.
"Não..."
Meu protesto foi engolido por seu beijo possessivo e punitivo.
Não havia gentileza em seus beijos, que eram ferozes e possessivos, cheios de uma fome que parecia mais uma reivindicação do que afeto.
Ele me beijou com tanta força que roubou o ar dos meus pulmões, como se quisesse apagar todos os pensamentos da minha mente, exceto ele.
No instante seguinte, ele me empurrou para a cama, seu corpo pressionando pesado contra o meu.
No nosso embate, as alças da camisola de seda escorregaram dos meus ombros, expondo a pele nua sob a luz fraca.
O desejo queimava abertamente nos olhos de Ethan, cujos lábios desceram lentamente pelo meu pescoço, deixando marcas quentes ao longo da clavícula.
"Ethan..." Um som trêmulo escapou da minha garganta, enquanto meus dedos apertavam seus ombros com força, cravando as unhas nos músculos duros sob a camisa.
Por esse breve momento, deixei-me afundar na ilusão que ele criava, buscando desesperadamente o calor que ele tão raramente me dava, mesmo sabendo que não era real.
Sua mão deslizou por baixo da barra da minha camisola e seu toque queimou minha pele.
Justo quando ele ia mais longe, um grito aterrorizado soou de repente do quarto de Ivy ao lado.
"Ethan, me ajude!"