De volta à jaula dourada que Heitor chamava de nosso lar, eu me movia como um fantasma. Fui direto para o quarto principal, para o closet maior que meu antigo apartamento. Ignorei as araras de roupas de grife e as joias que ele me comprou.
Fui até um pequeno baú de madeira no canto.
Dentro estavam as coisas dele. O jeans surrado que ele usava enquanto consertava canos vazando. A camiseta desbotada que ele vestia no dia em que me beijou pela primeira vez. Um cachecol de tricô barato que comprei para ele no nosso primeiro inverno juntos.
As relíquias do homem que eu amei. O homem que estava morto.
Juntei tudo em meus braços, o tecido áspero um toque fantasma contra minha pele. Levei-os para a grande lareira de mármore na sala de estar. Um por um, joguei-os dentro.
Risquei um fósforo e observei o passado virar cinzas.
O cheiro de fumaça e lã queimada encheu o ar.
"Que cheiro é esse?", a voz de Heitor cortou o silêncio. Ele desceu as escadas, amarrando seu roupão de seda.
Eu não me virei. "Só estou me livrando de algumas coisas velhas."
Ele veio por trás de mim, suas mãos pousando em meus ombros. "Boa menina. Bagunça não fica bem." Ele acreditou em mim, tão facilmente. Ele me via como simples, previsível. Ele não tinha ideia do que estava queimando dentro de mim.
Ele me virou, seu aperto firme. "Venha. Jasmim está esperando."
Ele me arrastou para a ala oeste, para o ateliê que construiu para ela. Ela estava lá, enxugando os olhos com um lenço de papel, um vaso de porcelana quebrado no chão ao lado dela.
"Aline foi tão cruel, Heitor", ela fungou. "Ela disse que minha arte era lixo. Ela quebrou o vaso que você me deu."
"Peça desculpas a ela", Heitor ordenou, sua voz seca.
Eu o encarei. "Eu nem estava aqui. Eu estava..."
"Peça desculpas."
Eu me recusei. Apenas o encarei, meu silêncio uma rebelião que ele não suportava.
Seu rosto escureceu, mas assim que ele estava prestes a explodir, seu telefone tocou. Um negócio de milhões de dólares o chamava. Ele me lançou um olhar que prometia retaliação antes de sair para atender a ligação.
Jasmim largou o teatro imediatamente. Suas lágrimas desapareceram. Ela caminhou em minha direção, seus olhos brilhando. "Sabe, esse colar que você está usando é adorável."
Era um medalhão de prata simples. O primeiro presente que Heitor me deu, comprado com o pagamento de uma semana em um canteiro de obras. Guardava uma foto minúscula e desbotada de nós dois, sorrindo em frente à minha lanchonete.
"Não é para você", eu disse, minha voz fria.
"Tudo que é seu será meu, eventualmente", ela ronronou, seus olhos fixos nele. "Eu não entendo o que ele vê em uma garçonete sem graça como você."
"Talvez ele veja alguém que não é uma parasita sem coração", respondi.
"Você é a vela aqui, Aline. Você só não percebeu ainda."
Eu não disse nada. Eu sabia o meu lugar. Eu era a esposa. Ela era a amante. Em seu mundo distorcido, isso significava que eu era propriedade, e ela era um brinquedo. Era uma distinção sem sentido.
A paciência dela se esgotou. Ela se lançou sobre mim, suas unhas arranhando meu pescoço, tentando pegar o medalhão.
Eu a empurrei para trás instintivamente. A corrente delicada se partiu. O medalhão voou da minha mão, atingiu o chão de mármore e se quebrou.
A força do meu empurrão fez Jasmim tropeçar para trás. Ela caiu sobre um banquinho, soltando um grito agudo ao cair, seu tornozelo torcendo em um ângulo antinatural.
Por um momento, fiquei paralisada. Então, a visão do meu medalhão quebrado, a única peça do meu passado que me restava, enviou uma onda de pura agonia através de mim. Caí de joelhos, juntando os pequenos pedaços retorcidos de prata. A foto dentro estava rasgada.
"O que está acontecendo?", Heitor invadiu a sala, sua ligação terminada.
Jasmim imediatamente começou a chorar. "Heitor! Ela me atacou! Ela quebrou o próprio colar e depois me empurrou! Olhe para o meu tornozelo!"
Ele viu Jasmim no chão, chorando. Ele viu seu tornozelo inchado. Ele me viu ajoelhada em meio aos pedaços quebrados do medalhão.
Seu rosto se tornou uma nuvem de tempestade.
"Eu te disse para não machucá-la", ele sibilou, sua voz perigosamente baixa. "Eu te disse para ser boa."
"Não fui eu", sussurrei, minha voz rouca. "Ela tentou pegá-lo."
"Chega!", ele rugiu, agarrando meu braço e me levantando. "Estou tão cansado das suas mentiras. Tão cansado de você não me ouvir."
Ele me arrastou para fora do ateliê, por um longo corredor até a ala do spa da mansão.
"Você precisa aprender o seu lugar, Aline. Você precisa aprender as regras."
Ele me empurrou para a sauna a vapor, o pequeno espaço de azulejos já cheio de um calor sufocante. A pesada porta de vidro se fechou, a trava clicando no lugar.
"Você vai ficar aí até estar pronta para admitir que estava errada", ele disse através do vidro, seu rosto distorcido pelo vapor.
Bati na porta, minhas palmas ardendo. "Heitor, por favor! Não faça isso!"
Ele apenas ficou lá, observando.
O calor foi instantâneo, opressivo. Roubou o ar dos meus pulmões. O suor escorria pelo meu corpo. Chamei seu nome, minha voz falhando.
"Heitor... por favor..."
Deslizei pela parede de azulejos, minha cabeça girando. Através do vidro embaçado, pensei nele, o outro Heitor, aquele que me abraçaria quando eu estivesse com frio, que teria ficado horrorizado com isso. A ironia era uma dor física, uma queimação no peito que era pior que o vapor.
O mundo começou a escurecer nas bordas. Meu corpo estava desistindo.
Assim que eu estava prestes a perder a consciência, a porta se abriu.
O ar frio entrou, um alívio chocante.
Heitor estava sobre mim, uma silhueta escura contra a luz. "Aprendeu a lição? Você admite que estava errada?"
Eu estava fraca demais para lutar. Só consegui assentir, um movimento patético e espasmódico.
"Eu... sinto muito", ofeguei.
Um brilho de satisfação cruzou seu rosto. "Bom. Viu como é fácil?"
Ele estalou os dedos para uma empregada que pairava nervosamente por perto. "Dê um jeito nela. Leve-a para o meu quarto."
No dia seguinte, Heitor agiu como se nada tivesse acontecido. Esse era o seu padrão. Crueldade, depois um afeto enjoativo.
"Tenho uma surpresa para você", ele disse durante o café da manhã, sorrindo como se não tivesse tentado me cozinhar viva doze horas antes.
Ele me levou às compras. Não a uma loja, mas a uma ala de luxo inteira de uma loja de departamentos que ele alugou para a tarde.
"O que você quiser, Aline. É seu."
Andei pelos corredores vazios, um fantasma em um museu de excessos. Parei por um segundo a mais em frente a uma pulseira de diamantes. Antes que eu pudesse seguir em frente, ele a comprou.
"Você só precisa ser uma boa menina, Aline", ele disse, prendendo-a em meu pulso. Os diamantes pareciam algemas. "Seja obediente, e eu lhe darei o mundo."
Eu queria gritar que não queria o mundo dele. Queria correr, desaparecer, mas sabia o que aconteceria. Lembrei-me da gasolina e do rosto aterrorizado da minha mãe. Então, fiquei em silêncio.
Quando estávamos saindo, vi uma multidão reunida na praça principal do shopping. Flashes disparavam. As pessoas gritavam.
Meu coração parou. Eu sabia, de alguma forma, que isso me envolvia.
Abri caminho pela multidão e a vi.
Jasmim.
Ela estava no chão, seu vestido de grife rasgado, revelando seu sutiã e calcinha. Seu rosto estava machucado, seu cabelo uma bagunça. Ela parecia totalmente devastada, uma vítima.
O rosto de Heitor se transformou em pedra. Ele empurrou as pessoas, correndo até ela.
"O que aconteceu?", ele exigiu da multidão.
Sussurros irromperam. "Foi a esposa dele! A ciumenta!"
"Eu a vi contratar aqueles homens para fazer isso!", outra voz se intrometeu. "Ela sempre odiou Jasmim Neves."
"Que mulher cruel, se escondendo atrás daquela cara de inocente."
As palavras me atingiram como golpes físicos. Fiquei paralisada, o sangue sumindo do meu rosto. Eu não tinha feito nada. Estive com Heitor o tempo todo. Como eles poderiam pensar...
Heitor arrancou o paletó, cobrindo o corpo exposto de Jasmim. Ele a embalou em seus braços, sua expressão uma mistura de fúria e preocupação.
"Está tudo bem", ele murmurou para ela, sua voz gentil de um jeito que nunca mais foi comigo. "Estou aqui. Vou fazê-los pagar."
Ela soluçou em seu peito. "Aline... ela me avisou... eu não achei que ela realmente faria isso..."
Heitor levantou a cabeça e seus olhos encontraram os meus através da multidão. Eles não questionavam. Estavam cheios de uma acusação fria e dura.
Ele não precisava de provas. Não precisava de um único fato. Em sua mente, eu já era culpada.
Ele levou Jasmim embora, gritando ordens para sua segurança dispersar a multidão e lidar com os "paparazzi".
Ele me deixou lá, sozinha, em um mar de olhos julgadores e dedos apontados.
Fiquei ali, a pulseira de diamantes em meu pulso parecendo mais pesada que uma bola de ferro. Ele nem mesmo perguntou. Ele nem mesmo me procurou. Ele apenas me deixou para os lobos.
Na manhã seguinte, estava em toda parte.
Meu rosto estava estampado em todos os sites de fofoca, em todos os tabloides. "Esposa Traída de Bilionário se Vinga Brutalmente da Rival."
Mas isso não era o pior.
Os artigos estavam cheios de fotos. Não apenas do incidente de ontem, mas outras fotos. Fotos íntimas. Fotos minhas de lingerie, fotos minhas na cama. Fotos que Heitor havia tirado, momentos que eu pensei serem privados, compartilhados entre marido e mulher.
As manchetes gritavam. "Garçonete com Passado Ardiloso: Veja as Fotos que Aline Moraes Usou para Fisgar um Bilionário!"
A história que eles contaram era que eu era uma interesseira promíscua e manipuladora. Que eu tinha um histórico de seduzir homens. As fotos eram a "prova".
Senti o mundo girar em seu eixo.