Capítulo 2

O pesadelo era sempre o mesmo.

Um beco escuro em Coimbra, o cheiro a terra molhada e a álcool barato. Mãos a agarrarem-me, risos cruéis a ecoarem nos meus ouvidos. A dor.

Acordei a suar, o coração a bater descontroladamente no peito.

A primeira coisa que senti foi o frio do metal à volta do meu tornozelo. A corrente estava presa à base de uma cama moderna e minimalista, um contraste gritante com as paredes de pedra da velha quinta.

O meu corpo ainda tremia. As marcas roxas nos meus pulsos eram uma recordação constante de onde eu estava. Prisioneira.

A porta abriu-se sem fazer barulho.

Diogo entrou, um sorriso gentil nos lábios. Trazia um tabuleiro com o pequeno-almoço: pão fresco, fruta e um copo de sumo. O cheiro fez-me o estômago revirar.

"Bom dia, meu amor. Dormiste bem?"

A sua voz era suave, preocupada. Se não fosse pela corrente, qualquer um acreditaria que ele era um namorado atencioso.

Ele pousou o tabuleiro na mesa de cabeceira e sentou-se na beira da cama, a sua mão a afastar uma madeixa de cabelo do meu rosto. Recuei instintivamente.

O seu sorriso vacilou por um segundo.

"Não tenhas medo de mim, Lia. Eu só quero cuidar de ti."

As suas palavras eram veneno doce.

"Porque estás a fazer isto, Diogo?" a minha voz saiu rouca, um sussurro.

Ele suspirou, como se estivesse desapontado com a minha pergunta.

"Porque me deixaste. Porque me humilhaste."

A confusão era um nevoeiro denso na minha mente. A memória do nosso reencontro há duas semanas era um borrão de terror.

Eu estava a trabalhar na restauração dos azulejos de uma capela antiga no Porto. Ele apareceu, charmoso como sempre, o herdeiro do império do Vinho do Porto. Falou do nosso tempo na universidade, de como sentia a minha falta.

Por um momento, acreditei nele. Senti uma ponta daquela antiga felicidade.

Fui estúpida.

Ele convidou-me para jantar. Quando entrei no carro dele, as portas trancaram-se. O sorriso dele desapareceu, substituído por uma máscara de fúria fria.

"Vamos para casa, Lia. Para a nossa casa."

E agora, aqui estava eu.

"Diogo, por favor," implorei, as lágrimas a começarem a escorrer pelo meu rosto. "Deixa-me ir. Eu juro que desapareço. Eu perdoo-te por isto. Só me deixa ir."

Ele olhou para mim, os seus olhos escuros a brilharem com uma intensidade que me assustava.

"Perdoas-me?" ele riu, um som sem alegria. "És tu que precisas do meu perdão. Mas não te preocupes. Eu vou ensinar-te a amar-me outra vez."

Capítulo 3

A sua resposta atingiu-me com a força de um soco.

"Nunca!" gritei, a minha voz a quebrar-se. "Eu nunca mais te vou amar!"

A fúria explodiu no rosto de Diogo. Ele levantou-se de um salto, o tabuleiro do pequeno-almoço voou contra a parede, espalhando comida e cacos de loiça pelo chão.

"Tu pertences-me, Lia! Percebes? Em vida ou na morte, serás sempre minha!"

O seu grito ecoou nas paredes de pedra. Ele aproximou-se de mim, o seu corpo tenso de raiva. Encolhi-me na cama, puxando a corrente o mais que podia.

Ele agarrou-me pelos ombros, os seus dedos a cravarem-se na minha pele.

"Tu vais aprender a tua lição," sibilou ele, o seu rosto a centímetros do meu.

O som da porta a abrir-se novamente interrompeu-o.

Uma jovem, com os mesmos olhos escuros e arrogantes de Diogo, entrou no quarto. Era Catarina, a sua irmã mais nova.

Ela olhou para mim com desprezo.

"Diogo, o que é que esta vagabunda ainda está a fazer aqui a gritar? Pensei que já a tinhas posto no seu lugar."

Diogo largou-me, a sua raiva a diminuir ligeiramente na presença da irmã.

"Catarina, não é altura para isso."

"Não é altura?" ela riu-se, um som agudo e desagradável. "Por causa dela, tu estás a sofrer. Ela destruiu-te. Ela merece tudo o que lhe acontecer."

Catarina caminhou até mim. O seu olhar era frio e cruel.

"Tu és a culpada por tudo isto," disse ela, a sua voz baixa e ameaçadora. "Destruíste o meu irmão. E agora, vais pagar."

Antes que eu pudesse reagir, a sua mão voou e esbofeteou-me com força. A minha cabeça estalou para o lado, a bochecha a arder.

A dor, a humilhação, o medo. Tudo se misturou numa onda avassaladora. O mundo à minha volta começou a escurecer.

A última coisa que ouvi foi a voz de Catarina, cheia de ódio.

"Isto é só o começo."

Depois, tudo ficou preto.

Acordei com o cheiro a antisséptico. Estava num quarto de clínica, a luz suave a entrar pela janela. A minha cabeça doía.

Olhei para o lado. Diogo estava a dormir numa poltrona ao lado da minha cama, a sua cabeça encostada para trás, a sua expressão exausta. Por um momento, parecia vulnerável. Quase o mesmo rapaz por quem me apaixonei em Coimbra.

Uma pontada de algo que se assemelhava a pena atravessou-me, mas desapareceu tão depressa como veio. Este homem era o meu carcereiro. O meu monstro.

A porta abriu-se e o meu coração gelou.

Três figuras entraram. Reconheci-os imediatamente.

Nuno e Ricardo, os primos de Diogo. E um terceiro homem, o cúmplice deles.

Os meus agressores.

Eles sorriam, um ar de superioridade nos seus rostos. O pânico subiu pela minha garganta, a sufocar-me.

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