Capítulo 2

— Consegui minha aptidão. — Chelsea disse sem a

menor empolgação.

Eu lhe mostro a minha, insatisfeita.

— Vejo que você também não está nada feliz. —

comentou.

— A Mag fica feliz com isso, mas eu não consigo ficar

contente com algo tão ridículo. Não somos mercadorias.

Como mal toquei no café da manhã, estou me sentindo

um pouco fraca, com uma pequena fraqueza nas pernas.

— Você parece muito mais pálida do que o normal.

— Não me alimentei bem.

— Conheço você. Está com medo de ser escolhida por

algum homem. — Não consigo esconder minha

insatisfação em meu olhar. — Vamos para o nosso quarto!

Eu consegui algo delicioso para comermos: uma barra de

chocolate.

Nós parecemos duas crianças correndo felizes pelos

corredores, como se ninguém pudesse reclamar conosco.

Por sorte, não está muito lotado por onde passamos. Eu e

ela rimos alto enquanto corremos, pois chocolate move

nossas vidas. Quando conseguimos roubar alguma coisa

doce, é como uma festa para nós.

Estamos passando próximas à sala da diretoria,

quando ouço a voz da senhora Cloe me chamar. Paro

imediatamente. Com certeza tomarei bronca porque estava

correndo. Além disso, meu cabelo deve estar muito

bagunçado.

— Laiza Nayara! — seu tom de voz foi sério.

Ouvindo passos atrás de mim e o barulho dos seus

saltos altos, sinto calafrios. Chelsea também está

assustada, com uma expressão horrível, como se tivesse

visto um fantasma. Ela é covarde, e só não me abandonou

porque eu a segurei pelo braço.

— Laiza e Chelsea! — esbravejou.

— Olá, senhora Cloe. Como vai? — minha amiga

perguntou sem jeito.

Ela continua séria, sem esboçar nenhuma reação

diante da situação.

— O que fazem pelos corredores feito duas loucas sem

educação alguma? Não viram que estamos com visita?

Não havia prestado muita atenção na face do homem

de terno preto e postura alta que está na minha frente.

— Perdão! Prometo que isso não irá se repetir. — falei.

— Acredito que sim, Laiza.

— Madame, quem é o homem que não tira os olhos da

Iza? — Se tem algo que Chelsea sabe fazer como

ninguém, é ser inconveniente.

Mas ela tem razão: o homem não tira os olhos de mim.

É muito bonito, atraente, e algo nele me causa calafrios de

um jeito que nunca havia sentido antes.

Dou uma cotovelada na ruiva, que sorri, disfarçando a

dor.

— Aquele senhor é um grande empresário. Não

conheço seus motivos para ter vindo aqui, mas não devo

satisfação a vocês, meninas. Vão para o quarto e se

comportem!

— Sim, madame! — Chelsea e eu respondemos ao

mesmo tempo.

Como ela parece bastante chateada, não iremos

desobedecê-la. Não queremos sofrer nenhuma punição. A

mulher ainda olha para o papel em nossas mãos, feliz por

nós e um pouco... Não sei descrever seus sentimentos, por

sempre tentar não demonstrar muitas emoções.

— Vejo que as duas estão aptas para amanhã à noite.

Quero que estejam lindas e perfumadas! Principalmente

você, Laiza. — Quase sorri. Nunca havia lhe visto assim

antes.

Saímos caminhando em passos lentos e calmos, sem

fazer barulho algum. Ao fechar a porta do nosso quarto,

deparo-me com uma Chelsea divertida e, ao mesmo

tempo, chateada.

— “Principalmente você, Laiza”. — imitou a madame.

— Ela nem sabe disfarçar que você é a preferida dela.

— Não tem essa de preferida. Isso é coisa da sua

imaginação.

— Você sabe que ela sempre está te protegendo e

nunca te deixa faltar nada. Além disso, é a única que tem

permissão para ir até a sala dela sem ser chamada. É

bonito ver que a diretora nutre sentimentos por você. —

Sorri. — Tem sorte por ter a proteção dela. — Coloca uma

mão sobre meu ombro.

— E você tem a minha proteção. Sei que isso não é lá

essas coisas todas, mas nunca irei permitir que alguém te

faça mal.

— Promete para mim que nunca iremos nos separar?

— Seremos amigas e irmãs para sempre.

Nós dividimos a barra de chocolate que ela conseguiu

roubar da cozinha hoje mais cedo. Definitivamente, essa é

a melhor coisa que o homem já inventou. É saboroso e dá

aquela sensação de prazer inexplicável. Não me importo se

ficarei com dor de barriga ou se ganharei algumas gramas,

pois só penso em comer a barra inteira.

— Tenho até medo da madame resolver vim ao nosso

quarto para ter certeza de que não estamos correndo por

aí. — confessei.

— Ela não virá agora. Está falando com o bonitão que

não tirava os olhos de você.

— Tem certeza que ele estava olhando para mim, em

vez de ser para você ou para a senhora Cloe?

— Claro que sim. Olhava para você assim. — Faz uma

imitação.

Ela é tão ótima nisso. Eu rolo de rir quando imita a

madame e o Rodolfo. Além de fazer umas caretas

engracadas, suas sarnas são o efeito especial de tudo.

Agora, está fazendo uma expressão boba, com os

olhos arregalados e a boca aberta de uma maneira

exagerada. Tenho certeza que aquele homem não estava

me olhando dessa forma.

— Sua boba! — Sorrio sem jeito.

— Iza, será que ele veio aqui atrás de você?

— De mim?

— Isso se você não for escolhida no leilão de amanhã.

E se ele estiver lá?

— Provavelmente, não. — Dou de ombros. Faço isso

quando estou nervosa. — Não se preocupe! Ninguém vai

olhar para mim.

— Como não? Você é linda! Tudo bem que eu sou

desprovida de beleza, mas você é a garota mais bonita

daqui. É por isso que a Mag morre de inveja de você.

— Chelsea!

— Se o bonitão te comprar... Ai, meu Deus! E se ele te

comprar, Iza? Ele é lindo! — Está empolgada.

— Falando assim, até parece que deseja que eu vá

embora.

— Claro que não. Você não pode me abandonar,

nunca.

— Eu preciso tomar um pouco de ar.

Costumo ficar ansiosa quando minha menstruação está

perto de chegar e me sinto mais sensível. Às vezes sinto

cólicas leves.

(...)

À noite, durante o jantar, Rodolfo sobe ao palco para

fazer um comunicado.

— Boa noite, vadias! — Não perde uma oportunidade

de falar isso. — Quero aproveitar para dizer que todas

devem dormir cedo para estarem descansadas amanhã à

noite. Durante o dia, irão provar lingeries sexies e essas

coisas básicas de mulheres. Eu tenho aqui, em mãos, o

nome de cinco garotas que serão selecionadas para uma

avaliação especial. Um comprador anônimo analisou todas

vocês virtualmente, por fotos, e escolheram as cinco. Irão

fazer mais algumas fotos amanhã, para ele poder escolher

uma para ser dele. — Começa a chamar o nome das

garotas. Elas se levantam da mesa e caminham até ele.

— Aposto que foi o bonitão de hoje cedo. — Chelsea

opinou baixinho.

— Por último e não menos importante, Laiza Nayara.

Meu corpo congelou quando ele falou o meu nome.

Estou completamente estática e sem reação alguma.

— Iza! Vá lá, antes que o Rodolfo venha buscar você!

— Eu...

— Você vai voltar. Somos inseparáveis.

Caminho até onde ele está com as demais garotas.

Encontro-me em estado de choque. O que será de mim?

A vista daqui de cima é fora do comum e parece que

todas olham para mim neste momento.

Rodolfo dá mais alguns avisos e, por fim, diz que

devemos segui-los. As meninas estão atentas e algumas

parecem felizes por terem sido escolhidas.

Respiro fundo para não acabar desmaiando e sinto

medo do que pode acontecer.

Não sei dizer o que é pior: ter que ir ao leilão ou

precisar fazer as fotos para um cliente as analisar. Tudo

que eu sei é que não quero me separar de Chelsea.

Capítulo Dois

A PORTA DE madeira se abre, fazendo um barulho um

pouco desagradável. Fones de ouvidos seriam bem-vindos

nesse exato momento.

Nós entramos em uma sala, encontrando um lugar

amplo e elegante. Eu nunca tinha vindo aqui antes, porque,

pelo que me lembro, repetiram para nós inúmeras vezes

que essa área era proibida.

Rodolfo nos manda sentar. Aqui tem um sofá, algumas

poltronas de couro no centro e uma grande mesa de

escritório no canto, além dos muitos quadros, dos vasos

sofisticados e do tapete que cobre quase todo o chão.

Não demora muito e a senhora Cloe entra na sala,

elegante como sempre. Ela caminha até a cadeira de

escritório e se senta.

— Bem-vindas, meninas, à ala proibida! Creio que

estejam bastante curiosas para saberem o porquê de terem

sido chamadas aqui.

— Muito, senhora Cloe. Eu fiquei um tanto surpresa

com essa convocação. Espero ser últil para alguma coisa.

— uma das garotas disse, muito empolgada.

— Não se preocupe! Logo irei revelar o motivo. Mas

antes, quero dizer que vocês cinco foram selecionadas por

serem as mais bonitas, segundo um cliente muito

importante para nós.

— E quem seria esse tal cliente? — a mesma garota

perguntou, ainda mais empolgada.

— Isso é o de menos, menina. Vocês irão fazer uma

sessão de fotos que serão enviadas a ele, que irá escolher

uma de vocês para ser sua esposa.

Todas comemoram a possibilidade, menos eu. É claro

que eu sonho em me casar e poder formar uma família,

mas na situação em que vivo, casar com um desconhecido

após ele me comprar como se eu fosse uma mercadoria,

não me parece nada romântico. Porém, tenho certeza de

que não serei escolhida. As meninas que estão ao meu

lado são muito bonitas, então, se o tal homem tiver que

escolher alguém, será alguma delas. Para a minha sorte,

não serei eu.

— Todas são lindas e cada uma tem sua beleza. O

cliente gostou muito das cinco, então espero que se

comportem bem para que ele possa analisá-las e perceber

o quanto são ainda mais bonitas do que aparentam.

— Ouviram bem, vadias? Essa é uma ótima

oportunidade de vazarem daqui. — Rodolfo disse sério. —

Agora, prestem atenção: se alguém abrir a boca para falar

qualquer coisa que seja, sofrerá as consequências. E não

pensem que teremos pena de vocês! Porque não teremos.

— Ele me olha de uma maneira estranha, como se seu

olhar gritasse algo muito ruim para mim. Até sinto um

calafrio com sua aproximação. — Pode até parecer sorte,

mas não será. — Sorri diabolicamente.

Se isso foi alguma espécie de aviso, não entendi bem o

que ele falou. Na maioria das vezes, gosta de nos causar

medo.

— E, sobre o leilão de amanhã? Eu fui apta a ir. — a

garota questionou.

— Nenhuma de vocês irá participar e ficarão em seus

quartos. — a madame avisou séria. — Agora, saiam daqui

e relaxem bem para as fotos de amanhã!

— Só mais uma pergunta, madame: o tal cliente virá

conversar conosco?

— Provavelmente, não. Ele é um homem muito

ocupado. As fotos serão enviadas para ele as analisar e

escolher uma de vocês para ser sua esposa.

Nós começamos a sair da sala, quando ouço a voz

dela novamente.

— Laiza! — Viro-me. — Fique! Quero conversar com

você.

— Sim, senhora Cloe.

— Sente-se! O Rodolfo já está de saída. — Olha para

ele, que sorri de um jeito maldoso e se retira, fechando a

porta.

Eu me sento, como ela pediu, e fico a esperando se

pronunciar. Ela termina de organizar alguns papéis em

cima da mesa e vem até o sofá, caminhando lentamente,

senta-se e cruza as pernas com elegância.

— Postura, Laiza Nayara! — ordenou.

Eu tenho estado meio desengonçada nos últimos dias,

mas ela jamais permite que eu perca a postura, já que não

admite que eu esteja feia ou algo do tipo. Devo estar

perfeita o tempo todo, diante de seus olhos.

— Diga-me: o que está achando de tudo isso? —

perguntou curiosa.

— Eu não sei o que dizer. — Ela me conhece muito

bem, portanto sabe que estou mentindo. Por isso, resolvo

lhe dizer a verdade sobre meus pensamentos. — Estou

assustada.

— Por que, minha querida?

— Eu tenho medo de sair daqui, pois não conheço o

mundo lá fora. E a Chelsea...

— Quanto a isso, querida, é apenas um detalhe. Se for

escolhida... E eu sei que será... Poderá ter uma família,

como sempre desejou. Por acaso, esse não é o seu maior

sonho?

— É sim, madame, mas ainda tenho bastante medo.

— Você é linda, Laiza Nayara, e uma menina

encantadora. Quando o cliente bateu os olhos em você,

não pensou duas vezes antes de escolhê-la.

Diferentemente das demais meninas, as quais ele precisou

olhar um pouco mais. Tenho certeza que será escolhida, e

farei o possível para que isso aconteça.

— Obrigada por se importar comigo!

— Sabe que tenho um carinho muito especial por você.

Se sair dessa academia, quero que tenha um futuro

brilhante e muito feliz.

— Obrigada, madame!

Em seguida, vou descansar em meu quarto.

Assim que Chelsea volta do jantar, eu lhe conto tudo

que aconteceu. Não sei descrever sua reação, porque ao

mesmo tempo que ela está demonstrando medo,

demonstra felicidade. É um misto de emoções em uma

única face.

Se a conheço bem, ela está com medo de que eu

possa ser escolhida. Assim, não restaria mais argumentos:

eu deixaria este lugar e ficaria longe dela de uma vez por

todas. E sua felicidade é por saber que poderei, finalmente,

ter a chance de realizar meu sonho de formar uma família e

ter filhos incríveis.

— Isso significa que irei perder você? — Uma lágrima

brota do seu rosto angelical. Ela é a imagem perfeita de um

anjo.

— Você não me perdeu. Eu ainda estou aqui e nem sei

se serei escolhida.

— Eu vi as demais meninas, Iza. Elas nem chegam aos

seus pés.

— Não vamos pensar em separação agora. Eu tenho

certeza que não serei escolhida. — Sinto uma grande

necessidade de abraçá-la.

Ela me retribui um abraço singelo e cheio de

sentimentos amorosos. Nós temos uma conexão

inexplicável e sempre sabemos o momento certo de nos

abraçar.

A noite se torna longa para mim. Viro-me de um lado a

outro da cama, sentindo-me nervosa. Não consigo

controlar minha ansiedade. O que esperar de amanhã?

Capítulo 3

(...)

Pela manhã, vou com as demais meninas para uma

sessão de fotos. Algo que faz eu me sentir horrível, já que

a maioria delas é feita conosco usando roupas íntimas.

Mesmo que o fotógrafo seja bastante profissional, fico

desconfortável.

— Que tal mais algumas fotos? — Rodolfo sugeriu

malicioso.

— Não precisa. — A madame, sempre que pode,

intervém por mim. — Pode ir se trocar, Laiza Nayara. — Os

dois ficam conversando.

Obedecendo sua ordem, troco-me em uma sala ao

lado. Já vesti meu uniforme e estou amarrando meu cabelo

com uma presilha. É quando ouço passos atrás de mim.

Virando-me rapidamente, deparo-me com Rodolfo.

— Algum problema?

— Sobre as fotos... — Aproxima-se cada vez mais de

mim.

— O que têm as fotos? Preciso refazê-las? — Imagino

que por eu ter me sentido um pouco desconfortável, elas

não ficaram boas.

— Acho que sim. — Olha para trás, para a porta

entreaberta. — Que tal se eu fechar a porta e atuar como

fotógrafo? Você pode pousar para mim?

— Creio que isso não será necessário, Rodolfo.

— Quem diz isso sou eu, menina. — afirmou raivoso.

— Você cresceu, Laiza, e ficou muito gostosa. Putz! Nem

parece mais aquela menina que vivia chorando por tudo.

Tornou-se uma bela mulher.

— Obrigada pelo elogio! Agora, preciso ir.

Tento passar por ele, mas sou segurada pelo braço.

Ele o aperta com muita força, como se desejasse arrancá-

lo. Encaro seus olhos, sabendo o que isso quer dizer. Seu

olhar é de luxúria sobre mim, devorando-me como se eu

fosse um pedaço de carne. Há alguns dias venho notando

esses olhares.

— Aonde você pensa que vai, menina? Mandei ficar.

— O que você quer comigo? — Sinto medo dele tentar

fazer alguma coisa contra mim.

— Calma, menina! Não precisa gaguejar. Eu só quero

fazer com você umas coisinhas que desejo há muito

tempo.

Meu Deus!

— Q-quais c-coisinhas?

— Não pense em gritar! Senão, não irei responder por

mim. — Mantém seu olhar malicioso sobre meu corpo.

Eu sempre convivi com tudo isso, então não é

nenhuma novidade para mim receber olhares como esse.

Contudo, homem nenhum jamais tentou tocar em mim,

como ele está tentando. Sua mão desce pela minha coxa,

fazendo-me querer gritar. Mas ele coloca a mão sobre

minha boca, impossibilitando-me de pedir ajuda.

— Eu falei para não gritar, vadia.

Meus olhos se enchem de lágrimas. Quero sair daqui.

Seus toques me causam nojo e repugnância. Ele é um

homem de meia-idade, sua aparência não é uma das

melhores e seu mau hálito me deixa com uma enorme

vontade de vomitar todo o meu café da manhã.

Até perdi o movimento das pernas, pois o medo me

paralisou. É sempre assim.

— Rodolfo, por favor, deixe-me ir!

— Se você não fosse exclusivamente do senhor

Campbell, nós iríamos ter um longo dia juntos, docinho.

Agora, saia daqui, antes que eu mude de ideia!

Saio correndo o mais rápido que posso, sem saber

dizer se foi sorte eu ter conseguido sair ilesa dele. Sinto

calafrios ao fechar os olhos e o imaginar me tocando.

O que mais me assustou, foi ele ter afirmado que eu

pertenço a um homem. Como pode ter tanta certeza disso?

Essa dúvida me deixa completamente intrigada.

Capítulo Três

APÓS SAIR praticamente correndo da sala, onde

estava presa com o Rodolfo, sinto que meu coração está

prestes a sair pela boca. A minha pulsação acelerada me

dá uma vasta sensação de que vou desmaiar. Só de

imaginar que quase fui violentada por aquele ser medíocre

que não sabe respeitar nem a própria mãe... Se bem que

um ser repugnante como esse, não merece ter uma mãe.

Ele me dá nojo. Tudo aqui me causa nojo.

Pensando bem, até que não seria tão ruim ir embora

daqui para sempre. Se, pelo menos, eu pudesse levar a

Chelsea comigo, poderíamos reconstruir nossas vidas

longe desse lugar sufocante e aprisionante.

— Suas fotos devem ter ficado o máximo. Você fica

bonita em qualquer situação. Não é mesmo, Iza? —

Estamos sentados em um banco, no jardim. — Aconteceu

alguma coisa? — perguntou preocupada.

— Não. Estou bem.

Suas mãos tocam em minha face, erguendo meu olhar

até o seu. Seu semblante é o de alguém assustada. Ela é

só uma garotinha insegura.

— Estou com medo. — confessou o óbvio. — O leilão

de hoje à noite está me fazendo sentir calafrios.

— Pense comigo! Imagine se um bom homem comprar

você e estiver disposto a te dar uma vida boa! Em alguns

anos, poderemos nos encontrar em alguma festa.

— A madame falou que irei ajudar a servir.

— Ela está fazendo isso para te proteger.

— Sou grata a ela por isso, mas, ainda assim, não

gostei da sua ideia. Não quero me separar de você, nunca.

— Bufa irritada. — Se a gente conseguisse fugir daqui e ir

até a polícia pelo menos, poderíamos ter uma vida melhor.

Essa possibilidade é praticamente impossível. É por

isso que não penso em tentar fugir daqui. Isso significa

morrer.

— Eu ouvi bem, meninas? As princesas querem deixar

a torre para sempre? — Mag apareceu do nada, dando um

pequeno susto na gente.

Olho para minha amiga e lhe peço calma. Ela odeia

essa garota em todos os sentidos, mas não podemos

perder a calma com ela neste momento tão delicado.

Mag é uma adolescente quase comum e, assim como

a gente, foi criada presa, por trás das muralhas, sem

escolha. Não julgo seu comportamento rebelde e maldoso,

porque, talvez, se não estivéssemos nessa nossa

realidade, ela poderia ser boa.

— Vocês sabem que isso é impossível, suas idiotas.

Vejam o tamanho destes muros e toda a segurança! —

Tem razão. — Eu poderia contar ao Rodolfo ou à madame

tudo que vocês conversaram aqui, mas não estou a fim.

— O que você ganha com tudo isso, Mag? —

perguntei.

— Ver vocês preocupadas e tristes é a minha maior

satisfação.

— É bom ficar de boca fechada, menina. Não quero

discutir com você. — Chelsea já está chateada.

— Hoje pode ser a última vez que estou olhando para

as caras e roupas de vocês, porque há a chance de eu ser

a mais nova milionária do país. E vocês ainda vão

continuar aqui, mofando, pois ninguém vai querer comprar

as duas meninas mais feias de todo o “orfanato”.

— Vaze daqui, garota! — a ruiva mandou.

Ela está prestes a se levantar para ir, mas eu a seguro.

— Mag, nós te ajudamos com o exame de urina. Será

que pode ficar e fingir que não nos ouviu conversando

besteiras?

— Vou pensar no caso de vocês. Beijos, vadias! — Sai

rebolando sua bela bunda. Ela adora falar sobre suas

qualidades.

Garota mais irritante do que essa, está para nascer.

Odeio a maneira como ela gosta de manipular as pessoas

à sua volta, sempre tentando ser superior, como se

humilhar o próximo fosse seu maior objetivo.

— Da próxima vez, eu juro que... — Chelsea começou

a falar.

— Não jure nada, amiga! Vamos para a nossa aula!

— Só você mesmo para chamar aquilo de aula. Odeio

ter que ver aquelas pessoas ensinando sobre sexo para

nós. Se eu pudesse, mataria todos eles.

— Você não vai matar ninguém. Agora, vamos!

— Você não sabe, Iza, mas eu sei que um belo

príncipe virá me salvar daqui um dia.

(...)

O vestido que Chelsea usará hoje à noite, no leilão,

está pendurado sobre o cabide. É um lindo em tom de

vinho, perfeito para ela. Não sei o motivo, mas estou

preocupada por saber que ela estará sozinha nessa festa,

sem mim. A minha amiga tem a cabeça quente, portanto

temo que faça alguma besteira. Mesmo que vá somente

servir algumas bebidas, tenho medo de que se envolva em

confusão.

— Prometa para mim que não vai perder a cabeça

hoje!

Ela cruza os braços e sorri.

— Se eu morrer, prometo proteger você para sempre.

Vou ser aquele tipo de fantasma que vai assustar todo

mundo que tentar te fazer algum mal.

— Você é maluca.

A noite logo cai e ela começa a se arrumar, assim

como a maioria das meninas. Ainda lhe ajudo com a

maquiagem, porque sei fazer umas das melhores daqui.

Algumas garotas me procuram para as maquiar quase

sempre. Como somos muitas, às vezes as maquiadoras

disponíveis não conseguem dar conta do serviço.

Um segurança vem buscar minha amiga. Quando a

levam, sinto a necessidade de abraçá-la e começo a

chorar. Tenho uma sensação horrível em meu peito de que

ela não vai voltar, nunca mais. Mas essa pode ser uma

reação normal da minha mente, por causa da pressão

envolvendo toda essa situação. É apenas nervosismo.

Espero que seja.

Deito em minha cama e, depois de chorar horrores,

finalmente adormeço.

(...)

Acordo, sentindo mãos quentes tocarem em mim. O

que está me machucando para dedéu.

O quarto está escuro, mas posso ver Rodolfo sentado

na beira da cama, com uma mão em minha coxa. Não faço

ideia de quanto tempo faz que ele já está aqui.

Tudo que quero fazer é gritar, mas quem irá me ouvir?

— Rodolfo? O que você está fazendo aqui? —

Levanto-me da cama em um pulo e ascendo a luz. É

mesmo ele.

— Estou fazendo a ronda, menina. — respondeu

cinicamente.

— Por que insiste em me tocar? Sabe que não pode

fazer isso. Estou sendo negociada para um cliente e...

— Calma, menina! Não vou tirar sua virgindade à força,

porque sei o tanto que ela vale para nossos bolsos. Mas

não me custa nada ficar observando você no meio das

noites. — Então, hoje não foi a primeira vez? Meu Deus!

Esse homem está obcecado por mim. — Não precisa ficar

nervosa. Já estou indo para o leilão. Espero que fique feliz

pela sua amiga, porque ela está valendo muito para o

nosso mercado. Mesmo sendo tão jovem, chamou a

atenção de um grande empresário. — informou, divertindo-

se.

Se ele queria me perturbar, conseguiu roubar todo o

meu sono.

Eu o vejo sair do quarto e, em seguida, arrasto uma

poltrona até a porta. Como se isso fosse impedir a entrada

dele caso queira vir aqui novamente! O cara é louco.

O que ele disse da minha amiga, é mesmo verdade?

Chelsea foi à festa para servir, não para ser vendida.

Certamente, falou isso para me deixar pensativa. Não

posso passar a noite inteira imaginando a possibilidade de

não a ter comigo amanhã de manhã. Como irei dormir

agora? Só quero chorar.

Não consigo pregar os olhos, literalmente, depois

daquele asqueroso ter falado aquelas besteiras. Seus

assédios estão ficando sérios, então penso que talvez seja

melhor comunicar sobre eles à senhora Cloe. Ele está

ficando incontrolável. Como pôde vir ao meu quarto no

meio da noite e me tocar daquela maneira? Isso não é

certo. Ninguém daqui tem autorização alguma para tocar

em alguma de nós.

Como não tenho noção da confusão que isso poderia

causar, fico com um pé atrás todas as vezes que penso em

ir até a sala da madame.

O dia logo amanhece, e nada de Chelsea voltar. Isso

está me deixando aflita. Não quero perder minha amiga

assim, sem ao menos ter uma chance de me despedir dela

e dizer o quanto a amo.

Encontro-me com algumas das selecionadas e

ninguém sabe me dizer como ela está. Aflição e

nervosismo me tomam neste momento. Como isso pode

estar acontecendo?

Estou prestes a ir até a sala da diretora para perguntar

pela minha amiga, quando a vejo chegar gritando e

correndo na minha direção, feito uma louca. Na verdade,

ela é muito maluquinha. Vou matá-la por ter me dado um

susto.

Retribuo seu abraço e tento lhe dizer algo, mas ela me

interrompe, falando de uma maneira ofegante.

— Não sabe dos babados que aconteceram ontem à

noite. — questionou de maneira divertida. — Venha

comigo! Vamos para o jardim!

— Não podemos. Tenho aula agora.

Eu amo o seu jeito maluquinho. Seu jeito Chelsea de

ser é único. A minha irmã é doidinha, porém não sei mais

viver sem suas travessuras.

Vou para a aula de Conhecimentos Gerais. Dessa vez,

não é uma sobre sexo. Durante a semana, ensinam para

nós essa matéria e Matemática, duas ou três vezes.

Precisamos ter conhecimento para alguma coisa nesta

vida.

Isso parece que nunca terá fim, só que conto cada

segundo para acabar. Estou curiosa para saber o que a

ruivinha descobriu de tão emocionante. Aposto que não é

nada demais, que ela apenas quer me dizer besteiras e

fofocas, mas me remexo de curiosidade para saber o que

é.

Quando a aula acaba, recolho meus cadernos e livros,

encontro-me com ela no corredor e corremos em direção

ao banheiro, entusiasmadas com a tal revelação.

Ela entra em uma cabine e a fecha. É muito

maluquinha.

Encaro minha face no espelho, notando que estou um

pouco abatida. Mas não é nada que um pouco de pó

compacto não resolva. Também estou com algumas

espinhas quase no ponto de espremer. Normal para uma

adolescente como eu.

De repente, ouço um barulho horrível de alguém

vomitando como se estivesse colocando as tripas para

fora. O som é tão feio, que chego a pensar que Chelsea

está morrendo.

Preocupada, bato na cabine em que ela está e a peço

para abrir a porta imediatamente.

— Chelsea! Está tudo bem?

Ela sai da cabine parecendo super bem, sem nenhuma

expressão de dor ou algo do tipo. Se não foi ela, quem foi?

Não imaginei nada disso, pois não sou louca e sei o que

ouvi

— Pensei que você estava passando mal. — dissemos

ao mesmo tempo, ficando surpresas uma com a outra.

Algo de errado está acontecendo neste banheiro.

Eu estranho e ela franze o cenho.

— Se não foi você, muito menos eu, quem foi? —

questionou.

— Não sei.

Ouvimos o barulho novamente, vindo da cabine ao lado

de onde Chelsea estava. Realmente, acho que alguém

está morrendo ali dentro. A pessoa parece estar passando

muito mal.

Olhamos uma para outra, preocupadas com o que

pode estar acontecendo.

— Calma! — falei baixo.

Bato na porta e posso notar que ela está aberta.

Depois de empurrá-la, tomo um susto ao ver a Mag. Ela

está sentada no chão, pálida como a neve. Há vômito seu

espalhado por todo chão e muito sangue. O odor é forte.

— Meu Deus! Ela está morrendo! — afirmei nervosa.

— Vou chamar alguém para ajudar. — Chelsea falou.

— Não! — a voz dela saiu por um fio. Está chorando

por causa da dor. — Pelo amor de Deus! Eles vão me

matar.

Vendo-a caída no chão, sangrando e vomitando, posso

perceber do que se trata. Não posso acreditar que ela foi

capaz de cometer tal ato, sabendo das consequências.

— Vou chamar alguém. — Chelsea insistiu.

Eu a seguro pelo braço e ela me olha sem entender.

Está tão preocupada quanto eu.

— Não! — pedi firmemente.

Sua inocência é algo lindo de ver. Ela não entendeu o

que está acontecendo.

Estou um pouco surpresa, porque não havia percebido

nenhuma alteração no corpo da Mag, nenhuma grama a

mais. Ela estava grávida e acabou de cometer o pior erro.

Ainda colocou sua vida em risco.

— Por que não?

— Ela está abortando. — Estou petrificada. — Mag

está abortando o filho.

Chelsea a olha horrorizada.

Não temos o que fazer, pois mesmo sentindo bastante

dor, ela não nos deixa chamar ninguém. E tem razão,

porque se alguém a ver, irá matá-la por ter engravidado.

Não penso em outra coisa além da dúvida: quem era o pai

dessa criança? Ela não tem juízo algum. Como pôde se

entregar a um homem sem se cuidar?

— Vá buscar água para ela tomar e não fale nada a

ninguém! — pedi.

Ela sai correndo e eu me aproximo mais da Mag,

encarando seu rosto pálido e suado.

— Não me denuncie, Laiza! — implorou.

Como ela é capaz de pensar algo assim de mim? Eu

jamais lhe faria algum mal. Sei dos riscos que estou

correndo por ajudá-la, mas, ainda assim, não irei deixá-la

morrer sozinha neste banheiro fedido.

— Eu nunca iria te prejudicar, Mag.

— Mas... deveria fazer isso. Eu te humilhei durante

anos e você está me ajudando. Essa é sua chance de

ferrar comigo.

— Não fale muito! De quanto tempo você estava

grávida?

— Quatro semanas, eu acho.

— Por que fez isso?

— Não foi minha culpa. Eu não queria. Fui violentada.

Fico em choque com sua revelação. Como assim? Aqui

dentro, alguém teve a audácia de violentar uma virgem?

Ela faz parte do grupo das virgens, das conservadas.

— Por que não comunicou à senhora Cloe?

— Nem todas têm proteção, como você. Acha que

iriam acreditar em mim?

— Quem te fez isso?

— Não importa. Só não me deixe morrer sozinha!

— Segure a minha mão, por favor!

E ela faz isso firmemente.

Eu nunca a vi assim, tão frágil e amedrontada. Ela

sempre foi alguém de personalidade forte, de postura

ereta, e rígida com todos; estava sempre me humilhando.

Veja como o mundo dá voltas! Agora me encontro a

ajudando.

Ela desfalece algumas vezes e demora a voltar. Em um

momento, até pensei que morreu, porque passou quase

uma hora desmaiada.

Chelsea também traz álcool e remédios para dor.

Damos bastante pílulas para ela beber.

Não me importo com todo o sangue, que já sujou boa

parte da minha saia, pois quero apenas ajudá-la. Até faço

uma oração para ela não morrer e peço para que tudo dê

certo.

Eu poderia abandoná-la aqui, entretanto não sou capaz

de deixar ninguém na mão, muito menos alguém que já foi

minha melhor amiga no passado.

— Tem certeza que ninguém te viu? — perguntei.

— Absoluta. Passe mais álcool no nariz dela!

Faço isso e vejo Mag despertar novamente. Parece

estar recuperando suas forças.

— Como se sente?

— Eu quero comer.

— Você é maluca. Onde conseguiu as drogas? —

Chelsea questionou irritada.

Eu olho feio para ela. Esse é um momento delicado,

não propício para brigas.

— Tenho meus contatos, sua burra.

— Veja só, Iza! Não vou ajudar mais.

— Calma! — pedi. — Meninas, não façam isso! Mag!

— repreendi.

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