Entrei no hall, minha determinação ainda uma ferida aberta, e vi um par de saltos agulha vermelho-rubi brilhantes, cuidadosamente colocados ao lado dos sapatos caros de Bruno. Não eram meus. Eram de Sheron. Meu estômago revirou.
A própria Sheron saiu da sala de estar, um sorriso falso e açucarado estampado no rosto. Seus olhos, no entanto, continham um brilho de triunfo ao encontrarem os meus.
"Alice! Você chegou cedo!" ela disse com uma voz cantada, como se estivesse surpresa. "Biel e o Caio estão brincando no quarto dele. O Caio estava tão animado para finalmente brincar aqui."
Caio. O filho de Sheron. Sua risada, clara e sem restrições, ecoava do quarto de Biel. Era outra invasão, outra parte da minha vida que ela havia absorvido perfeitamente.
Meu olhar se desviou para a mesa de centro. Lá, a caneca de porcelana favorita de Bruno, aquela que ele insistia que ninguém mais tocasse, estava pela metade. Havia uma marca de batom de Sheron na borda. "Sheron", eu disse, minha voz perigosamente calma, "você está usando a caneca do Bruno."
O ar ficou denso, subitamente pesado. O sorriso dela vacilou, apenas uma fração.
Ela fingiu surpresa, a mão esvoaçando até o peito. "Oh, céus! Era do Bruno? Me desculpe! O Caio deve ter me dado. Ele é sempre tão atencioso, me trazendo bebidas."
Ela continuou, um sorrisinho sutil brincando em seus lábios: "Mas não se preocupe, Alice. Bruno e eu temos conjuntos iguais no escritório. Às vezes é difícil distingui-los."
Uma risada fria me escapou. "Conjuntos iguais? Que charmoso." Inclinei-me, minha voz baixando para um sussurro conspiratório. "Sabe, o Bruno tem H. pylori. O médico insistiu em talheres e canecas separados para ele. Higiene rigorosa. Acho que ele esqueceu de te avisar? Ou talvez você simplesmente prefira compartilhar germes."
O rosto de Sheron perdeu a cor, suas falsas gentilezas se dissolvendo em uma máscara de pura mortificação. Ela murmurou algo sobre uma ligação urgente e praticamente arrastou Caio para fora, seus saltos rubi batendo freneticamente no chão de mármore.
A vitória tinha gosto de cinzas. O nojo se formou no meu estômago. Ela estava dormindo aqui, cozinhando aqui, criando o filho dela com o meu. Ela estava brincando de casinha na minha casa.
Estava claro. Ela não estava apenas tendo um caso com Bruno; ela estava construindo uma nova vida com ele, bem debaixo do meu nariz. Ou, mais precisamente, na minha antiga casa.
Biel saiu do quarto, os olhos cheios de lágrimas. "Mãe! Por que você foi tão má com a Sheron? Você fez ela chorar! Você sempre estraga tudo!" Ele me fuzilou com o olhar, seus pequenos punhos cerrados.
Ele fungou: "O papai diz que você é sempre tão... tão difícil. Ele diz que você reclama de tudo e nunca o valoriza. Ele diz que você nem gosta da comida que ele compra e sempre o faz se sentir pequeno."
Bruno andava reclamando de mim? Para Sheron? Para o filho dele? A ideia de que ele nutria tanto ressentimento, corroendo silenciosamente nosso casamento, revirou meu estômago. A dor da traição se intensificou, uma dor surda e latejante.
Bruno voltou uma hora depois, seu rosto indecifrável.
Eu o observei colocar a pasta no chão. Então, peguei sua caneca, ainda manchada com o batom de Sheron, e a estendi para ele. "Aqui, Bruno. Sua caneca favorita. Quer um pouco de chá?" Minha voz era plana, sem emoção.
Ele olhou para ela, depois para mim. Seus olhos, geralmente tão rápidos em se esconder, mostraram um lampejo de algo, talvez culpa, talvez irritação. "Não", ele disse, a voz seca. Ele foi até a pia, pegou uma caneca limpa e a encheu de água. Ele nem tocou na que eu ofereci.
Naquela noite, ele virou as costas para mim na cama. Ele sempre fazia isso agora. Nenhum toque casual de mãos, nenhum toque demorado. Apenas costas frias e impassíveis.
Fiquei ali, lágrimas silenciosas traçando caminhos pelas minhas têmporas até meu cabelo. O sal ardia nos meus olhos, mas o vazio por dentro era muito mais doloroso.
Lembrei-me de uma época em que ele me puxava para perto, beijava minha testa, sussurrava que eu era a mulher mais bonita do mundo. Ele me trazia café na cama, do jeito que eu gostava. Aquele Bruno parecia um personagem de um romance esquecido.
Eu funguei, um som pequeno perdido no vasto silêncio do quarto. Ele não se mexeu. Ele não se importava. Não mais.
O homem que um dia jurou me amar para sempre tinha desaparecido. Substituído por um estranho que deitava ao meu lado, alheio à minha agonia silenciosa. A constatação foi uma pedra fria e dura no meu peito: ele havia parado de me amar há muito tempo.
Naquele fim de semana, finalizei os papéis do divórcio com Evelyn. A cláusula de infidelidade, surpreendentemente, era irrefutável. Evelyn tinha feito seu trabalho. Agora, era a minha vez.
Coloquei os documentos na mesa do escritório de Bruno. Quando ele entrou, olhou para eles, confuso. "O que é isso, Alice? Mais um dos seus dramas?"
Empurrei uma caneta pela madeira polida. "Assine, Bruno. Acabou."
Minha voz estava desprovida de emoção. "Você está livre. Livre para seguir qualquer fantasia distorcida que você e Sheron tenham inventado."
Ele franziu a testa, um lampejo de algo que não consegui decifrar em seus olhos. "Tão generosa, Alice. Qual é a pegadinha? Você geralmente não desiste tão fácil." Ele estendeu a mão, pairando sobre a minha, fingindo preocupação.
Eu recuei, puxando minha mão como se seu toque queimasse. O contato era repulsivo.
Nesse momento, a campainha tocou. Biel, cujo quarto era o mais próximo da entrada, gritou de alegria. "A Sheron chegou!"
Eu congelei. Sheron? Aqui? Minha fachada cuidadosamente construída ameaçou rachar.
Ela entrou, usando exatamente o mesmo lenço de seda de edição limitada que Bruno me deu no nosso aniversário no ano passado. Só que o dela era um fúcsia vibrante, enquanto o meu era um azul safira discreto. Era uma declaração direta e descarada.
"Oh, espero não estar interrompendo nada importante", Sheron disse com uma voz doce, seus olhos passando de Bruno para os papéis em sua mesa. Seu tom era inocente, mas seu olhar era tudo menos isso.
Eu observei, meu maxilar tenso. Bruno evitou meu olhar, mexendo-se desconfortavelmente.
Ele pigarreou. "A Sheron está aqui para levar o Biel para a aula de equitação. O Caio vai junto também. Ele precisa de um amigo, Alice. Você sabe como isso é importante para uma criança."
Um amigo? Bruno, o homem que uma vez insistiu que Biel só brincasse com crianças de famílias 'apropriadas', agora estava usando o filho de Sheron como desculpa para sua presença constante. Sua hipocrisia era espantosa.
Bruno casualmente empurrou os papéis do divórcio para o lado, uma pilha de contas atrasadas agora os cobrindo. Ele minimizou a importância deles, assim como minimizou meus sentimentos.
"Podemos conversar sobre isso mais tarde, Alice", ele disse, dispensando-me com um aceno de mão. "Agora, se nos der licença, o Biel está esperando."
Uma hora depois, eu estava no haras, atraída por um impulso maternal desesperado. Biel insistiu que eu fosse, um pedido raro que eu não podia recusar, mesmo que significasse vê-los.
Mas o que eu vi destruiu qualquer esperança remanescente. Bruno, Sheron e seus dois filhos, rindo, cavalgando juntos. Pareciam uma família perfeita e feliz. Uma família da qual eu não fazia parte.
As palavras da minha advogada ecoaram em minha mente: 'Precisamos usar isso, Alice. Faça-o pagar.' Mas o que eu queria era dignidade, não vingança, não mais.
Eu ainda me lembrava do dia em que nos casamos. Os votos que ele fez, as promessas de para sempre. Pareciam uma piada cruel agora.
Eu estava escondida atrás de uma fileira de baias, observando a família falsa, quando ouvi. A voz baixa de Bruno, falando com o Sr. Dantas, o dono do haras.
O Sr. Dantas parecia desconfortável. "Mas Sr. William, o Caio não é exatamente... o calibre de criança que costumamos ter para o Biel. E suas habilidades de equitação são bem... agressivas."
Bruno riu, um som arrepiante. "Não se preocupe com isso, Dantas. O Caio fará parte da família em breve. Biel precisa de um irmão. E com a Alice fora de cena, Sheron será uma madrasta maravilhosa."
Uma risada engasgada e amarga escapou dos meus lábios. Era quase um soluço. 'Parte da família em breve?' Então esse era o plano dele. Não apenas um caso, mas uma substituição calculada.
A cabeça de Bruno se virou bruscamente, seus olhos se estreitando ao me ver. O ar instantaneamente crepitou com uma tensão não dita.
O Sr. Dantas, sentindo a mudança, murmurou uma desculpa sobre precisar verificar um cavalo e desapareceu rapidamente.
"Há quanto tempo você está espionando, Alice?" A voz de Bruno era afiada, acusadora.
Minha risada foi seca, sem humor. "Tempo suficiente para saber que você prefere conduzir seus casos à vista de todos, Bruno. Ou talvez, você apenas presuma que sou estúpida demais para notar."
Ele passou a mão pelo cabelo, um gesto nervoso. "Não é o que você pensa. O Caio é um bom garoto. Eu estava apenas... pensando em voz alta sobre como integrá-lo na vida do Biel. Como um afilhado, sabe."
Um afilhado. A palavra tinha gosto de veneno. Meu coração, já machucado e maltratado, finalmente se calcificou. "Eu quero o divórcio, Bruno. Agora. Sem mais atrasos. Sem mais jogos."
Ele se aproximou, seus olhos suplicantes, manipuladores. "Não, Alice. Podemos consertar isso. Você está chateada. Não jogue tudo fora."
Nesse momento, Biel gritou: "Caio, cuidado!"
Virei-me bem a tempo de uma flecha passar zunindo pelo meu rosto, errando meu olho por pouco, as penas roçando minha bochecha. Uma dor aguda e ardente explodiu.
Biel, alheio ao meu quase ferimento, correu para o filho de Sheron, envolvendo-o com os braços. "Caio, você está bem? Foi por pouco! Você quase acertou a mamãe!"
Caio, um sorriso presunçoso no rosto, calmamente pegou seu arco. Seus olhos encontraram os meus, um lampejo de maldade em suas profundezas. Ele tinha mirado em mim. Deliberadamente.
Minha mão voou para o meu telefone. "Vou chamar a polícia", eu disse, minha voz tremendo com uma raiva que eu não sabia que possuía.
Bruno arrancou o telefone da minha mão. "Não seja ridícula, Alice! Foi um acidente! Ele é só uma criança!"
Biel interveio: "É, mãe! Você é sempre tão dramática! Peça desculpas ao Caio por deixá-lo chateado!"
Ele olhou para mim, seus olhos arregalados e acusadores. "Se você machucar a Sheron ou o Caio, eu nunca vou te perdoar, mãe. Nunca!"
Olhei para meu filho, depois para Bruno, cujo rosto era uma máscara de fúria fria. Uma risada oca me escapou. "Tudo bem. Chame seus advogados, Bruno. Você não vai me parar."
Ele agarrou meu braço, seu aperto machucando. "Você realmente quer seguir por este caminho, Alice? Você sabe o que minha equipe jurídica pode fazer. Eles vão te enterrar." Era uma promessa e uma ameaça.