A água já me chegava aos tornozelos.
O meu carro, um pequeno utilitário que o meu marido Tiago insistiu ser "perfeito para a cidade", estava parado no meio da rua inundada na Baixa de Lisboa. A chuva não parava, batia no tejadilho com uma força assustadora.
Estava grávida de nove meses. O nosso filho, o nosso tão desejado Martim.
Agarrei no telemóvel com os dedos a tremer. A bateria estava nos 15%. Marquei o número do Tiago.
"Estou?" A voz dele soou distante, com música de fundo.
"Tiago, preciso de ajuda! O carro ficou parado na inundação, a água está a entrar!"
A minha voz saiu esganiçada, cheia de pânico. A contração que senti na barriga foi forte, aguda.
Houve uma pausa do outro lado. Ouvi a voz de uma mulher a rir ao fundo. Clara, a prima dele.
"Sofia, tem calma," disse ele, com um tom de enfado. "É só chuva. Já deves saber como fica a Baixa quando chove mais forte. Tenta sair do carro e vai para um sítio mais alto."
"Não consigo! As portas não abrem, a pressão da água é demasiada! Tiago, por favor, vem buscar-me. Eu estou com dores."
"Agora não posso," respondeu ele, a impaciência a crescer-lhe na voz. "A Clara está em pânico por causa de uma pequena infiltração no apartamento dela. Já sabes como ela é. Tive de vir aqui acalmá-la."
Uma pequena infiltração.
Eu estava presa numa armadilha de metal, com a água a subir, a carregar o filho dele, e a emergência era uma pequena infiltração.
"Tiago..." comecei a chorar, sem conseguir controlar. "O bebé... acho que ele vai nascer."
"Não sejas dramática, Sofia. Liga para o 112, eles resolvem isso. Tenho de ir, a Clara está a chamar-me. Falamos depois."
E desligou.
Olhei para o ecrã do telemóvel. Chamada terminada.
Tentei ligar outra vez. Caixa de correio. E outra vez. Caixa de correio.
Ele tinha desligado o telemóvel. Ou rejeitado as minhas chamadas.
A água já me molhava os joelhos. O meu corpo tremia de frio e de medo. A dor na minha barriga voltou, mais intensa.
O meu filho ia nascer ali. Sozinha.
A última coisa que vi antes de perder os sentidos foi o nível da água a cobrir o volante.
Acordei com uma luz branca e forte nos olhos. O cheiro era a desinfetante. Hospital.
A minha mãe, Helena, estava sentada numa cadeira ao lado da cama, com os olhos vermelhos e inchados. Quando me viu acordar, agarrou-me na mão.
"Minha filha. Graças a Deus."
A minha primeira reação foi levar a mão à barriga. Estava vazia. Lisa.
O pânico instalou-se.
"O bebé? Onde está o Martim?" olhei para a minha mãe, desesperada. "Ele está bem? Nasceu?"
A minha mãe não conseguiu responder. Apenas abanou a cabeça, as lágrimas a escorrerem-lhe pela cara.
Um médico entrou no quarto. Tinha um ar cansado e triste.
"Dona Sofia," começou ele, com uma voz suave. "Os bombeiros trouxeram-na em estado crítico. A senhora esteve submersa durante demasiado tempo, houve falta de oxigénio."
Ele fez uma pausa, a escolher as palavras.
"Tivemos de fazer uma cesariana de emergência para a salvar. Fizemos tudo o que podíamos pelo seu filho, mas..."
Ele não precisou de terminar a frase.
O mundo parou. O som do monitor cardíaco ao meu lado tornou-se um zumbido distante.
O meu filho. Morto.
Porque o pai dele estava a consolar a prima por causa de uma infiltração.
Fiquei a olhar para o teto, sem ver nada. Não chorei. Não gritei. Não havia nada dentro de mim. Apenas um vazio imenso e frio.
A minha mãe abraçou-se a mim, a chorar por nós as duas.
Eu só conseguia pensar na chamada. Na música ao fundo. No riso da Clara. Na frieza do Tiago.
"Tenho de ir, a Clara está a chamar-me."
Essa frase ecoava na minha cabeça, repetidamente.