Ponto de Vista: Alana
Eu o empurrei com uma força que surpreendeu a nós dois. Ele tropeçou para trás, a mão caindo do meu rosto. O lugar onde ele me tocou parecia contaminado, queimado.
"Então você tem medo que ela descubra?", zombei, minha voz tremendo com uma raiva tão profunda que parecia uma doença física. "Medo que sua pequena vítima perfeita e fértil fique enojada com seu 'defeito'?"
Seus olhos se desviaram, incapazes de encontrar os meus.
"Isso é entre nós, Alana. É particular." Ele tentou recuperar a compostura, apelar para uma história que eu não reconhecia mais. "Foi você quem me levou a todos aqueles especialistas. Os melhores do mundo. Você disse que encontraríamos uma cura."
"Nós vamos, Daniel", ele acrescentou, sua voz suavizando em um apelo fraco e patético. "Nós teremos nossos próprios filhos um dia."
Cássia, sempre a mestra do timing, escolheu aquele momento para falar, sua voz um murmúrio suave e curioso.
"Isso é tão estranho. Todo mundo na minha família diz que eu sou do tipo 'hiperfértil'. Sabe, um ímã de bebês."
Ela se gabou, tocando sua barriga lisa.
"Eu tive cinco meninos, e os médicos disseram que cada um foi um milagre. Disseram que eu provavelmente poderia engravidar mesmo que meu parceiro tivesse... problemas."
A insinuação era tão sutil quanto uma marreta.
Observei o rosto de Daniel. Um lampejo de algo — uma esperança desesperada e feia — brilhou em seus olhos antes que ele o suprimisse rapidamente. Ele deu um passo em minha direção, seus movimentos rígidos e artificiais, e passou um braço em volta da minha cintura, um ato performático de lealdade para o benefício de Cássia.
"Alana é a única mulher que eu chamarei de minha esposa", ele declarou, sua voz alta e oca.
As palavras deveriam me tranquilizar, mas tudo o que fizeram foi confirmar meu medo mais profundo. Ele estava enquadrando isso como minha falha. Como se eu fosse a única que não podia lhe dar um filho.
Uma onda de náusea me atingiu, tão intensa que tive que me segurar nas costas de uma cadeira para me firmar. Os últimos seis meses se repetiram em minha mente com uma clareza doentia e em alta definição. A viagem que fiz a uma clínica remota na Suíça, em busca de um novo tratamento radical para ele. As inúmeras horas que passei em ligações com pesquisadores, usando toda a influência que o nome da minha família poderia alcançar.
E enquanto eu fazia isso, ele a trouxe para cá. Para dentro da nossa casa.
Cássia deslizou para a cozinha e voltou com pratos de comida. O bife estava queimado por fora e cru por dentro. Os aspargos estavam moles e cinzentos. Era o tipo de refeição pela qual um chef profissional seria demitido.
Daniel deu uma mordida sem dizer uma palavra, mastigando mecanicamente.
Então, meus olhos captaram algo no pulso de Cássia. Uma delicada pulseira de diamantes. Minha pulseira. Aquela que Daniel me deu no nosso quinto aniversário. Eu não a via há semanas e presumi que a tinha perdido.
Todas as noites, nas últimas duas semanas, ele tinha ido para a cama tarde, muito depois de eu ter adormecido, cheirando vagamente a um perfume barato e doce.
Respirei fundo e com firmeza. A CEO em mim assumiu o controle, desligando a esposa de coração partido. O tempo para emoção havia acabado.
"Daniel", eu disse, minha voz perigosamente calma. "Esta é sua última chance. Demita-a. Agora."
"Pelo amor de Deus, Alana!" Ele me empurrou, sua paciência esgotada. "Pare de ser tão paranoica! Você está estragando tudo com seu ciúme doentio!" Ele zombou, o lábio se curvando. "Você está sempre tentando pisar na minha dignidade."
Minhas costas bateram na quina afiada do aparador. Uma dor quente e lancinante percorreu minha lombar. Eu arquejei, tropeçando para frente.
Ele revirou os olhos.
"Ah, por favor. Não comece a fingir ser uma flor delicada agora. Eu já te vi levar um soco de um peão de obra e nem piscar."
Ele estava falando da vez, anos atrás, quando um bêbado provocador tentou começar uma briga com ele do lado de fora de um bar. Eu me coloquei entre eles sem pensar duas vezes. Minha força, que eu usei para protegê-lo, era agora outra arma que ele usava para me machucar.
Desviei de sua tentativa de me tocar, de oferecer um pedido de desculpas falso.
"Não", eu disse, minha voz baixa e cheia de nojo. "Você está imundo."
Seu rosto endureceu. Ele cerrou os punhos ao lado do corpo.
"É impossível para você ter uma conversa normal?"
"Não há nada de normal nisso", eu disse, virando as costas para ele. "É ela ou eu, Daniel. É isso." Comecei a caminhar em direção à grande escadaria, meus passos pesados.
Ele começou a me seguir, a boca aberta para dizer algo, mas Cássia o deteve.
Sua performance recomeçou. Soluços suaves e sufocados encheram a sala.
"Daniel, a culpa é minha", ela choramingou. "Eu vou embora. É o que eu mereço. Meu ex-marido costumava me bater, sabe. Ele dizia que eu não valia nada. Talvez ele estivesse certo."
Ela deu um passo dramático em direção à parede.
"Talvez eu devesse acabar com tudo!"
"Cássia, não!" Daniel correu para o lado dela, afastando-a da parede como se ela estivesse prestes a bater a cabeça contra ela. Seus olhos estavam cheios de uma ternura crua e protetora que eu não via dirigida a mim há anos.
"Você não vale nada", ele murmurou, acariciando o cabelo dela. "Você é a mulher mais doce e gentil que eu conheço."
Ela olhou para ele, as lágrimas milagrosamente desaparecidas, substituídas por um sorriso de olhos de corça.
"Sério?"
"Sério", disse ele, a voz suavizando. Então, ele deliberadamente levantou a voz, garantindo que eu ouviria cada palavra enquanto eu parava na escada. "Ao contrário de algumas pessoas, você não é uma megera insensível e controladora que só se importa com poder e dinheiro."
Cássia olhou por cima do ombro dele, seus olhos encontrando os meus. Um sorriso triunfante cintilou em seu rosto antes que ela o enterrasse no peito de Daniel.
Algo dentro de mim se partiu.
O mundo ficou vermelho. Meu coração martelava contra minhas costelas, um ritmo frenético e doloroso. Eu me virei, marchei de volta escada abaixo e peguei o pesado vaso de cristal da mesa de console.
Com um grito de fúria pura e não diluída, eu o arremessei contra eles.
"FORA", eu rugi, minha voz crua e quebrada. "SAIAM DA MINHA CASA!"
Ponto de Vista: Alana
Cássia gritou quando o vaso voou em direção a eles.
A reação de Daniel foi instantânea. Ele se virou, protegendo Cássia com seu próprio corpo. O pesado cristal se estilhaçou contra suas costas com um baque doentio. Ele grunhiu de dor, mas seu primeiro instinto, mesmo enquanto tropeçava, foi firmá-la, as mãos protetoramente em seus braços.
Ele se virou para mim, os olhos avermelhados e ardendo com uma fúria justa.
"Qual é o seu problema?", ele gritou. "Por que você não me mata de uma vez? Mas por que você tem que arrastar uma pessoa inocente para isso?"
Inocente. A palavra era tão absurda que era quase engraçada.
"Ela é uma mulher gentil e simples, Alana! Ela trabalha como babá para sustentar a família! Ela tem um diploma universitário, pelo amor de Deus. Ela poderia estar fazendo algo respeitável, mas escolheu isso para ficar perto dos filhos!" Ele estava gritando agora, sua voz ecoando no salão cavernoso.
"E o que você é?", ele zombou, o rosto contorcido por anos de raiva e insegurança reprimidas. "Uma princesinha capitalista inútil! Você nunca trabalhou um dia de verdade na sua vida! Você não é digna nem de tocar em um único fio de cabelo dela!"
Cada palavra era um dardo perfeitamente mirado, atingindo o coração de cada sacrifício que eu já havia feito por ele. Eu desafiei minha família, que o via como nada mais do que um aproveitador interesseiro. Eu assumi a imensa pressão de administrar um império multibilionário, trabalhando até a exaustão para dobrar os lucros da família em cinco anos, apenas para provar a eles que minha escolha de marido não me tornara fraca.
E ele me chamou de inútil. Ele ficou ali com outra mulher e me chamou de devoradora de homens.
Uma raiva primal tomou conta de mim. Passei por ele, entrei em seu escritório e peguei as almofadas com tema de anime do sofá. Com um grito gutural, comecei a rasgá-las com as próprias mãos, penas e espuma explodindo no ar como flocos de neve tóxicos.
Então comecei a pegar tudo o que podia alcançar — livros, porta-retratos, prêmios — e arremessá-los na direção deles.
Daniel facilmente tirou Cássia do caminho, seus movimentos ágeis. Ele a segurava com força, como se protegesse um tesouro precioso de uma louca.
"Já chega disso!", ele rugiu por cima do som de vidro quebrando. "Chega de viver na sua sombra, de ser tratado como um funcionário na minha própria casa! Eu sou o mais jovem Chefe de Cirurgia do país! Eu tenho talento! Não preciso apodrecer no hospital do seu irmão!"
Ele estava delirando. Ele não parecia entender que toda a sua carreira era um produto da influência da minha família.
"Dezenas de hospitais de ponta estão tentando me contratar!", ele se gabou, a voz rachando com uma mistura de desespero e bravata. "Se você me afastar mais uma vez, vamos nos divorciar! E você será a única a se arrepender!"
Agarrei as costas de uma cadeira, meus nós dos dedos brancos, forçando-me a ficar de pé. Encarei seu olhar furioso com uma calma gélida que pareceu perturbá-lo.
"Tudo bem por mim", eu disse, minha voz mal um sussurro.
Cássia, sempre a atriz, começou a tremer em seus braços.
"Daniel, não", ela fungou. "Ela é sua esposa. A vida de uma mulher é tão difícil depois de um divórcio. Você deveria ser paciente com ela."
Daniel soltou uma risada fria e cruel.
"Nem todas as mulheres merecem ser valorizadas, Cássia."
Um cansaço profundo, até os ossos, tomou conta de mim. A luta se esvaiu, substituída por uma dor vazia e oca. Eu não tinha mais nada a dizer.
Soltei a cadeira e me virei, subindo as escadas em silêncio.
Ele me encarou, sua bravata vacilando. Por um momento, vi um lampejo de pânico em seus olhos, como se ele não esperasse que eu pagasse para ver. Ele abriu a boca para me chamar.
Mas então, o telefone de Cássia tocou, um toque alegre e tilintante que cortou o silêncio tenso.
"Alô?", ela atendeu, a voz de repente cheia de pânico maternal. "O quê? Febre? Quão alta? Ok, ok, estou indo agora mesmo!"
O rosto de Daniel ficou pálido.
"O que há de errado? São as crianças?"
"Sim", ela soluçou, agarrando o braço dele. "Meu caçula está com febre alta. Tenho que ir para o hospital."
"Eu te levo", disse ele sem um momento de hesitação.
Ouvi a porta da frente bater. O som ecoou pela casa vazia, uma pontuação final e definitiva no fim do meu casamento.
Caí no chão, minhas pernas cedendo. O mármore frio penetrou em minhas roupas, mas eu não conseguia sentir. Tudo o que eu sentia era o buraco enorme no meu peito.
Ele tinha filhos. Era a única explicação que fazia sentido. Aqueles cinco meninos de que Cássia tanto se orgulhava... eram dele?
Minha mão tremeu enquanto eu pegava meu telefone e discava o número do meu irmão.
"Guilherme", eu disse, minha voz tensa e forçada. "Preciso que você faça algo por mim."
"Alana? O que há de errado? Você parece péssima."
"Investigue o Daniel", eu disse, as palavras com gosto de cinzas na minha boca. "E nossa babá, Cássia Valente. Quero saber de tudo."
"Ele te traiu?", a voz de Guilherme endureceu, o irmão mais velho protetor instantaneamente em alerta máximo.
"Eu acho", engasguei, a possibilidade tão monstruosa que mal conseguia falar. "Acho que ele pode ter uma família secreta."
Houve uma inspiração aguda do outro lado da linha.
"O quê? Isso é impossível, Alana. Os médicos todos disseram... ele não pode ter filhos. Pode?"
A pergunta pairou no ar, um testamento ao absurdo de tudo aquilo. Senti o resto da minha força se esvair.
"Ela se autodenomina um 'ímã de bebês', Guilherme", sussurrei, minha garganta se fechando. "Ela diz que é 'hiperfértil'."