Na manhã seguinte, uma solicitação genérica de amizade apareceu no meu telefone: "Bia Torres quer ser sua amiga". Meu polegar pairou sobre a tela, dividido entre a curiosidade mórbida e o instinto de excluir. A curiosidade venceu. Aceitei.
Meu coração martelava enquanto eu rolava pelo perfil dela. Era um destaque cuidadosamente curado de opulência e glamour. Fotos de festas luxuosas, roupas de grife, férias exóticas. Então eu vi. Uma foto de Alexandre e Bia, de braços dados, rindo, os rostos próximos, banhados pelo brilho suave da luz de velas. A legenda dizia: "Meu tipo favorito de noite romântica. Tão grata por este homem."
Meus olhos dispararam para a data abaixo da foto. 15 de outubro. Meu aniversário. Alexandre me disse que estava voando para Tóquio para uma reunião de negócios urgente, uma negociação crítica que ele não podia perder. Ele até me enviou uma mensagem de texto protocolar mais tarde naquela noite, desejando-me feliz aniversário e prometendo compensar quando voltasse.
Lembrei-me daquele aniversário. Passei sozinha, comendo comida chinesa de caixinha, tentando me convencer de que a ausência dele era um sinal de sua dedicação ao nosso futuro compartilhado, ao império que supostamente estávamos construindo juntos. Lembrei-me do ano anterior, quando comemoramos meu aniversário com champanhe barato na varanda do nosso apartamento minúsculo, rindo tanto que quase caímos. Ele me prometeu a eternidade então, uma vida inteira de alegrias simples compartilhadas.
Será que ele sequer se lembrava dessas promessas agora? Alguma coisa importava para ele? Senti uma onda de náusea me invadir. Não conseguia mais olhar. Fechei o aplicativo, a sensação nauseante de traição formando um nó frio no meu estômago.
Joguei meu telefone no banco do passageiro e acelerei em direção ao hospital. Precisava de respostas sobre meu pai. Irrompi pelas portas, indo direto para o posto de enfermagem no andar dele. A enfermeira-chefe, uma mulher mais velha chamada Marta que conhecia meu pai há anos, olhou para cima, os olhos se arregalando de surpresa.
— Cíntia? Não te vejo aqui há séculos. Está tudo bem?
— Marta, preciso saber sobre a condição do meu pai — disse, minha voz tensa. — Ele deveria ter feito uma cirurgia. Já aconteceu?
A testa de Marta franziu.
— Ah, Cíntia, o Alexandre não te contou? O hospital mudou de dono no mês passado. Estamos sob nova direção agora, e houve algumas... mudanças.
Minha cabeça se ergueu bruscamente.
— Mudou de dono? Não, não fui informada. — Alexandre era responsável por tudo, nossas finanças, os cuidados do meu pai. Ele nunca mencionou isso.
— A condição do meu pai — insisti novamente, ignorando a notícia perturbadora. — A cirurgia foi realizada?
Marta hesitou, olhando em volta nervosamente.
— Bem, Sra. Ferraz, a boa notícia é que ele está estável. Os novos médicos decidiram contra a cirurgia imediata. Eles o colocaram em uma nova medicação experimental. Dizem que é muito promissora, mas tem... efeitos colaterais.
— Efeitos colaterais? — cortei-a, uma pontada de desconforto se espalhando por mim. — Que tipo de efeitos colaterais? E quem autorizou essa mudança? Eu sou a parente mais próxima!
Marta torceu as mãos.
— Foi a assistente do Alexandre, Bia Torres. Ela veio ontem de manhã, logo depois que seu pai foi internado. Disse que o Alexandre estava muito ocupado para vir pessoalmente, mas que ele queria explorar todas as opções para seu pai. Ela autorizou o novo tratamento.
Minha visão embaçou. Bia. Claro. A mulher que havia planejado meticulosamente minha humilhação pública agora estava brincando de médica com a vida do meu pai.
— Ela autorizou? — repeti, minha voz mal passando de um sussurro. — Por que não fui informada? Eu sou a filha dele!
— Assumimos que o Alexandre tinha te contado — disse Marta, a voz cheia de preocupação genuína. — A Bia foi muito insistente. Disse que você estava... indisposta. E francamente, querida, ela foi bastante desagradável. Exigente, na verdade. Disse que se não seguíssemos as instruções dela, o Alexandre cortaria todo o financiamento do hospital.
O mundo inclinou-se em seu eixo. Alexandre. Bia. Meu pai. Tudo estava conectado em uma teia de engano e malícia. Meu pai, que viveu sua vida com tanta integridade, agora era um peão no jogo distorcido deles.
Tropecei para fora do hospital, o sol brilhante da tarde parecendo um soco no estômago. O cheiro de antisséptico agarrava-se às minhas roupas, um lembrete constante da traição estéril. Minha mente corria, juntando os fragmentos. Bia mudou o tratamento dele. Alexandre sabia. Ele permitiu. Era essa a maneira dele de me punir? Ou era algo muito mais sinistro?
Eu não podia ir para casa. Não para a casa que não era mais um lar, cheia dos fantasmas de uma vida que eu não reconhecia mais. Caminhei sem rumo, a cidade um borrão ao meu redor, até me encontrar parada em frente ao nosso primeiro prédio de apartamentos, o prédio sem elevador alugado onde Alexandre e eu começamos nossas vidas juntos.
Parecia menor, mais gasto do que eu lembrava. Um prédio de tijolos vermelhos desbotados, janelas riscadas de fuligem, uma planta solitária lutando pela vida em uma escada de incêndio. Lembrei-me das noites intermináveis que passamos lá, a comida barata, os sonhos que sussurrávamos um para o outro no escuro. Éramos tão pobres, tão cheios de esperança. Alexandre prometeu que um dia teríamos uma casa grande o suficiente para todos os nossos sonhos. Ele me prometeu a eternidade.
Estendi a mão para a maçaneta, uma necessidade desesperada de recuperar um pedaço daquele passado inocente. Mas quando minha mão tocou o metal frio, eu ouvi. Um gemido baixo e gutural, seguido pela risadinha sem fôlego de uma mulher. Meu sangue gelou. Os sons eram inconfundíveis, íntimos, crus.
Congelei, minha mão ainda na maçaneta. A risadinha parou, substituída por uma voz masculina, a voz de Alexandre, rouca e satisfeita. Ele murmurou algo que não consegui entender, mas o tom era claro o suficiente. Era uma voz que eu não ouvia dirigida a mim há anos. Então, outra risadinha, mais perto desta vez.
Minha mente ficou em branco. Fiquei ali, uma estátua esculpida em gelo, ouvindo a sinfonia horrível da traição do meu marido, tocando no mesmo lugar onde nosso amor floresceu. Um clique pequeno, quase imperceptível, ecoou pelo prédio quando minha mão, ainda segurando a maçaneta, se moveu ligeiramente.
Os sons íntimos lá dentro cessaram abruptamente. A voz de uma mulher, a voz de Bia, afiada com suspeita, cortou o silêncio repentino.
— Você ouviu isso, Alexandre? Tem alguém lá fora.
A voz de Alexandre, carregada de aborrecimento, seguiu.
— Provavelmente são só os vizinhos, Bia. Não seja tão paranoica.
Meu coração se estilhaçou, pedaço por pedaço agonizante. Os últimos vestígios de amor, de esperança, de qualquer pingo de dignidade que eu pensava ainda possuir, desmoronaram em pó. Eu queria gritar, enfurecer-me, arrombar a porta e confrontar os dois. Mas uma calma estranha se instalou sobre mim. Não havia mais nada pelo que lutar. Nada mais para salvar.
Percebi então que eu não era mais aquela garota jovem e impulsiva. Eu era uma mulher, despida pela traição, mas não quebrada. Ainda não. Eu não daria a eles a satisfação de ver minha dor.
A porta rangeu ligeiramente. Ouvi um suspiro lá de dentro, depois a voz de Alexandre, mais afiada agora.
— Quem está aí?
Virei-me e fugi. Corri escada abaixo, meus pés batendo, meus pulmões queimando, o som da minha própria respiração irregular ecoando em meus ouvidos. As lágrimas vieram então, quentes e ardentes, embaçando o corredor já escuro. Não me importava quem me visse. Apenas corri.
Um homem na rua olhou para mim, perplexo.
— Está chovendo? — murmurou ele, protegendo o rosto.
Não, não estava chovendo. Era só eu. Meu mundo estava desmoronando.
Naquela noite, encontrei-me no escritório mal iluminado de um renomado advogado de divórcio, um contraste gritante com meu próprio estúdio bem iluminado. Sentei-me à frente dele, meu rosto uma máscara de exaustão.
— Quero o divórcio — declarei, minha voz desprovida de emoção.
Ele perguntou sobre bens, sobre pensão alimentícia, sobre os anos que despejei na empresa de Alexandre. Listei as infidelidades de Alexandre, sua negligência, a indiferença fria que havia esvaziado nosso casamento. Mas quando ele perguntou sobre a profundidade da nossa conexão, o porquê de tudo isso, eu vacilei. As palavras ficaram presas na minha garganta. A dor era crua demais, profunda demais.
— Apenas... apenas me tire dessa — sussurrei finalmente, minha voz falhando. — Não quero nada. Apenas o divórcio. Só quero sair.
Ele olhou para mim, um lampejo de pena em seus olhos.
— Tem certeza, Sra. Ferraz? Você tem direito à metade de tudo.
— Tenho certeza — disse, minha voz firme apesar do tremor em minhas mãos. O pensamento de lutar por uma parte dos espólios deles me revoltava. Eu só queria que tudo acabasse. Eu queria ser livre.
Na manhã seguinte, armada com uma petição de divórcio recém-assinada, entrei novamente no arranha-céu reluzente que abrigava o Grupo Junqueira, o império que ajudei a construir.
O saguão elegante e moderno do Grupo Junqueira parecia estranho, apesar de eu mesma tê-lo projetado. A recepção, antes uma visão familiar, agora era ocupada por um rosto novo. Uma jovem com olhos afiados e inquisitivos olhou para cima quando me aproximei.
— Com licença, a senhora tem hora marcada? — perguntou ela, a voz educada, mas firme.
— Não — respondi, minha voz estável. — Sou Cíntia Ferraz. Esposa de Alexandre Junqueira.
Os olhos dela se arregalaram, um lampejo de surpresa, depois curiosidade mal velada, cruzando suas feições. Meu status como "a esposa" sempre foi nebuloso, um título que Alexandre raramente exibia. Minha ausência da face pública da empresa significava que muitos funcionários novos nem sabiam que eu existia.
Ela pegou o telefone, o olhar ainda fixo em mim.
— Bia, a Sra. Ferraz está aqui para ver o Sr. Junqueira.
Alguns momentos depois, Bia emergiu do elevador, seu cabelo perfeitamente penteado e maquiagem impecável um contraste gritante com sua aparência desgrenhada de ontem. Seus olhos, no entanto, continham um brilho frio e predatório sob a inocência fingida.
— Cíntia? Ah, meu Deus — exclamou ela, a voz carregada de falsa preocupação. — Que surpresa! O Alexandre ainda não chegou, mas por favor, suba. Podemos esperá-lo no escritório dele.
Ela usou o pronome "nós" com ênfase deliberada, uma afirmação sutil de sua nova posição.
Eu a segui, meus olhos examinando os corredores familiares. Ela se movia com uma facilidade perturbadora, navegando pelo labirinto corporativo como se fosse dona dele. Aquele era meu mundo, minha criação, mas eu me sentia uma intrusa, um fantasma assombrando os corredores do meu próprio passado. Cada canto, cada elemento de design, sussurrava sobre as noites sem dormir que despejei neste lugar, os sonhos que compartilhei com Alexandre. Eu havia imaginado uma vida inteira aqui, trabalhando ao lado dele, construindo algo duradouro. Em vez disso, tornei-me a "esposa desempregada", uma sócia silenciosa apagada da narrativa da empresa.
— Chegamos — anunciou Bia, empurrando a porta pesada do escritório de Alexandre.
Preparei-me para um confronto, uma ameaça velada, uma declaração presunçosa de sua vitória. Mas ela simplesmente sorriu, uma curva melosa e perturbadora nos lábios, e fechou a porta atrás de nós.
Meu olhar varreu a sala. Era o escritório de Alexandre, mas parecia distintamente dela. Um lenço de seda delicado drapeado sobre a cadeira dele, um tubo meio vazio de creme para as mãos caro ao lado do teclado, e uma pequena vela perfumada, ainda quente, perfumava o ar com uma fragrância doce e enjoativa. Aquilo não era apenas um escritório; era um santuário, um espaço compartilhado onde construíam uma vida, uma paródia perversa daquela que Alexandre e eu sonhamos anos atrás. Aqueles não eram apenas objetos; eram declarações, gritos silenciosos de posse.
Meus olhos pousaram em uma fotografia com moldura de prata na mesa dele. Um menino, não mais velho que cinco anos, com o cabelo escuro e os olhos travessos de Alexandre, estava rindo, com o braço em volta de um golden retriever. Minha respiração falhou.
Minha mão tremeu quando a alcancei, meus dedos traçando o rosto inocente do menino. Folheei o pequeno álbum ao lado, cada página um instantâneo da infância: primeiros passos, festas de aniversário, peças da escola. E em quase todas as fotos, lá estava Alexandre, com o braço em volta do menino, o rosto irradiando um calor e orgulho que eu não o via expressar há anos.
Então, lá estava. Um retrato de família. Alexandre, Bia e o menino, todos sorrindo, perfeitamente posados, uma imagem de felicidade doméstica. Meu mundo, já despedaçado, estilhaçou-se em mais um milhão de pedaços. Uma criança. Alexandre tinha um filho. O filho deles.
— Ele é um menino lindo, não é? — A voz de Bia, suave e enganosamente gentil, cortou o silêncio. Ela estava ao meu lado, segurando uma caneca fumegante de chá, os olhos fixos na fotografia. — O Alexandre o adora.
Ela tomou um gole de chá, depois continuou, a voz ganhando um tom arrepiante.
— Foi um acidente, sabe. Aquela primeira noite. O Alexandre estava... perturbado. Você não estava muito por perto, ele disse. Ele tinha bebido, e alguém colocou algo na bebida dele. Ele pensou que eu fosse você. — Ela fez uma pausa, deixando as palavras pairarem no ar. — Ele ficou tão envergonhado na manhã seguinte. Ordenou que eu ficasse quieta. Mas depois de algumas semanas, ele não suportou a ideia de eu ir embora. Ele me mudou para um apartamento, depois me trouxe para cá, como assistente dele. Disse que precisava de mim por perto.
Olhei para ela, vendo-a verdadeiramente pela primeira vez. Seus olhos, seu sorriso, a curva de seu maxilar. Ela não era uma réplica exata, mas havia uma semelhança impressionante. Eu estava olhando para uma versão mais jovem e menos calejada de mim mesma, uma substituta cuidadosamente escolhida para preencher um vazio.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios. Um som seco e sem humor que surpreendeu até a mim.
— Então, você é a substituta — disse, minha voz fria, desprovida de emoção. — A dublê conveniente para a esposa que "nunca estava por perto".
O sorriso de Bia vacilou por um momento, depois se endireitou.
— Ele foi muito claro sobre os sentimentos dele por mim depois que contei sobre o bebê. Ele ficou em êxtase. Disse que era um sinal, um novo começo. Ele me comprou aquele colar, sabe — ela gesticulou para o pingente de diamante brilhante em sua garganta. — E me prometeu tudo. — Seus olhos brilharam com triunfo. — Ele me escolheu, Cíntia. Ele escolheu nossa família. Você... você é apenas uma relíquia.
Minha mão, segurando o chá, tremeu imperceptivelmente. O calor infiltrava-se pela porcelana, mas eu não sentia nada além de gelo. Olhei para as fotos novamente, depois de volta para o rosto presunçoso e vitorioso dela. Então, com um movimento súbito e deliberado, joguei o chá quente no rosto dela.
Bia gritou, um grito cru e não adulterado de choque e dor. Ela tropeçou para trás, agarrando o rosto, depois desabou no chão, puxando o cabelo dramaticamente, seus soluços transformando-se em lamentos torturados. Ela até conseguiu dar um tapa na própria bochecha, adicionando uma marca vermelha fresca à pele manchada de chá. Uma verdadeira performance.
Nesse momento, a porta do escritório se abriu com força. Alexandre estava lá, uma sacola de compras de grife em uma mão, um sorriso suave e amoroso no rosto. Seus olhos, geralmente tão afiados, estavam suaves de afeto. Ele devia estar trazendo roupas novas para Bia, outro símbolo de sua devoção.
Seu sorriso desapareceu no momento em que viu Bia no chão, chorando, e eu de pé sobre ela, meu rosto uma máscara de fúria fria. Seus olhos se estreitaram, cheios de raiva imediata e pura.
— Cíntia! O que você fez?! — ele rugiu, largando a sacola. Correu para o lado de Bia, puxando-a para seus braços, ignorando-me completamente. — Bia, meu amor, você está bem? O que ela fez com você?
Bia soluçou no peito dele, a voz abafada, mas teatral.
— Ela... ela simplesmente entrou, Alexandre. Estava tão brava. Tentei acalmá-la, mas ela simplesmente... ela simplesmente jogou chá quente na minha cara! E disse... disse coisas terríveis sobre nosso bebê!
Zombei, um som curto e agudo de descrença.
— Nosso bebê, Alexandre? É assim que você o chama agora? — Levantei a foto da família, minha mão tremendo levemente. — O que é isso, Alexandre? Sua vida secreta? Sua família perfeita?
Ele recuou, os olhos disparando para a foto, depois de volta para Bia, que agora segurava o estômago, choramingando.
— Cíntia, não é o que parece. Você não entende.
— Ah, eu entendo perfeitamente — rebati, minha voz carregada de veneno. — Entendo que você construiu uma segunda vida, uma segunda família, nas sombras, enquanto eu estava ao seu lado. Entendo que você permitiu que essa... essa mulher mudasse o tratamento médico do meu pai. E entendo que você tem mentido para mim há anos.
O rosto dele endureceu.
— O que você quer, Cíntia? Dinheiro? É por isso que você está aqui, me chantageando? — As palavras dele foram como um golpe físico.
— Chantagem? — Ri novamente, um som áspero e quebradiço. — Você acha que eu quero seu dinheiro? Depois de tudo? Você realmente pensa tão pouco de mim? — Dei um passo mais perto, meus olhos flamejando. — Você me prometeu uma família, Alexandre. Você me prometeu uma vida inteira. E então me disse... me disse que eu não podia ter filhos. — As palavras foram arrancadas da minha garganta, cruas e dolorosas. — Você se lembra disso, Alexandre? Lembra por que não posso ter filhos?
Os olhos dele piscaram, uma pitada de algo ilegível ali.
— Cíntia, não. Não toque nesse assunto.
— Por que não? — cuspi, os anos de dor reprimida explodindo. — Porque é inconveniente? Porque te lembra da verdade? Eu quase morri, Alexandre! Trabalhando até ficar doente pela sua empresa, sofrendo uma hemorragia gástrica, perdendo minha chance de ser mãe! E você... você prometeu que ficaríamos bem, que não precisávamos de filhos. Você até sugeriu uma vasectomia, mas nunca fez!
Ele recuou como se tivesse levado um tapa.
— Eu... eu sei que te devo, Cíntia. Vou consertar as coisas. Mas não se atreva a machucar meu filho. Ou a Bia.
— Machucá-los? — perguntei, uma calma arrepiante se instalando sobre mim. — Ah, Alexandre, não vou encostar um dedo neles. Mas vou pegar o que é meu. Cada centavo do que me é devido. Começando com o divórcio. — Puxei o documento branco e nítido, suas bordas ainda afiadas, e o joguei na mesa dele. — Assine.