Capítulo 2

O despertar de Zoe Garcia acontecia antes mesmo de o sol tingir o céu. No pequeno apartamento em Fiera, o som da cafeteira italiana é o sinal de que mais um dia de luta começou. Aos 22 anos, Zoe carrega no sorriso a vivacidade do Brasil e, no olhar, a seriedade de quem aprendeu cedo que o destino exige esforço.

Embora Milão seja a capital da moda e do luxo, a realidade de Zoe e Laura é feita de escolhas conscientes e contas na ponta do lápis. O bairro de Fiera, com suas ruas residenciais e atmosfera acolhedora, é o refúgio delas. É um lugar que abraça o cansaço de Zoe quando ela volta para casa.

Viver na Itália não é o conto de fadas que muitos imaginam. Entre o aluguel apertado e as mensalidades da faculdade, cada euro é suado. Laura, a mãe que é seu porto seguro, faz o que pode para ajudar, mas é Zoe quem assume o papel de "leoa" da casa.

O dia de Zoe é uma maratona de contrastes:

Manhã e tarde na Salvattore Technologies, Zoe circula entre executivos de terno impecável e tecnologia de ponta. Como copeira, ela é a eficiência em pessoa. Organiza cafés, garante que as reuniões fluam e mantém a postura impecável. Ela observa o mundo dos negócios de perto, absorvendo cada detalhe, sabendo que um dia estará do outro lado daquelas mesas de vidro. Por isso estuda Economia e Gestão Empresarial.

A noite, o cansaço físico do serviço da copa dá lugar ao esforço mental. Na faculdade, Zoe é a aluna que não se permite piscar. O que mantém Zoe de pé é o carinho por Laura. Mesmo quando o corpo pede descanso, ela chega em casa e ainda tem disposição para preparar um chá, ouvir como foi o dia da mãe e planejar o futuro.

_"Não é apenas sobre sobreviver na Itália, mãe. É sobre conquistar o nosso espaço aqui,"

Costuma dizer Zoe enquanto revisa seus livros sob a luz fraca da sala.

Sua inteligência e natureza destemida fazem com que ela não se curve diante da xenofobia velada ou das barreiras linguísticas que surgem ocasionalmente no trabalho. Ela é brasileira, é resiliente e tem a garra de quem sabe que Milão, com todo o seu brilho, ainda vai ouvir o seu nome.

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O NOVO CEO

O aroma de café recém-passado preenchia a copa da Salvattore, mas o cheiro de ansiedade no ar era ainda mais forte. Entre o tilintar de xícaras de porcelana e o vapor das bandejas, o assunto era um só: a chegada do herdeiro.

Antonella e Juliana estavam debruçadas sobre o balcão de granito, os olhos brilhando enquanto conferiam o reflexo nos celulares pela décima vez.

- Dizem que ele estudou em Nova York, e passou pela melhor faculdade.

Sussurrou Juliana, ajeitando o crachá.

- Se ele tiver a genética do Sr. Lorenzo, preparem o coração. Aquele velho ainda é um charme, imagina o neto!

- E o melhor: é solteiro!

Antonella completou.

- Já pensou? A nova namorada do CEO da Salvattore ser uma de nós? É o verdadeiro conto de fadas corporativo.

Zoe, que organizava silenciosamente os sachês de açúcar e os adoçantes, soltou um suspiro baixo. Ela não compartilhava do entusiasmo. Para ela, o novo CEO era apenas mais um par de sapatos caros que deixaria marcas no piso encerado e exigiria café expresso sem açúcar na temperatura exata de 65°C.

- Meninas, foco!

Interrompeu Zoe, com uma voz nada suave.

- O andar da diretoria já está parecendo um formigueiro. Se a senhora Gioconda pega vocês aqui suspirando por um homem que nem conhecem, o único "felizes para sempre" vai ser na fila do seguro-desemprego.

As duas amigas olharam para ela, murchando levemente. Zoe terminou de polir a última colher de prata e as encarou.

- Não alimentem esses sonhos.

Aconselhou ela, ajeitando o avental impecável.

- Homens como ele vivem em um mundo de vidros fumê e jatos particulares. Para ele, e para todos os que sentam naquela mesa de reunião, nós somos apenas parte da mobília funcional. Somos "simples funcionárias. Ele não veio aqui para olhar para baixo, veio para olhar para os lucros." O segredo para não se decepcionar,, é saber exatamente onde o nosso pé alcança. E o nosso alcança o chão da copa, não o tapete persa da presidência."

Juliana bufou, mas começou a organizar as bandejas. Antonella apenas assentiu, guardando o batom. Zoe tinha razão, como sempre. Enquanto as amigas saíam para o serviço, Zoe pegou a bandeja de prata destinada à sala principal. Mas antes, sua encarregada, a senhora Gioconda surgiu.

_"Ordens da direção acabou de chegar, por enquanto somente eu poderei servir a sala de reunião e a sala da presidência."

Zoe entregou a bandeja a Gioconda.

Capítulo 3

Naquela tarde o por do sol tingia de dourado as janelas da imponente mansão Salvattore, enquanto Henry e seu avô, tomavam duas xiicaras de café brasileiro no escritório revestido de carvalho. Ele entregou a xícara ao avô, Lorenzo, cujo olhar sagaz ainda retinha o brilho de quem construiu um império do zero.

- Foi melhor do que o esperado, vovô!

Disse Henry, afrouxando o nó da gravata.

- A reunião com a diretoria e os acionistas foi um sucesso absoluto. Os números falaram por si, e o plano de expansão os deixou... bem, devidamente impressionados.

Lorenzo sorriu, brindando silenciosamente. No entanto, o semblante de Henry logo se obscureceu.

- Mas nem tudo foi perfeito. Alguém lá dentro abriu a boca antes da hora. Já vazou que a Salvattore tem um novo CEO. Detesto perder o controle da informação antes de estar tudo assinado e selado.

Lorenzo soltou uma risada rouca e tranquila, recostando-se na sua cadeira de rodas.

- Beba seu café Henry. Relaxe. O fato de saberem que há um novo CEO não é um problema. Na verdade, cria uma expectativa saudável no mercado.

- Mas a discrição era o plano, vovô...

- E o plano continua de pé!

Interrompeu o patriarca com um piscar de olhos.

- Todos sabem que meu neto assumirá o trono, mas ninguém fora daquela sala de reuniões sabe quem é Henry Salvattore. Para os demais funcionários da sede e para a imprensa faminta, você ainda é apenas um nome, um mistério sem rosto. Você passou anos estudando fora, longe dos holofotes. Use isso a seu favor.

Henry caminhou até a janela, observando os vastos jardins da propriedade. Um sorriso astuto começou a surgir em seu rosto.

- Um mistério, hein? -

Henry virou-se para o avô.

- Se ninguém conhece meu rosto, então eu tenho uma vantagem que nenhum outro CEO teve antes.

- O que está tramando?

Perguntou Lorenzo, divertido.

- Eu não vou entrar naquela empresa com tapete vermelho e seguranças na segunda-feira. Vou circular por cada departamento disfarçado. Quero ver como as coisas funcionam quando os chefes não estão olhando. Quero conhecer o caráter de quem trabalha para nós, do almoxarifado ao marketing, sem que eles tentem me bajular.

Lorenzo ergueu o copo em aprovação, o orgulho estampado no rosto.

- É uma tática ousada, digna de um Salvattore. Mas tome cuidado, Henry. Às vezes, a verdade que se encontra nos corredores é mais crua do que qualquer relatório financeiro.

- Henry, deixe os negócios por um momento!

Começou Lorenzo, sua voz carregada da autoridade suave que só décadas de poder conferem.

- Em uma semana, daremos uma festa íntima aqui na mansão. Apenas os amigos mais próximos da família, o cerne da elite milanesa serão convidados.

Henry ergueu o olhar, uma ruga de preocupação surgindo em sua testa.

- Uma festa, agora? Sabe que os olhos do mercado estão sobre nós, avô.

- Exatamente por isso..

Sorriu Lorenzo.

- Será uma celebração da nossa linhagem. Convidei os Conti, os Bernardi e os Valenti. E, naturalmente, eles trarão suas filhas. Moças brilhantes, Henry. Solteiras, bem-educadas e de uma estirpe que poucas vezes se vê hoje em dia. É hora de você escolher uma noiva.

Lorenzo continuou...

_Uma noiva que seja elegante, bonita e conhecida na sociedade italiana.

Henry fechou o laptop com um estalo seco, a expressão endurecendo.

- Isso é um erro. Uma festa com esses nomes vai atrair a imprensa como sangue atrai tubarões. Não quero meu rosto em colunas de fofoca ou fotógrafos escondidos nos jardins tentando capturar qualquer movimento nosso. A privacidade é nosso maior ativo agora.

Lorenzo soltou uma risada curta, balançando a mão no ar como se espantasse uma mosca.

- Você me subestima, meu rapaz. Eu não sou um amador. A segurança será triplicada e o protocolo é absoluto: nenhum celular passará da portaria. A mídia não passará pelo portão principal, muito menos pelos meus homens. Será um bunker de elegância. Nada sai daquelas paredes.

Mesmo com a garantia, o silêncio de Henry foi pesado. Ele se levantou e caminhou até a janela, observando as luzes da cidade começando a brilhar. Ele sabia que o esquema de segurança de Lorenzo era impecável, mas o problema não era o "vazamento" da festa, e sim o propósito dela.

- Não é a imprensa que o senhor está tentando controlar, não é?

Henry disse, sem se virar.

- O senhor quer o meu casamento a qualquer custo. Está organizando um leilão onde eu sou o prêmio e a mercadoria.

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