Heloísa Caldeira POV:
Ricardo se afastou com Carina e Kevin, deixando-me ali, abraçada a Álvaro, sob os olhares curiosos e julgadores de todos. Meu irmão tremia levemente, assustado com a comoção.
Deixei escapar uma risada amarga. Tão previsível.
Os outros convidados, parando para observar, agora se voltavam para suas conversas, alguns lançando olhares de pena, outros de reprovação.
"O Ricardo é mesmo um homem de ouro," ouvi uma senhora comentar para outra. "Olha o carinho dele com o filho da Carina. Nem parece aquele sujeito frio que assumiu a Agrosul."
"Sim, e a Heloísa... sempre tão volátil," outra emendou. "Pobre Ricardo, aguentar uma noiva assim."
Ricardo, ao longe, parecia ter captado os elogios. Seu peito estufou um pouco mais. Carina, com um sorriso de satisfação, deu um tapinha leve em seu braço. Kevin, por sua vez, me lançou um olhar de triunfo, quase um desafio, antes de voltar a rir com Ricardo.
Engoli em seco, sentindo o gosto metálico da bile na boca. O quão patético ele era. O quão facilmente manipulável. Ele se banhava na admiração superficial desses estranhos, sem perceber que era apenas um ator em um palco, e que eu era a verdadeira diretora da peça. A Agrosul era minha. Cada tijolo, cada hectare de terra, cada contrato bilionário. Ele era o CEO interino, um cargo que eu mesma havia concedido para testá-lo.
Peguei meu celular e digitei uma mensagem rápida, enviando-a sem hesitação.
"Heitor, prepare a rescisão do contrato de Ricardo Serra. Imediatamente. E acione o departamento jurídico para o divórcio. Quero tudo pronto para amanhã."
Enviei. Um frio cortante me percorreu, mas não era de tristeza. Era uma resolução gélida.
Ricardo achava que me controlava, que tinha meu poder nas mãos. Ele achava que eu era fraca. Mal sabia ele que eu estava apenas observando, esperando o momento certo para tirar o tapete debaixo dos seus pés.
Eu me perguntava o que ele faria quando não tivesse mais meu dinheiro, meu nome, minha influência. Ele, que tão orgulhosamente desfilava como o novo imperador, logo seria apenas um homem vazio.
Voltei minha atenção para Álvaro, que me abraçava com força.
"Irmã, por que Ricardo está com Kevin? Ele não gosta de nós?" A voz dele era pequena, cheia de mágoa.
Meu coração se apertou. Odiava que a inocência dele fosse manchada pela maldade dos outros.
"Não, meu amor. Ricardo está ocupado. É o trabalho dele, entende? Mas a irmã está aqui, sempre com você." Eu o afastei um pouco, secando uma lágrima que escorria pelo seu rosto.
A professora de artes, que era a anfitriã do evento, pigarreou, chamando a atenção.
"Caros convidados, é hora da nossa primeira atividade! A 'Corrida dos Agricultores'! As crianças deverão montar um pequeno cenário de fazenda, e a dupla que terminar primeiro ganhará um prêmio especial: um tablet de última geração para a criança e um voucher de spa para os pais!"
Álvaro, que adorava montar coisas, abriu um sorriso.
"Um tablet, irmã! Eu quero!"
Seu entusiasmo momentâneo me fez sorrir.
"Então vamos lá, meu amor. Vamos mostrar a eles quem são os verdadeiros agricultores," eu disse, com um brilho nos olhos.
Nós nos dirigimos a uma das mesas, onde havia miniaturas de tratores, celeiros e animais. Álvaro, com sua concentração singular, começou a organizar os elementos com uma destreza surpreendente. Eu o ajudei a posicionar as pequenas cercas, a ajustar os animais. Em poucos minutos, nosso cenário estava pronto, impecável.
"Terminamos!" Álvaro exclamou, levantando as mãos em sinal de vitória.
A professora veio até nós, sorrindo.
"Parabéns, Álvaro e Heloísa! Vocês são os primeiros!"
Um momento de pura alegria. Mas não durou.
De repente, Kevin surgiu correndo, com o rosto vermelho de inveja. Ele empurrou nossa mesa com força. O cenário de fazenda, cuidadosamente montado, desabou em pedaços no chão.
"Não vale! Eu que ganhei! O Papai Ricardo disse que eu sempre ganho!" Kevin gritou, chutando um dos pequenos tratores.
Álvaro, chocado, olhou para o caos no chão, depois para Kevin.
"Não! Você estragou! Nós ganhamos!" Álvaro gritou, lágrimas brotando em seus olhos.
Kevin, sem se importar, chutou Álvaro na canela.
"Seu bobão! Você nunca ganha! Meu Papai Ricardo é mais rico que você!"
Naquele instante, Ricardo apareceu, puxado por Carina, que parecia horrorizada.
"Kevin! O que está acontecendo aqui?" Ricardo repreendeu, mas seus olhos estavam fixos em Álvaro, com um pingo de irritação.
"Papai Ricardo! Ele estragou minha fazenda!" Kevin choramingou, apontando para Álvaro, que estava em prantos.
"Não! Ele que estragou a nossa! Ele me chutou!" Álvaro soluçava, apontando para Kevin.
Ricardo se virou para Álvaro, sua voz fria e autoritária.
"Álvaro, pare com isso. Não seja infantil. Kevin é uma criança, você não pode brigar com ele por um brinquedo."
"Mas ele me machucou! E estragou nosso trabalho!" Álvaro gritou, sua voz embargada.
Eu não pude mais suportar. Coloquei-me entre Ricardo e Álvaro.
"Ricardo, Kevin chutou Álvaro e destruiu o trabalho dele! Você vai defender o seu filho postiço?" Minha voz tremia de raiva.
Carina se apressou em colocar a mão no braço de Ricardo, sua voz suave.
"Heloísa, por favor. É só uma brincadeira de criança. Não vamos fazer uma tempestade em copo d'água."
A professora, finalmente, tentou intervir, mas já era tarde.
"Crianças, por favor, vamos nos acalmar..."
"Papai Ricardo, por que você não me defende? Por que você gosta mais do Kevin?" Álvaro chorou, as palavras cortando o ar como facas afiadas. Inocentes, mas cheias de uma verdade cruel.
Todos pararam. O salão, antes barulhento, ficou em silêncio.
Álvaro o havia chamado de Papai Ricardo.
Heloísa Caldeira POV:
A pergunta de Álvaro ecoou no salão, congelando o ar. "Papai Ricardo, por que você não me defende? Por que você gosta mais do Kevin?"
Todos os olhares se voltaram para nós: eu, Álvaro em meus braços, Ricardo, Carina e Kevin. O silêncio era ensurdecedor.
Ricardo empalideceu, a máscara de confiança rachando. Seus olhos vagaram entre Álvaro, eu e a multidão de convidados chocados. Carina, no entanto, discretamente, exibiu um sorriso quase imperceptível, um brilho de triunfo em seus olhos.
Kevin, aproveitando o momento, olhou para Álvaro e gritou: "Ele não é seu pai! Ele é o MEU pai!"
Álvaro, apavorado, se encolheu ainda mais em meus braços, tremendo incontrolavelmente.
"Papai Ricardo?" ele murmurou, as lágrimas escorrendo. "Por que você não gosta mais de mim?"
Uma dor aguda perfurou meu peito. Eu o segurei com mais força, sentindo as lágrimas de Álvaro molharem meu ombro. A imagem dele, tão vulnerável, tão machucado, acendeu uma fúria fria dentro de mim.
"Ricardo," minha voz era um sussurro perigoso, "diga a ele. Diga a ele quem você é para ele. Diga a ele por que você não o defendeu."
Os olhos de Ricardo se estreitaram, um flash de raiva passando por eles. Ele sabia que estava encurralado.
Mas, para meu horror, ele não recuou. Ele se inclinou, pegou Kevin nos braços e o abraçou apertado.
"Não, meu campeão. Você é o meu menino. Sempre será," ele disse para Kevin, ignorando completamente Álvaro e a mim.
Os sussurros começaram a se espalhar como fogo.
"Ele tem um filho com a prima dela?"
"Então a Heloísa é a outra? Que escândalo!"
"Eu sempre soube que Ricardo e Carina tinham algo. Aquele garoto é a cara dele."
Pessoas apontavam, cochichavam. A humilhação era pública, brutal. Alguns até tiravam fotos com seus celulares.
Senti meu rosto queimar, não de vergonha por mim, mas de raiva pela injustiça, pela maldade. Ricardo me olhava com um desdém gelado, como se eu fosse um mosquito irritante. Carina, ao lado dele, não conseguia esconder a satisfação. Seus olhos brilhavam.
Eu apertava Álvaro contra mim, protegendo-o do mundo cruel que Ricardo havia criado. O barulho dos comentários alheios era um zumbido distante. O importante era a dor de Álvaro.
"Ele parece mesmo o Ricardo, não parece?" ouvi uma voz feminina dizer. "Os mesmos olhos."
Olhei para Kevin. Naquele momento de fúria cega, eu não havia percebido. Mas sim, havia uma semelhança. Os mesmos traços angulosos de Ricardo, a mesma cor de cabelo. Um choque elétrico percorreu meu corpo. Eu tinha sido tão cega? Ou Ricardo tinha sido um ator tão bom?
Álvaro continuava a soluçar, agarrado a mim como um náufrago a uma boia. Eu precisava tirá-lo dali. Agora.
"Vamos, meu amor. Para um lugar tranquilo. A irmã está aqui," eu disse, levantando-me com ele em meus braços. Fazer isso na frente de todos, com os olhares queimando em minhas costas, exigiu cada grama da minha força.
Eu o levei para uma sala de descanso vazia. O lugar estava silencioso, um alívio abençoado do circo lá fora. Álvaro se acalmou um pouco, mas ainda choramingava. No meu colo, ele finalmente adormeceu, exausto de tanto chorar.
Olhei para o rosto angelical de Álvaro, suas pálpebras inchadas, as lágrimas secas marcando seu rosto. A raiva que eu sentia era mais profunda do que jamais imaginei ser possível. Ricardo não apenas me traiu. Ele machucou Álvaro, meu irmão, o ser mais puro e vulnerável que eu conhecia.
E Carina. Aquela víbora. Ela sempre cobiçou o que era meu. Agora, ela tinha Ricardo, meu noivo, e um filho que parecia ser dele.
Levantei-me cuidadosamente, colocando Álvaro deitado no sofá. Peguei meu celular novamente. O evento ainda não havia terminado. E nem o meu plano.
Liguei para Heitor.
"Heitor, preciso que você acelere o processo de divórcio. E o desligamento de Ricardo." Minha voz era fria, sem emoção. "E quero uma investigação completa sobre Carina Godoy e o filho dela, Kevin. Cada detalhe. Cada transação."
"Entendido, Heloísa. Para quando você precisa?" a voz profissional de Heitor soou.
"O mais rápido possível," eu disse, desligando.
Foi então que ouvi. Um grito agudo, seguido de outros.
O grito de Álvaro.