Ponto de Vista: Estela Figueiredo
A porta do meu ateliê rangeu ao abrir, e o cheiro do perfume caro de Frederico encheu o ar, uma intrusão enjoativa e indesejada. Eu не ergui o olhar do mapa de assentos.
"Você está aqui há horas", ele disse, sua voz tingida com aquela falsa e condescendente cordialidade que ele usava quando queria algo. Ele colocou uma caneca fumegante de café ao lado da minha mão. Eu não a toquei.
"Estou ocupada, Frederico."
Ele se inclinou sobre meu ombro, o queixo quase roçando meu cabelo. Eu me encolhi. "Preciso de um pequeno favor."
Eu esperei.
"A Carina está se sentindo um pouco excluída", ele começou, seu tom casual, como se estivesse falando do tempo. "Eu estava pensando... deveríamos adicioná-la à lista de convidados do baile."
Minha caneta parou de se mover. Uma única e perfeita gota de tinta preta sangrou no cartão branco imaculado, manchando o nome de um juiz respeitado. O som da minha própria respiração de repente ficou alto na sala silenciosa.
Ele queria trazer sua amante grávida para um baile em homenagem à memória dos pais cujo sacrifício lhe dera tudo. Ele queria que ela se sentasse entre nossos amigos, nossa família, na noite mais sagrada do meu ano.
"Você enlouqueceu?", as palavras foram um sussurro fantasmagórico, mas carregavam o peso de um grito.
"Estela, não seja dramática."
"Você quer trazer aquela... mulher... para o memorial dos meus pais?", eu finalmente olhei para ele, meus olhos ardendo. "Você tem alguma ideia do que está pedindo?"
"Eu sei que é importante para você", ele disse, sua expressão uma máscara de sinceridade que revirou meu estômago. Ele teve a audácia de parecer magoado. "Mas a Carina está grávida do meu filho. Ela vai fazer parte da família. É melhor que todos se acostumem com a ideia mais cedo ou mais tarde."
Ele olhou para mim então, seu olhar profundo e manipulador, como uma cobra observa um rato. "Além disso, você é sempre tão compreensiva. Você é Estela Figueiredo. Você sabe como lidar com essas coisas com classe."
Compreensiva. A palavra foi um tapa na cara. Ele не estava pedindo minha compreensão. Estava exigindo minha rendição.
Minha mão tremeu. A caneca de café que ele trouxera ainda fumegava. Sem pensar duas vezes, peguei-a e deliberadamente derramei o líquido quente no chão, a poucos centímetros de seus sapatos de couro polido. O líquido espirrou, uma mancha escura e feia no tapete antigo.
"Isso foi compreensivo o suficiente para você?", perguntei, minha voz pingando gelo.
Frederico nem sequer se abalou. Sua calma era mais enfurecedora do que qualquer explosão teria sido. "Estela, isso foi infantil." Ele deu um passo em minha direção, a mão estendida como se fosse verificar se eu tinha me queimado.
Eu recuei como se seu toque fosse ácido. "Não se atreva a me tocar."
"Pare com esse teatro", ele suspirou, sua paciência finalmente se esgotando. A máscara charmosa escorregou, revelando a arrogância fria por baixo. "Não tenho tempo para seus chiliques."
"Saia", eu disse, minha voz tremendo com uma raiva que parecia sísmica.
"Ainda не terminamos."
"Eu disse, saia!", agarrei o objeto mais próximo na minha mesa – um pesado e pontudo abridor de cartas de prata, um presente do meu pai. Eu o ergui, não como uma arma, mas como uma barreira final e desesperada. "Não me provoque, Frederico."
Pela primeira vez, sua expressão mudou. Não para medo, mas para profunda irritação. "Abaixe isso. Você vai se machucar."
Ele avançou para pegá-lo. Eu segurei firme, um "não" gutural rasgando minha garganta. Seus dedos se fecharam sobre os meus, tentando arrancar o abridor da minha mão. A luta foi breve, patética. Ele era muito mais forte.
Houve uma dor aguda e lancinante.
Eu arquejei, meu aperto afrouxando. Ele puxou o abridor de cartas. Sangue, escuro e chocantemente vermelho, brotou de um corte profundo na palma da minha mão. Pingou no mapa de assentos, caindo exatamente entre o meu nome e o dele, uma mancha carmesim que obliterou o "&" que nos conectava.
Nós dois congelamos, olhando para o sangue.
Então, o celular dele tocou. O toque estridente e alegre pertencia a Carina. Eu sabia porque ele o deixara tocar na minha frente uma dúzia de vezes.
Ele olhou para minha mão sangrando. Ele olhou para o celular tocando.
E ele atendeu.
"Oi, meu bem", ele murmurou, sua voz instantaneamente suavizando, pingando uma ternura que ele не me mostrava há anos. "O que foi? Você está bem?"
O mundo ficou em silêncio. A dor física na minha mão era um eco distante comparada ao abismo que se abriu no meu peito. Parecia que meu coração estava sendo rasgado em dois, lenta e meticulosamente, por um par de mãos invisíveis e brutais.
Ele me deu as costas, sussurrando palavras de consolo para ela, enquanto meu sangue continuava a pingar, pingar, pingar no chão.
Depois do que pareceu uma eternidade, ele encerrou a ligação и se virou para mim. Ele soltou um longo e cansado suspiro, um som de pura exasperação.
"A Carina se sente mal", ele disse, sem nem olhar para a minha mão. "Ela não quer 'dificultar as coisas' para você."
Ele fez uma pausa, deixando as palavras manipuladoras pairarem no ar. "Ela diz que se sentiria desconfortável se viesse, mas também se sentiria desconfortável se você fosse sem ela, sabendo que estava sozinha."
Uma risada amarga e quebrada escapou dos meus lábios. "Então, qual é a sua solução brilhante, Frederico?"
Ele me olhou diretamente nos olhos, seu olhar frio e final. "Eu cancelei. O baile está cancelado."
Eu o encarei, incapaz de processar as palavras. Cancelado. Ele havia cancelado o memorial dos meus pais. Por ela. Por um capricho.
Dez anos atrás, meu pai, Roberto Figueiredo, havia entregado toda a sua empresa, as Indústrias Figueiredo, para salvar o Grupo Monteiro de uma aquisição hostil. O acordo lhe custou tudo – sua fortuna, sua saúde, sua vida. Ele morreu de um ataque cardíaco seis meses depois, um homem quebrado. Fiquei órfã. O patriarca Monteiro, avô de Frederico, havia feito um juramento sagrado no túmulo do meu pai de cuidar de mim, de honrar o legado Figueiredo. Este casamento, esta união, era o cumprimento daquele pacto de sangue. O baile anual era o único fio que me conectava àquele passado, aos pais que eu mal lembrava.
E Frederico acabara de cortá-lo. Por uma mulher que ele conhecera há seis meses.
"Eu vou te compensar", ele disse, sua voz desprovida de qualquer emoção real. Ele deu um passo à frente e fez algo tão monstruosamente cruel que me tirou o fôlego. Ele gentilmente afastou uma mecha de cabelo do meu rosto e beijou minha testa, um gesto de afeto vazio e teatral.
"Depois que eu for oficialmente CEO, nós nos casaremos", ele sussurrou, seus lábios frios contra minha pele. "Então tudo voltará ao normal. Apenas seja uma boa menina até lá, Estela."
Ele saiu, me deixando de pé em uma poça do meu próprio sangue, o fantasma de seu beijo traiçoeiro queimando em minha pele.
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Ponto de Vista: Estela Figueiredo
A reunião de acionistas seria em três semanas. Três semanas até Frederico Monteiro receber oficialmente o cetro do poder – o título de CEO do império Monteiro-Figueiredo. Era uma mera formalidade, uma coroação para a qual ele se preparara a vida inteira. Em sua mente, ele já era rei.
Eu me recolhi. O mundo fora dos meus aposentos deixou de existir. Eu não comia. Eu não dormia. Os empregados da casa deixavam bandejas de comida do lado de fora da minha porta, e elas eram levadas horas depois, intocadas. A única coisa que eu consumia era o silêncio, e era uma refeição amarga.
A ferida na minha mão formou uma crosta, uma linha irregular e feia que servia como um lembrete constante. Latejava com uma dor surda, uma manifestação física da podridão que se instalara em minha vida.
Então as mensagens de Carina começaram de novo. Uma torrente implacável de veneno entregue diretamente ao meu celular.
*Vocês estão mesmo noivos? O Frederico diz que é só um acordo de negócios. Ele diz que nunca nem dormiu com você.*
*Você é só uma relíquia do passado, Estela. Uma obrigação. Ele me disse que mal pode esperar para se livrar de você.*
*Por que você não desaparece de vez? Tornaria as coisas muito mais fáceis para todo mundo.*
*Deixe ele ir. Ele me ama. Ele quer ficar comigo e com o nosso bebê.*
Então veio a foto. Uma selfie. Carina, enrolada nos lençóis de Frederico, sua barriga de grávida orgulhosamente à mostra. Frederico dormia ao lado dela, o braço jogado protetoramente sobre ela. Ela sorria, um sorrisinho triunfante e cruel.
A legenda abaixo dizia: *Ele ainda faz amor comigo todas as noites, mesmo com o bebê. Qual foi a última vez que ele te tocou assim, Estela? Ou ele já te tocou alguma vez?*
Meu polegar pairou sobre a tela. Eu не senti nada. Nem raiva, nem lágrimas. Apenas um vazio vasto e frio. Calmamente, bloqueei o número dela e apaguei todo o histórico de mensagens.
Uma semana depois, um jantar formal de família foi arranjado. Uma tentativa dos anciãos Monteiro de projetar uma imagem de estabilidade diante do escândalo crescente. Minha presença não era opcional.
Vesti um vestido preto severo, o curativo na minha mão um contraste branco e gritante. Entrei na grande sala de jantar, de cabeça erguida. A longa e polida mesa de mogno estava cheia com os rostos do clã Monteiro – tios, tias, primos. Seus olhares eram uma mistura de pena e curiosidade mórbida. Eu podia sentir seus pedidos de desculpas não ditos pairando no ar como um cheiro ruim.
Meu lugar designado, à direita da cabeceira da mesa onde o patriarca se sentaria, era meu por direito de nascença. Era o lugar que minha mãe ocupara uma vez, o lugar que significava minha posição como a futura matriarca da família.
Caminhei em direção a ele, cada passo um ato deliberado de reivindicar o que era meu.
E então eu parei.
Minha respiração ficou presa na garganta. O mundo girou em seu eixo.
Sentada na minha cadeira, aninhada ao lado de Frederico, estava Carina Gonçalves.
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