Capa do Romance A Guardiã do Lobo-Rei

A Guardiã do Lobo-Rei

9.1 / 10.0
No gélido reino de Valenor, Lyra Ainsworth assume a tarefa de organizar a biblioteca proibida da coroa. Entre manuscritos ocultos, ela descobre que o castelo de Corvenhall esconde segredos ancestrais e pactos de sangue. O Rei Caelan Thorne, alfa e soberano implacável, passa a vigiá-la com um interesse perigoso. Enquanto Lyra investiga sua própria ligação com o passado do reino, ela se vê dividida entre o medo e a atração pelo lobo que governa as sombras da corte.

A Guardiã do Lobo-Rei Capítulo 1

A neve caía sem pressa sobre os telhados escuros de Asterwyn quando Lyra Ainsworth fechou o último livro da tarde e pressionou a palma da mão contra a capa de couro, como se pudesse silenciar por um instante tudo o que havia dentro dele.

Não funcionou.

Do lado de fora, os sinos da hora baixa soaram sobre a cidade, graves e distantes, atravessando a névoa que subia das ruas de pedra. Dentro da pequena casa de guarda anexa ao arquivo menor, o ar cheirava a cera, papel envelhecido e frio antigo. Era um cheiro que Lyra conhecia melhor do que o próprio perfume. Crescera entre páginas frágeis, listas genealógicas, cartas rachadas pelo tempo e homens que falavam baixo quando não queriam ser ouvidos. Aprendera cedo que o papel guardava mais traições do que a maioria das pessoas.

Naquela tarde, porém, o silêncio do arquivo parecia errado.

Não vazio. Não calmo.

Errado.

Lyra ergueu os olhos da mesa e fitou as estantes estreitas da sala de consulta, todas alinhadas em madeira escura até o teto baixo. O fogo na lareira já quase morrera. A luz da janela, filtrada pela neve, deixava tudo com a cor de osso frio. Sobre a mesa, ao lado do registro de empréstimos, estava a nota que o mensageiro deixara naquela manhã.

O guardião Isen Hale faleceu antes do amanhecer.

A ala principal será reorganizada por ordem da coroa.

Aguardem instruções.

Lyra leu a nota outra vez, embora soubesse cada palavra.

Faleceu.

Era uma palavra limpa demais.

Isen Hale não era homem fácil de abalar. Era seco, meticuloso e orgulhoso a ponto de corrigir um duque sobre a data de uma batalha em plena sala de consulta. Tinha mãos enrugadas, costas ruins e um humor miserável, mas subia escadas como quem nascera nelas. E, três noites antes, mandara buscar Lyra apenas para reclamar do atraso numa remessa de pergaminhos vindos do sul. Falara por quase meia hora sobre cupins, encadernação ruim e a decadência dos novos copistas. Não soara como um homem prestes a morrer.

Ela deslizou os dedos pelo registro aberto à sua frente.

Hale também não deixava trabalho pela metade.

E deixara.

O último lançamento no livro de controle terminava no meio de uma linha, a tinta interrompida como se a pena tivesse sido arrancada de sua mão. Ao lado, um borrão escuro manchava a margem. Lyra o observara cedo demais naquela manhã para não lembrar dele agora. Tinta, dissera a si mesma. Só tinta.

Mas não tinha certeza.

Uma batida brusca na porta que dava para o corredor estreito arrancou-a dos pensamentos.

- Entre - disse, sem elevar a voz.

A porta se abriu com um lamento de madeira, e Mara, a copeira do anexo, surgiu enrolada num xale de lã cinza, o rosto avermelhado pelo frio.

- Há um homem da corte lá fora - ela anunciou, já parecendo ofendida pela existência dele. - Com cavalos. E selo preto.

Lyra levantou a cabeça devagar.

- Selo preto?

Mara assentiu.

- Diz que foi mandado por Corvenhall. Não quis esperar na cozinha. Está sujando o degrau com neve.

Por um instante, Lyra só ouviu o estalo baixo da brasa na lareira.

Corvenhall.

O castelo não chamava gente como ela sem motivo. Quando a corte se lembrava da existência de um guardião ou copista, quase nunca era boa notícia.

Ela fechou o registro, alisou a frente do vestido escuro e pegou a vela mais próxima antes de seguir Mara pelo corredor. O anexo era antigo, baixo e modesto, muito diferente das grandes salas do castelo às quais servia à distância. Suas pedras suavam frio no inverno. As tábuas rangiam. O teto era estreito demais para homens altos e o orçamento sempre curto demais para qualquer reparo decente. Lyra gostava disso. Lugares discretos eram mais honestos que salões.

Quando abriu a porta da frente, o vento entrou primeiro.

Tinha dentes.

A neve rodopiou pela soleira, beijando a barra de seu vestido. No pequeno pátio além do degrau, um cavalo escuro soltava vapor pelas narinas. Ao lado dele, envolto numa capa pesada com o brasão real costurado no peito, estava um homem de meia-idade, ombros largos, rosto castigado pelo inverno e a expressão impessoal de quem carregava ordens, não opiniões.

Ele a mediu uma vez, de cima a baixo, e então curvou a cabeça o mínimo necessário.

- Lyra Ainsworth.

Não foi pergunta.

- Sou eu.

O homem tirou de dentro da capa um envelope grosso, selado com cera negra marcada pelo brasão da coroa de Valenor - a coroa alta, as garras e o lobo.

Lyra não estendeu a mão de imediato.

A cera preta era usada em decretos fúnebres, ordens fechadas e comunicações que não deviam circular. Ela já a vira antes, sempre em mãos alheias, e nunca trouxera nada leve consigo.

- Por ordem de Sua Majestade - disse o mensageiro. - Entrega exclusiva.

Mara fez um sinal discreto contra mau agouro antes de recuar para dentro. Lyra ignorou.

Pegou o envelope.

O papel estava gelado.

- Posso saber do que se trata?

- Pode ler.

A resposta veio sem insolência e sem gentileza. Apenas como fato.

Lyra rompeu o selo com o polegar. O pergaminho dentro era curto. Preciso. Terrível na economia de palavras.

À senhora Lyra Ainsworth,

por determinação da coroa, fica ordenada sua apresentação imediata em Corvenhall, no setor interno do Arquivo de Noctis, antes do soar da nona hora.

A senhora assumirá, em caráter provisório, as funções de triagem, preservação e inventário do acervo restrito vinculado ao falecido guardião Isen Hale.

O não comparecimento será interpretado como desobediência a decreto real.

Venha sozinha.

- Pela mão do Conselho do Rei

Não havia assinatura pessoal.

Só o selo menor da secretaria da coroa. E uma segunda marca, discreta, quase apagada pelo relevo da cera partida: a cabeça de lobo usada nos registros internos da casa real.

Lyra releu a linha final.

Venha sozinha.

Seu pulso não tremeu. Anos de disciplina tinham utilidade.

Mas algo apertou dentro dela.

- Antes da nona hora? - perguntou.

- A carruagem espera no fim da rua.

Ela ergueu os olhos para o homem.

- O Arquivo de Noctis não é triado por assistentes de anexo.

- Não me enviaram para discutir a lógica de Corvenhall.

Não. Claro que não.

Lyra dobrou o pergaminho uma vez.

- Como morreu Isen Hale?

O homem a encarou em silêncio por tempo suficiente para ser uma resposta ruim.

- Caiu - disse por fim.

- De onde?

- Da escadaria interna da ala superior.

Mentira parcial, pensou Lyra de imediato.

Ou, no mínimo, uma versão escolhida com cuidado.

Isen odiava a ala superior. Chamava-a de "túmulo com correntes" e subia lá apenas quando era obrigado a conferir itens lacrados. Se caiu, alguém o mandou subir. Ou encontrou algo que não devia.

- Quem o encontrou?

- Não tenho essa informação.

- Ninguém tem? Ou o senhor não pode me dar?

O mensageiro a olhou com atenção um pouco maior dessa vez, como se recalculasse a mulher diante dele.

- A senhorita faria bem em não começar sua estadia em Corvenhall desse modo.

- Desse modo qual?

- Fazendo perguntas antes de aprender onde está.

O vento soprou outra vez entre eles.

Lyra segurou o pergaminho com mais força, impedindo que tremulasse.

Ela conhecia homens assim. Não brutais. Não grosseiros. Apenas treinados para lembrar aos outros que a corte falava melhor quando ninguém a interrompia.

- Tenho uma hora, então - disse.

- Menos.

- Levo meus instrumentos.

- Desde que não demore.

O homem tornou a curvar a cabeça e recuou um passo, encerrando a conversa sem precisar dizê-lo. Lyra fechou a porta e ficou imóvel por um instante, ouvindo o sangue bater atrás dos ouvidos.

Mara já a esperava no corredor.

- Eu sabia - a copeira sussurrou, como se o próprio teto pudesse delatá-las. - Desde cedo. Tinha coisa errada no ar.

Lyra começou a andar.

- Separe a caixa de restauro pequena, as luvas de couro macio, os pesos de latão e o caderno cinza.

- Você vai mesmo?

Lyra lhe lançou um olhar rápido.

- Foi um decreto real.

- Decretos reais também enterram gente.

- E desobedecê-los enterra mais rápido.

Ela entrou de volta na sala de consulta, guardou o registro de empréstimos no armário estreito e puxou debaixo da mesa uma caixa de madeira escura onde mantinha os próprios instrumentos. Enquanto organizava as folhas soltas, a cola, o estojo de penas e os panos limpos, forçou a mente à ordem. Era a única forma de impedir que a inquietação se transformasse em presságio.

Triagem. Preservação. Inventário.

As palavras pareciam administrativas. Inofensivas.

Mas o Arquivo de Noctis não era lugar de tarefas inofensivas.

Toda pessoa que trabalhava próximo ao circuito dos arquivos sabia disso. Havia o que podia ser lido, o que podia ser copiado, o que podia ser citado, e o que devia continuar fechado mesmo diante de ordens menores. Noctis guardava os documentos antigos da coroa, os registros de linhagem, os tratados internos, certos relatos e, segundo boatos antigos demais para serem confirmados, material que não constava em catálogo algum.

Isen Hale servira ali mais de vinte anos.

Morrera numa escada.

E, agora, a corte a queria sozinha dentro do acervo dele antes do fim do dia.

Mara voltou com a caixa auxiliar e parou à porta, inquieta.

- Você devia levar alguém.

- A ordem foi clara.

- Justamente por isso.

Lyra fechou o fecho de metal da caixa maior.

- Ninguém convoca uma assistente de anexo para um arquivo restrito sem ter decidido algo antes. Ir com medo não muda isso.

Mara franziu a boca.

- Você fala como ele.

Lyra ergueu os olhos.

- Como quem?

- Hale. Quando fingia que não estava preocupado.

Por uma fração de segundo, a frase a atingiu mais do que devia.

Ela desviou o rosto e puxou um xale grosso sobre os ombros.

- Talvez eu tenha aprendido com o melhor.

Mara não sorriu. Aproximou-se, ajeitou a gola do manto de Lyra com mãos práticas e baixou a voz.

- Tem alguma coisa nessa história da queda dele.

- Eu sei.

- E tem alguma coisa no fato de terem chamado você.

Lyra sustentou o olhar da outra mulher.

- Eu sei disso também.

O que não sabia era o motivo.

E odiava não saber.

Pegou a caixa, apagou a vela da mesa com os dedos úmidos e seguiu para a porta. Quando voltou ao pequeno pátio, o céu estava ainda mais pesado, baixo e branco. A rua estreita que descia para a praça parecia engolida pela neve recente. Ao longe, por trás da cortina do inverno, as torres de Corvenhall se erguiam escuras sobre a cidade como se nunca tivessem conhecido outra estação.

A carruagem esperava no fim da rua, negra, fechada, sem qualquer adorno além do brasão da casa real gravado na lateral. Dois cavalos escuros batiam as patas no chão congelado. O cocheiro mantinha o rosto oculto sob o capuz. O mensageiro a observava de perto do estribo, impaciente sem demonstrar pressa.

Lyra desceu os degraus com cuidado.

Cada passo afundava na neve nova com um som seco, abafado.

Quando chegou à carruagem, ergueu os olhos mais uma vez para o castelo. A distância fazia Corvenhall parecer uma massa única de pedra e sombra, mas ela sabia que, dentro daqueles muros, havia salões altos, corredores de velas, capelas antigas, aposentos onde alianças eram costuradas à meia-voz - e, muito abaixo daquilo tudo, arquivos que guardavam o que a corte jamais admitiria em público.

O mensageiro tomou sua caixa e a acomodou sem delicadeza excessiva.

- A estrada até o portão principal está ruim - avisou. - Vamos subir pelo flanco oeste.

- Para evitar a praça?

- Para evitar olhos.

A resposta foi tão direta que Lyra quase olhou para ele com surpresa.

Quase.

- Então os olhos estão esperando por mim?

- Em Corvenhall, sempre estão.

Ela colocou a mão enluvada no batente da carruagem, mas não entrou de imediato.

- Quem pediu meu nome?

O homem hesitou. Foi mínimo. Ainda assim, ela viu.

- A ordem veio do Conselho.

- Isso não responde.

O olhar dele escureceu um pouco, como se medir silêncio fosse mais seguro do que romper disciplina. Então, num tom mais baixo do que usara até ali, respondeu:

- Há nomes que aparecem em listas quando certos livros deixam de estar onde deveriam.

Lyra ficou imóvel.

O vento arrastou neve entre os dois.

- Está dizendo que meu nome apareceu ligado ao arquivo de Hale?

- Estou dizendo que, a partir de agora, a senhorita deve abrir os olhos antes da boca.

Ele se afastou.

Era o máximo que daria.

Lyra subiu na carruagem sem dizer mais nada. O interior estava frio, revestido em veludo escuro e austeridade cara. Quando a porta se fechou, o mundo do lado de fora virou sombra, estalo de rédeas e o rangido pesado das rodas contra o gelo.

A carruagem começou a subir.

Asterwyn passou em fragmentos pela pequena janela: telhados brancos, chaminés fumegando, arcos de pedra, pessoas que encolhiam o corpo sob capas grossas, bandeiras rígidas pelo frio. À medida que avançavam, as ruas estreitavam, depois se abriam, depois se curvavam em direção à colina real. O castelo crescia a cada minuto, tomando céu e pensamento.

Lyra pousou a caixa no banco ao lado e retirou do bolso interno do manto a nota da manhã sobre a morte de Hale. Tornou a lê-la. Tornou a dobrá-la. Tornou a vê-la como mentira mal costurada.

Faleceu antes do amanhecer.

Não dizia quem o encontrou.

Não dizia por que subira.

Não dizia por que o inventário do arquivo restrito precisaria ser iniciado às pressas por alguém de fora do setor principal.

E, acima de tudo, não dizia por que seu nome aparecera quando certos livros deixaram de estar onde deveriam.

A carruagem virou com força. Lá fora, o vento bateu na lateral como uma mão aberta.

Lyra encostou a cabeça no revestimento frio e fechou os olhos por um instante.

Não rezou.

Nunca rezava quando precisava pensar.

Em vez disso, organizou o que sabia.

Isen Hale estava morto.

O Arquivo de Noctis fora fechado às pressas.

A coroa a chamara sozinha.

Havia livros desaparecidos.

E alguém, em algum ponto entre o arquivo e o castelo, decidira que ela devia estar no centro disso antes da nona hora.

Quando abriu os olhos outra vez, Corvenhall já preenchia toda a janela.

As torres negras se erguiam entre véus de neve. Fileiras de janelas altas refletiam um resto pálido de luz. Chamas douradas brilhavam por trás de algumas delas, pequenas e quentes contra o mundo de pedra. Acima do grande portão, o brasão do lobo parecia observá-la com uma paciência antiga.

A carruagem diminuiu.

O coração de Lyra bateu uma vez, pesado.

Não era medo exatamente.

Era a sensação precisa de uma porta se fechando atrás dela antes mesmo de ter sido aberta.

Do lado de fora, vozes ecoaram entre muralhas.

Correntes se moveram.

O portão de Corvenhall começou a se erguer.

E Lyra entendeu, com a clareza desagradável dos maus presságios, que a morte de Isen Hale não era o começo do problema.

Era o convite.

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