Capítulo 2

As luzes fluorescentes da clínica particular zumbiam com um som que se enterrava fundo no meu crânio.

Eu tinha dirigido até aqui às três da manhã, minhas mãos tremendo no volante enquanto minha temperatura atingia 40 graus. Minha visão ficou embaçada na rodovia, a estrada escorregadia com a chuva, mas eu consegui. Eu sempre conseguia. Essa era a minha maldição.

Eu era competente demais para morrer, e insignificante demais para ser salva.

Agora, eu estava deitada em uma sala de recuperação VIP, um gotejamento de soro solitário contando os segundos da minha vida em gotas claras e salinas. Ninguém estava sentado na cadeira ao lado da minha cama. Nenhuma flor na mesa. Apenas o cheiro estéril de antisséptico e a dor latejante em minhas articulações.

Eu precisava de água. O botão da enfermeira estava fora de alcance, e meu corpo parecia chumbo. Rangendo os dentes, me levantei, arrastando o suporte do soro comigo enquanto me arrastava em direção à porta.

O corredor estava silencioso, ladeado por suítes de luxo para os soldados feridos do submundo. Então, ouvi uma voz familiar vindo de um quarto duas portas adiante.

"Abre a boquinha, passarinho. Só mais uma colher."

Eu congelei. Era o Lucas. Sua voz era terna, um barítono suave que eu não ouvia direcionado a mim há anos.

Eu não deveria ter olhado. Deveria ter continuado andando até o bebedouro. Mas eu era uma masoquista pela verdade. Tremendo, espiei pela fresta da porta.

Sofia estava sentada na cama, parecendo radiante apesar da camisola do hospital. Ela tinha um pequeno curativo no dedo — um corte de papel, talvez. Lucas sentava na beirada da cama, segurando uma tigela de sopa, soprando uma colherada antes de levá-la aos lábios dela.

Ele a olhava como se ela fosse feita de vidro soprado — preciosa, frágil e a única coisa que importava.

"Não consigo, Lucas", ela choramingou, virando a cabeça. "Dói."

"É só ansiedade, querida", ele acalmou, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela. "Eu estou aqui. Não vou a lugar nenhum. Passei a noite inteira guardando sua porta."

Minha mão apertou o suporte do soro até meus nós dos dedos ficarem brancos. Ele me deixou queimando de febre para vigiar uma garota que estava saudável o suficiente para manipulá-lo.

"E a Helena?", Sofia perguntou, seus olhos se voltando para a porta como se sentisse minha presença. "Ela não está doente?"

Lucas suspirou, pousando a colher. "A Helena está bem. Ela é forte. Ela não tem o direito de se importar que eu te priorize agora. Você é quem precisa de proteção."

O som do meu coração se partindo foi silencioso, mas pareceu um tiro no corredor quieto.

Virei para sair, minhas pernas tremendo, e colidi com uma parede.

Dante Ramalho. Meu irmão adotivo. O Executor da família.

Ele olhou para mim com um sorriso de escárnio, observando meu rosto pálido e o suporte do soro.

"Espionando, Helena?", ele cuspiu, sua voz baixa e perigosa. "Deus, como você é patética."

"Estou doente, Dante", sussurrei, apoiando-me na parede para me sustentar. "Eu só queria água."

"Não minta para mim", ele sibilou, invadindo meu espaço pessoal. "Você está com ciúmes. Não suporta que a Sofia seja a verdadeira princesa e você seja apenas a vira-lata que pegamos para equilibrar as contas."

"Ele é meu noivo", eu disse, embora a palavra tivesse gosto de cinzas na minha boca.

"Por enquanto", disse Dante, cruzando os braços. "Você não tem vergonha, não é? Você roubou a vida da Sofia por onze anos. Você morou no quarto dela. Você usou as roupas dela. Você gastou a herança que deveria ser dela. E agora você inveja um pouco de conforto para ela?"

"Eu conquistei meu lugar", contestei, minha voz ganhando uma fração de força. "Eu lavei o dinheiro de vocês. Eu mantive vocês fora da prisão."

"Você fez o que foi mandada!", ele latiu, fazendo uma enfermeira no corredor olhar para cima. "Você era um tapa-buraco, Helena. Nós te mantivemos porque pegava mal para o Conselho jogar uma órfã de volta na rua. Mas a Sofia está de volta agora."

Ele se inclinou, seu hálito cheirando a tabaco velho e perfume caro.

"Faça um favor à família: termine o noivado. Deixe a Sofia ter seu lugar de direito. Ela o ama, e ele claramente a prefere. Pare de se agarrar a um homem que só te mantém por perto porque você é boa em matemática."

Minha visão turvou. A crueldade não estava apenas em suas palavras; estava na maneira casual como ele as proferiu, como se minha destruição fosse apenas mais uma tarefa em sua lista de afazeres.

Eu não respondi. Não conseguia. Virei-me e me arrastei de volta para o meu quarto, as rodas do suporte do soro rangendo contra o linóleo.

Subi de volta na cama fria e encarei o teto.

Dante estava certo sobre uma coisa. Eu era um tapa-buraco. Mas ele estava errado sobre o resto. Eu não estava mais me agarrando.

Eu estava deixando ir.

Capítulo 3

Três dias depois, voltei para a mansão dos Ramalho.

A mansão estava silenciosa, um mausoléu construído de mármore e ouro. Caminhei pelo grande salão, meus passos ecoando contra a pedra fria. Eu ainda estava fraca, meu corpo lutando para se recuperar da infecção, mas não tinha para onde ir. Ainda não.

Precisando de ar, fui para o quintal, atraída pelo som rítmico de água espirrando.

A piscina era uma monstruosidade de tamanho olímpico de azulejos turquesa, aquecida a perfeitos 26 graus. Tinha sido construída para mim quando eu tinha doze anos, na época em que o médico disse que nadar ajudaria minha asma.

Sofia estava lá.

Ela estava relaxando em uma espreguiçadeira, vestida com um biquíni branco que provavelmente custava mais do que o carro da maioria das pessoas. Ela me viu e sorriu — uma expressão afiada e predatória que não alcançou seus olhos.

"Olha só quem voltou", ela chamou, tomando um coquetel laranja brilhante. "A contadora."

Eu a ignorei, virando nos calcanhares para voltar para dentro.

"Espere!", ela gritou, levantando-se abruptamente. Ela ergueu um cartão-chave. "O Lucas me deu a chave do seu escritório. Ele disse que agora sou a Contadora Chefe. Aliás, ele dormiu no meu apartamento ontem à noite. Disse que eu tenho pesadelos, então ele teve que ficar."

Eu parei. Não me virei.

"Fique com a chave, Sofia. Você vai precisar dela quando a Receita Federal auditar as empresas de fachada."

Ouvi seus passos estalarem no concreto atrás de mim.

"Você se acha tão esperta", ela sibilou. "Mas você é só uma ladra. Esta piscina? É minha agora. Tudo aqui é meu."

Virei-me para encará-la. Ela estava perigosamente perto da borda da parte funda.

"Então aproveite", eu disse secamente.

De repente, Sofia soltou um grito agudo. Ela arranhou o próprio braço com as unhas, deixando três marcas vermelhas e raivosas, e se jogou para trás.

Ela atingiu a água com um enorme respingo.

"Socorro! Ela tentou me matar!", ela gritou, debatendo-se na água como se não soubesse nadar.

As portas do pátio se abriram instantaneamente. Franco e Maria Ramalho — meus pais adotivos — saíram correndo, seguidos por Lucas.

"Sofia!", Maria gritou, correndo para a beirada.

"Ela me empurrou!", Sofia lamentou, tossindo água. "A Helena me empurrou!"

Franco Ramalho não fez uma pergunta. Ele nem mesmo olhou para mim. Ele avançou como um touro.

Antes que eu pudesse falar, antes que eu pudesse levantar as mãos, a bota pesada de Franco bateu no meu peito.

O ar saiu dos meus pulmões em um silvo doloroso. Voei para trás, caindo na parte funda da piscina.

A água me engoliu. Afundei, o choque frio atordoando meu sistema. Eu não nadava bem — minha asma nunca tinha realmente desaparecido — e o pesado casaco de lã que eu usava me arrastava para baixo como uma âncora.

Debati-me, lutando pela superfície. Rompi a água, ofegante.

"Pai!", engasguei. "Eu não..."

"Mentirosa!", Maria gritou do deck. "Olhe para o braço dela! Sua pirralha cruel!"

Franco ficou na beirada, me observando lutar. "Você quer afogar minha filha? Então vai ver como é."

Afundei de novo. Meus pulmões ardiam. Chutei, lutando contra o peso esmagador das minhas roupas.

De repente, um respingo. Braços fortes envolveram minha cintura. Lucas.

Ele me puxou para a superfície e me arrastou em direção às escadas. Eu tossi, vomitando água clorada, agarrando-me a ele. Por um segundo, pensei que ele tinha me salvado porque se importava.

Ele me jogou no concreto e me soltou imediatamente. Minha cabeça bateu no azulejo duro com um baque doentio.

"Você está louca?", Lucas gritou, de pé sobre mim, água pingando de seu terno. "Olha o que você fez com ela!"

Fiquei ali, ofegante, olhando para eles. Sofia estava enrolada em uma toalha nos braços de Maria, chorando lágrimas falsas. Franco me olhava com puro ódio. E Lucas... Lucas parecia enojado.

"Eu não toquei nela", sussurrei, minha voz quebrada.

"Pare de mentir!", Lucas rugiu. "Você é incorrigível, Helena. Sempre causando drama. Sempre a machucando porque você tem ciúmes."

Ele caminhou até Sofia e passou o braço em volta dos ombros dela, puxando-a para perto.

"Toque nela de novo, Helena", disse Lucas, sua voz baixando para uma calma letal. "Toque nela de novo, e eu vou esquecer quem você é. Vou esquecer os últimos onze anos."

Ele virou as costas para mim.

"Vamos, Sofia. Vamos te levar para dentro."

Eles se afastaram, me deixando tossindo água no concreto frio, tremendo enquanto o sol começava a se pôr.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED