Depois
A luz caminhou pelo quarto, então o dia já deve estar no fim. Acabei virando o relógio. Não aguentava mais pensar no tempo preso dentro dos números do relógio - o tempo que geralmente não vemos quando está acontecendo e que se perde junto com tantos outros tempos perdidos, mas que nos perguntamos onde foi parar depois.
Meus dedos buscam o celular. E por mais que eu saiba que ela não quer falar comigo, ainda abro seu contato e olho a sua foto. Eu me lembro dessa foto.
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Antes
- Olhe para mim. – eu digo, sentado no sofá da minha sala, totalmente relaxado.
- O quê? – ela me encara. Seus olhos estão sérios.
É por causa de um assunto que estou empurrando o quanto posso. Quanto drama pode haver numa mulher só?
- Sorria! – exclamo – Você fica mais bonita sorrindo. – incentivo, sorrindo para demonstrar.
Ela sorri. É um sorriso seco e sem graça que não chega aos seus olhos. Eu ignoro e tiro a foto mesmo assim. Coloco como perfil de seu contato no meu celular.
- Viu? – mostro a foto, em sinal da minha razão. Ela mal move os olhos em direção ao aparelho. Eu o guardo, já impaciente. – Pare de ser tão chata, você acaba com o clima de tudo.
- Você me ignorou a semana toda. Você visualizou as mensagens e não respondeu. – diz lentamente.
- Já falei que estudo muito, que fico ocupado. – argumento, minha voz já levantando o tom.
- Tempo para ver você tem, mas não tem para responder?
Levanto, com um suspiro, e saio, deixando-a sozinha com seus pensamentos.
Minha mãe e Fátima estão fazendo uma bagunça na mesa quando entro na cozinha. Todo sábado minha irmã quer fazer algo especial para o “maravilhoso” namorado – eu me pergunto se ela está tentando fisga-lo com isso, porque não vai funcionar, mas decido nem entrar no assunto.
- A princesa não quer nos ajudar? – minha mãe diz como brincadeira, erguendo uma sobrancelha, mas sei que é sério.
- Ela está ocupada. – dou de ombros.
- Ela sempre tem...
- Passa o trigo. – Fátima corta o assunto, estendendo a mão sem paciência.
Posso ver a preocupação em seus olhos, a testa franzida e o rosto vermelho. Minha irmã está usando todas as armas que conhece, mas provavelmente sabe que não vai funcionar outra vez.
- Acho que você está colocando demais. – minha mãe alerta, observando a forma como Fátima joga o trigo com força dentro de uma tigela.
Afasto a fumaça que sobe em nossos olhos enquanto minha irmã solta um gemido de frustração.
- Outra catástrofe! – ela reclama, colocando as mãos nos cabelos, depois se afasta em direção ao seu quarto.
No mesmo momento, minha mãe olha para mim de novo.
- Está vendo o esforço de sua irmã? É assim que se faz.
Reviro os olhos, sem dizer nenhuma palavra, e volto para a sala. Prefiro o silêncio carrancudo de minha namorada do que todas as indiretas que sei que minha mãe é capaz de fazer.
Depois
Escureceu completamente. Eu abri as janelas para deixar o ar entrar – o ar frio de inverno – e bater em meu peito nu. Ou o ar que eu deveria achar frio porque não sinto nada.
Observo a movimentação nas casas vizinhas, as pessoas seguindo suas vidas, suas histórias. Me pergunto se todas elas vivem “a história”, se sabem quando ela começou, ou se a deixaram passar sem notar. Ou pior, se notaram apenas quando já havia passado.
É muito fácil se perder em sua rotina e simplesmente deixar “a história” rolar sem se dar conta. Eu sei muito bem disso, o relógio tem me mostrado isso insistentemente, e não importa quanto arrependimento haja – o que foi perdido, já se foi e muitas vezes não há nada para fazer para recuperá-lo.
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Antes
Eu atravesso o pátio da faculdade a passos largos quando esbarro com uma garota que parece meio perdida. Estranhamente, ela olha diretamente na minha direção e dá um sorriso que deve parecer tímido, mas que mais parece um pouco nervoso.
- Oi! – ela diz timidamente.
- Desculpa por isso. – peço, querendo continuar meu caminho.
Ela usa uma calça marrom e uma blusa branca. É bonita, muito bonita, e de um jeito único, mas eu jamais lhe diria isso. Tem um ar jovem, cheio de esperança, e olhos expressivos demais. Nunca a vi por aqui, então deve ser nova na faculdade.
- Não tem problema. – ela balança a cabeça para enfatizar – Oi. – repete, como se estivesse voltando para o roteiro que havia imaginado.
- Oi. – respondo já calculando o tempo que ela vai me tomar, porque preciso ir até a biblioteca estudar o quanto antes.
- Você poderia me indicar para que lado fica a biblioteca?
- Na verdade, estou indo para lá. – fico cheio de alívio, apontando a direção. Imensamente grato pelo meu tempo poupado.
Nós andamos lado a lado, em completo silêncio. Percebo que ela olha tudo com interesse, como se tentasse guardar onde são as coisas, e não se preocupa em conversar. Quando passamos pela porta da biblioteca, ela me agradece e se afasta.
Eu sento na minha mesa de costume e pego minhas coisas, mas minha concentração se foi. Fico vendo o rosto dela na minha mente, os olhos atentos – quase que ingênuos – e o sorriso tímido.
Meus olhos buscam encontrá-la repetidamente e só muito tempo depois percebo que não me apresentei. Não vai fazer mal algum pelo menos dizer o meu nome, não que eu esteja interessado em mais do que isso. Minhas prioridades já estão bem estabelecidas até o final dos estudos, talvez até um pouco depois, e não há espaço para distrações – por mais atraentes que pareçam ser.
- Desculpe. – quando percebo, já estou ao seu lado na mesa – É que eu não havia me apresentado. O meu nome é Felipe. – estendo a mão.
Ela ergue os olhos do livro e sorri.
- O meu é Samela.