Jax presumiu que o desaparecimento silencioso de Savvy do bar fosse algum tipo de tática.
Achou que ela estava se fazendo de difícil, um charme calculado depois de ouvir a conversa.
Ele não entendia. Não de verdade.
Não era capaz de imaginar a profundidade da mágoa dela.
Na verdade, estava mais irritado por ela quase ter estragado o clima com Chloe antes da apresentação.
Viram? Completamente louca, murmurou para os colegas de banda assim que ela saiu.
Ainda bem que a Chloe tem aquele plano, disse Mark, o baixista, sempre ansioso para concordar com Jax.
É, noivado, o pacote completo. Isso vai fazê-la fugir para bem longe, disse Jax, forçando um tom confiante para agradar Chloe, que o observava com uma sobrancelha arqueada.
Chloe apenas sorriu, um sorriso frio e calculado. "É uma ótima estratégia de relações públicas, querido. Um astro do rock que encontra o amor verdadeiro. Assenta a cabeça. As gravadoras adoram isso."
Ben me encontrou horas mais tarde, depois da apresentação da banda.
Eu estava encolhida no meu quarto do alojamento, com o rosto manchado de lágrimas, tremendo apesar de o aquecedor estar ligado no máximo.
Sav, ele começou, com a voz hesitante. "O Jax me disse que você esteve no bar."
Não olhei para ele.
Ele é um idiota, Sav. O que ele disse, o que está planejando... é doentio.
Você não o impediu, sussurrei, com a voz rouca.
Eu tentei falar com ele antes, quando ele mencionou pela primeira vez essa ideia de 'dar um susto na Savvy' com a Chloe. Mas ele não me deu ouvidos.
Ele passou a mão pelo cabelo já despenteado. "Ele está completamente enfeitiçado pela Chloe. Ela quer entrar para a indústria a qualquer custo. E o Jax... ele acha que ela é a porta de entrada dele, e talvez algo mais."
Lembrei-me de Jax no camarote, os olhos fixos em Chloe, com um olhar que eu nunca o vira dar a ninguém.
O olhar que eu sempre sonhei que ele me daria.
Eles estão mesmo juntos, não é?, perguntei, precisando ouvir para que se tornasse real.
Ben assentiu lentamente. "Sim, Sav. Estão. Já faz um tempo, e é bem sério."
As palavras foram como outro soco no estômago.
Ele tentou dizer algo mais, que Jax era um idiota, que eu merecia algo melhor.
Mas o celular de Jax, que Ben havia deixado do outro lado do quarto, tocou. Era Chloe, e a voz dela era nítida mesmo à distância.
Jax, que pelo visto viera com Ben, mas esperara do lado de fora, atendeu no mesmo instante.
Oi, amor. É, a apresentação foi ótima... Sim, só estou checando uma coisa... Não, não, já estou acabando.
A voz dele, tão diferente da que usava comigo, mesmo nos momentos de gentileza.
Ele enfiou a cabeça para dentro do quarto. "Tudo bem, Savvy?", perguntou sem de fato me olhar, com a atenção já voltada para Chloe.
Apenas o encarei em silêncio.
Certo. Então... Ben, a Chloe quer ir comemorar. Você vem?
Ele saiu antes mesmo que Ben pudesse responder.
Ben suspirou. "Viu só? Ele está obcecado. Tentei dizer a ele que você não era uma fã louca, que você se importava de verdade. Mas os amigos dele, Mark e Lee, só botam pilha. 'Ela é só uma garotinha, Jax. A Chloe é uma mulher.'"
Estava claro. Eu era um incômodo. Uma ponta solta.
No dia seguinte, fui à secretaria de estudantes internacionais.
Minhas mãos estavam firmes enquanto eu preenchia o formulário de inscrição para o programa de intercâmbio em Florença.
A bolsa de estudos que tinham me oferecido no início do ano, a qual eu quase recusei por significar ficar ainda mais longe de Jax.
Agora, ela parecia uma rota de fuga.
Florença. Uma cidade nova, uma vida nova.
O mais longe possível de Austin e de Jax Harding.
Alguns dias depois, foi o aniversário de vinte e cinco anos de Ben.
Uma festa no loft elegante de um amigo no SoHo.
Eu não queria ir. A ideia de ver Jax, de vê-los juntos, me embrulhava o estômago.
Mas Ben implorou. "Por favor, Sav. É o meu aniversário. Só um pouquinho."
Então eu fui, com um sorriso corajoso estampado no rosto, meu jeans cuidadosamente rasgado e minha camiseta de banda parecendo uma fantasia.
O loft estava lotado e barulhento, cheio de gente afetada.
E então eu os vi.
Jax, com Chloe Davenport pendurada em seu braço.
Ela era linda, de uma beleza incisiva e elegante. Cabelo impecável, roupas perfeitas e um sorriso que não alcançava os olhos.
Eles vieram direto em minha direção. Meu estômago se revirou.
Savvy!, disse Jax, com uma animação exagerada. "Que bom que você veio. Quero te apresentar uma pessoa."
Ele gesticulou na direção de Chloe. "Esta é Chloe Davenport. Minha noiva."
Noiva. A palavra me atingiu com mais força do que eu esperava, mesmo sabendo que fazia parte do plano.
Chloe estendeu uma mão impecavelmente cuidada. O aperto era firme, frio.
O Jax me falou tudo sobre você, querida, disse ela, a voz escorrendo condescendência.
É uma gracinha você ter tido uma quedinha por ele, mas o Jax é um homem feito agora. Estamos até pensando em começar uma família em breve.
Ela deu um tapinha sugestivo na barriga lisa.
Tenho certeza de que você vai encontrar alguém da sua idade.
Forcei um sorriso. "Parabéns aos dois. Desejo tudo de bom."
Minha voz saiu surpreendentemente firme.
Jax pareceu aliviado. O sorriso de Chloe se crispou, quase imperceptivelmente.
Então Mark e Lee, os parceiros de banda de Jax, aproximaram-se de nós, ruidosos e com cervejas nas mãos.
Ei, Savvy! Lembra de todos aqueles biscoitos que você costumava nos fazer?, caçoou Mark.
E dos cartazes? ‘The Night Howlers conquistam Austin!’, acrescentou Lee, com uma voz teatral.
Ambos riram, as gargalhadas altas e descabidas.
Ela era nossa fã número um, não é, Savvy?, provocou um deles.
Uma paixonite de criança adorável, disse Mark, piscando para Chloe. "Ainda bem que nosso Jax amadureceu."
As pessoas do ramo que estavam por perto riram.
Senti o rosto arder. Humilhação total e absoluta.
Jax continuou parado, um sorriso vago e desconfortável nos lábios. Ele não disse uma única palavra para impedi-los.
Ele não se importava.
Foi então que percebi. Todos aqueles anos, a tolerância dele com a minha presença, meu jeito de gravitar constantemente ao redor dele e da banda... tudo por causa de Ben.
Ben era seu melhor amigo, seu parceiro de banda. Ele aturava a irmãzinha.
Agora, ele tinha Chloe. Não precisava mais me aturar.
Ele queria que eu sumisse. Todo aquele teatro era para garantir isso.
Murmurei uma desculpa qualquer e me virei, sentindo uma necessidade urgente de escapar.
A tristeza era um peso esmagador no peito, que me roubava o ar.
Encontrei um canto tranquilo perto de uma grande janela com vista para a cidade.
Noite difícil?
Chloe Davenport estava ao meu lado, com duas taças de champanhe nas mãos. Ofereceu-me uma.
Neguei com a cabeça. "Não, obrigada."
Olha, disse ela, a voz mais suave agora, quase conspiratória. "O Jax pode ser um babaca às vezes. E aqueles caras são uns idiotas. Não deixe que eles te afetem."
Eu apenas a encarei.
Eu falei sério, Chloe. Fico feliz por vocês. E estou seguindo com a minha vida.
Ela tomou um gole de champanhe, os olhos me avaliando.
É mesmo? Sabe, às vezes o Jax fala dormindo. Ele costumava murmurar seu nome. Bastante.
Minha respiração falhou. Que jogo era aquele?
Acho que ele se sentia culpado. Por iludir você com aquela besteira de ‘espere até fazer vinte e dois anos’.
Ela deu de ombros. "Ou talvez ele só gostasse da atenção da garotinha doce e artística."
O sorriso dela voltou, afiado e presunçoso.
Antes que eu pudesse responder, ouviu-se um som alto e repentino, um rangido vindo de cima.
Nós duas olhamos para cima.
Uma enorme instalação de arte, uma pesada escultura de metal, estava suspensa no teto.
Balançava.
Perigosamente.
As pessoas começaram a gritar.
Num reflexo, Jax, que surgiu do nada, agarrou Chloe e a puxou com força para longe da trajetória da escultura.
Ele nem olhou na minha direção.
A escultura despencou com um estrondo ensurdecedor de metal se retorcendo e gesso se estilhaçando.
Eu não estava diretamente embaixo dela, mas um pedaço grande e irregular se soltou, girando pelo ar.
A dor explodiu na minha perna, uma agonia lancinante e cegante.
Outro golpe, perto da clavícula.
Então, a escuridão.
Acordei em um quarto de hospital.
O cheiro de antisséptico e medo.
Ben estava lá, o rosto pálido, os olhos vermelhos.
Savvy? Ah, meu Deus, Savvy, sinto muito. Ele parecia prestes a chorar.
O que aconteceu?, minha voz era um sussurro rouco.
A escultura... caiu. Você foi atingida. Sua perna está quebrada, bem feio. E você tem um corte fundo aqui. Ele tocou suavemente a própria clavícula.
Sua expressão se fechou, furiosa. "O Jax... ele ficou parado lá com a Chloe. Nem olhou para trás depois de puxá-la para um lugar seguro."
Processei a informação. Jax salvou Chloe. Claro. Ela era sua noiva, seu futuro.
Eu era apenas... Savvy.
Essa constatação já nem doía mais. Era apenas um fato.
Está tudo bem, Ben, sussurrei. "Ele fez a escolha dele. Está tudo bem."
Aquilo solidificou tudo. Minha decisão de ir embora.
Ben olhou para mim, os olhos cheios de uma dor que espelhava a minha, mas também de uma raiva contida.
Não está tudo bem, Sav. Nada disso está certo.
Mas eu sabia, com uma certeza gélida, que tinha acabado. O que quer que eu pensasse que existia com Jax, qualquer futuro que tivesse sonhado, tudo se fora.
E, estranhamente, eu estava calma.
Eu iria para Florença. Iria me curar. Iria construir uma nova vida.
Em segredo, comecei a fazer os planos de verdade: aqueles que envolviam passagens de avião e uma viagem só de ida.