Capítulo 2

— Aquela menina disse.

— É mesmo, esqueci disso.

Os dois ficaram em silêncio.

— Bem... Está com fome?

— Não.

— Depois que os meus pais chegarem e estiverem dormindo, vou arrumar um colchonete aqui para você. Antes disso preciso que você fique em silêncio e se ouvir alguém vindo aqui, se esconda debaixo da cama. Pode ser?

— Claro.

— Que bom que estamos nos entendendo agora.

E lá estavam eles de novo... Os dentes perfeitos e brancos.

— July!

A menina arregalou os olhos ao ouvir sua mãe chamar.

— Eu preciso ir.

— Estarei aqui — respondeu simplesmente.

A garota foi até seus pais.

— Que cara é essa?

— Que cara?

— Parece assustada. Teve alguma notícia na escola?

— Que notícia?

— Parece que não — disse seu pai.

— Do que estão falando?

— Parece que o Kirovs inventou outra guerra.

July suspirou. Um dia ele ainda mataria a todos!

— Mas quem ousaria ir contra ele?

— Descobriu um grupo de pessoas que estavam armando para derrubá-lo do poder e ficou louco. Temos que nos proteger.

— Vamos para o buraco outra vez? — perguntou, chateada.

"Buraco" era um lugar embaixo das terras da cidade onde os habitantes se escondiam durante essas guerras loucas de Kirovs. July chamava assim porque lá dentro era tudo feito de pedras, eles desciam, desciam, desciam e finalmente chegavam em um lugar apertado e escuro. Mal dava para respirar ali dentro, principalmente quando alguma bomba caia por perto e a poeira teimava em entrar no maldito buraco.

— Sim, vamos para o refúgio. Se prepare.

— Vamos agora?

— Amanhã de manhã.

— Tudo bem.

July seguiu para o seu quarto e quando entrou, o garoto não estava lá. Essa não! Como vai fazer com ele? Levá-lo para o buraco? Onde ele se meteu? Céus! E agora? Ela pediu para não sair dali!

Ao olhar para o chão, levou um grande susto. Ele saía debaixo da cama. Como ela pediu para qualquer coisa se esconder ali, ao ouvir alguém se aproximando, ele entrou debaixo da cama dela e percebendo que não era um de seus pais, saiu.

— Você me deu um baita susto!

— Desculpe.

— Isso é o de menos agora. Tenho que pensar em como te levar para o buraco! Você não pode ficar aqui! Se alguma bomba acertar a casa... Não quero nem pensar! — Parou de tagarelar ao ver ele em pé paralisado de costas para ela. — Que foi?

Ele não respondeu e sequer se mexeu.

July se aproximou e percebeu que segurava algo. Ficando na ponta dos pés para ver o que era, quase entrou em colapso. Ela se aproximou e arrancou o que tinha na mão dele.

— Isso é pessoal! — falou, nervosa e dobrou o papel.

— Como conseguiu isso? — Ele estava sério.

— Já disse que é pessoal!

O menino se aproximou e fez ela olhar para cima, pois era bem mais alto do que ela.

— Quem te deu isso?

— Não sabe o que quer dizer pessoal? — perguntou, rabugenta.

Adriel estreitou os olhos e ela percebeu que estava ficando irritado.

— É exatamente por isso que pergunto.

— O que tem de mais no desenho?

— Onde conseguiu?

— Eu pintei.

A expressão dele mudou, mas July não soube dizer se era bom ou ruim.

— Mas viu em algum lugar?

— Você vai achar besteira... — Desviou o olhar dele.

— Acredite. Não vou.

— Como pode ter certeza?

— Eu já vi esse tigre.

— Jura? Onde?

Ele pareceu pensar depois da pergunta.

— Isso é uma longa história...

— Tenho todo o tempo do mundo.

— Não, não tem. Uma guerra está por vir.

— Como sabe disso?

— Ouvi a conversa de seus pais.

— Como? O quarto é muito longe da sala! Você saiu do quarto? — perguntou com desespero. — Eu disse para não fazer isso! Se alguém te visse! — falou sem que ele conseguisse responder.

— Eu não saí.

— Que audição hein! — O garoto deu uma risada. — Me conte de onde conhece o tigre.

— Só se me contar onde viu.

Os dois ficaram em silêncio por uns instantes. July pensava se contava ou não e Adriel como sempre, não desprendia seus olhos de cima dela.

— De onde você vem, as pessoas ficam encarando assim mesmo?

Adriel deu uma gargalhada e fez July sorrir.

— Na verdade, não.

— Então é uma coisa sua...

— Também não.

— Então por que me olha assim?

Uns segundos de silêncio depois da pergunta.

— É uma longa história.

— Oh! Também quero ouvir essa!

— Primeiro você conta onde viu o tigre.

— Cismou com isso — resmungou.

— O que tem de mau em contar?

— Todos acham que sou louca! Que só imagino coisas e fantasio tudo! É só por isso! — falou, irritada.

— Pois eu não acho você louca.

— Nem me conhece!

— Se continuarmos assim, não vamos a lugar algum.

Mais uma vez o silêncio invadiu aquele quarto. July olhava para a janela e pensava em como dizer que o tigre era de um sonho e ao mesmo tempo em como ele poderia conhecer o tal tigre.

Já Adriel esperava ansioso pela resposta da garota, tinha os olhos presos nela e observava cada expressão que ela fazia.

— Pode pelo menos me responder por que isso é importante?

O garoto ficou pensativo.

— Porque nunca achei que alguém daqui saberia dele.

— Ele existe?

— Sua vez de responder — disse sorrindo.

July suspirou derrotada.

— Tudo bem. Eu sonho com ele às vezes...

Os olhos do menino brilharam quando ela respondeu, o que fez ela começar a achar que não era a única louca naquele lugar.

— Como são os sonhos?

— Não! Eu não vou dizer isso! Já respondi como fiz o desenho, agora é sua vez de me dizer como conhece ele!

— É complicado.

— Não importa eu tento descomplicar!

O garoto deu uma risada gostosa e ela não conseguiu segurar a sua.

— Não sei se devo dizer.

— Você disse que ia!

— Mas eu não...

— Nada de "não posso", "não devo", ou qualquer um desses! Você disse que ia contar se eu contasse!

Já sem saída, ele concordou.

— Está certa.

— Conte.

Quando ele ia começar a história, o pai de July gritou, fazendo a menina revirar os olhos, o que fez Adriel sorrir.

— Já vou! — gritou de volta. — Você vai me contar isso ainda hoje! Vou tentar esconder comida para você.

— Obrigado.

July saiu do quarto e foi encontrar seus pais. Estavam já sentados à mesa.

— Por que demorou a descer?

— Estava fazendo umas anotações da escola. Desculpe.

— Tudo bem. Sente-se.

A menina obedeceu.

O jantar foi, como sempre, entediante. Ninguém contava nada de diferente ou emocionante e na maioria das vezes ficava um grande silêncio, pois todos estavam mastigando. July demorou mais do que o normal para comer. Queria que eles pedissem para ela arrumar a mesa, pois assim pegaria comida para Adriel.

O último a sair da mesa sempre tinha que arrumar e ela nunca era a última, justamente por esse motivo, mas agora tinha um interesse.

— Parece que a mesa vai ficar por sua conta hoje.

— Que chato!

— Não reclame, mocinha! — repreendeu o pai.

— Tudo bem. Pode deixar comigo.

Os dois saíram do local e seguiram para o seu quarto. July terminou sua comida já fria e arrumou toda a mesa. Ela separou um pouco para Adriel e subiu para o seu quarto.

Chegando lá, foi até a mesa de estudos e praticamente jogou o pote com a comida. Ela se aproximou do garoto com fúria e arrancou o que tinha nas mãos dele.

— O que pensa que está fazendo? — Se controlou para não gritar.

— Achei esse caderno no seu colchão.

— Não me diga?! — perguntou, irônica. — Quem deixou você ler?

— Não podia?

— É óbvio que não! Isso é particular!

— Desculpe...

July ficou em silêncio quando ele disse isso. Parecia chateado e um pouco constrangido.

— Desculpa, não deveria ter falado desse jeito. É que o que escrevo aqui é muito pessoal e ninguém pode saber.

— Por que não?

— Todos acham besteira ou fantasia. E aqui não são aceitos esse tipo de coisa.

— Eu sei bem — respondeu, suspirando.

— Trouxe um pouco de comida pra você. — Pegou o pote e entregou a ele. — Não é muita coisa, mas é o que temos.

— Agradeço. — Pegou da mão dela.

— Eu não sei o que fazer com você amanhã — falou, nervosa.

Adriel, que já comia o que ela trouxe, parou por um momento e ficou em silêncio olhando-a.

— Você não tem que se preocupar comigo. Tem que ficar segura.

— Você também tem que ficar seguro.

— Eu vou estar.

— O que quer dizer?

Adriel assumiu um semblante triste.

— Eu vou embora amanhã.

— Já? — perguntou chateada.

— Sim. Não posso ficar muito.

— Que pena.

— O que você escreve é lindo.

— São apenas sonhos.

Os dois ficaram em silêncio.

— Se eu disser que não são, você me acha louco?

— Um pouco.

— Gosto da sua sinceridade.

July desviou o olhar, sentindo vergonha.

— Mas eu vou dizer mesmo você me achando louco. — Seus olhos pareciam queimar enquanto a olhava. — Tudo que li nesse caderno existe.

— Tudo?

— Cada coisa.

— Até o tigre? Por isso disse que o conhece?

— Sim.

— Está de brincadeira comigo? — Cruzou os braços.

— É claro que não!

— Como poderia existir um lugar daquele em um mundo louco como esse?

— Eu não disse que é nesse mundo.

Dessa vez o silêncio foi demorado. July não sabia o que responder. Ele realmente era louco! Como ela pôde colocar uma pessoa assim dentro de sua casa?

— Sei que está pensando que sou louco, mas acredite! O lugar que você vê nos sonhos existe e não é aqui nessa terra.

— E onde seria?

— No mundo de onde eu venho.

— Você é um E.T.?

— Não é bem isso — disse, rindo.

— Porque minha avó me disse que E.T. é verde e você não é — disse com os olhos cerrados —, mas isso não é possível! Porque no meu sonho o tigre fala!

— No meu mundo existem coisas esplêndidas. — Se aproximou dela, que estava sentada na cadeira. — Você pode conhecer se quiser.

— Será que isso também é um sonho? — perguntou para si mesma, mas Adriel escutou.

— Estou aqui mesmo. Sempre ouvi falar que alguém daqui iria aparecer um dia no meu mundo, mas não imaginei agora.

— Nunca teve ninguém como eu lá?

— Sim, claro! Mas há muito tempo não escuto histórias dele.

— Como você vai pra lá? De nave?

A gargalhada foi tão forte, que July pensou que seus pais apareceriam ali.

— É mais simples.

— Como?

— É só usar um portal.

— Portal? — Deu uma risada. — Você cheirou alguns daqueles entorpecentes, não foi?

Adriel suspirou, desapontado.

— Pensei que você iria comigo, mas pelo visto me enganei.

— Abra o portal para eu ver.

— Não adianta se você não acredita. Engraçado que você, de todos aqui, foi a única que vi esperança no olhar e quando li seus sonhos, achei que acreditaria... Mas me enganei.

— Mas como funciona? Magia?

— Sim.

— Magia... — Ficou pensativa. — O que tem no seu mundo?

— Você não vai acreditar.

— Tenta.

O garoto puxou bastante ar e depois soltou.

— Existe água fresca e abundante, animais de variadas espécies, alguns mágicos... Fadas, duendes, bruxas.

— Fadas?

— Sim.

— Elas são pequenininhas e engraçadinhas?

— Depende.

— Tipo desse tamanho? — Fez um movimento com as mãos mostrando como se a fada tivesse o tamanho de uma garrafa pequena de água.

— Não, elas não são pequenas assim.

— Então como são?

— Como pessoas normais.

— E não tem asas?

— Tem sim.

— Que legal! E as bruxas? Usam chapéu pontudo e varinhas mágicas?

— Não. São normais.

— Que coisa...

— Mas não mexeria com elas se fosse você.

— Hum... Elas são mal encaradas?

— A maioria sim.

— Que chato. Os duendes são pequenos, não é?

— Devem ter meio metro de altura.

— Isso tudo é muito legal, mas o que mais me chamou a atenção foi...

— A água — falaram ao mesmo tempo.

— Eu sei. Nesse mundo também já foi assim, mas os humanos abusaram demais.

— Minha avó me contou como era, mas quase ninguém acredita que foi assim um dia.

— E você acredita?

— Sim.

— E acredita em mim agora?

July ficou pensativa. O que tinha a perder indo com ele? Se o lugar é assim tão especial, por que não?

— Acredito.

Assim que ela falou, uma luz forte invadiu o local, fazendo ela fechar os olhos. Quando diminuiu, July abriu os olhos e ficou de boca aberta. Bem atrás de Adriel, tinha um espaço onde ela via um grande gramado verde e árvores de vários tamanhos. A menina ficou em transe com o que via.

Era mesmo tudo verdade.

Capítulo 3

— Meu Deus! — falou, extasiada. — Isso é incrível!

— É mesmo... — respondeu para si mesmo.

— Como você fez?

— Eu não fiz.

— Ué, então como abriu?

— Também gostaria de saber, mas melhor depois. Não vai ficar aberto muito tempo. Vamos? — Estendeu a mão a ela.

— E meus pais?

— Eles vão ficar bem.

— Mas vão ficar preocupados comigo.

— Talvez... Mas você não precisa ir para sempre. — Quando falou, July percebeu que ficou incomodado.

— Então vamos! — Segurou a mão dele.

Adriel sorriu e puxou ela para dentro do portal. July viu o gramado ficar cada vez mais perto e quando olhou para trás procurando seu quarto, não o encontrou mais. Já tinha passado pelo portal e provavelmente fechou. Ficaram em silêncio olhando o local. O ar era fresco e tinha um cheiro gostoso. Como no sonho dela. O sol não queimava como o da terra, pelo contrário, aquecia.

— Parece meio deserto aqui.

— Porque estamos no local que você sonhou.

— E o que isso tem a ver?

— Estamos nas montanhas.

— Oh!

— Aqui em cima vamos encontrar mais plantas.

— E como chegamos aos outros?

— Existe uma cidade onde moramos.

— Você mora com seus pais?

— Não.

— Mora sozinho?

— Não.

— Mora com quem?

— Quer saber isso agora mesmo? — perguntou com uma sobrancelha levantada.

— Tem razão. Conhece esse lugar?

— Sim.

— Então me guie.

O loiro sorriu. Nesse mundo ele não parecia tão branco como no de July, mesmo assim ainda era bastante claro.

Começaram a andar pelo gramado. July estava achando tudo lindo, pois onde vivia não tinha tantas cores como aquele lugar. As árvores eram todas altas, algumas de troncos grossos e outros finos. July jurou que viu uma árvore de tronco amarelo.

— Isso é tão incrível!

— Aqui é só a parte de cima.

— A cidade já não deve ser assim tão bonita, não é?

— Bem, todas as casas são feitas de madeira. Respeitando é claro, cada árvore que foi usada.

— Aqui tem bem mais mata do que casas, não é?

— Sim. A população não é muito grande.

— Podemos ver mais?

O menino sorriu ao ver os olhos faiscantes de alegria de July ao pedir.

— É claro!

Continuaram caminhando pelo local. Agora tinha uma pequena descida, mas nada impossível de passar, pelo contrário, o caminho continuava gramado e verde. Parecia que não tinha fim. A garota estava encantada com as coisas que via.

Parou em frente a um pedaço diferente do gramado. Era todo colorido, amarelo, rosa, azul, roxo, laranja. Era tão lindo que a menina ficou petrificada de tão encantada. Achou que a grama ali era pintada, mas mudou de ideia ao ver todas as cores saindo de seus lugares e voando pelo céu. Eram borboletas. July sorriu largamente. Incrível o que um conjunto de borboletas de diversas cores podem fazer voando juntas. E o céu era azul claro e sem nenhuma nuvem. Na Terra havia tanta poluição, que as nuvens que cobriam o céu não eram naturais, muito menos brancas.

Depois do espetáculo das borboletas, eles seguiram seu caminho. Chegaram em um lugar onde o espaço era pequeno, no meio tinha uma árvore não tão alta, seus galhos caíam em volta fazendo um formato quase igual ao de um guarda-sol. No chão a grama verde se estendia e várias outras árvores enfeitavam o lugar.

July se aproximou lentamente. Aquele era o verdadeiro lugar que ela sonhou. Parou em frente à árvore “guarda-sol” e ficou de costas para ela. Podia ver claramente o tigre branco vindo em sua direção, como no último sonho.

— Você tinha razão! Meus sonhos estavam certos! — falou, animada.

— Eu adoro esse lugar — disse, passando a mão na árvore.

— Como posso encontrar o tigre?

O silêncio foi tão grande entre os dois, que July ouviu perfeitamente os pássaros cantando na floresta.

— Que foi? — perguntou quando percebeu ele tão sério.

— O tigre não aparece muito... É raro encontrá-lo.

— Que pena. Queria conhecê-lo pessoalmente.

— Um dia o verá. Agora vamos para a cidade. Outro dia voltamos para você conhecer o resto da floresta.

— Tudo bem.

Seguiram em direção a cidade. Passaram por um caminho estreito de terra, em volta dessa passagem, tinha uns matinhos que acompanhavam a terra do chão, fazendo um perfeito caminho. Pareciam respeitar aquele espaço e não ficavam atrapalhando a passagem.

July parou de andar ao ouvir um barulho. Adriel só percebeu depois de um tempo e teve que voltar um pouco para onde a menina estava. Ela procurava o tal barulho que ouviu, mas não via nada.

— Que foi?

— Estou ouvindo um barulho...

Os dois ficaram em silêncio para ouvir.

O som era como um paraíso para a garota. Nunca tinha escutado dessa forma em sua vida, mas sabia exatamente o que era. Quando seus pais colocavam em um copo, por mais que fosse pouco, fazia barulho. Só que era diferente, pois era um barulho mais forte.

Adriel entrou pelo caminho da direita e a menina o seguiu. Andaram um pouco. Quanto mais se aproximavam, mais alto o som ficava. July sentia seu coração acelerado. Ansiava para ver o que fazia o som ser tão forte assim. O loiro passou por baixo de um galho e segurou para ela passar, quando passou por ele, ficou deslumbrada com a visão.

Era muita água.

Caía de uma enorme pedra, que olhando para cima, ficava até um pouco tonto. Era incrível ver a água caindo daquela altura toda. Formava um grande lago em frente a eles, limpo como July nunca tinha visto nas águas que bebia em sua casa. Totalmente transparente. Se via o fundo todo.

— É bonito, não é? — perguntou já ao lado da garota.

— Nunca vi algo tão lindo em minha vida! As águas que bebemos não são tão claras assim.

— Aqui as águas são sempre cristalinas.

— Magnífico!

— Vamos? — perguntou indo em direção ao lago.

— Aonde?

Adriel não respondeu. Ele foi até uma parte mais alta próximo ao lago e subiu em uma árvore. July o olhou confusa. O garoto sorriu e se jogou de lá de cima. A menina se assustou e correu até a beirada do lago procurando-o na água. Como era clara, logo viu ele vindo em direção a ela por baixo da água. Em pouco tempo colocou a cabeça para fora. A menina suspirou em alívio. Ele realmente não batia muito bem da cabeça!

— Você podia ter se machucado! — Brigou com ele como uma mãe que repreende seu filho por fazer algo perigoso.

— Eu sempre fiz isso e nunca me machuquei — respondeu, sorrindo. — Por que você não tenta?

— Eu? De jeito nenhum! — falou se afastando da beirada.

— A água está muito refrescante.

— Não vou pular da árvore.

— Tudo bem. É só entrar andando mesmo.

July olhou para o chão e ficou pensativa. Estava a poucos centímetros da água. O fundo do lago tinha uma areia fina e branca. Era muito convidativo, mas ela estava com medo. Nunca viu tanta água assim em sua vida e não sabia o que fazer lá dentro.

— Vamos, eu te ajudo. — Estendeu a mão na direção dela.

A garota olhou para ele. Tinha um olhar de ternura e parecia saber o que se passava pela cabeça dela.

A menina se aproximou devagar e quando sentiu a água fresca molhar seu sapato, sorriu. Então ela teve uma ideia: arrancou aquele sapato horroroso de seu pé e o colocou no canto embaixo da árvore, depois voltou ao lago e entrou sem os incômodos sapatos. Agora sim sentiu a água diretamente em sua pele e foi a melhor sensação que já teve. Foi se aproximando mais de Adriel, que ainda tinha a mão estendida na direção dela. Conforme se aproximava, a água subia mais pelo seu corpo. Agora já tinha ela em seus joelhos. O garoto estava mais para dentro do lago e tinha a água em seu peito.

Quando começou a pegar em suas coxas, ela parou.

— Algum problema?

— Acho que não vou passar daqui.

— Por que?

— Tenho medo — disse, sincera.

— Medo de que? Eu estou aqui e bem. — Adriel sorriu.

— Mas você é mais alto do que eu — falou fazendo careta e o garoto riu.

— Mesmo assim você consegue ficar aqui sem se afogar.

— O que é afogar?

— Deixa pra lá. Venha, vou te ajudar.

— Mas... Se a água me cobrir a cabeça?

— Isso não vai acontecer.

— Como você sabe?

— Porque aqui não está tão fundo para isso — respondeu com calma. Qualquer um já teria se irritado com o jeito que July estava e falava. Parecia uma criança medrosa e insegura.

— Então tudo bem.

Demorou um pouco, mas ela finalmente se mexeu de seu lugar e foi caminhando lentamente pela água para perto de Adriel. Ele esperava com toda a paciência do mundo.

A água subia cada vez mais pelo corpo dela e o medo aumentava junto. Sentiu molhar sua barriga e estremeceu, mas não foi uma sensação ruim, pelo contrário, refrescou todo seu corpo. Se não estivesse com tanto medo, aproveitaria mais o momento.

Parou de repente e olhou o loiro com pavor. Achava que não conseguiria passar de onde estava, a água já estava em seu peito enquanto em Adriel ela via bem mais abaixo do que isso. Ele chegou um pouco para perto dela, pois não seria tão bom ela chegar onde a água batia no peito dele.

— Eu não consigo... — Começou a andar para trás querendo voltar, mas tropeçou em seu próprio pé e acabou afundando.

Aconteceu muito rápido, viu tudo ficar embaçado e sentiu a água invadir seus pulmões. Estava totalmente debaixo da água e se debatia querendo respirar. Sentiu um par de mãos a segurarem com firmeza e logo estava fora da água tossindo sem parar, mesmo assim continuou se debatendo pelo desespero.

— Ei, fica calma — pediu, mas ela continuou tossindo e se debatendo. — July me escute...

Ela não conseguia nem escutar, estava apavorada. Não queria ter aquela sensação nunca mais!

— July! — falou um pouco mais alto e ela parou de se mexer. Já tinha passado a crise de tosse e ela respirava rapidamente e tinha os olhos arregalados.

Só depois percebeu que estava sendo segurada por ele e de uma maneira bem esquisita. Era como se ela fosse uma criança pequena e bem leve. Adriel tinha as mãos embaixo dos braços dela e a erguia do chão fazendo ela ficar da sua altura. Mas não era a água que fazia ela ficar mais leve, pois estava batendo na cintura do garoto e nas pernas de July. Ele a levantava como se realmente não pesasse nada.

— Está tudo bem. Você está salva.

— O que aconteceu?

— Você estava se afogando.

— Isso é se afogar... Não é legal...

O garoto riu.

— Está se sentindo bem?

— Não. Quero pisar em terra firme — resmungou.

— Tudo bem. Vou te levar até lá.

A menina olhou para a beirada do lago.

— Você confia em mim?

July ficou um tempo olhando os olhos dele. Podia ser loucura ou coisa da sua cabeça, mas com essa pergunta, pareceu que estava falando com o tigre branco, como em seu sonho. Achou que até a voz era a mesma.

— July?

— Não deixe eu me afogar de novo.

— Isso não vai acontecer. — Se aproximou e cochichou: — Aqui é raso.

— Não tem graça — disse emburrada.

O menino deu uma risadinha.

— Vamos sair. Daqui a pouco é noite. — Começou a andar pelo lago e só a colocou no chão quando a água batia em sua canela. Assim se sentiria mais segura.

O loiro saiu do lago e olhou para trás. July estava pensativa. Foi tão estranha a sensação que teve com a pergunta dele...

— Vamos?

— Sim.

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