Capítulo 2

Bianca POV

O bar de serviço era um corredor claustrofóbico de aço inoxidável e estresse de alta octanagem.

O ar fedia a café queimado e cascas de frutas cítricas azedas.

Forcei-me a voltar para dentro, minhas mãos tremendo — não de medo, mas de uma fúria volátil que eu lutava para conter.

Eu já havia pego os cigarros dela.

Eu os coloquei gentilmente em sua mesa.

Ela nem se dignou a olhar para mim.

Agora, a máquina de pedidos estava gritando novamente.

Mesa 4 (VIP): 1 Espresso Martini. Espuma Extra. Quente.

"Ela devolveu os dois primeiros", o barman murmurou, despejando um coquetel perfeitamente bom no ralo com uma careta.

"Diz que estão frios. Ela quer que você leve este."

"Eu?"

"Ela pediu pela 'incompetente', citando o nome."

Inspirei fundo, buscando calma.

Eu poderia ir embora.

Eu poderia pegar o telefone e ligar para o meu pai agora mesmo.

Uma ligação, e este prédio seria invadido por homens que ficariam felizes em arrancar a pele de qualquer um que olhasse torto para mim.

Mas eu não precisava de um resgate; eu precisava de uma prova.

Meu pai não agia com base em sentimentos feridos.

Ele agia com base em provas frias e concretas.

Se eu fosse desmantelar a aliança com os Bastos, eu precisava demonstrar que Caio era inapto para liderar.

Eu precisava que Caio se enforcasse com a própria corda.

Peguei o pires.

A xícara estava fumegando.

Caminhei pelo corredor VIP.

As luzes diminuíram, o aço industrial dando lugar a paredes forradas com um veludo que custava mais do que a maioria das pessoas ganhava em um ano.

Jade estava me esperando.

Ela não estava em sua mesa.

Ela estava encostada na parede no gargalo do corredor, bloqueando efetivamente meu caminho.

Ela estava sozinha.

"Finalmente", ela arrastou as palavras, desencostando-se da parede com uma languidez ensaiada.

"Sua bebida, Senhorita Menezes", eu disse, mantendo minha voz neutra enquanto estendia a bandeja.

Ela não pegou a xícara.

Em vez disso, seus olhos caíram para as minhas mãos.

Eu tinha um calo pequeno e distinto no polegar de anos segurando um pincel.

Augusto, o chef, notou uma vez. Ele chamou de a marca de uma criadora.

Jade apenas zombou dele.

"Você se acha melhor do que eu, não é?", ela sussurrou, o veneno mal disfarçado.

"Estou apenas fazendo meu trabalho", respondi.

"Você está me olhando como se eu fosse lixo", ela cuspiu, aproximando-se. "Eu vejo. Você acha que só porque trabalha aqui, faz parte da família? Você não é nada."

Ela estendeu a mão.

Meus músculos se contraíram, esperando que ela pegasse o pires.

Em vez disso, ela deu um tapa na parte de baixo da bandeja.

O tempo pareceu se fragmentar.

A xícara de porcelana virou.

O líquido fervente e escuro transbordou.

Não atingiu o chão.

Cobriu minha mão.

A dor foi instantânea e cegante — um ferro em brasa marcando minha carne.

Eu ofeguei, a bandeja escorregando do meu aperto.

Ela se estilhaçou no chão, um estrondo violento que ecoou pelo corredor silencioso.

Minha mão já estava ficando de um vermelho raivoso e manchado.

Bolhas começaram a surgir diante dos meus olhos.

Agarrei meu pulso, minha respiração presa na garganta.

Jade riu.

Foi um som cruel e irregular.

"Ops", disse ela, passando delicadamente sobre os cacos. "Você é realmente desastrada. Acho que vou dizer ao Caio para te demitir. Um risco para o negócio e tudo mais."

Eu olhei para ela.

Lágrimas pinicaram os cantos dos meus olhos, mas me recusei a deixá-las cair.

"Você fez isso de propósito", eu disse, minha voz tremendo de choque.

"Quem vai acreditar em você?", ela perguntou, inclinando-se até que eu pudesse sentir seu perfume caro. "Na empregada? Ou na mulher que salvou a irmã do Don?"

Marcos veio correndo da esquina.

Ele avaliou a cena instantaneamente.

Ele viu o vidro quebrado.

Ele viu Jade de pé sobre mim.

Ele me viu segurando minha mão escaldada.

"O que aconteceu?", Marcos exigiu.

"Ela jogou em mim!", Jade gritou instantaneamente, recuando em uma performance de vitimismo. "Ela tentou me queimar porque eu reclamei do serviço!"

Eu olhei para Marcos.

Seu olhar caiu para a minha mão.

Ele viu as bolhas se formando.

Ele sabia.

Ele tinha que saber.

Mas ele me deu as costas.

"Sinto muito, Senhorita Menezes", disse Marcos, curvando a cabeça em deferência. "Você está ferida?"

"Marcos", eu disse, minha voz baixa e perigosa. "Minha mão."

Ele nem sequer olhou para mim.

"Limpe isso, Bianca", ele estalou, sua voz desprovida de calor. "E saia da vista dela antes que eu mande a segurança te jogar para fora."

Eu fiquei ali, a agonia na minha mão latejando no ritmo do meu coração.

A dor física era aguda, distinta.

Mas a traição?

Aquilo era uma dor oca se espalhando pelo meu peito.

Marcos era um homem feito.

Ele jurou proteger os interesses da família.

E ele estava me jogando aos lobos para salvar a própria pele.

"Preciso de gelo", eu disse, minha voz firme.

"Cozinha", Marcos latiu. "Agora."

Eu me virei e fui embora.

Eu não corri.

Eu não chorei.

Eu caminhei com a espinha de aço de uma Salles.

Cada passo era uma marca mental.

Uma pelo desrespeito.

Uma pela queimadura.

E uma por Caio, que permitiu que uma cobra entrasse em nosso jardim.

Capítulo 3

Bianca POV

A cozinha geralmente era uma sinfonia de caos controlado.

O ritmo staccato das facas batendo na madeira, panelas selando em explosões de chamas, o chamado e resposta rítmico da linha de produção.

Mas quando Jade Menezes empurrou as portas vaivém, a música parou.

Ela tinha me seguido.

Ela não estava satisfeita com a queimadura.

Ela queria o abate.

Eu estava na pia de preparação, colocando minha mão empolada sob água fria. A pele estava descascando, um vermelho raivoso e úmido.

"Isso é nojento", anunciou Jade, torcendo o nariz para o cheiro rico de alho e demi-glace.

Ela foi direto para o passe, onde pratos de Wagyu estavam sendo montados com pinças.

"Você", ela apontou para um sous-chef. "Coloque isso no meu bife."

Ela tirou um pote de caviar barato de supermercado da bolsa.

A sala ficou em silêncio.

Não era apenas rude; era uma profanação.

Augusto Gordon saiu das sombras da câmara fria.

Ele era uma montanha de homem, braços cobertos de tatuagens que desapareciam sob sua dólmã branca. Ele não parecia um cozinheiro. Parecia uma arma que havia sido aposentada, mas não desativada.

Ele se movia com uma graça silenciosa que gritava perigo.

"Nenhuma comida de fora na cozinha", disse Augusto.

Sua voz era profunda, um trovão que parecia vibrar pelo chão.

"Com licença?", Jade zombou.

"Vigilância sanitária", disse Augusto, sem desviar o olhar. "E respeito pelo ofício. Tire esse lixo do meu passe."

O rosto de Jade ficou roxo. Ela não estava acostumada a ouvir "não".

Ela sacou o celular.

"O Caio vai ficar sabendo disso!", ela gritou.

Ela iniciou uma chamada de vídeo.

Um momento depois, o rosto de Caio preencheu a tela dela.

Ele estava sentado em uma sala de reuniões. Eu podia ver a borda da mesa de mogno. Podia ver os ombros dos homens sentados ao seu redor.

Os investidores.

O Cartel Ápice.

Ele estava em uma Reunião. Um encontro sagrado.

E ele atendeu a chamada dela.

"Jade, meu bem, estou em uma reunião", disse Caio, a voz tensa.

"Eles estão me intimidando, Caio!", ela choramingou, virando a câmera para a equipe da cozinha. "O chef! E aquela garçonete vadia! Eles estão todos contra mim!"

Ela enfiou a câmera na minha cara.

Eu não desviei o olhar. Encarei diretamente a lente. Diretamente os olhos de Caio.

Levantei minha mão.

A pele vermelha e empolada era impossível de ignorar.

"Caio", eu disse.

Ele me viu. Ele viu o ferimento.

Por um segundo, vi um lampejo de reconhecimento. Talvez até preocupação.

Mas então ele olhou para os homens ao seu redor.

Eles o estavam observando. Julgando-o.

Um Don que não conseguia controlar sua mulher? Um Don que deixava sua equipe responder?

Ele entrou em pânico. Ele escolheu o caminho mais fácil. Ele escolheu o caminho do covarde.

"Dê a ela o que ela quer", disse Caio, sua voz metálica pelo alto-falante.

"Caio", eu disse, aproximando-me do telefone. "Ela me queimou."

"Não tenho tempo para isso, Bianca!", ele estalou. "Peça desculpas a ela. Todos vocês. Agora."

A cozinha ficou em silêncio mortal.

Augusto olhou para o telefone, o maxilar tenso.

"Você quer que a gente peça desculpas à mulher que agrediu sua funcionária?", perguntou Augusto.

"Eu dei uma ordem!", Caio gritou. "Façam isso, ou estão todos demitidos. Bianca, fica de joelhos e peça perdão a ela. Mostre o respeito que ela merece."

O ar sumiu da sala.

Ficar de joelhos.

Ele queria que a filha de Davi Salles se ajoelhasse para uma maria-chuteira.

Ele queria que eu me submetesse. Na frente de seus investidores. Na frente de sua equipe. Na frente da mulher que me machucou.

Olhei para a tela.

Olhei para o homem com quem concordei em me casar. O homem que pensei que poderia me ajudar a modernizar as famílias.

Eu não vi um parceiro.

Vi um risco.

O pacto estava quebrado. Não por mim. Mas por ele.

"Você tem certeza dessa ordem, Don Bastos?", perguntei suavemente.

"Faça!", ele rugiu.

Eu assenti lentamente.

"Ok", eu disse.

Estendi minha mão boa.

Jade sorriu, pensando que eu estava estendendo a mão para beijá-la.

Peguei o telefone.

E encerrei a chamada.

A tela ficou preta.

Jade piscou. "O que você pensa que está-"

"Augusto", eu disse, minha voz mudando.

Não era mais a voz de uma garçonete.

Era a voz que meu pai usava logo antes de assinar uma sentença de morte.

"Tranque as portas."

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