Capítulo 2

Ponto de Vista de Alice:

Chamei um táxi, meu corpo tremendo com uma mistura de frio e fúria. "Siga aquele carro", eu disse, as palavras um clichê na minha língua, mas minha intenção era mortalmente séria.

O motorista, um homem grisalho que provavelmente já tinha visto de tudo, apenas assentiu e acelerou noite adentro.

O carro de Heitor nos levou a uma parte da cidade que ele nunca visitaria de bom grado. Não era o cromo e o vidro polidos da Faria Lima; era um bairro mais sujo e barulhento, cheio de bares decadentes e estúdios de tatuagem, o ar denso com o cheiro de cerveja barata e desespero. Ele parou em frente a um lugar chamado "O Ninho da Serpente", seu letreiro de neon piscando como um batimento cardíaco moribundo.

Eu observei, atônita, enquanto Heitor — meu marido, o homem que catalogava sua gaveta de meias — saía de seu Bentley e entrava no bar barulhento sem um segundo de hesitação. Este não era o mundo dele. Este era o meu mundo. E ele parecia pertencer mais ali do que jamais pertencera em nossa cobertura estéril.

Paguei o motorista e saí do táxi, puxando meu casaco encharcado mais apertado ao meu redor. Fui até a janela suja do bar, espiando lá dentro.

A cena era caótica. Uma banda estava tocando freneticamente em um pequeno palco, e a multidão era uma massa suada e contorcida. Vasculhei a sala, meus olhos procurando por Heitor. Eu o encontrei em um canto escuro.

E eu a vi.

Uma jovem com um rosto delicado em forma de coração e uma cascata de cabelos escuros estava encurralada contra uma parede por três homens de aparência truculenta. Ela era linda de uma forma frágil, de boneca quebrada. Ela parecia aterrorizada.

Antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo, Heitor se moveu. Não foi o movimento medido e controlado ao qual eu estava acostumada. Foi um borrão de fúria primal. Ele se lançou contra os homens, seu terno perfeitamente cortado não sendo obstáculo para a violência crua que explodiu dele.

Eu nunca o tinha visto assim. Este não era o homem que debatia os méritos de uma fusão corporativa com lógica fria. Este era um lutador de rua. Ele não dava socos limpos; ele era brutal, eficiente, mirando em articulações e pontos fracos. Havia uma raiva sombria e aterrorizante em seus olhos, um nível de emoção que eu passei nosso casamento inteiro tentando provocar, e ele estava liberando tudo por ela.

A briga acabou em segundos. Os homens fugiram, sangrando e intimidados. Heitor não lhes deu um segundo olhar. Ele imediatamente se virou para a mulher, sua postura inteira mudando. O guerreiro selvagem se fora, substituído por um homem cheio de uma ternura dolorosa.

"Kenia", ele sussurrou, sua voz embargada por um alívio que era doloroso de ouvir. Ele estendeu a mão para ela, mas ela se encolheu.

"O que você está fazendo aqui, Heitor?", ela gritou, sua voz uma mistura de raiva e lágrimas. "Eu te disse para me deixar em paz!"

Ele não respondeu. Ele apenas a puxou para seus braços, esmagando-a contra seu peito em um abraço tão apertado, tão desesperado, que parecia que ele estava tentando fundir seus corpos em um só. Era um abraço que falava de anos de história, de segredos compartilhados e de um amor tão profundo que era uma agonia.

Ela batia em seu peito com os punhos, mas era uma resistência fraca e simbólica. Então, ela fez algo que fez meu sangue gelar. Ela inclinou a cabeça para trás e cravou os dentes no ombro dele.

Eu o vi se encolher, uma inspiração aguda, mas ele não a soltou. Ele apenas a segurou mais forte, seus olhos se fechando como se saboreasse a dor. Era uma penitência.

Quando ela finalmente se afastou, havia uma marca escura e sangrenta no tecido impecável de sua camisa. Ele olhou para ela, e a expressão em seu rosto me destruiu. Era um olhar que eu desejava, um olhar pelo qual eu implorava, um olhar de amor avassalador, de arrependimento, de mil emoções complexas demais para nomear. E era tudo por ela.

Eu era o escudo. A esposa respeitável, de sangue azul, que tornava a vida dele estável o suficiente para ele proteger seu verdadeiro amor, essa garota do lado errado da cidade. O casamento arranjado não era uma aliança para minha família; era uma fachada para a dele.

O barulho do bar desapareceu. A música, os gritos, o tilintar dos copos, tudo se transformou em um rugido abafado. Tudo o que eu podia ver eram os dois, trancados em seu próprio mundo privado e doloroso. Eu era uma estranha, uma tola completa e absoluta. Cada palavra gentil, cada toque suave, cada momento que pensei que estávamos nos conectando — era tudo uma mentira. Uma performance para meu benefício, para manter o peão em seu lugar no tabuleiro.

Fiquei ali, enraizada no lugar, até que ele finalmente a tirou do bar, a colocou em seu carro e partiu noite adentro, me deixando sozinha mais uma vez.

Peguei meu celular, meus dedos dormentes e desajeitados. Liguei para minha melhor amiga, Clara. "Preciso que você descubra tudo o que puder sobre uma mulher chamada Kenia Dutra", eu disse, minha voz um sussurro rouco. "Tudo."

Não me lembro como cheguei em casa. A próxima coisa que soube foi que estava no meio da nossa sala de estar fria e vazia. Uma notificação de e-mail apitou no meu celular. Era da Clara.

Afundei no chão, minhas costas contra o couro frio do sofá, e abri o anexo.

Estava tudo lá. Kenia Dutra, uma bolsista na USP, onde Heitor tinha sido monitor. A história de amor deles parecia um romance trágico. O herdeiro brilhante e rico se apaixonando pela artista pobre e bonita. Ele a ajudou com as mensalidades. Ele defendeu o trabalho dela. Ele comprou uma pequena galeria para ela exibir suas pinturas.

Ele até tentou desistir de sua herança por ela. Eles iam fugir juntos, mas a família Dantas descobriu. Eles ameaçaram Kenia, sua vida, sua família. Heitor, para protegê-la, fez um acordo. Ele voltaria, assumiria seu lugar como herdeiro e se casaria com uma mulher adequada de uma família adequada. Ele se casaria comigo.

Em troca, eles deixariam Kenia em paz.

A gentileza dele comigo, o quarto escuro que ele construiu, sua tolerância ao meu "espírito rebelde" — não era para mim. Era para me manter contente, para manter a fachada do nosso casamento intacta para que Kenia estivesse segura. Meu casamento inteiro foi uma transação para proteger outra mulher.

Uma frieza se infiltrou em meus ossos, um arrepio tão profundo que parecia estar congelando minha alma. Eu era um adereço. Um adereço bem cuidado e lindamente vestido no grande drama do amor épico de Heitor e Kenia.

Meu amor, meu amor tolo e esperançoso, não era nada mais do que um inconveniente barato, um pequeno bug em seu programa perfeitamente executado.

Eu me abracei, mas não conseguia parar de tremer. O orgulho dos Talles, a independência feroz à qual eu sempre me apeguei, parecia uma piada. Eu me deixei ser usada, minhas emoções manipuladas, meu coração jogado e descartado.

Chega.

Eu não seria uma nota de rodapé na história de amor deles. Eu não seria o preço que ele pagou por ela. Meu amor não era tão barato.

Heitor não voltou para casa naquela noite.

No dia seguinte, vesti-me com cuidado meticuloso. Escolhi um vestido preto elegante, saltos agulha que me faziam sentir poderosa e pintei meus lábios de um vermelho-sangue desafiador. Havia um jantar da família Talles naquela noite. Era o palco perfeito.

Eu ia queimar o mundo deles até o chão.

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Capítulo 3

Ponto de Vista de Alice:

Cheguei sozinha à casa ancestral dos Talles. A vasta propriedade, geralmente um símbolo de tradição sufocante, agora parecia um campo de batalha. Eu estava entrando na cova dos leões, mas pela primeira vez, não estava com medo. Eu estava entorpecida.

Minha mãe me cumprimentou na porta, seu sorriso tenso de desaprovação. "Alice. Onde está Heitor?"

"Ele está ocupado", eu disse, minha voz desprovida de emoção.

"Ocupado? A fusão com os Dantas está em uma fase crítica. Ele deveria estar aqui, fazendo contatos. Não te deixando se virar sozinha", ela repreendeu, seus olhos me examinando criticamente. "Você deveria ser mais como sua irmã. Dani nunca deixaria o marido negligenciar seus deveres."

Vi Dani do outro lado da sala, pairando perto do nosso avô, sua expressão um retrato perfeito de doçura obediente. Ela era a boneca de porcelana premiada da família, enquanto eu era o bule lascado e indisciplinado que eles mantinham no fundo do armário, mas traziam para ocasiões estratégicas.

"Você está desperdiçando este casamento, Alice", meu pai murmurou ao passar por mim, um copo de uísque na mão. "Qualquer outra garota mataria por esta oportunidade."

Deixei as palavras deles passarem por mim, pequenas pedras contra um quebra-mar. Eles pensavam que conheciam minha realidade. Eles não tinham ideia.

Esperei até que todos estivessem sentados para o jantar, o ar denso com o murmúrio de negócios e fofocas sociais. Levantei-me, batendo meu copo de água com uma faca. O som leve e claro cortou o barulho, e todos os olhos se voltaram para mim.

Eu sorri, um sorriso frio e afiado que não alcançou meus olhos.

"Tenho um anúncio", eu disse, minha voz soando com uma clareza recém-descoberta. "Heitor e eu vamos nos divorciar."

Silêncio. Um silêncio denso e chocado caiu sobre a sala de jantar. O garfo do meu avô caiu em seu prato. O rosto da minha mãe ficou branco.

"Não seja ridícula, Alice", meu pai retrucou, seu rosto corando de raiva. "Sente-se."

"Não estou sendo ridícula", eu disse, meu olhar varrendo seus rostos horrorizados. "Estou terminando meu casamento."

"Você enlouqueceu?", meu avô trovejou, sua voz tremendo de fúria. "Você não fará tal coisa! Heitor Dantas é a melhor coisa que já aconteceu a você, a esta família! Ele é bonito, poderoso e, pelo que ouço, ele satisfaz todos os seus pequenos caprichos."

"A indulgência dele tem um preço", eu disse, minha voz baixando para um nível baixo e perigoso. "E eu não estou mais disposta a pagá-lo."

Eu os observei, seus rostos uma galeria de ganância e negação. Eles listaram suas virtudes, os preços das ações, a posição social, todas as coisas que importavam para eles. Eles não perguntaram se eu estava feliz. Eles não perguntaram se eu era amada. Isso nunca lhes ocorreu.

"Isso não é negociável", meu pai rosnou, batendo o punho na mesa. "O casamento continua." Ele se virou para seus seguranças. "Levem-na para o salão ancestral."

Meu coração martelava contra minhas costelas, mas eu não vacilei. O salão ancestral. Era onde os Talles disciplinavam seus filhos desobedientes. A última vez que estive lá, eu tinha dezesseis anos e tinha feito uma tatuagem. Eles me bateram com uma grossa bengala de vime.

Os guardas agarraram meus braços, seus apertos como ferro. Eu não lutei. Caminhei com a cabeça erguida, o clique dos meus saltos ecoando no chão de mármore.

Eles me forçaram a ajoelhar no chão de pedra fria em frente a uma fileira de placas memoriais. Meu avô ficou sobre mim, a bengala na mão.

"Você vai até Heitor e vai se desculpar", ele ordenou. "Você vai implorar pelo perdão dele e será a esposa que esta família precisa que você seja."

"Não", eu disse, minha voz trêmula, mas firme.

O primeiro golpe atingiu minhas costas, uma linha de fogo ardente. Eu gritei, mordendo o lábio para não berrar.

"Você vai reconsiderar?", ele perguntou, sua voz fria.

"Eu quero o divórcio."

A bengala caiu novamente. E de novo. A dor explodiu nas minhas costas, branca-quente e ofuscante. Mas não era nada comparado à agonia em meu coração. Através de uma névoa de lágrimas e suor, eu me agarrei a um pensamento: eu não iria quebrar.

"Por quê?", meu pai exigiu, sua voz tingida de fúria frustrada. "Dê-nos uma boa razão, Alice, por que você jogaria tudo isso fora!"

Uma risada crua e quebrada escapou dos meus lábios. "Razão? Você quer uma razão?" Eu me levantei, meu corpo gritando em protesto, e os encarei, meus olhos ardendo. "Porque ele não me ama! Ele nunca amou! Ele tem outra pessoa! O coração dele, a alma dele, cada emoção real que ele possui pertence a outra mulher!"

A sala ficou em silêncio novamente. Mas desta vez, foi diferente. Vi um lampejo de algo nos olhos do meu pai, uma sombra de culpa. Minha mãe desviou o olhar.

Eles sabiam.

A percepção me atingiu como um golpe físico, muito mais doloroso do que a bengala. Eles sabiam. Eles sabiam o tempo todo.

Eles me venderam. Eles, consciente e voluntariamente, venderam sua filha, sua carne e sangue, a um homem que amava outra pessoa, tudo por uma aliança de negócios. Minha rebelião, minha natureza "temperamental" — não era uma falha para eles. Era uma característica. Eles precisavam de uma noiva que fosse problemática o suficiente para fazer a "tolerância" de Heitor parecer afeto, para tornar a farsa crível.

Um som rasgou minha garganta, um grito desolado e estrangulado que era meio riso, meio soluço. Eles me criaram, me elogiaram pelo meu fogo, tudo para que pudessem usá-lo para iluminar o caminho de outra pessoa. Toda a minha vida, pensei que minha rebelião era uma luta por sua atenção, um apelo desesperado para ser vista. Eu estava errada. Era apenas uma performance, e eles eram os diretores, vendendo ingressos para o maior lance.

Dani entrou na sala, seu rosto uma máscara de tristeza. "Pai, avô, por favor, parem. Vocês estão a magoando." Ela se ajoelhou ao meu lado, seu toque como gelo. "Alice", ela sussurrou, "por que você está sendo tão teimosa? Heitor é um bom homem."

O rosto do meu avô se suavizou ao olhar para ela. "Dani, minha querida, você é muito gentil. Sua irmã não aprecia o que tem."

"Talvez...", disse Dani, sua voz quase inaudível, seus olhos baixos e recatados. "Talvez eu pudesse falar com ele. Explicar as coisas. Se... se a Alice está realmente tão infeliz... talvez haja outra maneira de preservar a aliança. Os Dantas precisam de uma noiva Talles. Eu sou uma Talles."

Aí estava. A ambição que ela mantivera tão cuidadosamente escondida atrás de sua fachada doce. Ela não queria me salvar. Ela queria me substituir. Ela queria o prêmio que sentia ser mais merecedora.

Observei os olhos do meu pai se iluminarem com cálculo. O pensamento estava lá, em seu rosto, claro como o dia: Dani era mais obediente, mais controlável. Um ativo melhor.

Eles estavam me deixando ir. Não por amor, mas porque haviam encontrado um peão melhor.

Meu avô jogou a bengala no chão. "Tudo bem", ele cuspiu, sua voz pingando de nojo. "Tenha seu divórcio. Mas a partir de hoje, você não é mais uma Talles. Você está deserdada. Não temos uma filha chamada Alice."

Um sorriso lento e morto se espalhou pelo meu rosto. A dor nas minhas costas era uma pulsação surda, meu coração uma caverna oca. Mas senti uma estranha e aterrorizante sensação de libertação. As correntes estavam quebradas.

"Bom", eu disse, minha voz um sussurro. Olhei para cada um deles, meu olhar demorando no rosto triunfante de Dani. "Vocês não precisam me deserdar. No que me diz respeito, vocês estão mortos para mim há muito tempo."

Eu me levantei cambaleando, cada movimento uma agonia. "Que fique registrado", anunciei para a sala fria e silenciosa, "que a última coisa que esta família fez por mim foi me conceder minha liberdade."

"A partir deste momento, Alice Talles está morta."

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