Capítulo 2

Depois de muito tempo, eu finalmente entendi o motivo da minha mãe ter pequenos ataques cardíacos em todas as vezes que alguém da nossa família vinha com a frase “e os namoradinhos, Lana?”. Para ser franca eu havia entendido todos os ataques dela, pois todos se resumiam a mim, acordando seminua ao lado de um desconhecido e posso dizer que isso é algo desesperador para qualquer um que pense nas suas filhas nessa situação.

Mas ao menos eu havia entendido finalmente os surtos dela e os conselhos me implorando para jamais deixar que aquilo ocorresse comigo. Eu deveria ter ouvido ela.

No entanto, já era tarde demais e enquanto eu abria os meus olhos para me deparar com um homem de peito exposto e olhos pesados de sono, eu também pensava em como aquilo ocorreu. Cheguei à conclusão quando a minha própria mente resolveu mostrar-me os fatos da noite anterior e tudo o que fiz foi deixar um gemido curto de culpa escapar.

— Mas que… — antes que eu terminasse a frase, os olhos pequenos e escuros abriram-se e com isso a minha respiração parou de ser controlada. O homem olhou-me de maneira confusa, parecia que nem ele se lembrava direito dos fatos, mesmo que parecesse que a sua visão clareasse conforme os seus olhos analisavam a minha expressão.

— Bom dia. — Ele disse e a sua voz fez aquele efeito no meu corpo. Causando-me tremedeiras que eu queria não sentir naquele instante. O rapaz franziu as sobrancelhas quando não respondia. — Você está bem?

— É… — Porque raios eu não conseguia falar quando ele se diria a mim era a principal pergunta que eu me fazia naquele momento e aquela pergunta também levava-me para outra. Se eu travava daquela forma com ele, como tínhamos ido parar na minha cama sem uma peça de roupas?

Apoiei a mão na cabeça alegando com aquele gesto que eu não conseguia processar nada devido à dor e acredito que ele entendeu o meu recado. Tentei lembrar-me do nome dele, mas parecia que tudo tinha ficado no primeiro copo do drink com o resto da minha lucidez, pois eu nem sabia dizer o que ocorreu depois de Ana dizer-me que ele e o amigo estavam olhando na nossa direção.

— Precisa de uma aspirina. — O homem voltou a dizer, após deixar-me um tempo nos meus pensamentos. Ele levantou-se rapidamente e com isso pude ver todo o seu corpo da forma que ele havia vindo ao mundo. Os músculos deslizavam suavemente por toda a sua pele, desde o pescoço até as coxas grossas, e observar isso fez-me puxar o edredom para cobrir o rosto.

— Ai meu Deus! — Gritei e percebi que os meus olhos estavam tão arregalados ao ponto de tentarem sair da minha cabeça. Eu havia reparado em algo que não deveria.

— Olha para alguém que não acredita em Deus, você chama muito por ele. — Ele disse e eu posso jurar que aquilo não era referente ao meu grito recente.

— Eu te contei isso, foi? — Perguntei. Tentei esconder o meu corpo com o edredom enquanto me sentava na cama e virava o rosto para o lado oposto do homem. Ele apenas afirmou com um som anasalado. — Acho que só ele existindo para criar um troço desse tamanho.

Eu falei tão baixo que tenho certeza que o intruso não ouviu, mas eu não ia tirar a prova disso olhando na sua direção.

— Toma. A sua cabeça vai melhorar. — Finquei os meus olhos na janela durante a sua frase. Eu queria realmente voltar a olhar para ele, mas minha vergonha falava mais alto. Ele bufou e deixou um riso escapar. — Eu já vesti as calças.

Senti uma palpitação enorme ao ver que ele tinha percebido os meus motivos para afastar os olhos e mesmo relutante, lutei contra tudo para voltar a olhá-lo. Realmente estava com a parte de baixo da sua roupa. Uma calça social verde-escura quase preta com um cinto grosso prendendo-a. O seu peito ainda estava à mostra para mim e pude ver os músculos fortes e tonificados. Seu abdômen era muito bem trabalhado formando gominhos na barriga que quase me fizeram babar.

— Meu Deus. — Deixei escapar e ele desceu os seus olhos para ver onde os meus estavam presos. Aquela visão dele encarando o seu próprio abdômen derreteu-me por completo.

Pigarrei tentando encontrar o meu eu racional para poder conversar com ele sem chamar por uma entidade.

— É… Nós… — Gaguejei, mas ao invés de continuar perdendo à fala decidi encarar aquele homem de uma vez por todas. — O que aconteceu?

— Você não se lembra? — Ele questionou e eu neguei ainda tentando fazer o meu cérebro voltar no tempo para descobrir o que ocorreu. — Bom, se eu disser acho que você vai chamar por Deus novamente.

— Tudo bem — peguei o robe que ele havia jogado na minha direção assim que o pegou na poltrona e vesti antes de levantar-me. — Está na hora de ir, certo?

— Ir? — Ele perguntou e eu abri a porta do quarto. Fechei-a logo em seguida quando vi a minha amiga nua deitada sobre a nossa mesa de jantar. — Ana!

— Lana do céu! — Respondeu-me ela do outro lado e ouvimos um som alto de algo caindo. Depois de muito movimento na sala e segundos torturantes olhando para o rosto bonito do homem na minha frente, ele resolveu quebrar o silêncio.

— Você não é do tipo que acorda com alguém, certo?

— Olha, não quero te ofender… — Dei um longo suspiro quando ele abriu os seus braços para enfiar as mãos na camisa. Cada movimento dele parecia acontecer como se eu assistisse a um comercial de perfumes em câmera lenta. Pigarreei outra vez. — Mas, não sou do tipo nem que sai de casa e na primeira vez que isso aconteceu eu acordei com você na minha cama. Alguém que eu nem lembro o nome, muito menos o que aconteceu. Você entende o quanto isso é estranho?

Ele apenas deixou um suspiro escapar e afirmou para minha pergunta. Aquela reação fez-me sentir raiva de mim mesma, mas era algo que eu já havia dito sem precisar e eu não sabia como reverter à situação.

— Ok, estamos vestidos. — Ana gritou do outro lado.

— Bom, acho que essa é a minha deixa. — Ele falou sem erguer os seus olhos para mim.

O homem bonito de pele hidratada aproximou-se, colocando a mão sobre a minha que ainda se apoiava na maçaneta.

— Me desculpa, eu não quis…

— Agir como uma babaca? — Ele interrompeu-me, parecia que tinha vasculhado a minha mente dizendo exatamente o que eu havia pensado. — Está tudo bem. Eu realmente preciso ir ou vou me atrasar.

Ele apontou para meu relógio em cima da mesa de cabeceira. O relógio mostrava que faltavam vinte minutos para as oito horas da manhã e eu também iria me atrasar se não me apressasse.

— Mas que merda! — Deixei que o homem bonito de olhos escuros se fosse enquanto eu corria para meu banheiro sem perder mais tempo.

Ana já estava buzinando para mim da entrada do prédio, ela gritava que o seu pai estava fazendo uma chamada de vídeo para lhe cobrar presença em uma reunião que iria começar dali dez minutos. Iríamos cortar pelas ruas paralelas à avenida Paulista ou não chegaríamos a tempo e isso fez-me correr do rall de entrada até à portaria. Assim que o porteiro abriu para me libertar do prédio, saltei no carro e deixei que a minha colega saísse disparada rumo ao nosso trabalho.

— Ele disse que você vai ser realocada, precisa apresentar os projetos da empresa para o novo sócio durante a reunião e parece que é você quem vai tomar conta do velho. — Ela avisou-me e revirei os olhos.

— Maravilha, outro babão nojento que vai querer olhar a minha bunda ao invés de ouvir as minhas ideias. — Reclamei e Ana sorriu. — Seu pai e essas bobeiras.

— Acho que ele comprou todos os acionistas desse jeito. Não duvido nada que a minha mãe pulou fora por causa dessa palhaçada. — Ela suspirou. — Mas olha pelo lado bom! Vai receber mais por isso.

— Não posso reclamar então.

Estacionamos na entrada do grande prédio comercial próximo à estação Trianon Masp. O manobrista veio rapidamente na nossa direção com o seu costumeiro sorriso curto enquanto nós duas tiramos as bolsas do banco de trás.

— Bom dia, senhoritas — ele cumprimentou-nos já recebendo a chave de Ana.

— Bom dia, Júnior. — Falei enquanto a minha amiga apenas deixava o pobre rapaz sem uma resposta. Ela pendurou-se no meu braço para me carregar rumo ao nosso destino, sem me deixar lembrá-la do flagra que lhe dei dias antes dentro do carro com aquele mesmo rapaz.

Faltava pouco tempo para nossa reunião e isso nos fez subir as pressas já indo em direção ao escritório de reuniões. Ana arrumou a minha roupa antes que o elevador se abrisse e eu fiz um positivo para ela quando fui questionada sobre a sua maquiagem.

— Meninas! — Cumprimentou-nos o pai de Ana. Um senhor de aproximadamente 50 anos de cabelos grisalhos e extremamente alto e magro. Os seus olhos eram caramelos e ele tinha um sorriso enorme no rosto que deixava as pessoas extremamente confortáveis.

— Bom dia, senhor Almeida. Como está? — Perguntei quando ele me abraçou.

— Ótimo! Quero apresentar o meu novo sócio para vocês.Venham. — Ele parecia muito empolgado com aquele negócio, pois o seu sorriso era ainda maior naquela manhã do que geralmente era. Isso era muito bom. — Eu movi você para ajudá-lo a se adaptar ao nosso cotidiano Lana, espero que não se importe.

— Não se preocupe, senhor Almeida. Vou ajudar em tudo o que ele precisar.

— Assim que se fala! — O senhor Almeida abriu as portas da sala de reuniões e isso fez-me parar estagnada na porta. Um homem de rabo de cavalo e olhos pequenos voltou a sua atenção para mim. Ele era maior do que eu me lembrava e os seus músculos pareciam querer saltar daquele terno. Recordei-me dele pela manhã sem uma peça e perdi completamente os meus sentidos. Aquilo não era nada bom. — Minhas lindas, esse é o senhor Lee Jung-suk. Comprou 27% das ações dessa emissora e o seu colega é o senhor Carlos Queiroz, o porta-voz da empresa de Lee no Brasil.

— Então essa é a sua funcionária exemplar, senhor Almeida. É um prazer conhecê-la. — Disse Lee, enquanto eu engolia em seco.

Tudo o que consegui falar a seguir foi algo que não saia mais da minha boca desde o momento em que acordei pela manhã e aparentemente, foi algo que disse à noite inteira para aquele homem de olhos hipnotizantes.

— Meu Deus.

Capítulo 3

Ele tinha um sorriso sutil nos olhos enquanto eu passava as informações que meu chefe havia pedido. Precisei reunir todos os detalhes da empresa nos últimos meses e consegui resumir muita coisa em gráficos que improvisei no CorelDraw. Por sorte eu decorava muita coisa e foi possível deixar tudo preparado para o homem que não tirava seus olhos de mim durante aquela explicação.

Ele acariciava minha mão de forma tão discreta que eu só percebia quando sentia o calor dela passando pela minha pele para pegar o papel que eu lhe entregava. Era uma situação constrangedora e obviamente ele fazia aquilo de propósito, pois seus olhos vibrantes sorrindo para mim não me deixavam suspeitar de outra coisa.

— Acho que isso é tudo. — Coloquei os papéis que antes tínhamos espalhado pela mesa em uma pasta de papel pardo e deslizei o objeto sobre a mesa em direção ao homem.

— Mas já acabou? — Ele falou e eu revirei os olhos.

— Pode parar com isso? — Disse assim que o senhor Almeida cruzou à porta para falar com alguém que lhe chamou no corredor.

— Com o que? — Lee tinha uma forma de me prender com os olhos que me deixava fora do controle. Suspirei.

— De fazer isso. Se eu soubesse que você era o novo sócio não teria ido pra cama com você.

— Mas eu te disse isso ontem à noite.

— Depois de me embriagar? — O desafiei e o senhor Jung-suk deu um sorriso ainda maior.

— Sua amiga tem um vídeo muito bom que mostra quem foi que te embriagou.

Ele não disse mais nada, pois o senhor Almeida voltou para sala dando um tapinha nas costas do novo sócio. Eu apenas sorri para os dois enquanto os via partir daquela sala junto com parte da minha dignidade.

Pensei sobre as palavras de Lee e tentei não correr pelo prédio até agarrar o pescoço de Ana. Procurei-a por cada corredor enquanto a xingava internamente por não ter me mostrado aquilo. Mesmo que estivéssemos atrasadas e enroladas, ela deveria ter tirado um tempo para me falar das merdas que eu fiz já que sempre arrumava tempo para me contar fofocas.

Encontrei Ana se gabando para algumas agentes no meio do corredor do terceiro andar. Ela apontava na direção de qualquer pessoa na rua, pois naquela altura do campeonato eu só estava focada em meu vexame, enquanto conversava com as garotas que riam sem parar da minha amiga ou de mim. Sabe-se lá o ponto que havia chegado, mesmo que eu não acreditasse que Ana falaria mal de mim.

Eu esperava que não.

Mas isso não me impediu de segurar no braço da negra arrastando-a para longe das garotas enquanto a ouvia protestar reclamando que eu havia pego de maneira dolorosa no seu braço.

— Lana, que humor é esse? — Ela completou arrumando sua blusa como se eu a tivesse amarrotado. Fechei a porta da pequena sala de limpeza onde acabamos entrando e dei um suspiro longo antes de olhá-la furiosa.

— O vídeo. — Falei autoritária. Ela me olhava sem entender. — Ele disse que você me gravou.

Ana pensou por um momento sobre aquela acusação, vasculhou algo em sua mente colocando seus olhos no teto da pequena para pensar. Então, depois de dois longos minutos, ela estalou os dedos como se tivesse recordado de algo.

— Sim! Eu gravei. — Disse ela puxando seu celular do bolso para vasculhar em busca da nossa curiosidade. — Aqui!

Ana gritou exageradamente após encontrar a prova do crime e eu tomei o celular de suas mãos ouvindo-a protestar novamente. Ainda assim, eu queria saber o que havia acontecido na noite anterior para entender o porquê daquele homem estar me olhando de uma forma tão sedutora durante todo o tempo em que eu falava de trabalho. Eu queria me lembrar de como tinha sido à noite depois do meu primeiro copo de álcool e como tinha sido nossa relação, já que nada daquilo tinha ficado cravado na minha memória.

Mas eu deveria ter pensado com calma se realmente queria me ver bêbada perdendo as estribeiras, porque depois que aquele vídeo começou eu desejei que eu nunca o tivesse visto.

— Amiga! Você dançou nas mesas! — Ana falou em risos enquanto a eu bêbada do vídeo balançava o corpo tentando imitar a mulher do clipe que passava em uma tela grande perto da nossa mesa.

Lá estava o novo sócio do senhor Almeida tentando me fazer descer dali enquanto eu o mandava ir à merda.

Passei a mão no rosto quando me deparei com a dona vergonha tentando me dar um forte abraço, pois era evidente que naquele momento eu estava completamente ruborizada.

— Quem ver esse vídeo vai achar que ele é seu boy. — Ana tornou a dizer quando o jovem Lee Jung-suk me jogou por cima dos ombros tirando-me de cima da mesa.

Eu protestei diversas vezes batendo em suas costas enquanto era carregada para fora do salão feito um saco de cimento pelo homem.

— Eu me lembro que você surtou em um momento da noite e disse que Tiago sempre fez o que quis da vida enquanto você era a filha perfeitinha.

— Eu me lembro disso também — confessei, dando um longo suspiro. — Aí eu pedi gin com laranjas e virei um copo de 500 ml.

— Quase vomitou à metade. — Ana pontuou.

Então eu havia me embriagado. Eu tive um pequeno surto que me levou a liberar aquela garota maluca em cima da mesa e o senhor Jung-suk ficou lá tentando me acudir para que eu não fizesse merda. Mesmo assim eu quase me quebrei inteira para dançar em cima de uma mesa e quando ele percebeu que eu já havia passado dos limites, ele me tirou de lá.

— Acho que dancei para ele enquanto tirava minha própria roupa. — Confessei, pois me recordei de estar tentando seduzi-lo mesmo que minha cabeça quisesse me derrubar.

— Amiga, você não pode beber. — Comentou Ana rindo da situação enquanto eu passava as mãos pelos cabelos de forma nervosa. — Se lembra como foi à noite, pelo menos?

— Não. — Essa parte eu realmente não conseguia lembrar.

— Bom, quando eu cheguei com o assistente do bonitão vocês estavam trancados no seu quarto e você gemia gostoso.

— Ana!

— O que? Eu fiquei excitada te ouvindo.

Ergui as mãos demonstrando frustração e ela apenas riu daquele gesto. Então, Ana guardou o celular de volta no bolso da saia para cruzar seus braços olhando em minha direção. Ela encostou nas prateleiras de produtos de limpeza e limpou os lábios para dizer:

— E aí? O que vai fazer?

— Sobre?

— Pelo amor de Deus, Lana. Você deu um chá tão bom pro homem que ele tá te perseguindo a manhã inteira devorando seu corpo com os olhos. Juro que se ele não tivesse um bom controle tinha te comido na mesa de reuniões. — Fiz uma careta para a garota ao ouvir esse comentário e ela apenas deu de ombros. — Vai deixar o coitado com aquela cara de quero mais?

— Vou. — Pigarreei e ajeitei o colarinho da minha blusa. — Eu tive um deslize e não vai acontecer novamente. Nunca vi Lee Jung-suk antes em toda minha vida antes do escritório e nossa relação não vai mais passar disso. Foco, Ana. Teremos foco.

— Você vai ter foco, amiga. Eu vou continuar me dedicando até às 20hrs pra poder dar minha Larissa depois do expediente. — Ela fez uma dança sensual enquanto eu revirava os olhos. — Mas como vocês não sentem nada um pelo outro, vai ser tranquilo fingir que nada aconteceu. Certo?

— Certo! — Fiz um positivo com meus indicadores enquanto Ana me mostrava a tela do seu telefone. Seu dedo clicou os três pontinhos no canto superior do vídeo que havíamos acabado de assistir, as opções surgiram para mim e ela observou seu dedo seguir até o "apagar" escrito na tela. Logo o vídeo sumiu da minha frente fazendo-nos sorrir uma para a outra.

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