Ponto de Vista: Elara
A porta dos fundos do meu pequeno estúdio se abriu com violência, batendo contra a parede com uma força que fez tremer os quadros baratos na parede.
Bruno estava lá, sua silhueta recortada contra a luz forte do corredor, seu rosto uma máscara de fúria fria. A chuva encharcava seu cabelo escuro e os ombros de seu casaco de grife caríssimo. Ele parecia um deus vingativo, e sua tempestade era dirigida inteiramente a mim.
"Onde você esteve?", ele exigiu, sua voz um rosnado baixo.
Antes que eu pudesse responder, ele atravessou o quarto em duas longas passadas e sua mão se fechou em meu braço, seu aperto como aço. "Estou te ligando há horas."
"Meu celular descarregou", sussurrei, a verdade soando como uma mentira até para meus próprios ouvidos.
"Não minta para mim", ele rosnou, me arrastando em direção à porta. "Cíntia teve uma reação. Uma reação grave. Os médicos precisavam de uma transfusão direta para estabilizá-la antes do procedimento principal, e o tipo sanguíneo dela é raro."
Meu tipo sanguíneo. O mesmo que o dele. O mesmo que o dela. Que pequena e cruel coincidência.
"Bruno, eu não sei nada sobre isso", implorei, tropeçando para acompanhar seu ritmo implacável.
Ele me ignorou, sua mandíbula tensa. "Ela poderia ter morrido, Elara. Tudo porque você decidiu sair por aí." Ele me empurrou para o banco de trás de seu carro de luxo que esperava, o couro frio contra minha pele. "Você fez alguma coisa com ela? Colocou algo na comida dela?"
A acusação pairou no ar, tão ridícula, tão venenosa, que me roubou o fôlego. "O quê? Não! Bruno, eu nunca..."
"Poupe-me", ele me cortou, seus olhos desprovidos de qualquer calor. "Você tem ciúmes dela desde que ela chegou. Eu vejo o jeito que você olha para ela." Ele passou a mão pelo cabelo molhado, um gesto de pura frustração. "Eu sei que isso é difícil para você, mas Cíntia está doente. Ela precisa de mim. Eu fiz uma promessa a ela há muito tempo, uma promessa de sempre protegê-la."
Suas palavras confirmaram tudo. Eu não era uma parceira. Eu era um inconveniente. Um problema a ser gerenciado enquanto ele cuidava de seu verdadeiro amor.
Ele me arrastou para o lobby imaculado e branco da ala privativa do hospital que ele havia reservado para ela. As enfermeiras desviavam o olhar, acostumadas aos caprichos dos homens poderosos que pagavam seus salários.
"Preparem-na", Bruno ordenou à enfermeira-chefe, sua voz não deixando espaço para discussão. "Ela vai doar."
"Senhor, não podemos forçar uma transfusão...", a enfermeira começou, sua expressão preocupada.
"Vocês podem, e vocês vão", Bruno retrucou, seus olhos em chamas. "Ou eu vou comprar este hospital e demitir cada um de vocês. Vocês me entenderam?"
A enfermeira se encolheu e assentiu, seu profissionalismo desmoronando sob o poder bruto dele.
Eles me sentaram em uma cadeira. Um técnico se aproximou com uma agulha. Eu não resisti. Qual era o sentido? Meu corpo, meu coração, nunca foram realmente meus de qualquer maneira.
A agulha deslizou em meu braço. Eu observei, impassível, enquanto meu próprio sangue, escuro e rico, começava a fluir por um tubo transparente. Estava a caminho de salvar a mulher por quem meu amor morreria.
Bruno estava perto da janela, de costas para mim, o telefone pressionado contra a orelha. Ele não estava assistindo minha vida se esvair. Ele estava recebendo atualizações sobre a dela.
Uma onda de tontura me atingiu. O quarto inclinou, as luzes brilhantes se tornando turvas nas bordas. A dor no meu peito não era mais uma metáfora. Era um peso físico, esmagador, uma agonia tão profunda que fazia a agulha em meu braço parecer uma picada de alfinete. Meu coração, meu milagroso e quebrado coração, estava gritando em protesto.
Justo quando minha visão começou a escurecer, outro médico entrou apressado no quarto, um prontuário na mão.
"Sr. Campos", ele disse, sua voz urgente. "Recebemos o laudo toxicológico da Sra. Robinson."
Bruno finalmente se virou da janela, sua atenção capturada. "E?"
"Não foi uma reação alérgica. Foi envenenamento. Oleandro, para ser específico. Encontramos vestígios dele nas flores entregues no quarto dela esta tarde." O médico fez uma pausa, virando uma página. "Foram enviadas de uma floricultura no centro. O cartão diz que foram de você."
Bruno congelou. Eu vi o horror nascendo em seus olhos quando ele finalmente, finalmente olhou para mim. Ele se lembrou. As flores que ele distraidamente me pedira para encomendar para ela ontem. Eu tinha lido o cartão para ele ao telefone para sua aprovação. Ele sabia que eu não o havia escrito.
Vergonha, quente e aguda, cintilou em seu rosto. Ele deu um passo hesitante em minha direção. "Elara..."
Sua voz, pela primeira vez, continha uma nota de incerteza, de culpa.
Mas era tarde demais.
Um choro fraco veio do corredor. "Bruno?"
Cíntia.
Sua cabeça se virou na direção do som, seu corpo se tensionando como um fio. A culpa desapareceu, substituída instantaneamente por aquela preocupação avassaladora. Ele não hesitou. Ele não me deu um segundo olhar.
Ele se virou e caminhou em direção à voz dela, deixando-me no quarto branco e estéril com um buraco no braço e um muito, muito maior em minha alma.
Eu o observei ir, a última centelha de esperança dentro de mim se extinguindo.
Tirei a agulha do meu braço, pressionando um pedaço de gaze na ferida. Levantei-me com as pernas trêmulas e saí do quarto, saí do hospital e voltei para a cobertura que havia sido minha gaiola de ouro.
A primeira coisa que fiz foi arrumar uma caixa. Todos os vestidos. As joias. Os sapatos. Cada coisa linda e cara que ele já me dera. Cada uma delas um lembrete de que eu era apenas uma boneca que ele estava vestindo para se parecer com outra mulher.
Liguei para um serviço de doação. O homem que veio buscar tudo assobiou. "Moça, tem certeza de que quer doar tudo isso? Essas coisas valem uma fortuna."
"São apenas coisas", eu disse, minha voz oca. "Nunca foram minhas para começo de conversa."
Enquanto o caminhão se afastava, levando os últimos vestígios da vida que eu estava vivendo, meu celular pré-pago anônimo vibrou. Era um número não rastreável que eu havia dado a apenas uma pessoa.
Dr. Albuquerque.
"Sra. Bastos", sua voz era sombria. "Houve uma complicação. Temos que adiantar o procedimento. Para esta noite."
Ponto de Vista: Elara
A ligação de Bruno veio uma hora depois. O som de seu toque de celular, uma música que eu um dia amei, fez meu estômago se contrair.
"Elara", ele disse, sua voz tensa. Ele estava tentando ser casual, mas a culpa era uma aresta áspera sob a superfície. "Eu... eu queria me desculpar por mais cedo. As flores... foi um erro. Eu passei dos limites."
"Está tudo bem", eu disse, minha voz tão vazia quanto os armários do meu quarto.
"Não, não está. Eu quero te compensar. Há um leilão de caridade hoje à noite no Palácio Tangará. Um grande evento. Se arrume. Meu motorista estará aí em uma hora." Não era um convite; era uma ordem. Uma convocação.
Antes que eu pudesse recusar, ouvi a voz dela ao fundo, fraca e petulante. "Bruno, querido, minha cabeça dói. Você pode ler para mim?"
"Claro, meu bem", ele murmurou, seu tom mudando instantaneamente para um de ternura devotada. "Já estou indo." Para mim, ele disse: "Preciso ir", e desligou.
Eu era uma bagunça a ser limpa, uma obrigação a ser cumprida antes que ele pudesse retornar ao seu verdadeiro propósito.
O motorista, um homem que me levara a inúmeros eventos onde eu ficava em silêncio ao lado de Bruno, me encontrou na porta. Ele não pareceu surpreso por eu não carregar nada além de uma pequena bolsa de mão.
O salão de festas do Palácio Tangará era um mar de vestidos cintilantes e smokings pretos. E no centro de tudo, como um rei em sua corte, estava Bruno. Cíntia estava sentada ao lado dele, parecendo pálida, mas radiante em um vestido prateado que brilhava sob os lustres. Ele estava inclinado para perto, ajustando o cobertor em seus ombros, sua atenção tão absoluta que o resto do mundo desaparecia.
Ouvi os sussurros das mesas próximas.
"Olhe para eles. Ele é tão devotado."
"Dizem que ele não saiu do lado dela."
"Isso é amor verdadeiro, bem ali."
As palavras eram como pequenos cacos de gelo, perfurando a frágil dormência que eu havia enrolado em volta de mim.
Cíntia me viu então, seus olhos, geralmente afiados com malícia, se arregalando em falsa surpresa. "Elara! Você veio!", ela chamou, sua voz alta o suficiente para as mesas ao redor ouvirem. Ela me acenou como se eu fosse uma serva.
Caminhei em direção a eles, meus passos parecendo pesados e lentos.
"Muito obrigada por... tudo", ela disse, seu sorriso não alcançando seus olhos. Ela gesticulou para o assento vazio do outro lado dela, um sinal claro do meu lugar neste quadro. "Venha, sente-se conosco. Estamos prestes a dar um lance no item principal. Uma ilha particular em Fernando de Noronha."
Eu era a caridade. Um cão de rua que ela magnanimamente permitia sentar à mesa.
Bruno e Cíntia eram uma unidade, suas cabeças inclinadas juntas sobre o catálogo do leilão, o braço dele repousando possessivamente nas costas da cadeira dela. Ele estava rindo de algo que ela sussurrou, uma risada profunda e genuína que eu não ouvia há meses.
O leilão começou. Bruno levantou sua raquete sem hesitação, sua voz firme e clara. "Cinquenta milhões."
O salão ficou em silêncio. Ele comprou a ilha para ela, uma exibição casual de riqueza que era, na verdade, uma declaração de amor.
"Oh, Bruno", Cíntia arrulhou, "Você não deveria." Mas seus olhos dançavam com triunfo. Então, como um pensamento tardio, ela se virou para ele. "Querido, você deveria comprar algo para a Elara também. Como um agradecimento."
Bruno olhou para mim, seu foco já se dispersando. Ele chamou um garçom que carregava uma bandeja de joias de um leilão silencioso. Sem olhar de perto, ele pegou um simples colar de diamantes. "Este", ele disse, me entregando. Era bonito, mas parecia uma gorjeta. Um prêmio de consolação.
A dor era uma pontada surda e constante agora, algo com que eu estava aprendendo a viver, como uma doença crônica.
O jantar foi um exercício de tortura. Bruno selecionou pessoalmente cada prato para Cíntia, consultando o chef sobre suas necessidades dietéticas, garantindo que tudo estivesse do seu agrado.
Para mim, ele apenas pediu o salmão. O mesmo prato que ele pedia para mim em todos os eventos, sem nunca perguntar.
Ele havia esquecido. Nos dois anos em que vivi com ele, compartilhei sua cama, ele havia esquecido que eu era alérgica a salmão.
A primeira mordida pareceu engolir fogo. Minha garganta começou a fechar, minha pele se enchendo de urticárias vermelhas e raivosas. Eu ofeguei, minha mão voando para o meu pescoço.
"Elara?", Bruno perguntou, sua testa franzida em aborrecimento com a interrupção.
"O salmão", eu engasguei. "Sou alérgica."
A cor sumiu de seu rosto. Por uma fração de segundo, eu vi pânico, o mesmo pânico que ele mostrara quando pensou que Cíntia estava em perigo. Ele começou a se levantar, a chamar por ajuda.
Mas Cíntia foi mais rápida. Ela colocou uma mão delicada em seu braço. "Bruno, não faça uma cena", ela sibilou, sua voz baixa. "É apenas uma reação leve. Eu tenho um anti-histamínico na minha bolsa. Vou levá-la ao banheiro feminino."
Ela sorriu graciosamente para ele, depois passou o braço pelo meu, seu aperto surpreendentemente forte. "Vamos, querida", ela disse, sua voz pingando falsa simpatia enquanto me levava para longe da mesa.
No momento em que a porta pesada e à prova de som do banheiro se fechou atrás de nós, seu comportamento mudou. A máscara de preocupação caiu, revelando o ciúme cru e feio por baixo.
Ela me empurrou contra a bancada de mármore, com força. Minha cabeça bateu na borda da pia com um baque doentio. Estrelas explodiram atrás dos meus olhos, e o gosto metálico de sangue encheu minha boca.
"Você realmente acha que pode competir comigo?", ela cuspiu, seu rosto contorcido de desprezo. "Ele me ama. Ele sempre me amou. Você não é nada. Uma cópia barata. Um tapa-buraco."
Ela se inclinou, sua voz um sussurro venenoso. "Ele só está te mantendo por perto por pena. Porque você é uma orfãzinha patética sem ter para onde ir. Mas seu tempo acabou. Vá embora. Saia da vida dele, ou eu vou fazer você desejar nunca ter nascido."
Minha cabeça estava girando, minha garganta se fechando. "Eu vou", consegui sussurrar, as palavras mal audíveis. "Eu vou embora."
Ela riu, um som cruel e agudo. "Ah, você vai. Mas primeiro, você vai ver o quão pouco você significa para ele. Você vai vê-lo me escolher, de novo e de novo, até que isso esteja gravado em sua alma inútil."
Uma premonição súbita e aterrorizante me invadiu. Ela não estava apenas fazendo uma ameaça. Ela estava fazendo uma promessa.