Ponto de Vista de Alana:
Acordei com o som de música. Risadas. O tilintar de cristal contra cristal. Era um mundo distante, uma vida à qual eu não pertencia mais.
Era o aniversário de dezoito anos de Sofia.
Minha perna era uma coluna de fogo, mas me recusei a me esconder nas sombras que me designaram. Forcei-me a ir até o pequeno espelho rachado, joguei água fria no rosto e prendi meu cabelo emaranhado. Eu não seria um fantasma em minha própria casa.
Minha chegada ao pátio principal congelou a festa no meio de uma risada. O ar engrossou com uma hostilidade tão palpável que eu podia sentir o gosto. O sorriso da minha mãe vacilou, desmoronando em uma máscara de horror de lábios apertados. A expressão do meu pai simplesmente endureceu em uma de fria indiferença. Livia, minha irmã mais nova, me fuzilou com uma fúria aberta que pareceu um soco no estômago.
Então Sofia, uma visão em um vestido branco que custava mais do que eu vira em sete anos, deslizou em minha direção. Ela colocou uma mão delicada no braço de Dante, seus olhos se arregalando em uma imitação teatral de preocupação.
"Ah, Helena, você veio", ela murmurou, alto o suficiente para que todos ouvissem. Helena. Um nome ao qual eu não respondia mais, um fantasma que eles insistiam em ver. Ela virou o rosto para Dante, sua voz baixando para um sussurro conspiratório. "No meu aniversário, meu Dom, você poderia me conceder um desejo? Proteja-me dela. A presença dela... é perturbadora."
Eu não senti nada. Apenas um vazio vasto e frio.
Virei-me para sair, mas Sofia não havia terminado. Ela mudou para o antigo dialeto da família, uma linguagem de segredos e poder, destinada a excluir e insultar.
"Você vê como ela é?", a voz de Sofia era doce, mas as palavras eram veneno. "Tão amarga. Tão ingrata depois de tudo que Dante fez por ela."
Minha mãe se juntou, sua voz tingida com uma decepção familiar e cansada. "Ela sempre foi uma criança difícil. Uma semente ruim."
A voz do meu pai, a voz do Conselheiro, foi o golpe final. "Ela traz vergonha para esta Família."
O que eles não sabiam, o que ninguém sabia, era que eu passei meus sete anos no inferno dominando línguas mortas. Era uma maneira de manter minha mente afiada, uma maneira de quebrar os códigos dos meus captores. O dialeto antigo era um deles. Eu entendia cada palavra venenosa.
"Estou cansada", eu disse em português claro, minha voz neutra. Virei as costas para eles.
"Bom", a voz da minha mãe me seguiu, de volta ao dialeto. "A presença dela azeda o ar."
Aquele insulto final não me atingiu como um golpe, mas como uma libertação. Uma calma fria e absoluta se instalou sobre mim. Este era o primeiro dia da minha nova liberdade.
Nove dias.
Ponto de Vista de Alana:
Eles me puseram para trabalhar nas cozinhas. Descascando batatas, esfregando o chão — um castigo disfarçado de tarefa. O trabalho físico era exaustivo, minha perna uma agonia constante e gritante, mas eu acolhia a queimação. Mantinha as memórias à distância.
Por um momento fugaz, lembrei-me de um tempo antes de me perder. Um tempo em que as mãos da minha mãe eram gentis, quando o sorriso do meu pai ainda alcançava seus olhos. Esmaguei a memória. Aquela família estava morta.
Uma noite, enquanto eu mancava de volta para o meu galpão, Dante me interceptou na beira do bosque. Um sedan de luxo preto e elegante estava parado por perto, seu motor um ronronar baixo.
Ele me estendeu uma pequena caixa. Dentro havia um bolinho com amoras silvestres, meu favorito de uma infância que parecia a vida de outra pessoa. Era uma tentativa desajeitada e patética de paz.
"Eu também comprei isto para você", disse ele, estendendo outra caixa.
Dentro, aninhado em veludo preto, havia um vestido de seda carmesim. O tipo de vestido que eu sonhava em usar como sua esposa, a Rainha desta cidade.
Minha mente voltou à emboscada quando éramos adolescentes. A dor de uma bala com ponta de prata destinada a ele. Ele nunca soube que fui eu. Sofia havia reivindicado a glória e, com ela, a dívida de vida que ele agora se sentia obrigado a pagar.
"Eu não gosto de vermelho", eu disse, empurrando a caixa de volta para ele. A confusão em seu rosto foi uma pequena e amarga vitória.
"Vamos dar uma volta", ele sugeriu, sua voz mais suave do que eu a ouvia há anos. "Até o Lago da Lua. Como costumávamos fazer."
Entrei no carro. Uma curiosidade amarga me impulsionou. Eu queria ver quanto tempo a performance duraria.
Estávamos na metade do caminho quando o celular dele vibrou. Ele olhou para a tela e seu corpo inteiro enrijeceu.
Claro que era ela. Sofia precisava dele.
Seu foco, seu mundo inteiro, voltou-se para ela. O breve calor em seus olhos desapareceu, substituído pela autoridade fria do Dom.
"Dê a volta no carro. Agora", ele latiu para o motorista.
Ele não pediu desculpas. Não explicou. Nem sequer olhou para mim.
O motorista parou no acostamento escuro e vazio da estrada. Dante gesticulou bruscamente em direção à minha porta — uma ordem, não um convite. Saia.
Eu saí.
A porta pesada bateu atrás de mim.
Ele me deixou ali, na beira da estrada, enquanto o sedan acelerava de volta para a mansão, de volta para ela.