Capítulo 2

Ramiro estava cuidando dos animais, os guardou e ficou conversando com outros funcionários, contando o que tinha acontecido, eles subiram espiar a casa, viram Otávia jogando tudo pra fora, Matteo estava chegando com o carro de Emily, quando viu suas coisas no quintal, correu até Otávia, tentando impedir, foi pegar uma mala dentro de casa, a chamar de maluca.

Quis sair e a deixar falando sozinha, quando ela entrou na frente, levou um chacoalhão, ele começou a gritar a ofendendo, dizendo que se não fosse por ele, ela não teria mais nada, porque vivia doente, sem lavar um copo, com a casa suja e que nem foi mulher dele, durante todos aqueles anos, a jogou em cima da mesa no escritório e foi saindo, a briga estava dando eco pela casa toda.

Ela foi atrás alterada, tentando o impedir, perguntando o que estava acontecendo, achando que era um caso de pouco tempo, porque a meses ele estava distante, a evitar, disse que dessa vez ia dar certo, porque ela estava pensando, que iriam ter um filho e tudo ia voltar a ser como antes, disse porque ele fez aquilo, com uma amiga dela, ele a demorou tentando chegar ao carro

- Eu não quero mais ficar com você, não suporto nem mais ouvir a sua voz.

- Preciso encontrar mulher na rua, porque aqui nunca tive.

- Eu estou apaixonado, amo ela.

Ela continuou avançando, querendo saber quando começou o caso, foi tentar pegar a chave do carro, ele bateu nela duas vezes no rosto, a humilhando muito, falou até que os pais ficaram com a vergonha da mulher briga que ela se tornou, e estava a deixando, com as terras falidas dela.

As duas funcionárias estavam perto de escondidas nervosas, Ramiro também ficou ouvindo escondido no escuro, muito incomodado com o dó de Otávia, Amélia a mais nova começou a chorar desesperada, pediu para ele ir lá ajudar, ele continuou sentado observando, até que a viu apanhando e arremessou um tijolo no parabrisa do carro.

Depois de apanhar, Otávia estava gritando que queria se divorciar e nunca mais olhar na cara dele, Ramiro se mudou para o defensor, só de vê-lo perto, Matteo recuou, enfiou algumas de suas coisas no carro e saiu às pressas.

Otávia estava sentada, se declarou arrasada chorando, disse que não era pra ninguém falar sobre aquilo e nem o deixou entrar lá de novo, mandou Ramiro ficar de olho, entrou rápido envergonhada, correu se trancar no quarto desorientado, ficou se olhando no espelho, se sente um lixo, um nada e se odiando.

Ela realmente achava que merecia aquilo, se sentia inferior a ele por causa da idade, ele tinha cerca de dez anos a menos e o idolatrava, nem percebeu que estava em um relacionamento tóx ico cheio de manipulações.

Miro tinha ido pegar o dinheiro da quinzena, pra ir embora no dia seguinte, porque não estava gostando da desorganização da fazenda, desistiu e voltou pra casa do caseiro, onde estava ficando.

Na manhã seguinte, Otávia acordou cedo, cheia de hematomas, não teve coragem de sair do quarto, só conseguiu pensar em Matteo, começou ligar cedo para ele, que não atendeu ligação nenhuma e ficou visualizando as várias mensagens, ela queria resolver tudo logo.

Miro foi logo cedo até a casa, deu um susto em Amélia na cozinha, a menina que cuidava da limpeza lá, ele se sentou batendo palmas de propósito, ela era outra desaforada, disse se ele não tinha educação, ele sentou na mesa

- Não! Cadê a patroa, pra me pagar?

- Se ninguém aparecer e dar o meu dinheiro, você desfaz tudo o que fez, começando com os bichos.

- Vai lá chamar ela! Quero ir embora, esse lugar doido.

Amélia retrucou hostil

- Não vou e é melhor você sair daqui, com esses sapatos imundos.

- O seu lugar é lá fora, com os bichos iguais a você.

Ele ficou irritado

- Oooo menina tonta.

Começou bater o pé sujando a cozinha de barro

- Você é muito ocupada né?

- Não quero atrapalhar.

- Quando ver a patroa, fala que eu não vou fazer mais nada e quero o meu dinheiro até amanhã.

Ela ficou furiosa olhando, Otávia tinha se levantado porque ouviu a voz do homem, estava ouvindo a conversa dos dois escondidos, assim que ele saiu, ela entrou na cozinha preocupada

- Se tem como o meu dia piorar, eu não sei como.

- Ele disse quanto precisa receber? Se ele for embora, quem vai cuidar de tudo?

Amélia disse que não sabia e a alertou de que ele cuidava de muitas coisas lá na fazenda mesmo, deu a entender que tudo ia parar sem ele, a colheita principalmente, Otávia mandou a mesa chorando

- Vai falar pra ele, que depois eu o procuro para conversar.

- Sai daqui por favor. Preciso ficar sozinho!

Amélia foi dar o recado, ele ficou deitado, em uma área de descanso dos funcionários, com várias redes, ficou quieto ignorando o recado, Amélia saiu brava, não encontrou Otávia em casa.

Ela tinha ido pegar a égua e saiu para cavalgar, viu os poucos funcionários, estavam na plantação, a olhar de longe, Ramiro estava lá cobrando desempenho dos colegas. Ele era muito experiente com tudo na roça, escondendo algumas coisas importantes de seu passado obscuro, vivia na simplicidade, pulando de trabalho em trabalho, sem se prender ou apegar a nada, com quarenta e um anos, só queria tranquilidade, dizia não ter ninguém e ser solteiro, ele que estava delegando as tarefas a outros funcionários, ficou surpreso ao ver a patrulha passando, já que diziam que ela nunca chegava nem perto deles.

Miro disse a um colega, como a patroa era, o rapaz começou a rir com maldade, dizendo que ela precisava ser domada, amarrada, pega por trás na marra igual bicho. Miro que não era de levar desaforo pra casa, não gostou, convidou com cinismo

- Ela é brava mesmo? E se você tivesse uma chance, pegou ela desse jeito?

O rapaz disse com orgulho que sim, começou a falar que imaginava muito aquilo, até falou como faria, indo até a casa, entrando pelos fundos, já que o patrão sempre viajava e a deixava sozinha, ainda mais agora divorciada, disse se Miro não queria ir junto, visite a patroa a noite, nem terminou a frase e levou um soco.

Os dois começaram a brigar no meio da plantação, Otávia foi até eles, disse o que estava acontecendo, ameaçando deixar os dois, Miro tirou a camiseta, para limpar o rosto

- Paga a minha quinzena e eu vou embora patroa.

- Eu não trabalho com esse tipo de gente.

Ela se moveu, em cima da água, reparando no porte físico de Miro, ou achando forte atraente

- Que tipo de gente? O que aconteceu?

Ele estava sentado no chão, a olhar contra o sol, ela estava de calça jeans, bota montaria, camiseta polo e chapéu, com os cabelos soltos ao vento, longos escuros, era difícil não reparar na beleza dela, o contorno do corpo, a postura impecável, o cheiro de perfume amadeirado forte marcante.

Ele se referiu a olhar fixamente sério, invocado como não deveria fazer, por respeito e sem se importar em encarar ela

- Você não vai querer saber patroa! Gente sem vergonha do mal caráter.

Saiu andando sem dar mais explicação, foi se lavar ali perto em uma torneira, pensando na pele dela, estava corada e maquiada, batom vermelho, achei que parecia uma escultura de mulher, que merecia ser bem tratada, respeitada Ele não voltou a trabalhar nem pareceu respeitar qualquer autoridade, ficou de mal humor e foi pescar, pensando em abandonar a fazenda com urgência, mas com vontade de deixar sozinho.

Capítulo 3

Ela ficou olhando sem entender tamanha ousadia, disse que não queria brigas lá e eu demitir os dois se algo voltasse a acontecer, foi se afastando olhando Miro, algo nele cativou ela, pensei que talvez olhar o profundo, a postura de quem sabia se importava , ficou admirado por ele ter a defesa de seu ex marido, ficou curioso, fez algumas perguntas sobre ele a uma funcionária, que o elogiou dizendo que estava gostando do trabalho dele, o outro rapaz foi atrás dela pra falar que não iria mais trabalhar, pegou o dinheiro e foi embora cedo.

Otávia ficou o resto do dia fora, andando pelas terras, só voltou quando o sol se pôs, foi para o estábulo procurando Miro e na volta passou pela casa do caseiro, estava andando no escuro, ao se aproximar da casa que ele ficou, um cachorro começou a latir, ele estava alerta por causa das ameaças do antigo colega de trabalho, saiu olhar com uma faca na mão, ela parou um pouco longe por causa do cachorro

- Ramiro, venha até aqui.

Ele chamou atenção do cachorro, foi saindo

- Se perdeu no caminho da casa dona Otávia?

Ela continua no escuro

- Vim te pedir para não ir embora, até eu passar tudo da fazenda, eu não tenho ninguém pra colocar no seu lugar, tão rápido.

- Não sei em que pé andam as coisas e pelo que vi, tudo está largado.

- Não posso perder essa colheita e nem meus animais.

Ele contínuo encostado sem parecer se importar com todo o drama dela

- Pagando bem, me prometeram um salário de três mil.

- Pagando metade por quinzena e uma já deu.

- Desde que cheguei, cuidei dos bichos tudo, mas sem as coisas, não posso fazer milagre patroa.

- Disseram que o veterinário não vem a mais de um mês, isso não tá certo não.

Ela foi se afastando

- Não era eu quem estava cuidando de tudo, vou verificar cedo o que falta, e você vai comprar, sou veterinária e vou mesmo cuidar deles.

- Amanhã cedo faço o seu pagamento também.

- Quero que se preocupe com a colheita, é o principal. Você entende das máquinas?

Ele ficou olhando intrigado

- Tá certo, entendo sim, quer que eu te leve até a casa patroa?

- É longe, tá muito escuro! A dona pode se mach ucar, encontrar algum doi do mal intencionado por aí.

- Aqui não é nada seguro não viu.

Ela disse que não pediu, veio sozinha, quando chegou em casa, viu o carro de Matteo, entrou nas pressas desesperadas, já tinha pensado que ele foi se desculpar, o encontrou no escritório enchendo uma caixa com coisas dele, se mudou apreensiva

- Olá Matteo. Onde você está ficando? Temos pendências para resolver.

- Liguei até pra sua mãe.

Ele saiu esnobando

- Minha mãe nunca gostou de você, sempre me disse que não ia dar certo mesmo.

Foi para o quarto apressado

- Não adianta inventar mentiras, todos já sabem que eu venho me tentar divorciar a anos e toda vez, você diz que vai fazer algo contra si.

- Me manipulando e eu com pena de você, adiei isso por tempo demais.

Ela foi desacreditada atrás

- Eu nunca fiz isso e você nunca falou de separação.

‐ Matteo como essa mulher que virou a cabeça dessa forma?

- Nós temos uma vida juntos, você não é assim, o que aconteceu, quando tudo mudou tanto?

Ele estava pegando as roupas e enchendo as malas

- Fazem anos que eu vivo infeliz nesse casamento, que só me trouxe desgosto Otávia.

- Já dei a entrada no dados e estou com alguém, que me entende, não me humilha e nem é briga.

- É uma mulher de verdade, que eu admiro demais.

Otávia começou a chorar, foi pegando o que restava, no guarda roupa, começou a jogar no quintal pela janela

- Então vai ficar com ela e pode esperar que ela vai fazer igual você fez pra mim.

O tocou embora, não deixou pegar tudo, disse que o dinheiro dela quem roubou e ele não ia pegar mais nada, ele já tinha levado muitas coisas de mais valor e ela nem descobriu.

Ele a deixou gritando estérica, como se nunca tivesse tido qualquer carinho ou amor por ela, foi embora rindo da situação, porque tinha pego todas as economias dela, que era para manter uma fazenda independente da colheita.

Amélia a menina da limpeza, estava ouvindo tudo escondido, ficou curiosa e com dó, Otávia saiu do quarto gritando carregando sacos de lixo, foi enfiando tudo o que restou de Matteo, colocou na porta malas do carro, foi para o escritório analisar a situação das contas conjuntas e descobrimos que tudo ainda ia piorar mais, o que restou mal dava para manter os animais e as máquinas da colheita.

Foi até difícil dormir, no dia seguinte assim que o sol começou a nascer, Otávia foi cuidar dos animais, colocou calça jeans, bota galocha, camiseta de manga comprida para esconder as marcas nos braços, colocou boné com o cabelo preso em um coque e passou maquiagem para disfarçar os hematomas no rosto.

Miro já estava no estábulo tratando os cavalos, conversando com um deles falando que não queria saber de bagunça por lá, ela se mudou sorrateira ouvindo, quando viu que ele falava com o animal, foi dar bom dia, só passou por ele e foi ver os outros, ele já estava acabando, não disse nada, ela voltou

- Ramiro, me mostre o que você faz, além da plantação!

- Sabe quantos funcionários estamos trabalhando atualmente?

Ele continuou com o que estava fazendo

- Devem ter uns cinco, contando os temporários.

- Eu comecei bem cedo patroa, vou na horta, volto alimentando os bichos e limpando tudo, recolho os ovos das galinhas.

- Solto os cavalos pra correr.

- Vou pra plantação e paro a tarde, prefiro acordar bem cedo, do que trabalhar no sol o dia todo.

- Antes de anoitecer recolho os cavalos.

- Ninguém falou nada de lavar e escovar eles, nem tem shampoo aqui, os remédios num tem também.

- Tem um ali atrás, que tá com bicho, vai precisar fazer alguma coisa.

- Quando foram vermífugados pela última vez?

Ela ficou olhando algo pensativo

- Não sei. Vou começar com os cavalos, a tarde vou a cidade e compro o que falta, de limpeza e medicação.

Começou a olhar uma porta

- Eu nunca vi esse lugar assim, tão largo, só Deus sabe quando pintaram as coisas aqui.

Ele se mudou limpando o rosto na camiseta

- Preciso ir para a cidade!

Ela ficou olhando o abdômen definido dele, imaginando quantos anos tinha

- Vou te pagar! Quer o dinheiro em mãos ou?

Ele foi se afastando

- Pode ser de pix, tanto faz. O cavalo que falei, é esse aqui.

Ela foi olhando, um por um, ficou emotiva com dó deles, Miro saiu, foi fazer suas obrigações, ficou a achar muito negligente com tudo, decidiu não facilitar a vida dela, porque uma mulher como ela, nunca iria facilitar a dele.

Ramiro era um homem mais velho e solitário, e pulando de trabalho em trabalho, sítios, pomares, roças, já havia feito todo tipo de trabalhos em lugares assim, era muito observador e misterioso, com um pavio bem curto.

Gostava de acordar cedo, dormir cedo e aproveitar o tempo livre na natureza, pescando, nadando, lidando com animais, especialmente os equinos.

Na hora do almoço, Otávia foi até a plantação, procurando Miro, disse que ele não ia nem voltar, ela estava começando a se irritar com tudo, foi procurar ele no refeitório, nas redes de descanso, por último na casa do caseiro, foi de cavalo e chegou entrando.

A porta estava aberta, ele não pegou nada, dormindo, estava deitado na varanda de trás em uma rede, ela estava olhando tudo reparando na simplicidade, não ia lá desde a infância.

Achou que a casa estava vazia, aproveitou para olhar o quarto, fuçar as coisas dele, abriu o guarda roupa, não tinha camisetas, quatro calças, algumas meias, um perfume de catálogo e dois desodorantes, ela foi cheirando com desdenha, começou a olhar embaixo das roupas procurando algo escondido.

Ele acordou, se declarou foi entrando distraído só de cueca, sentindo o cheiro de perfume e suspeitou que tinha alguém lá, a pegou fechando a porta do guarda roupa

- O que está procurando patroa?

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