Capítulo 2

Fazia muito tempo que eu não era tocada por um homem, aliás, eu só havia sido tocada por Denis, tocada e trocada.

Desvencilhei-me daquele beijo e o encarei, o sorriso tinha um ar safado, a boca era um chamariz para minha mente lembrar que eu era uma mulher.

— Viu? Como poderia ir embora sem me beijar?

— Mas você é muito convencido. Eu...

E antes que pudesse falar algo, ele me puxou para outro beijo.

Quando nossas bocas se tocavam, por mais que as sirenes de perigo em minha cabeça gritassem, não conseguia soltar-me.

Saí sem dar tchau, peguei o metrô e segui para casa, com um sorriso bobo colado no rosto; cheguei ao meu quarto e fiquei um bom tempo fitando o mofo no teto, no entanto dessa vez isso não me incomodou.

Meu celular tocou me tirando do mundo da lua.

— Você está ficando com o bonitão? — era Patrícia, minha colega de trabalho e dona de um gostoso sotaque cearense, minha Paty Maionese.

— De onde tirou isso?

— Eu vi, tu deves estar mais feliz que pinto no lixo.

— Foi só um beijo, não estamos juntos não.

— Mas aposto que ficarão juntinhos. Casadinhos, fofinhos, já estou pensando no nome do primeiro bacuri.

Aquilo foi um choque de realidade, eu não teria aquela vida, por maior que fosse meu anseio. Desliguei o telefone e fui até o banheiro, liguei o chuveiro e deixei a água gelada escorrer pelo meu corpo, até o beijo tornar-se uma lembrança. Mas nada tirava seu gosto dos meus lábios e a vontade de meu interior.

Naquela noite não dormi, foi péssimo constatar que eu estava realmente a um ponto de me apaixonar.

De manhã coloquei um uniforme limpo e fui para a lanchonete. O dia passou sem grandes acontecimentos. Era meu dia da limpeza, então, quando ele entrou, por um triz não dei um banho nele.

— Bom dia, moça loira.

— Bom dia, com licença — respondi sem nem levantar a cabeça, precisava afastá-lo de mim, Ametista era meu único compromisso.

Esfreguei o chão com afinco, como se retirar aquela sujeira limpasse meu coração.

— Você não me ligou, nem saí de casa ontem na esperança de você me ligar...

— Eu te ligaria para quê? Não somos amigos. — passei o pano seco no chão. Por que ele tinha que estar tão interessado? Não me bastava saber que Miguel e eu não teríamos nada?

— Estou te assediando? Caso seja isso...

— Não, não está me assediando. Agora com licença eu preciso passar o café.

Saí sem olhar para ele, quando cheguei à cozinha, as lágrimas queimavam meus olhos e um bolo de amargor obstruía minha garganta.

Pensei no Burlesco e em como eu não poderia sair de lá, era a única esperança da minha mãe, pois o hospital e a medicação eram muito caros.

Eu era uma stripper, e mais, era melhor no pole dance do que servindo mesas e fazendo café.

Entretanto, Miguel me arrepiava e me fazia lembrar que eu era uma mulher, o certo era afastá-lo; quando o rapaz perguntou se era assédio, devia ter falado que era. Porém, o flerte era uma delícia.

— Vim buscar o café do seu bonitão.

— Eu não tenho bonitão.

— Deixe de ser besta, que eu te vi olhar ele por bastante tempo, agora ele está te olhando. Então aproveite, beije aqueles beiços lindos.

— Eu não posso ter um homem na minha vida, eu tenho minha mãe.

— Quem falou para largar a sua mãe? Eu falei de arrastar o bonitão para um banheiro e conferir se ele é todo grandão.

— Não me interessa se ele é todo grandão... Minha mãe está em coma, e se eu vacilar... Não...

— Loira, olha pra mim, isso — a encarei, tentando segurar o choro — O que está acontecendo?

— Miguel quer algo comigo, eu não posso ter nada.

— Não pode ou não quer?

— Não posso... Não me faça perguntas.

— Eita que tem caroço neste angu. Sabe que estou aqui, né?

Concordei enquanto a vi bater o leite para virar um creme e decorar o café dele, fui para trás do biombo olhar Miguel.

Ele bebia o café e mexia no celular. Às vezes sorria, o que me fazia morder os lábios. Se existiu um homem mais provocante que ele não conheci. Tão inocente e concentrado, era tão bom olhar para aquele médico mais que bonito.

O vi levantar-se, pagar o café e sair. Patrícia veio como raio em minha direção.

— Loira, que homem cheiroso e discreto. Você é muito sortuda. Agarre ele.

— Paty Maionese, não tem nada entre a gente. Pare de viajar.

— Ele beija bem?

— Eu não acredito. Por favor...

— Por favor, digo eu — ela revirou os olhos castanhos e deu um sorriso metálico.

— Beija — suspirei ao lembrar-me daquela boca sobre a minha. Graças a Deus, Clóvis chegou e cortou o assunto.

O resto do dia foi uma correria, Paty teve de ir fazer os folhados e eu acabei ficando sozinha para servir todos. Mal pude acreditar quando as meninas do turno da noite chegaram.

Como o uniforme dava para mais um dia, troquei por uma velha calça jeans e uma regatinha surrada, nem lembrava há quanto tempo eu não comprava uma roupa para mim. Prendi os cabelos num coque e só então saí do hospital, o tempo parecia virar.

Coloquei os fones de ouvido, e caminhei de cabeça baixa, até sentir que ele me abraçava.

— ... Muito linda essa minha namorada. — Pude ouvir sua voz naquele timbre molha calcinha.

— Eu não sou sua namorada.

— Não é ainda.

— Eu não tenho tempo ou disponibilidade para namoros.

— Me fale de você então? Você gosta de alguém? — Gosto de você.

— Não, minha mãe está muito doente. Eu vivo por ela neste momento.

— Eu sou médico, aliás, sou um excelente neurocirurgião. Quem sabe não posso ajudar minha sogra.

— Você não desiste né? Me viu ontem e já fala que minha mãe é sua sogra. Quando eu olhava você, te imaginava mais sério e não um galinha.

— Ah você me imaginava? Eu também imagino você, só que não vou falar fazendo o que.

— Está perdendo seu tempo, doutor Miguel. Eu não vou cair na sua lábia.

— E na minha boca?

— Nossa você nem parece um médico falando...

— Gata, e como parece um médico falando?

— Sério, não um cantor de churrascaria que dedica uma música e o coração para todas as clientes.

— Então você está decepcionada comigo?

Miguel puxou meu quadril de modo que se encaixasse no dele. E naquele momento fiz o que não deveria. O beijei. E ele me acolheu num aperto de sofreguidão, não era repentino, eu o esperava desde que nasci.

— Vamos para minha casa? — disse quando nos soltamos.

— Não, vá para sua casa e eu vou para minha.

— Me deixe levá-la ao menos?

— Tudo bem, mas você não vai entrar.

Caminhamos até o estacionamento de mãos dadas, e aquilo acelerou tanto meu coração que eu poderia ter um colapso.

Ele só largou minha mão para abrir a porta do carona. Eu tremia feito vara verde, sabia que era encrenca, porém não conseguia parar.

Miguel colocou numa rádio de notícias e que também dava plantão sobre o trânsito, enquanto eu olhava pela janela do carro o mundo lá fora, absorvendo a ideia de que ele não poderia ser parte do meu mundo.

— Estou de folga domingo, pensei em irmos...

— Eu não tenho folgas, trabalho em dois empregos...

— Dois? Essa minha namorada é muito batalhadora...

— Eu não sou sua namorada...

— Por enquanto. — ele falou como quem mudasse de assunto temporariamente — O que você faz no outro trabalho?

Olhei novamente para a janela e menti.

— Sou babá folguista.

— Legal. E sua mãe? Você me disse que ela é doente. Qual é a doença dela?

— Minha mãe está em coma, ela sofreu um acidente de carro, meu pai faleceu neste dia e ela nunca acordou.

— Que coisa triste, minha gatinha. Faz quantos meses?

— Quase três anos.

— Hum — ele batucou no volante — Você tem irmãos?

— Filha única. Sou sozinha no mundo.

— Era sozinha, agora você tem eu... E nunca mais vai ficar sozinha.

Comecei a chorar, e foi como se minha alma chorasse, simplesmente não conseguia parar. Miguel levou umas duas ruas para perceber e parou o carro.

— Eu estou aqui — meu bonitão tirou o cinto e me amparou em seus braços, o que me fez chorar mais ainda, como se fosse possível.

— Eu não devia ter tocado neste assunto. Desculpe a minha falta de tato, gatinha. No trabalho, doenças são algo tão rotineiro que às vezes me esqueço do impacto em quem não é médico.

Como dizer a ele que não era o estado da minha mãe apenas? Como dizer que o fato de ele se mostrar tão interessado batia de frente com a minha vida oculta? O que ele via? Uma loira, gostosinha, que ele julgava difícil. Mas na verdade eu era Ametista, conhecida nas casas noturnas de entretenimento adulto. Como contar que amanhã algum desconhecido colocaria notas de dinheiro no meu fio dental enquanto eu rebolaria a pélvis o mais próximo possível de seu rosto, fazendo com que ele fosse mais generoso?

Como contar que eu o via durante estes dois últimos anos e sonhava em tê-lo tão próximo, mesmo sabendo que era impossível?

E foi quando a mão dele tocou meu joelho que eu pensei, por que eu não poderia ficar com ele sem compromisso? Por que eu não poderia apagar as chamas

acesas em meu corpo? Por que eu não poderia saber se ele era todo grandão? Se eu soubesse dar um ponto final na hora certa, não tinha motivos para me manter tão afastada.

Foi naquele momento que eu errei, se eu pudesse voltar no tempo eu teria descido do carro e sumido até ele não lembrar-se de minha existência.

5Mas fiz o contrário disso, eu o beijei, o enlacei com meus braços. Pude sentir a fome em seus lábios, que desceram pelo meu pescoço, soltando um gemido involuntário. Apesar do gosto de lágrimas era excitante beijá-lo, Miguel era definitivamente gostoso em toda a extensão e plenitude da palavra. E isso me excitou. Fazia tempo que não experimentava essa necessidade de pertencer a alguém de corpo e alma.

— Andreia assim não, você está me tirando do sério.

— Só estou te beijando. Não quer?

As mãos dele entraram por dentro da minha blusa, encontrando meus seios presos no sutiã.

— Vamos pra minha casa? Não te quero na rua.

— Na próxima, hoje não.

— E quando será a próxima? Amanhã?

— Terça, eu amanhã vou para o serviço de babá. Então sem chances.

— Essa minha namorada além de linda é muito difícil.

— Eu não sou sua namorada — por que ele tinha que dificultar as coisas?

— Tudo bem, minha namorada. — ele suspirou antes de prosseguir — Andreia, você sente este atropelo que eu sinto?

— Você mal me conhece, está me julgando por meu exterior.

— Não, não que você não seja gata pra caralho até mesmo vestida de garçonete. Mas seus olhos, são eles que me dizem que cheguei aonde deveria estar.

— Eu só tenho vinte anos, eu não quero compromisso, quero curtir a vida. — Deus sabe o quanto tentei fugir.

— E daí? Você me olhava atrás daquele biombo desde os dezoito. Nunca me aproximei por que achava que você era menor de idade.

— Mas você perguntou até se eu era funcionária nova, o que você quer comigo?

— Um compromisso, muito sexo, alguns filhos, envelhecer e morrer antes de

você.

Aquilo me deixou totalmente sem resposta, era o que eu queria também,

entretanto havia minha mãe. E eu não tinha condições financeiras para abrir mão de Ametista.

— Quem cala consente.

Miguel disse antes de me beijar, a urgência estava toda ali, senti que minha calcinha molhou, quando ele passou a mão sobre minha coxa por cima da calça jeans.

Desci do carro para que eu não desse para ele, ali mesmo. Subi a rua e corri para casa. O carro passou por mim e fez o retorno e só então pude ver que era um Renault Duster na cor prata. O ouvi buzinar quando entrei.

Como de praxe, as terças eu deitei e dormi logo cedo. Mas desta vez eu sonhei com Miguel descendo do carro e entrando em casa, me possuindo. Na estranheza que é um sonho, terminamos comigo de quatro sendo deliciosamente fodida no palco do Burlesco.

A quarta-feira foi como todas as outras, até a hora da saída, por sorte Miguel estava de plantão. Então, ele não poderia me levar, não que o bonitão fosse de qualquer maneira.

Meu amor me arrastou até o carro dele para me dar um CD de músicas que ele havia separado pra mim.

— Vai pensar em mim, quando ouvir? Eu pensei em você quando gravei.

— Não faz isso comigo, eu não quero que a gente...

— Se entenda? Se goste? Gatinha, seus olhos azuis me dizem que eu tenho um espacinho aí dentro.

— Minha mãe...

— Vamos fazer assim, eu tenho que entrar agora, tenho uma cirurgia à noite. Vá cuidar das crianças e amanhã este médico aqui estará pronto para te examinar todinha.

Quando os lábios dele tocaram os meus, eu derreti, não há outra expressão para o que senti. Era uma sensação gostosa o tesão que os braços dele em minha volta proporcionava.

— Não está certo, Miguel. Eu não posso...

— Não pode mesmo, deve...

— Miguel — sussurrei em seu ouvido.

— Se me chamar desse jeito de novo, serei obrigado a te enfiar em algum canto e fazer o que meu corpo tanto deseja.

— Com licença, doutor.

Saí de lá quase aos tropeções, subi a pé até a Consolação e peguei um ônibus; em quinze minutos estava no Burlesco, entrei pelos fundos junto com o pessoal da limpeza.

— Rainha, oh Deus. Achei que não viria. A casa está cheia, estava arrancando os cabelos da minha peruca egípcia, digna da Cleópatra.

— Eu não disse que viria? Não posso me dar o luxo de perder dias.

— Vamos, vou com você ao camarim, minha Dita Von Teese tupiniquim. Já te falei que ela era loirinha feito você?

Caminhei até o banheiro, tomei uma ducha rápida e Bovary me ajudou na maquiagem e a prender os cabelos num coque firme.

Coloquei o terno escuro e quando ouvi Cristina Aguilera cantando Candy man entrei no palco. Enquanto a voz potente dela entoava delicadamente uma música sobre um boy magia eu me despia. Comecei pelo blazer e colete, rebolando devagar, ouvindo as reações masculinas de admiração e desejo.

Arranquei a calça ao som de aplausos. Brinquei indo de encontro aos homens que gritaram, voltei ao mastro e me dependurei. Girei algumas vezes, inclinando o quadril para que tivessem uma visão privilegiada da minha bunda, não podia negar que eu amava aquilo. Fui até a parte mais próxima da plateia e abri os botões da camisa expondo um sutiã cor de rosa, com um ar inocente, alguns clientes babavam, um ou outro desavisado estendia a mão em minha direção.

Voltei ao centro do palco e abri o fecho frontal do meu sutiã, expondo meus seios brancos e macios, do tamanho exato para preencher uma mão masculina.

Voltei para perto da plateia, fiquei de quatro expondo praticamente minha nudez, a única parte nem tão vestida era minha boceta que estava oculta sob a renda cor de rosa, mas eu sabia que de determinados ângulos poderiam vê-la perfeitamente, algumas mãos subiam pelas minhas coxas, depositando notas na minha calcinha, uma ou outra tentava acariciar a fenda de minha boceta, mas eu já tinha uma posição para protegê-la.

Cristina deu lugar a uma sensual música eletrônica enquanto eu caminhei de quatro até o centro do palco, me sentei e fiz movimentos como se fosse tirar a única peça de roupa do meu corpo. A maioria dos clientes levantou-se vindo em direção ao palco, foi minha vez de rebolar maliciosa e jogar um beijo na direção deles, enquanto a música terminava.

Saí do palco, ovacionada e satisfeita, o dinheiro voltara a entrar.

Capítulo 3

Voltei ao camarim exausta, madame Bovary veio ao meu encontro com um robe de seda negra.

— Rainha, você estava divina! Até eu que nunca fui chegado na fruta, tenho que admitir que hoje você estava excitante.

Encarei a drag queen parada a minha frente, era uma linda mulher, os olhos bem delineados, os cílios postiços de uma coloração azulada pareciam cortinas no rosto dourado, aquilo sim era uma maquiagem perfeita.

— Ah eu sempre fui assim, esforçada.

— Esforçada pode ser, mas você tem certo distanciamento do público, mon amour, hoje foi diferente. Hoje a sua alma estava naquele palco. E foi lindo de se ver.

— Para de falar besteira!

— Besteira o caralho, sou madame Bovary, diva do show adulto. Dona do Burlesco. Rainha da porra toda. Se eu digo que foi incrível , você sorria e aceite...

— Modesta e humilde.

— E gostosa... Não se esqueça disso, rainha.

— Me dá uma carona?

— Claro.

Terminei de me trocar, e fui para o estacionamento. Madame dirigia como um piloto de fuga. Fomos cantando Lady Gaga durante a volta, eu amava estas caronas. Cheguei em casa e liguei o celular.

— Mensagem recebida.

"Bons sonhos, minha, só minha loira".

Mordi os lábios, o que estava sentindo era um sentimento avassalador, desejava demais estar com Miguel, ao mesmo tempo em que morria de medo de perdê-lo.

Era tão recente, e descompromissado. E ainda assim perfeito.

Mesmo sabendo que não era para mim, eu não conseguia dizer não e me afastar. Então comecei a contar pequenas mentiras.

"Saudades, meu grandão, aliás, preciso saber se é todo grandão mesmo" — mensagem enviada.

— Mensagem recebida.

“Essa minha namorada, acordada a essa hora pensando na extensão do meu tamanho, hahaha parece que a noite faz minha gatinha virar uma onça".

"Vou dormir pensando em outras formas de saber isso, beijinhos" — mensagem enviada. — Mensagem recebida.

"Eu só vejo uma, mas não se preocupe, terça-feira você saberá e nunca mais esquecerá, te adoro minha loira, um beijo e durma bem".

Fiquei um bom tempo rolando na cama até pegar no sono, apesar de estar muito cansada, minha mente estava em um turbilhão.

Prometi a mim mesma que eu ficaria com ele até terça-feira, nesse nosso encontro eu mataria todo o tesão que sentia por ele, e romperia de vez com aquilo. Eu precisava tê-lo. Depois disso dormi um sono sem sonhos e revigorante.

A quinta-feira passou rápido, assim como a sexta. Já o fim de semana me deixou mal-humorada, fui visitar minha mãe e não me deixaram entrar, só vê-la através do vidro. Mamãe estava entubada novamente, pegou uma infecção que segundo os médicos já estava controlada. Toda vez que eu a visitava eu me lembrava de que era impotente, por mais que eu batalhasse pelo tratamento, remédios e tudo que pudesse aumentar e melhorar a qualidade de vida dela, eu não podia fazê-la acordar.

Voltei para casa, mais uma vez com o coração na mão. Queria um abraço do meu bonitão. Porém com Miguel de plantão e eu de folga, dificultava.

Queria vê-lo, porém tinha consciência de que se eu ficasse com ele o tempo todo, me apaixonaria fácil.

Quando o domingo terminou constatei que era a primeira vez na vida que fiquei feliz por ser uma segunda-feira, fui trabalhar com gosto.

Cheguei à lanchonete cinco minutos antes do meu horário, lavei o chão, coei o café e vi Patrícia correr com o avental ao entrar atrasada.

— Loira, peguei um ônibus que não andava.

— Imagino. Seu Clóvis não está.

— Ótimo. Assim não emenda com a bronca de ontem.

— O que aconteceu ontem? — me aproximei curiosa.

— Helena foi pega dando para um médico, no estoque.

— Que médico? — não vou negar que um fio de medo subiu pela minha espinha.

— Doutor João, aquele negão absurdamente gostoso.

— Sei quem é — suspirei aliviada.

— Ficou com ciúmes do bonitão? — ela gargalhou — Loira nunca vi esse homem olhando ninguém, nem ouvi boatos na rádio corredor. Quer dizer o povo agora fala de vocês dois.

— Fala o quê?

— Que tá rolando — ela esfregou uma mão na outra num ar de pura malícia.

— Bom dia — a voz dele encheu a sala.

— Bom dia — o sorriso que se estampou na minha cara foi involuntário.

— Como você está? — ele aproximou-se de mim — Eu senti saudades.

— Eu também.

— Porque não veio me ver? Você sabia meus horários de pausas.

— Achei melhor que você dormisse.

— Eu senti que você não está mais com vontade de ficar comigo.

— Estou sim, você sabe que estou.

— Como foi seu final de semana? — quando aqueles olhos escuros pousaram em mim, eu me sentia como uma fogueira crepitando.

— Dormi de dia, trabalhei à noite.

— Pensei que não tinha trabalhado fim de semana.

— Fim de semana que é mais puxado.

— Sério? — ele arregalou os olhos — Pensava que os pais preferiam ficar com as crianças aos finais de semana.

— Não. É difícil ter folga de sábado e domingo. — me doeu dizer aquela mentira, aliás, mentir para ele era doloroso.

— E teve alguma novidade sobre o caso de sua mãe?

— Na mesma, fui visitá-la. Desta vez não pude entrar. Não vejo a hora de isso terminar.

— Quer que eu vá até lá? Eu consigo um quadro clínico. Meu pai... Ele... Bem, ele trabalha neste hospital.

— Você faria isso por mim?

— Eu faria tudo por você.

— Ih — interrompeu Paty — Parece que alguém vai casar.

— Meu Deus, Patrícia você não cansa? — casamento não podia ser pauta.

O que sentíamos um pelo outro, era atração sexual, quando transássemos passaria.

— Quem sabe do futuro? — Miguel beijou minha bochecha com malícia evidente.

— Vá trabalhar Miguel.

— Me dá um tesão louco quando você chama meu nome.

Ele saiu sem nem tomar o café, e eu fiquei molhada só de ouvir aquela voz maravilhosa.

À noite não o vi quando saí, fui direto para o trabalho. Trocariam o mastro do pole dance e Bovary queria que eu visse se o serviço fora bem executado.

— Rainha, vem ver.

Madame me levou para dentro pela mão, o palco teve seu tapete preto trocado por um de tom vermelho. Estava bem mais bonito, devo admitir.

Subi e fui até o mastro dourado, dei alguns rodopios e sentei-me no chão.

— Rainha hoje não terá ensaio, as outras meninas foram dispensadas, mas eu queria que você visse.

— Está lindo.

— Ótimo, vamos pra casa então... Meu celular tocou enquanto nos despedíamos, olhei o visor, era meu bonitão.

— Linda? Estou saindo do hospital agora, vamos nos encontrar?

— Pode ser.

— Onde eu posso te pegar?

— Vai me pegar é? — pude ouvi-lo rindo do outro lado da linha.

— Se você quiser...

— Besta, estou perto da Rebouças, me encontra perto da casa de aulas de música?

— Chego em uns vinte minutos.

Madame Bovary me encarou, porém não falou nada, desci correndo e fui caminhando apressada até nosso ponto de encontro.

Não o esperei mais que dez minutos, Miguel estava lindo, como sempre, entrei no carro, sentei-me no banco do carona, demos um selinho rápido.

— Vamos para minha casa?

Acenei concordando com a cabeça, pude sentir sua mão em minha coxa e fiquei úmida.

Seria naquela noite, se bobear naquele carro.

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