- Quantos anos você tem, Georgette?
Georgie considerou brevemente a idéia de se sair com algo como "tenho idade suficiente", mas sabia que não conseguiria. Além disso, seria um vexame se ele caísse na risada.
- Vinte e um - respondeu ela.
- Você gostaria de jantar comigo hoje? - perguntou Angolos sem perder tempo.
Ela o olhou com olhos perplexos.
- Eu... Você...?
- A idéia é essa.
Georgie engoliu em seco, passou a língua nos lábios salgados e olhou para ele com desconfiança.
- Não está falando sério. - Ela tentou rir, mas não con¬seguiu.
- Por que não estaria? - Ela balançou a cabeça e corou ao sentir o tom irônico dele. - Você é a mulher mais atraen¬te desta praia.
- Sou a única com menos de 60 anos sem marido e filhos, portanto não vou me entusiasmar com seu elogio.
A quem ela queria enganar? Por toda a vida, como uma garota normal, com um enorme mundo interior escondido. Mas será que alguém se daria ao trabalho de procurar saber? Agora, totalmente do nada, aparecia este homem incrível que a via como uma mulher desejável!
Se entusiasmar...? Ela estava nas nuvens!
Tentou fazer uma expressão divertida, mas falhou miseravelmente ao ver aqueles cílios de ébano. Flame-jantes era o termo para definir aqueles olhos esfumaçados que a fitavam.
- Nem sei seu nome - protestou Georgie.
O sorriso dele era seguro, com o toque de arrogância que vinha naturalmente de alguém como ele. E por que não seria, meditou ela quatro anos depois. Angolos Constantine estava acostumado a conseguir o que queria. Um pouquinho de complacência era compreensível, considerando-se que mal ele havia alcançado a puberdade e as mulheres já se jogavam aos seus pés!
- Não é nenhuma barreira insuportável, e eu já sei seu nome, Georgette. - Ele disse seu nome de um jeito quase palpável, que a fez sentir um arrepio na nuca e uma dor indefinível no ventre.
Ela olhou para ele, sonhando. Era só um jantar.
- É só um jantar - disse ele, como se lesse seus pen-samentos.
O que ela estava fazendo, hesitando? Todas as garotas que conhecia não precisariam ser convidadas duas vezes. Viam o que queriam e corriam atrás. Georgie as admirava, mas, por dentro, ficava pensando se essas garotas não seriam tão inseguras quanto ela própria.
Ao abrir a boca, ela quis dizer sim, mas seu pai não a criara para ser impulsiva. Desde pequena, sempre a educaram para ter cuidado, e seu condicionamento acabou falando mais alto no último instante.
- Obrigada, mas não posso. - Ele era um estranho. Podia ser um maníaco, ou, até mesmo, um maníaco casado. Ela fez que não com a cabeça; estava além de seu alcance e sabia disso. - Obrigada, mas acho que não posso. Meu na¬morado não iria gostar.
Em outras circunstâncias, a expressão de frustração e confusão no rosto dele seria risível.
Ela não estava com vontade de rir; nem mesmo de sorrir. Estava em dúvida se tinha mesmo feito "a coisa certa".
Angolos arqueou as sobrancelhas negras.
- Está se recusando?
Georgie percebeu que ele estava de fato pasmo. Não estava acostumado a ouvir não. Ela fez que sim. Desta vez, ele falou com um toque de irritação.
- Como quiser.
A irritação dele a fez se sentir ligeiramente melhor. Sua natureza normal, aquela que tinha quando não estava trans¬formada em uma devassa descerebrada por causa da aura sexual que irradiava daquele homem, voltou ao comando. Por que ele achara que ela era uma presa fácil? Podia ter sido um tantinho óbvia em sua atração por ele, mas uma garota podia olhar sem querer tocar, não podia?
Ela deu um sorriso que era, em parte, de desculpas. Não estava tentando puxar briga em nome da igualdade de direi¬tos entre homens e mulheres. - mulheres melhores e mais corajosas já haviam feito isto -, tudo o que ela queria era dar o fora de lá sem ficar parecendo mais idiota ainda!
Ciente que seus atos eram acompanhados pelos olhos dele, ela pôs de modo desajeitado suas coisas na bolsa de lona.
- Jack! - chamou ela enquanto fechava o zíper da bolsa, dando um suspiro de alívio.
- Esqueceu isto aqui.
Georgie se virou e viu que ele estava segurando o pro¬tetor solar.
Ela esticou a mão.
- Obrigada. - O contato entre os dedos durou menos que o tempo de uma batida de coração, mas foi o bastante para ela sentir uma onda elétrica por todo o corpo. Os olhos ar¬regalados e assustados dela se depararam momentaneamen¬te com os dele e Georgie percebeu, sem precisar dizer ne¬nhuma palavra, que ele sabia exatamente o que ela estava sentindo.
Bem, ao menos alguém sabia!
Sem esperar para ver se seu irritante irmão a estava acompanhando, Georgie tropeçou e correu pela areia até a faixa litorânea coberta por pedrinhas, o tempo todo lutando contra o insano impulso de voltar.
Um grito infantil puxou Georgie de volta ao presente. Ela fez sons de admiração ao ver o filho orgulhosamente lhe mostrar as pedrinhas que ele empilhara no terraço.
Ela lembrava de fazer a mesma coisa quando era criança, continuidade era importante. Estava longe de ter passado por grandes provações quando criança, mas havia um vazio; perguntas que continuavam sem resposta porque sua mãe não estava lá para responder. E agora Nicky tinha um pai ausente... A história se repetia!
Ela empinou o queixo. Rejeição não era coisa hereditária, era falta de sorte, e se Georgie tinha algo a ver com isto, Nicky saberia julgar a mãe melhor do que ela mesma.
Era estranho... Ela havia mudado tanto que não dava mais para reconhecer nela a menina correndo na praia naquele dia, mas a casa da praia e a cidade não haviam mudado nada. Era como se o lugar tivesse entrado numa cápsula do tempo.
A cidade continuava audaciosamente cafona. Não havia nenhum restaurante estiloso de frutos do mar, nem grandes ondas para atrair os surfistas, mas, apesar de tudo, Georgie tinha uma queda pelo lugar. Ela esfregou as mãos cheias de areia nos bolsos traseiros da bermuda e aceitou a concha que Nicky estava lhe dando com toda a pompa.
Era a primeira vez que ela voltava lá desde aquele verão fatídico. Em parte, viera para enterrar os fantasmas do pas¬sado, porém, em termos mais práticos, não havia como ela bancar as férias com Nicky de outra maneira.
Respirou fundo, curtindo o ar salgado. As memórias tomam conta da gente sem que a gente perceba, refletiu ela. As coisas mais inesperadas podem desencadeá-las: um cheiro... uma textura. Como antes, num segundo estava tentando tirar a areia dos pés antes de calçar as sandálias, e no outro... zap.
Foi incrivelmente vivido.
De repente, ela estava com o pé no colo de Angolos, com a cabeça abaixada, os olhos azul-escuros cintilando ao sol enquanto ele tirava a areia do seu pé. O toque de seus dedos a fez sentir pequenos arrepios pelo corpo todo. Ainda de olhos fixos nos dela, ele levantou o pé dela até sua boca e chupou um dedo.
Georgie apertou a areia com a mão, contorcendo o corpo.
- Você não pode fazer isso! - gritou ela, quase engas¬gando. Tirou o pé da mão dele, levando os joelhos até o queixo.
- Por quê? - perguntou ele com uma expressão estranha nos lábios.
- Porque assim você me mata - confessou, abalada.
O jeito que ele olhava para ela, aquele brilho predatório de desejo, aquilo a derretia por dentro.
- Você não vai ter que esperar muito tempo, yineka mou. Amanhã, seremos marido e mulher.
De volta ao presente, Georgie abriu seus punhos cerrados. Estava com as palmas das mãos suadas. Ela suspirou e es¬fregou as mãos na parte de trás da bermuda. Será que um dia ela seria capaz de pensar no marido sem ter um ataque de nervos?
- Eles mal conseguiam tirar as mãos um do outro.
Os detalhes lascivos... Disto, ela realmente não precisa¬va mesmo.
- Não sou puritana - prosseguiu a mulher mais velha -, mas francamente... ela não conseguia tirar as mãos dele...
Por mais mortificante que fosse o comentário da avó, Georgie não era dada a ficar se iludindo, portanto tinha de reconhecer que o que ela disse era verdadeiro.
Sempre com o leve desdém pelos relacionamentos amo¬rosos das meninas de sua geração, que ela considerava confusos e muitas vezes dolorosos, Georgie nunca esteve preparada para as emoções primitivas que Angolos desper¬tava nela. Ela ficou totalmente mesmerizada por ele.
- Meu filho e eu discordamos na maioria das coisas, mas, naquela ocasião, nós pensamos a mesma coisa. Robert dis¬se a ela: "Durma com esse homem, se quiser, até more com ele, mas casar... É insanidade".
- Mas uma insanidade pela qual todas nós passamos, Ann - foi a lúgubre resposta.
Georgie ficou imaginando as duas senhoras vivendo a luxúria cega e insana que ela sentira por Angolos.
- A menina colheu as conseqüências de sua estupidez.
O desdém na voz da avó fez o rosto bronzeado de Geor¬gie ficar mais vermelho ainda, de vergonha. Ela havia co¬metido um grande erro e estava pronta para reconhecer isto, mas, às vezes, pensava que, se dependesse de sua família, teria de ficar se culpando por aquilo até os oitenta anos!
- Ela era muito nova.
- Nova e achava que sabia de tudo.
- Os jovens são assim mesmo. Ele... o homem da revis¬ta... parecia mais velho?
- Trinta e dois ou algo assim, acho, na época. Você tem que entender que Georgie era muito ingênua para a idade dela, enquanto ele esbanjava experiência. Uma tentação em carne em osso, claro. Não me admira que ela tenha se apai¬xonado por ele.
Aquele reconhecimento impressionou Georgie. A avó jamais demonstrara solidariedade na frente dela. -Você acha que ele se aproveitou...?
- Bem, o que você acha? Um homem com um casamen¬to fracassado nas costas... E grego.
Pelo tom de sua avó, era difícil dizer qual erro ela consi¬derava mais difícil de perdoar: ser separado ou ser grego.
- Na hora em que bati os olhos nele, vi que não era de confiança. Eu disse a ela, nós todos dissemos a ela, e ela ouviu? Nada, ela o amava.
- Mesmo assim, você devia ter orgulho do modo como ela reconstruiu a vida e do menino lindo que ela tem.
- Um menino que nunca viu o pai,
- Nunca? Tem certeza...?
- Recusa-se categoricamente. Angolos Constantine dei¬xou claro que não quer nada com a criança. Nem ele, nem ninguém de sua família maravilhosa, jamais se aproximou... Se quer saber, eu acho uma bênção que fiquem longe.
Era tolice, porém, mesmo depois deste tempo todo, a verdade ainda doía. O nó de dor e raiva no peito de Georgie apertava ainda mais quando ela olhava para a pequena figu¬ra que cruzava o gramado em direção a ela.
Seu rostinho adorável era uma máscara de concentração ao carregar um pequeno balde cheio de pedrinhas. O olhar carinhoso dela o seguiu enquanto ele depositara cuidadosa¬mente o baldinho no chão, ajoelhava-se com as pernas gordinhas e começava a cavar a terra macia.
O amor que sentia pelo filho, amor que sentira desde o primeiro momento em que o segurou nos braços, pulsou em seu peito. Georgie imaginou que aquele momento mágico pudesse ser compartilhado com Angolos. , Como estava errada!
Ela deu à luz sozinha. Não teve marido para segurar sua mão nem ajudá-la a passar por aquela dor, não havia ninguém para ela compartilhar a magia daquele momento.
Angolos já não a amava mais... Ou será que, na verdade, jamais amara?
Mas por que a dúvida agora, Georgie? Afinal, homem nenhum podia tratar alguém por quem já sentira alguma coisa do jeito que ele a tratara.
Ela aceitou aquilo.
Claro que aceitou!
Mas como Angolos era capaz de rejeitar o filho que fizeram juntos? Nicky era perfeito... Como alguém poderia não querê-lo? Como um pai era capaz de não amar o próprio filho?
- Ainda bem que a família dela estava aqui para segurar as pontas.
A observação da avó foi perfeitamente audível, porém Georgie teve de se esforçar para ouvir a resposta da outra mulher. Este era o problema de ficar escutando atrás da porta: depois que se começara, era difícil parar.
- Que triste! Como um homem pode não querer ver o filho?
- Eu pergunto o mesmo. Só sei que ele não deu um cen¬tavo a ela e Georgie é cabeça-dura demais para lutar pelo que é dela por direito. Eu disse que ela devia entrar com o divórcio e exigir cada centavo que pudesse. Não houve acordo pré-nupcial. Meu medo é que Georgie tenha puxado à mãe, que não tem um pingo de senso prático.
Georgie ficou pensando no que a avó acharia se soubes¬se que Angolos comparecia com dinheiro todos os meses, mas que o dinheiro permanecia intocado.
A esta altura, já tinha bastante dinheiro na conta.
- Mamãe... - A vozinha cansada fez Georgie perceber o perigo de Nicky ouvir aquela conversa.
- Estou com sede. - A figura diminuta, com baldinho e pá na mão, puxou a perna da bermuda dela.
Georgie se abaixou para ficar na altura do menino, sor¬rindo, e afastou uma mecha cacheada e brilhante do cabelo, que lhe caía sobre o rosto. Jamais poderia esquecer do rosto de Angolos, pois o via em miniatura todos os dias.
- Também estou, querido - disse ela, falando alto para anunciar sua presença às duas senhoras. - Vamos ver se a vovó também quer uma limonada?
A realeza compareceu a um espetáculo de caridade e a mídia estava toda lá para cobrir o evento. No tapete vermelho, a estrela de uma novela estava ocupada em negar para as câmeras de tevê os boatos de que iria se casar com seu par na trama.
A entrada estava amontoada de outras caras, todas exibindo seus melhores sorrisos e roupas de grife. Apesar de a maioria dos homens presentes vestir basicamente os mesmos ternos escuros e formais, Paul não teve dificuldade em achar a pessoa que procurava.
Angolos Constantine se destacava na multidão. Não só por causa da altura e do visual. Ele tinha aquela qualidade rara chamada presença.
- Angolos...? - chamou ele, aliviado.
A figura alta, que tinha por companhia uma morena ele¬gante repleta de jóias, virou-se ao ouvir seu nome. Um sor¬riso se espalhou por seu rosto ao identificar de onde vinha.
- Paul! - exclamou ele, tirando o braço da acompanhan¬te e se aproximando com a mão estendida. - Não sabia que era fã de ópera.
- Não sou... e, mesmo que fosse, não seria o motivo de eu estar aqui - admitiu com franqueza. - Só vim até aqui para dizer a eles que sou seu médico particular.
O entalhe do forte nariz aristocrático de Angolos ficou mais pronunciado.
- Muito bem pensado da sua parte. - Ele virou a cabeça levemente para os lados, procurando alguém. - E onde está a adorável Miranda?
Paul Radcliff balançou a cabeça e olhou para o rosto do amigo que conhecia desde os tempos de universidade.
- Mirrie não veio.
- Pensei que vocês viessem juntos.
- A pressão dela estava um pouco alta... Nada sério. Angolos bateu com a mão na testa.
- Esqueci! - admitiu com um sorriso de autocensura! - Quando chega meu afilhado?
- Já chegou na semana passada.
Angolos arqueou as sobrancelhas.
- Agora a coisa ficou séria.
- Você está com ótima aparência, Angolos.
Ele sentiu que a frase soou incompleta. Ninguém que olhasse para sua figura esguia e saudável diria agora que poucos anos antes seu futuro era incerto. Paul era uma das poucas pessoas que sabiam disso, e ele mesmo mal conseguia acreditar!
- Sempre o médico, Paul - provocou ele, arqueando uma sobrancelha.
- E amigo, espero. - Foi por causa desta amizade que, após muito considerar, ele acabou vindo. Por isto e por causa da insistência da esposa.
- O homem tem direito de saber, Paul - insistiu ela. Ele estava inclinado a deixar a coisa como estava, mas esposas em estado avançado de gravidez precisam de trata¬mento especial. Miranda insistiu que ele tinha de falar com Angolos sem demora e que aquele era o tipo de coisa que não se fala por telefone.
Então ali estava ele, desejando não estar.
As feições duras do moreno grego se suavizaram com um sorriso devastador.
- E amigo - concordou Paul. - Então, qual o problema, Paul?
- Nenhum problema, exatamente - respondeu com desconforto.
Angolos não se deu ao trabalho de disfarçar que não acreditava naquilo.
- Não venha com essa. Tem de haver algo muito sério para você ter deixado Miranda sozinha numa hora dessas.
Aquele era Angolos, racional até o último fio de cabelo, a não ser quando se tratava de sua esposa. No que dizia respeito a Georgie, ele ficava bastante... grego... e imprevi¬sível, refletiu o inglês.
- Ela... Mirrie foi quem me fez vir - admitiu Paul. Angolos balançou a cabeça.
- Que bom que ela fez isso. Eu ficaria ofendido se você não viesse me procurar quando está com problemas. Espere um segundo e já estarei com você.
- Meu... problema...? Mas eu não tenho... - Paul parou e observou com uma expressão cômica de incredulidade enquanto o amigo trocava palavras com a morena, que não pareceu nada feliz com o que escutou. Segundos depois, Angolos estava ao seu lado de novo.
- Vamos sair daqui - sugeriu Angolos. - Tem um bar ali na esquina. Podemos conversar.
A primeira coisa que Paul pensou em dizer quando pe¬diram as bebidas foi:
- Deixe-me esclarecer uma coisa. Não estou aqui para lhe pedir dinheiro emprestado, Angolos.
- Eu sei muito bem que nem todos os problemas se re¬solvem com dinheiro, Paul. - Seu olhar grave deixou o outro homem desconfortável. - Mas, se o seu problema puder ser resolvido com dinheiro, eu vou resolvê-lo, queira você ou não. - Então ele sorriu calorosamente. - Meu ami¬go, se não fosse por você, eu nem estaria aqui.
- Besteira!
O evidente desconforto de Paul fez Angolos sorrir com dentes muito brancos, contrastando com o rosto moreno.
- Sua modéstia britânica chega a ser engraçada, Paul -observou ele secamente. Apoiou os cotovelos na mesa e se aproximou do outro com expressão atenta. - Então, qual é o problema?
- Eu não diria que é um problema... É só que o doutor Monroe se aposentou e seus pacientes foram repassados a nós... - Paul respirou fundo ao ver a testa franzida de An¬golos e prosseguiu rapidamente. - Ontem, meu sócio foi chamado para uma emergência e eu vi o nome dos novos pacientes. - Engoliu em seco. - Georgie... sua Georgie está entre eles.
A expressão de Angolos permaneceu a mesma, mas seu jeito de pegar a bebida e levar aos lábios pareceu estranho. Quando pôs a bebida na mesa de novo, ele olhou nos olhos do outro.
- Ela está doente?
- Não, não!
Os ombros de Angolos relaxaram quase imperceptivelmente.
Angolos reconheceu por dentro que aquilo era algo per¬verso, mas considerando que três anos e meio atrás ele havia amaldiçoado a esposa infiel com todas as suas forças, a possibilidade de ela estar doente agora talvez tivesse des¬pertado algum instinto primitivo de vingança.
- Na verdade, ela pareceu estar muito bem... um pouquinho magra, talvez - comentou Paul. - Ela sempre teve bons ossos.
- Não tenho o menor interesse em saber da parte estética dela. - O maxilar de Angolos enrijeceu enquanto o outro ho¬mem olhou para ele com ceticismo. - E não me lembro de você me dizer que Georgie tinha bons ossos quando veio me falar que casar com ela seria o maior erro de minha vida...
- Ah, bem, eu temia que você estivesse...
- Maluco? Pois no final você estava certo mesmo. - Ele se aproximou mais um pouco. - Ela pediu para você inter¬ceder? Pensei que você tivesse mais juízo e não fosse se deixar levar por...
O doutor pareceu indignado.
- Na verdade, parceiro, tenho a séria impressão que você é a última pessoa com quem ela gostaria de entrar em con¬tato - revelou com toda a franqueza.
- Realmente!
- Georgie ficou bastante chocada ao me ver. Na verdade - admitiu ele -, achei que ela fosse sair correndo do consul¬tório. E, quando eu toquei no seu nome, ela pareceu... - Ele parou. Não havia palavras para descrever a expressão nos olhos daquela jovem mãe. - Não pareceu muito contente - completou Paul.
Angolos se recostou à cadeira, abriu um botão da jaque¬ta e cruzou os braços.
- Mesmo assim, aqui está você.
- Sim. E é duro. Mirrie é bem melhor neste tipo de coi¬sa do que eu.
Neste ponto, se a conversa fosse com outra pessoa, An¬golos já teria mandado a pessoa passear, mas, como era Paul, ele controlou a impaciência.
- A questão, Angolos, é que ela trouxe o garoto. - A expressão de Angolos não estava nada encorajadora, mas Paul persistiu. - Você já viu...?
- Não, nunca vi o garoto - respondeu Angolos glacialmente.
- É um menino ótimo, e nada mimado. Georgie tem feito um bom trabalho, mas, pelo que percebi, ela está sem dinheiro.
Os lábios de Angolos se retorceram em uma expressão de revolta.
- Então é isso, ela está bancando a pobrezinha. Eu de¬posito uma quantia mais do que suficiente todo mês para as necessidades da criança. Se Georgette ficou gananciosa e se por um acaso tem esperança de conseguir mais dinheiro de mim, pode esquecer. Ela já me fez de bobo uma vez...
- Ela sinceramente não tocou no assunto "dinheiro". Angolos, se ela quisesse arrancar dinheiro de você... Você viu quanto aquele roqueiro que negou a paternidade de uma criança teve que pagar à mãe depois do exame de DNA?
- Pois o DNA a impediria de continuar fazendo a crian¬ça passar por minha. Se ela está tão desesperada, devia vender sua história para algum tablóide sensacionalista. -Suas narinas inflaram e ele tamborilou os dedos na mesa. - Seria bem o estilo dela.
- Será que ela já não teria feito isso, se quisesse? E, se quisesse dinheiro, posso imaginar que o divórcio teria um acordo financeiro bem vantajoso para ela.
- Só por cima de meu cadáver.
- Sinto que você diga isto. De verdade.
- Esperava que não chegasse a esse ponto - replicou Angolos. - Por acaso estamos dando voltas?
- Sim, bem, na verdade é... a questão do DNA...
- Que questão do DNA?
- Tem certeza que o teste daria negativo!
- Certeza...? - Angolos olhou para o amigo com incre¬dulidade. - Logo você me faz uma pergunta destas? A qui¬mioterapia salvou minha vida, mas me deixou estéril. Minha única chance de ser pai está armazenada em algum lugar a não sei quantos graus abaixo de zero.
- Falta de sorte - disse Paul, bastante consciente da iminente paternidade do amigo.
- Falta de sorte? - Angolos deu um risinho de canto de boca. - Sim, suponho que tenha sido falta de sorte. Contudo, considerando que, sem o tratamento, e mais importante, sem seu diagnóstico precoce, eu não estaria aqui, posso me con¬siderar sortudo, sim.
- Mas não é uma situação fácil.
- Intelectualmente, na verdade. Não tenho problema com a situação, mas, de alguma forma, não importa quantas vezes eu diga a mim mesmo que a masculinidade de um homem não está na contagem de espermatozóides, ainda sinto... - Deu um risinho sardônico e olhou nos olhos de Paul. - Quem sabe Georgette não estava certa e eu não passo de um machista irrecuperável...
- Há dúvidas quanto a isso?
A resposta fez Angolos dar um sorriso amargo.
- Por isso você nunca contou a ela sobre a quimioterapia e o câncer? Estava com medo que ela... - Paul deu um sor¬riso constrangido. - Desculpe, eu não devia...
- Se eu estava com medo que ela me achasse menos homem, é isso? O que você acha, Paul?
- Acho que, se eu soubesse o que se passava em sua mente, eu seria o único - respondeu o amigo com franqueza. - Sabe, quando se trata de responder a perguntas, você é mais escorregadio que um político. Se quer minha opinião, você estava errado. Sei que Georgie era jovem, mas ela sempre me pareceu bastante madura...
- Madura o bastante para me trair e tentar fazer o produ¬to de suas aventuras amorosas se passar por meu filho.
Paul fechou a cara.
- Bem, quanto a isto, Angolos..
- Vai querer discutir a infidelidade de minha esposa?
- Claro que não.
- Se descobriu quem era o amante dela... - No final, ela acabou se recusando a reconhecer sua culpa e a dizer o nome do amante. Apesar de Angolos saber quem era. - Saiba que não estou mais interessado.
- Quem sabe não havia amante nenhum?
As sobrancelhas escuras de Angolos se contorceram quando ele deu um sorriso revoltado.
- Amante nenhum...? O que está querendo dizer? Que ela ficou grávida do Divino Espírito Santo?
Paul levantou a mão.
- Angolos, me escute. Sei que este tipo de quimioterapia à qual você se submeteu normalmente causa infertilidade, mas há exceções... Você não fez nenhum teste...
- Não, como também não passei pela orientação psico¬lógica, que, pelo jeito, queria me fazer ficar contente por ser menos homem.
- Sim, você na época deixou bem claro o que achava da orientação psicológica.
- Não se pode alterar o que acontece, apenas aceitar.
- Terrivelmente fatalista.
- Nós, gregos, somos fatalistas.
- Você é a pessoa menos fatalista que já conhecia na vida. E, às vezes, conversar ajuda... Mas não vim aqui para dis¬cutir os benefícios de conversar para desabafar.
- Você vai me dizer o que tem para dizer ou não vai?
- O garoto é seu.
O rosto de Angolos foi tomado por um espasmo de raiva. Paul observou, alarmado, o amigo respirar fundo várias vezes e dizer, com voz bastante controlada:
- Até você, Paul?
- Você vai querer acabar comigo, eu sei, mas tenho de dizer mesmo assim. O garoto, Angolos, é você sem tirar nem pôr. E não estou dizendo que ele é parecido, ele é sua répli¬ca em miniatura. Não há qualquer sombra de dúvida: Nicky é seu filho.
- Isso é alguma piada, Paul?
- Tenho um senso de humor negro, Angolos, mas não sou cruel. Se não acredita em mim, sugiro que confira por si mesmo.
- Não vou embarcar nesta fantasia.
- Eles estão na casa de praia.
- Não tenho intenção de ir a lugar nenhum atrás dessa mulher.
- Bem, isto é contigo, mas se eu fosse você...
Os olhos de Angolos cintilaram.
- Mas não é. Você tem uma esposa à sua espera em casa, você vai segurar seu filho nos braços logo... - Ele viu o choque no rosto do amigo, e pior ainda, a compaixão que apareceu em sua expressão. - A verdade, Paul - acrescentou Angolos em tom mais moderado -, é que eu o invejo. Nunca menospreze o que você tem.