Capítulo 2

A chuva forte batia contra o para-brisas partido, misturando-se com o sangue na minha testa. O carro estava virado de lado, preso contra a barreira da autoestrada. A minha mãe, no banco do passageiro, estava desmaiada, com um corte feio na cabeça.

Eu tinha dores. Uma dor terrível e aguda no meu ventre de oito meses.

Com as mãos a tremer, peguei no meu telemóvel. O ecrã estava estalado, mas ainda funcionava. Disquei o número do meu marido, Pedro.

O meu primeiro instinto, a minha única esperança.

O telefone chamou uma, duas, três vezes. Quando eu estava prestes a desistir, ele atendeu. A sua voz era irritada, impaciente.

"Que queres, Sofia? Estou no meio de uma coisa."

"Pedro," a minha voz saiu como um sussurro rouco. "Tivemos um acidente. Na A5. O carro capotou. A mãe está inconsciente."

Fiz uma pausa, a dor a intensificar-se. "Eu estou a sangrar, Pedro. Acho que é o bebé."

Houve um silêncio do outro lado, mas não era de choque. Era de aborrecimento. Depois, ouvi outra voz ao fundo, uma voz feminina, a queixar-se.

"Ai, o meu tornozelo, dói tanto! Jorge, achas que está partido?"

Era a Clara, a meia-irmã do Pedro.

A voz do meu sogro, Jorge, respondeu imediatamente, cheia de preocupação. "Calma, querida. O Pedro já vai tratar disso. Ele é o melhor a fazer ligaduras."

O meu coração gelou.

"Pedro, por favor," implorei, as lágrimas a misturarem-se com a chuva e o sangue no meu rosto. "É sério. Preciso de ti."

"Sofia, para com o drama," ele respondeu, a sua voz dura. "A Clara torceu o tornozelo a descer as escadas por causa do raio da tempestade. Estou a tratar dela. Não posso simplesmente largar tudo por um arranhão. Liga para a emergência, eles servem para isso."

"Não é um arranhão! Eu posso perder o nosso filho!" gritei, o pânico a tomar conta de mim.

"E o que queres que eu faça? Que voe até aí? A Clara também está com dores! Pelo amor de Deus, sê um pouco compreensiva. Liga para o 112 e para de me chatear!"

Ele desligou.

Olhei para o ecrã do telemóvel, para a chamada terminada. Tentei ligar de novo. O número estava bloqueado.

Ele bloqueou-me.

Enquanto a minha mãe estava inconsciente e o nosso filho morria dentro de mim, o meu marido estava a cuidar de um tornozelo torcido. E bloqueou-me.

A dor no meu ventre tornou-se insuportável, uma onda de agonia que me roubou o fôlego. Depois, tudo ficou escuro.

Capítulo 3

Acordei num quarto de hospital branco e estéril. O cheiro a antissético enchia as minhas narinas. A minha barriga, antes redonda e cheia de vida, estava agora vazia e flácida sob o lençol fino.

A minha mãe estava sentada numa cadeira ao lado da cama. Tinha a cabeça ligada, mas os seus olhos estavam claros e cheios de uma dor que espelhava a minha.

"O bebé..." sussurrei, embora já soubesse a resposta.

As lágrimas encheram os olhos dela. "Lamento muito, minha filha. Os médicos fizeram o que puderam."

Fechei os olhos. Não chorei. Senti apenas um vazio imenso, um buraco negro onde antes havia esperança e amor. O meu filho tinha-se ido. A única coisa que me ligava a Pedro, a razão pela qual eu suportava tudo, tinha desaparecido.

A porta do quarto abriu-se. Eram eles. Pedro, o seu pai Jorge, e a Clara, que coxeava dramaticamente, apoiada no braço do meu marido.

"Sofia," disse Pedro, sem um pingo de remorso na voz. "Que susto nos pregaste. Tivemos de vir a correr do outro lado da cidade."

"A correr?" A minha voz era fria e sem emoção. "Demoraram seis horas. A cirurgia acabou há três."

Jorge franziu a testa, o seu olhar era de desaprovação. "Não sejas ingrata. Viemos assim que pudemos. A Clara estava em choque. Tivemos de a levar primeiro ao hospital privado dela."

"O tornozelo dela está bem?" perguntei, o sarcasmo a pingar de cada palavra.

"Foi uma entorse grave," disse Clara, com a voz fraca e chorosa. "O médico disse que tive sorte. Podia ter ficado aleijada."

Olhei para a ligadura imaculada no tornozelo dela e depois para a ligadura ensanguentada na cabeça da minha mãe. Olhei para o meu ventre vazio.

Senti uma calma estranha tomar conta de mim. A calma da decisão final.

"Pedro," disse eu, olhando diretamente nos olhos dele. "Eu quero o divórcio."

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