Capítulo 2

No bar Vertbrook, Christina retirou os óculos de aro preto e os guardou entre os dedos. Sem eles, seus olhos revelavam um brilho malicioso e intenso, como brasas acesas.

O cabelo liso e reto que ela sempre usava como armadura agora caía em ondas suaves, emoldurando seu rosto com elegância quase cinematográfica. O batom vermelho vibrava em contraste com a confiança estampada em seu sorriso.

Ela caminhava como alguém que havia rompido correntes antigas, alheia a olhares curiosos. A esposa simples e silenciosa que antes existia entre as paredes de casa desaparecera.

À sua frente, Davina mexia o canudo no copo, distraída. "Ei, vai rolar uma competição de tiro ao alvo na semana que vem. Está pensando em se inscrever?"

Christina respondeu sem hesitar: "Nem pensar. Faz tanto tempo... Minhas mãos não são mais tão firmes."

"Ah, qual o problema? Use isso como terapia. Imagine o rosto de Brendon bem no centro do alvo e vá com tudo."

Christina soltou uma risada baixa. "Confesso que é tentador."

Com os olhos brilhando, Davina continuou: "E não pare por aí. Sabe quem vai estar lá? Dillan, aquele cara que quase te derrotou há quatro anos. Você desistiu e, desde então, ele reina absoluto."

Antes que Christina respondesse, Davina deslizou o celular pela mesa, revelando: "E dê uma olhada nisso. O prêmio deste ano é um Bugatti personalizado. Não é modelo de prateleira, mas sim único. Uma obra de arte sobre rodas. Pegue e dê uma olhada na competição."

Christina pegou o celular e deslizou os dedos pela tela. Como sempre, além do prêmio impressionante, uma regra interessante chamava a atenção — os competidores usariam máscaras e pseudônimos. Ninguém saberia quem era quem, a não ser o vencedor, que teria o direito de exigir que os demais mostrassem o rosto.

"Se você entrar e ganhar, tem que fazer Dillan tirar a máscara. Eu preciso saber como é esse cara!", Davina exclamou.

"Tá bom." Christina girou levemente a taça de vinho, os olhos fixos no líquido rubro. Um sorriso provocante curvou seus lábios. "Se eu participar, não vou apenas jogar. Vou elevar o nível."

Davina arqueou uma sobrancelha, curiosa. "O que isso quer dizer exatamente?"

Christina sustentou o olhar da amiga com firmeza. "Quem vencer a competição este ano ganha uma sessão exclusiva com King. Sem prazo de validade. Desde que sigam as condições de King, o acordo permanece."

Davina quase derrubou a bebida. "Você está brincando! Se isso for verdade, as pessoas vão se atropelar para se inscrever. Isso vai explodir!"

"Vou ao banheiro", Christina disse enquanto se erguia.

Ela não deu dois passos antes de ser interceptada por um grupo de homens que entrou no bar com a arrogância de quem achava que o mundo lhes devia algo.

"Olhe só o que temos aqui. Parece que está precisando de companhia. Que tal uma bebida?", um deles disse, a encarando dos pés à cabeça.

Era como se, com apenas um olhar, eles pudessem despi-la.

Os olhos de Christina se tornaram duros como gelo. "Saiam do meu caminho!"

O aviso em sua voz era cortante, mas os homens apenas riram. "Ah, então é assim? Gosta de um pouco de resistência, né? Nós também, deixa tudo mais interessante."

Christina não vacilou. "Última chance. Sumam!"

Nesse momento, um dos homens assobiou e esticou a mão em direção ao seu peito com um sorriso lascivo.

Porém, ele não teve tempo de tocar nela. Com um movimento seco e preciso, ela torceu o pulso dele até ouvir o estalo nauseante.

O grito do homem ecoou pelo bar, silenciando a sala.

Os outros congelaram, mas foi só por um segundo.

Christina se moveu como um raio. Um chute direto no joelho de um. Um cotovelo certeiro no maxilar de outro. Cada golpe era medido, eficiente e implacável.

Em questão de segundos, o grupo inteiro jazia no chão, gemendo, encolhido entre hematomas e feridas que deixariam marcas por muito tempo.

Do segundo andar, a varanda oferecia vista privilegiada da cena.

Um dos amigos de Brendon, que observava de longe, arregalou os olhos, surpreso. "Caramba... que mulher! Um arraso total, confiante e poderosa, exatamente do jeito que eu gosto."

O olhar de Brendon, ao lado, seguiu para a figura da mulher de cabelos ondulados e, quanto mais a observava, mais forte era a sensação de que havia algo familiar ali. Os traços do rosto dela o fazia se perguntar se estava olhando para Christina, sua ex-esposa.

Após passar a tarde no hospital com Yolanda, Brendon havia concordado em ir ao bar por sugestão dela. Aliviar o estresse parecia necessário.

Estreitando os olhos para a mulher lá embaixo, Yolanda murmurou: "Espere um pouco. Não é Christina?!"

"Você está dizendo que... aquela mulher incrível lá embaixo é Christina? A mesma mulher apagada que mal abria a boca? Não pode ser."

Aos poucos, os olhares do grupo se estreitaram, tentando confirmar. O choque se instalou com a força de um tapa quando reconheceram — sim, era ela.

Katie Dawson, a irmã mais nova de Brendon, não escondeu seu desprezo. "Olhem para ela... vestida como se estivesse prestes a fazer um teste para algum reality show barato. Desde que foi abandonada, está desesperada. Aposto que está procurando um sugar daddy."

A risada do grupo foi imediata.

"Nada novo. Esse tipo de mulher só sabe como se pendurar num homem."

"Brendon se livrou de uma bomba. Desse jeito aí? Ela está implorando por atenção."

"Sem um homem, ela não é nada. Só mais uma interesseira tentando se passar por alguém importante."

A cada comentário, a mandíbula de Brendon se contraía, até que ele não aguentou mais.

"Já chega!", ele exclamou, a voz mais firme do que qualquer outra, lançou um último olhar duro para o grupo e começou a descer as escadas em direção a Christina.

Capítulo 3

"Brendon!"

"Espere, Brendon!"

As vozes de Katie e Yolanda ecoaram ao mesmo tempo, se misturando no ar enquanto ambas corriam apressadas na tentativa de detê-lo.

As duas se colocaram em seu caminho, o obrigando a parar.

"Por favor, me diga que você não vai atrás daquela vadia", Katie disse, a incredulidade evidente em sua voz.

Brendon fechou o semblante e, por um breve instante, a raiva reluziu em seus olhos. "Controle suas palavras, Katie. Esse tipo de comentário não é apenas rude, mas vergonhoso. Você carrega o nome da nossa família. Tente, ao menos, não manchá-lo."

Yolanda pousou uma mão suave no ombro de Katie, tentando apaziguar a tensão. "Brendon, não seja tão duro com ela. Katie ainda é jovem e não entende certas coisas. Se você ainda sente algo por Christina, seja honesto comigo. Eu não vou te atrapalhar. Só... vou sair de cena discretamente."

As lágrimas represadas nos olhos de Yolanda denunciavam sua dor, e seu rosto transbordava mágoa enquanto ela se virava para sair.

Ver isso apertou o coração de Brendon, que avançou para segurar sua mão e disse de imediato: "Yolanda, não. Por favor, não vá. Você está entendendo tudo errado. Entre mim e Christina não existe mais nada."

Yolanda a encarou com vulnerabilidade, sua voz baixa e trêmula: "Então me diga com sinceridade. Ainda existe alguma parte sua que a ama? Se existir, eu consigo lidar com isso. Não vou te culpar."

Brendon desviou o olhar por um segundo, lutando contra o desconforto, e disse apressadamente: "Você está se torturando à toa. O que Christina faz agora não me diz mais respeito."

Yolanda tocou a mão dele com delicadeza, sua voz firme: "Talvez ela tenha um motivo para estar vestida assim. Talvez esteja passando por dificuldades. Devíamos estender a mão, talvez."

Brendon ficou em silêncio por um instante, surpreso com a generosidade que ela conseguia manter. "Você tem um coração nobre, Yolanda. Mas, acredite, Christina não está sofrendo como você imagina. Eu garanti a ela uma vida confortável. Se ela escolheu ignorar isso, agir como interesseira e abrir mão da própria dignidade... é uma escolha dela."

Yolanda parecia querer responder, mas de repente vacilou, como se suas pernas não a sustentassem.

O corpo oscilou para trás, e Brendon a segurou antes que caísse.

"Yolanda!", ele exclamou, alarmado.

"Está tudo bem... Só está muito barulhento aqui. Acho que fiquei um pouco tonta. Vamos voltar para a sala reservada", a voz de Yolanda saiu fraca enquanto ela se apoiava nele.

Brendon a amparou com firmeza, franzindo a testa. "Você devia ter ficado no hospital por mais alguns dias. Não devia ter insistido em sair."

Se virando para Katie, ele instruiu: "Katie, leve ela de volta à sala reservada. Eu vou ao banheiro e volto logo."

A desconfiança brilhou nos olhos de Katie como faísca em pólvora. "Você não vai correr atrás de Christina, vai?"

Yolanda pousou a mão no braço de Katie. "Está tudo bem, Katie. Se ele quer falar com Christina, deixe que vá. Ela foi parte da vida dele. Fingir que ela não existe não vai fazê-la desaparecer. E se o jeito como ela está vestida hoje causar fofocas, isso não recai só sobre Brendon... o nome dos Dawson também pode ser arrastado nisso."

"Você sempre é tão atenciosa, Yolanda, até quando se trata daquela...", Katie parou quando percebeu o olhar frio de Brendon.

Logo em seguida, seu tom mudou. "Brendon, olhe, Yolanda ainda não está totalmente recuperada. Se alguma coisa acontecer enquanto você perde tempo aqui, a responsabilidade é sua!"

Com um suspiro irritado, Katie segurou a mão de Yolanda. "Vamos, Yolanda. Vamos embora."

...

Lá embaixo, Christina saiu do banheiro com passos calmos. Ela levou a mão ao cabelo e ajeitou uma mecha, um gesto simples, mas que bastou para virar todas as cabeças no bar.

Os olhares masculinos a acompanhavam abertamente, escancarando o desejo sem vergonha alguma.

Brendon observava de longe, tenso. A cada olhar invasivo que recaía sobre Christina, algo dentro dele se revirava. Eles não estavam apenas olhando, mas a devorando com os olhos. E ele odiava isso com intensidade sufocante.

"Christina Jones!", ele chamou, a voz baixa, mas carregada de irritação.

Christina se virou lentamente, o olhar encontrando o dele com uma frieza cortante. Ela o analisou lentamente antes de responder: "O que você quer?"

Seu tom era distante e indiferente, como se ele fosse apenas mais um rosto na multidão.

Isso o atingiu como um soco no estômago, rasgando algo dentro dele que ele não estava pronto para reconhecer.

Sem pensar, Brendon avançou e agarrou seu pulso. "Venha comigo!"

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