Capítulo 2

Isabella

Mais uma entrevista.

Mais um não.

— Desculpe, mas você não tem os requisitos para vaga em aberto,

mas guardaremos seu currículo em nosso banco de dados para novas

oportunidades.

Escuto novamente a maldita frase que já tinha decorado e até mesmo

passado a ouvir durante meus sonhos todas as noites. Sonhos não, pesadelos.

Bom, o fato é que eu tinha perdido tempo tentando conseguir uma

vaga como vendedora de uma loja chique no shopping. Mas até que a

negativa foi justa desta vez, porque eu não sei nem diferenciar uma maldita

seda de uma viscose. Para mim, é tudo o mesmo tecido ou pedaço de pano.

Quem se importa com isso? Bem, pelo visto as grã-finas fresca se importam.

Falando nas peruas, tenho certeza de que, quando fosse atendê-las, não

conseguiria segurar minha língua e responderia suas futilidades.

Por mais que eu saiba que não duraria muito tempo no emprego, saio

cabisbaixa da sala de entrevistas, pois preciso demais de um trabalho. As

coisas lá em casa estão ficando feias, e me sinto na obrigação de ajudar

minha mãe com as despesas domésticas. Ela vem segurando a barra nesse

último ano, e quero dar um descanso para a mulher que sempre lutou sozinha.

Saio da loja e vou caminhando lentamente até me deparar com a praça de

alimentação que, como costume, está lotada e barulhenta. Olho para um lado

e me deparo com um quiosque do McDonald’s, onde os sorvetes parecem

criar vida e me chamam. Fazia tanto tempo que tinha comido essa delícia

gelada que minha boca saliva, e meus olhos brilham, cobiçando os Mcflurry.

Nunca me atrevi a pronunciar esse nome para não pagar um mico e, da vez

que choveu na minha horta e pude me dar ao luxo de saborear um desses, tive

que agradecer ao atendente que entendeu o meu pedido: um Mc de sonho de

valsa, por favor.

Sacudo a cabeça e virou meu pescoço para o outro lado, mas o capeta

atenta, e me pego babando na propaganda de um hambúrguer com carne

dupla, queijo cheddar triplo, camada bônus de bacon, molho barbecue, picles

e alface americana. Tudo entre duas fatias de pão feito com grãos de trigo

exclusivamente escolhidos. Uma frescura, mas uma prova de que, neste

mundo, até o coitado de um grão pode ser rejeitado e descartado.

É, estou na mesma situação do coitado do grão imperfeito.

Respiro fundo, tentando esquecer as injustiças que tem acontecido em

minha vida, mas é uma péssima ideia, porque todos os aromas atiçam as

vermes que habitam o meu estômago e o coitado grita feito louco, em um

ronco que deve ter ecoado por todo o ambiente.

Então, fazendo a egípcia, abaixo a cabeça e saio correndo para o mais

longe possível da praça de alimentação. Não posso perder tempo desejando o

impossível, já estou atrasada para chegar à minha casa. Corro mais rápido e

só paro quando não escuto mais o barulho infernal e nem sinto cheiro de

comida. Só então, fecho meus olhos e tento respirar normalmente.

Recuperada, olho ao redor para tentar me situar. Graças a Deus, vim

parar diante dos elevadores e até me surpreendo que não tenha uma fila

enorme para usá-los. Aciono um e, quando as portas se abrem, pulo para

dentro, apertando o botão no painel rapidamente. A viagem é curta, logo as

portas se abrem novamente e, quando dou um passo para fora, não sei onde

estou. O local iluminado e cheio de carros me dá uma pista de aonde fui

parar, mas não sei como cargas d’agua acabei no estacionamento do

shopping, se eu não estou de carro, e o ponto de ônibus fica na outra

extremidade.

Droga!

Por que tudo de errado tem que acontecer na minha vida? Só posso ter

chutado a cruz de Cristo em outra vida!

Olho para o relógio em meu pulso e percebo que perdi a tarde toda

presa naquela sala. Cacete, agora, com certeza, vou passar mais de uma hora

esperando o ônibus. Chegarei bem mais tarde em casa e não poderei ajudar

minha mãe, sem falar que levarei novamente a notícia ruim de não ter

passado na entrevista de emprego.

Mas o que eu poderia fazer sem experiência e muito menos uma boa

indicação? Nada! Nem chorar, eu podia, pois sabia que minhas lágrimas nada

resolveriam, só me deixariam pior e agravariam ainda mais o estado

angustiado de minha mãe.

Sem opção, respiro fundo e começo a fazer meu caminho de volta.

Contando com o atraso do motorista, torcendo para que ele tenha parado em

todos os sinais vermelhos e acreditando em minha velocidade, eu ainda

poderia pegar o ônibus das 18h, chegar cedo, ajudar nas tarefas de casa e

descansar para amanhã começar mais cedo minha rotina de espalhar

currículos pela cidade.

Como o papa-léguas fugindo do coiote, cruzo o primeiro quarteirão

do estacionamento, mas, quando estou quase alçando o próximo, escuto uma

buzina alta que me ensurdece.

Olho na direção do barulho e vejo um carro prata vim em minha

direção. Não tenho tempo de reação, apenas fecho os olhos, rezando todas as

ave-marias e os pais-nossos, clamando para que Deus possa me livrar da

morte, pois ainda sou muito nova e tenho muito o que fazer neste mundo.

Mas, apesar de todas as orações, sinto o impacto em minhas pernas, e logo

sou jogada ao chão, caindo de bunda e batendo a cabeça no piso liso.

— Está tudo bem? — Uma voz muito polida soa perto de mim, e sinto

um toque suave em meus braços, mais precisamente no pulso. — Está sentido

alguma dor? Você consegue se levantar?

Minha cabeça gira, e tento abrir meus olhos, mas, ao invés das luzes

do teto, enxergo vários vaga-lumes na minha frente.

— O que aconteceu?

— Fique calma — a voz bonita pede. — Vou precisar tocar em sua

perna, mas não se assuste, é apenas para saber se quebrou algo.

Então ele apalpa minhas pernas cobertas pela calça jeans e, mesmo

com o tecido grosso, sou capaz de sentir o calor que emana do seu toque.

— Não quebrou. — É nítido o alívio que ele sente ao falar isso. —

Você deve ter caído pelo susto.

Tento abrir novamente meus olhos que, dessa vez, graças a Deus, não

me deixam na mão. Então, busco o dono da voz cortês, e uma sombra muito

grande e corpulenta surge na minha frente. Levanto minha cabeça e, quando

consigo focar no rosto do homem que me ajudou, já não tenho certeza se

estou viva ou se realmente fui atropelada e morri, pois vislumbro um anjo

muito belo olhando-me de volta.

Jesus, me abane! Que anjo!

Paro meus pensamentos carnais quando concluo que ele só pode ser

meu anjo guardião, embora não use nada daquelas roupas brancas, nem tenha

asas ou caracóis loiros. Ele usa um terno escuro com uma gravata vermelha

sangue e tem cabelo castanho-claro, jogado para cima, formando um topete

leve. A única semelhança com a imagem dos anjos que já vi são os olhos

azuis. Azuis da cor do céu para onde ele vai carregar minha alma.

Analiso demoradamente seu rosto perfeito, coberto por uma barba

escura. A expressão não é das mais calmas, mas eu posso entender. Ele deve

estar cansando de cuidar de mim, pois sei que não sou uma das criaturas mais

fáceis de proteger, já que vivo entrando em confusões. Então, com certeza,

ele já não aguenta mais interceder por mim.

Ele movimenta seus belos lábios vermelhos, e não consigo

compreender bem suas palavras, mas posso chutar que ele está fazendo uma

oração para que minha alma vá em paz, e eu não vire uma pagã sem rumo,

por isso, fecho os olhos para receber minha bênção e partir em paz.

— Vou chamar um médico. — A voz bonita soa novamente. — Só

por precaução.

— O quê? — pergunto, confusa, tentando me situar. — Se já tô

morta, para que preciso de um hospital? Por que não faz logo seu trabalho

direito e me leva para o paraíso? Prometo que vou me redimir junto a Deus e

interceder para que sua próxima protegida não seja tão difícil quanto eu.

— Do que está falando? — Ele franze o cenho.

— Você não é meu anjo guardião?

— Você está bêbada? — pergunta. Imediatamente abro meus olhos de

novo, e então o vejo encarando-me com atenção. — Você não pode ser tão

imprudente, garota — ele dita, e agora sua voz está firme. — Venha, vou

levá-la para um hospital.

— Não precisa — digo, fraca. — Eu quero me levantar, estou

apressada, tenho que chegar à minha casa logo.

— Venha, me deixe te ajudar.

Sinto seu toque suave em meus braços, e então, como se eu não

pesasse nada, ele me põe de pé e encostada na lataria do seu carro. Deixo

meu corpo descansar no capô do automóvel, sentindo-me lerda, como se

estivesse bêbada. Respiro fundo para tentar aliviar a sensação de peso na

cabeça e, depois de cinco expirações fortes, já me sinto melhor. Mexo minhas

pernas, até mesmo dou alguns passos, e realmente não tenho nenhuma dor.

Em seguida, mexo os braços e eles também respondem normalmente.

Ufa! A única exceção é minha bunda que dói quando volto a me

encostar no carro. Bem, dos males os menores.

— Está vendo o que causou? Uma confusão desnecessária. — Ele

aponta seu dedo para mim. — Mas também pudera, não teve noção do perigo

ao se jogar na frente do meu carro. Sorte sua que consegui frear a tempo.

Só então encarro o homem com as sobrancelhas franzidas e, como

uma fita sendo desfeita em minha mente, a situação se esclarece.

— Espere — emito, sacudindo a cabeça. — Você não é meu anjo

coisa nenhuma. Você tentou me matar — acuso. — Você quis passar por

cima de mim com seu carro. Tenho certeza de que estava andando rápido

demais e não percebeu que eu tinha a preferência por ser pedestre.

— O quê? — ele rosna, duro. — Foi você quem entrou na frente do

carro de uma vez. Eu até mesmo buzinei, mas você continuou.

— Então era seu dever ter parado e me deixado passar. E não agir

feito um imbecil, tentando tirar minha vida.

— Olhe. — Ele aponta para um sinal. — Eu estava na minha vez,

então era você quem deveria parar. Sem mencionar que não pode ser tão cega

que não consiga ver um carro vindo em sua direção. Além disso, você estava

correndo em um lugar inapropriado — fala e aponta para o estacionamento,

como se isso explicasse alguma coisa.

— Agora vai colocar a culpa em mim?

— Por acaso você é louca? — questiona, sua voz grossa começa a

denotar irritação, e vejo seus olhos azuis escurecerem. — Pelo estado insano

em que corria, devo considerar que sim. Isso sem falar do jeito como quase se

matou, com certeza, você é uma burra maluca.

Quem esse idiota pensa que é?

— Alto lá, seu cavalgadura — reclamo, em desafio às suas

grosserias. — Eu não sou nenhuma louca. Foi você que veio do nada e deve

ter sido devolvido por alguma nave espacial, ou então acha que isso aqui é

uma pista de Fórmula 1.

— Além de suicida, é doida. Era só o que me faltava — ele resmunga,

retorcendo a boca em contrariedade. — Eu não queria te matar. Deveria

reconhecer seu erro. E teve sorte por não ter arranhado ou amassado meu

carro, do contrário, teria que arcar com o prejuízo.

Ele se afasta e fica me encarando com fúria, sem piscar os olhos

azuis, enquanto me queima viva. Então ele bufa, parecendo um cavalo

selvagem prestes a sair dando coices em quem estiver por perto. Mas, com

certeza, deve me faltar um parafuso a menos, pois me aproximo ainda mais

do desconhecido, erguendo uma sobrancelha e encarando-o sem medo:

— Você só pode estar de brincadeira — exclamo, sacudindo a cabeça.

— Isso é inacreditável! Você quase me atropela e ainda quer colocar a culpa

em mim por andar dirigindo feito um louco? Tá se achando o Ayrton Senna?

Sinto muito te informar, mas estamos bem longe de Interlagos.

— Escute, menina, você não vai me fazer sentir culpa pela sua falta

de atenção e maluquice. Da próxima vez que decidir sair por aí correndo,

certifique-se de que está em um local seguro ou então em um parque livre. —

Sua voz até mesmo ecoa em todo ambiente, parecendo um trovão. — Exijo

que se retrate agora mesmo de suas acusações sem cabimento — ele dita,

cruzando os braços na frente do peito.

— Quê?

Ele respira profundamente, enquanto também cruzo meus braços na

frente dos seios. Bem, se ele acha que vou assumir uma culpa que não é

minha ou aguentar suas grosserias calada, ele está completamente enganado.

— Peça desculpas, garota abusada!

— Nem quando chover canivetes. Você que deveria pedir desculpas

por dirigir em alta velocidade e querer me matar.

— Sou estou perdendo meu tempo. Não vou mais discutir, pelo visto,

não sofreu nada com a queda. Com certeza, é maluca de nascença — fala

rudemente. — Agora, vou entrar no meu carro e, dessa vez, tente não se jogar

na frente.

Seu corpo elegante dá meia volta e, após poucos passos, ele abre a

porta do motorista. Nem tinha reparado no modelo do seu carro. Ok, não é

como se conhecesse todos, mas podia apostar que esse não é um dos mais

baratos. Ele bate a porta com força e sai cantando os pneus pelo

estacionamento.

Imbecil!

— Tomara que seus quatro pneus furem numa estrada vazia e chuvosa

— grito minha maldição para o nada.

Então volto a fazer meu caminho novamente, agora com a certeza de

que só vou chegar à minha casa depois das 9h da noite.

Bufo. Tudo culpa daquele cego idiota!

Capítulo 3

— Ainda vou desistir de ter você como cliente. Você é impossível! —

ele diz e senta-se na cadeira em frente à minha mesa. — O bom é que vou

poder ser exorbitante na cobrança dos honorários.

— Pode adicionar quantos zeros quiser nessa conta. Dinheiro nunca

foi um problema para mim — afirmo. — Só faça de tudo para me ajudar a

sair deste furacão em que minha vida se tornou. Diga-me que encontrou as

candidatas perfeitas.

— Busquei as melhores do mercado. — Ele levanta uma sobrancelha

num tom sugestivo. — Você poderá me agradecer depois. Tenho certeza de

que, depois que as vir, não saberá escolher qual será a nova senhora Ávila.

— E sobre o passado? Todas têm ficha limpa? — pergunto, não

esquecendo a exigência mais exagerada. — E todas são virgens?

— Completamente — Victor afirma. — Contratei uma agência de

confiança e todas fizeram exames que serão apresentados antes da assinatura

do contrato. Tudo sigiloso. Não desconfie do meu trabalho, mesmo que essa

tenha sido uma das tarefas mais difíceis que você já me passou.

— Então, onde estão? — pergunto, colocando o dedo indicador na

boca e o polegar abaixo do queixo. — O que estamos esperando para

começar o processo de seleção?

— Precisei colocá-las em uma sala, antes que seu primo petulante

desse de cara com elas. Achei adequado, senti que ele poderia fazer algo para

te prejudicar, não confio em absoluto nele. Deveria manter os olhos mais

abertos para não ser pego de surpresa. Eduardo não é peça boa. Não é de hoje

que te aviso.

— Eduardo não passa de um covarde. É como aqueles cães que latem,

mas não mordem. Ele não é capaz de me atingir, é muito idiota para isso —

emito, com desdém. Meu primo nunca foi páreo para minha inteligência, e

não seria agora que perderia tempo com ele.

— Bem, então vamos começar com a entrevista em busca da noiva

perfeita. Vamos transformá-lo num homem de família. — Ele levanta-se e

deixa sua pasta de couro na cadeira. — Acho conveniente ser individual,

assim você pode conhecer melhor as particularidades de cada uma, contrapor

as informações e depois optar por aquela que mais te agradou.

— Certo. — Sou seco em minha concordância. — Traga uma a uma,

até aqui. Não esqueça que todas elas precisam assinar um termo de

confidencialidade. Isso não pode cair nas garras da mídia, em nenhuma

hipótese.

— Está tudo redigido nos conformes e com uma multa colossal para

quem ousar pelo menos insinuar ou soltar o que vai acontecer nesse

escritório.

— Muito bem. Traga a primeira.

Victor sai, enquanto fico estralando meus dedos — não por nervoso.

Essa é uma mania que tenho quando estou irritado, e me vejo em um caminho

sem saída, em uma situação que requer todo meu potencial e inteligência.

Mas nunca imaginei que esta situação seria um casamento, o meu casamento.

Não era isso que eu queria para minha vida. Nunca me vi preso em

um casamento, não que eu desacredite o amor ou tenha qualquer tipo de

trauma, na verdade, sequer tenho experiência com isso. Apenas acho essa

coisa idiota e brega demais para mim. Sou adepto da liberdade e a favor de

que um homem desfrute o máximo possível de sua jovialidade, fazendo da

sua vida o que bem entender. Mas a sociedade é muito primitiva e tenho a

porra de uma família conservadora.

Sim, eu nasci em jaulas de ouros e, pelo visto, continuarei preso, desta

vez, a uma esposa. Meu semblante fecha e penso que preciso escolher uma

mulher que veja isso apenas como um negócio. Alguém que queira receber

uma compensação generosa em dinheiro e seja capaz de sustentar esse

casamento de fachada. Uma mulher que não seja emocional demais, não sinta

ciúme e, principalmente, não invente de me amar.

Escuto uma batida e sou tirado dos meus pensamentos. A porta se

abre e me ajeito melhor na cadeira, colocando em meu rosto a expressão mais

austera que consigo. Não quero dar nenhuma chance para que alguma delas

ache que pode me levar na conversa. Hoje a escolhida terá de ser íntegra em

cada resposta. Não é só minha vida que está em jogo, é minha competência,

meu poder e meu próprio respeito.

Uma moça esbelta, loira e vestida de vermelho sangue passa pelo o

umbral. Anda temerosa em seu salto astronômico até ficar em frente à minha

mesa. Meu olhar percorrer seu corpo de cima a baixo. Seu biótipo é daquelas

modelos que passam fome e suas pernas são brancas, compridas e magras.

Sua cintura é tão fina que se ela virar de lado, pode ser comparada a uma

folha de papel. Os seios parecem duas melancias grandes, desproporcionais

demais para seu corpo franzino.

— Sente-se — rujo, não me esforço para esconder meu malgrado. —

Como se chama?

— Simone — diz, ao sentar-se, cruzando as pernas devagar, num

gesto que não me causa nada. Muito patético para o meu gosto.

— Victor, me traga o documento — peço para meu advogado, que

ainda está inerte, segurando a porta.

Ele parece acordar e vem até a sua bolsa, jogada na outra cadeira. De

dentro, retira uma certa quantidade de papéis e me entrega. Em seguida, ele

também se senta, pois eu tinha pedido para que ele me acompanhasse, já que

não tinha certeza se conseguiria sobreviver a essa droga. Então ele seria mais

como um bote salva-vidas, lembrando-me de que aquilo era o melhor a ser

feito e pedindo-me para respirar antes de insultar ou ofender qualquer uma

das mulheres que passariam por aqui.

— Simone, preciso que assine esse termo. — Coleto uma folha das

que me foram entregues. — É um termo de confidencialidade, de caráter

sigiloso, assegurando que as informações ditas nessa sala não poderão ser

divulgadas sob qualquer hipótese. Em caso de descumprimento, as ações

cabíveis e multas descritas serão aplicadas.

A mulher pega o papel, apenas passa o olho rápido pelo conteúdo,

coloca sua rubrica enfeitada no final da página e me entrega, sorrindo

— Bem, Simone. Eu preciso de uma esposa. — Vou direto ao ponto.

Certas coisas precisam ser objetivas. — E eu estou fazendo uma seleção para

achar a mulher perfeita para essa função. Gostaria que me dissesse o que a

tornar a candidata ideal. Me faça te escolher.

A Barbie ambulante abre bem os olhos e parece muito assustada. Não

é todo dia que um homem faz uma proposta dessa. Ah, a quem estou

querendo enganar? Ninguém nunca teve que se sujeitar a essa humilhação.

Sou o único fodido que estava se submetendo a isso. A mulher abre diversas

vezes a boca, mas logo se recompõe. Seus olhos agora brilham, e tenho quase

certeza de que ela deve ter me conhecido. Mais certeza tenho de que ela

conhece minha fama e fortuna.

Sou a galinha de ovos de ouro de São Paulo. O solteiro mais cobiçado

do Brasil. O homem perfeito, segundo algumas revistas. Não são coisas que

invento.

— Posso dizer que sou a mulher perfeita, pois tenho classe e

educação, então saberei me comportar nos jantares da alta sociedade. —

Ajeita o decote, deixando suas melancias ainda mais em evidência. — Sem

falar que posso agradá-lo muito no quesito sexual...

— Espere — Interrompo-a. — Quais são as suas experiências

sexuais?

— Tive um namorado que me ensinou muitas coisas. Uma delas foi

como fazer um homem ir à loucura apenas com minha...

— Saia! — brando, impossibilitando-a de continuar. — Não tem os

requisitos que procuro.

— Como? — ela pergunta, numa tentativa ridícula de parecer

amuada, mas sua cara franzida e olhos pidões só aumentam minha

impaciência.

— Eu disse para sair.

Fecho minha expressão e olho duro para a mulher. Ela é sábia,

levanta-se rápido e, dessa vez, sai quase tropeçando nos saltos.

— Mateus, respire — Victor, pede. — Você foi severo com a garota.

— Você me disse que tinha feito um trabalho inquestionável, mas a

primeira mulher que me traz já não está dentro do requisito primordial

cobrado pelo general Ávila. Sem falar que ela não me agradou em nada.

Muito vulgar e obtusa.

— Algum erro aconteceu. Vou entrar em contato com a agência assim

que terminarmos — ele responde, sério. Já sei que ele arrancará algum tipo

de multa ou processo daquela espelunca. — Posso trazer a próxima?

— Fazer o quê? — Reviro os olhos. — Pode sim.

Uma a uma, as mulheres vão entrando, assinando o termo e sendo

dispensadas por mim. Todas são muito vulgares e sem atrativos. Quando não

são assanhadas e ambiciosas, são muito tímidas e íntegras demais. Com

nenhuma delas, meu pau deu sinal de vida, parecia que ele estava no Polo

Norte. É de suma importância que a escolhida seja capaz de me excitar, pois,

se tem alguma coisa boa que isso vai me trazer, é o sexo. Se eu não tiver

tesão e desejo pela minha esposa, esse inferno poderá ficar bem pior.

— Essas eram as melhores do mercado? — pergunto para Victor que

parece tão cansado quanto eu. Não foi fácil passar duas horas ouvindo

barbaridades e o choro de algumas mulheres. — Não acredito que perdi tanto

tempo com isso.

— Sinto como se tivesse feito uma maratona em um minuto —

expressa e respira fundo. — E não quero nem imaginar que terei que buscar

outras pretendentes, mas antes eu precisarei dar um jeito para que essa

agência nunca mais abra as portas.

— Agora precisamos correr contra o tempo. — Bufo e atiro uma

caneta longe. — Papai não me deu um prazo, mas sinto que ele está prestes a

vir aqui e cobrar o cumprimento de sua sentença maldita. Ele nunca foi de

ficar muito quieto e, desde aquela fatídica noite, não apareceu mais. Então

quando ele surgir, vai ser igual a um tornado de obrigações e sermões.

— Não quero estar perto.

Não respondo, apenas enfio as duas mãos em meus fios de cabelos e

os puxos. Minha cabeça parece prestes a explodir a qualquer momento. Estou

à beira de um surto. Tinha colocado muitas expectativas e certezas no dia de

hoje e fui frustrado em todas elas.

— Porra! — urro e puxo meus cabelos mais uma vez. Fecho as mãos

em punhos e soco a mesa fazendo alguns objetos decorativos caírem e

rolarem até o chão.

Antes que eu tenha tempo de me preocupar com a organização dos

objetos caídos, meu telefone toca e atendo.

— Que seja algo importante, Sara — digo, rangendo os dentes.

— Senhor, tem uma moça que o aguarda para o processo seletivo. —

A voz firme da minha assistente, nada abalada pelo meu excesso de fúria, soa

em meus ouvidos. Sempre fico impressionado com a capacidade que ela tem

de não absorver nada, mas posso entender, afinal, alguns anos de experiência

e um salário gordo no final mês são excelentes motivadores.

— Mande-a entrar — digo, seco e bato o telefone, já prendendo os

olhos no meu amigo. — Ainda tinha mais uma pretendente?

— Não fazia ideia, mas acredito que seja uma atrasada. — Ele junta

as sobrancelhas. — Vamos atendê-la, talvez seja a noiva perfeita.

— Ou mais uma perda de tempo.

Um toque e a porta é aberta. Na frente, Sara aparece, sua expressão é

profissional e séria, e logo uma garota surge pela porta branca. Ela parece

muito pequena em comparação à minha assistente — aposto que ela não

passa dos 1,60 de altura.

A princípio, não enxergo seu rosto direito, pois ela está de cabeça

baixa e seus cabelos longos e castanho-claros impossibilitam minha visão.

Então olho com o cenho franzido para seu corpo e imagino que a menina

deve ter pegado a primeira roupa que viu, pois sua calça jeans parece

desgastada e a camisa está amassada, além de ser muito grande para ela. Nos

pés, uma simples sapatilha preta, sem detalhe algum.

Ela não parece confortável em seu lugar, pois muda o pé de apoio

várias vezes em poucos segundos. E não pareço nada satisfeito, pois tenho a

convicção de que ela me fará perder mais tempo ainda.

— Como é seu nome? — pergunto, duro.

A garota levanta sua cabeça, o queixo erguido e o peito inflado. Com

passo decididos e confiantes, se aproxima, e seu rosto angelical é a primeira

coisa que me chama a atenção. Seus olhos em um tom esverdeado ou azul,

não consigo definir, parecem duas bolas de luz, brilhantes e expressivos. A

boca em linha reta não denota nenhum resquício de felicidade, ainda mais

quando dita, firme e forte:

— Isabella. Eu me chamo Isabella Oliveira.

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A esposa virgem

Capítulo 2
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