Capítulo 2

A ideia de liberdade era uma onda estonteante, uma leveza no peito que não tinha nada a ver com medicação. Eu estava saindo.

Henrique viu a mudança na minha expressão e a interpretou completamente errado. Ele pensou que eu estava satisfeita com seu grande gesto, que a promessa de uma cobertura tinha acalmado minhas noções ridículas de independência.

"Viu? Está tudo bem", disse ele, a voz carregada de um alívio paternalista. Ele me pegou nos braços como se eu fosse uma criança. "Vamos te levar para a cama."

Ele me carregou para o nosso quarto, aquele que parecia mais uma enfermaria de hospital do que um quarto de dormir. Ele me deitou gentilmente e imediatamente chamou a equipe médica de plantão que vivia em uma ala separada da mansão.

Em minutos, duas enfermeiras e um médico estavam fazendo diagnósticos. Eu era um objeto novamente, um equipamento frágil sendo avaliado por danos. Eu deixei, meu corpo dócil, minha mente a um milhão de quilômetros de distância, planejando minha fuga.

"Ela está estável", o médico relatou a Henrique. "Apenas um pouco de estresse emocional. Ela precisa de descanso."

Henrique soltou um longo e lento suspiro, seu alívio palpável. Era alívio pelo coração, não pela mulher em que ele estava.

"Não faça isso de novo, Marina", disse ele, a mão repousando na minha testa. Parecia pesada, possessiva. "Não faça coisas que me preocupam."

Fechei os olhos e não disse nada. O silêncio era minha única rebelião.

Na manhã seguinte, a luz do sol entrava no quarto, mas não conseguia aquecer a frieza entre nós. Desci e encontrei Henrique na cozinha, supervisionando pessoalmente a preparação do meu café da manhã. Ele estava medindo goji berries em uma tigela de aveia, a testa franzida de concentração. Para qualquer outra pessoa, pareceria amor. Eu sabia que era apenas gestão de ativos.

A campainha tocou.

A testa de Henrique se contraiu de aborrecimento. Ele odiava interrupções não programadas. Um momento depois, uma mulher entrou na cozinha.

Ela era uma versão mais jovem e um pouco menos polida de Isadora. Cabelos longos e escuros, mesmo rosto em formato de coração. Era Karina Bastos, a irmã de Isadora.

"Henrique", ela arrulhou, deslizando até ele e entrelaçando o braço no dele. "Senti sua falta."

Henrique enrijeceu. Por um momento, vendo o rosto dela tão perto, um espelho de seu amor perdido, ele pareceu atordoado. Era o mesmo olhar de obsessão assombrada que eu via há cinco anos.

"Karina", disse ele, a voz neutra. "O que você está fazendo aqui?"

"Eu queria te ver. Vamos sair. Como costumávamos fazer."

Ele afastou o braço dela gentilmente. "Não posso. Marina não está bem. Preciso ficar com ela."

Os olhos de Karina piscaram na minha direção, e a máscara amigável caiu. Por uma fração de segundo, vi um ciúme cru e puro. Era feio e afiado. Então desapareceu, substituído por um beicinho ensaiado.

"Ah, não seja assim", ela choramingou, inclinando-se para mais perto dele. "Isadora gostaria que você se divertisse um pouco. Ela não gostaria que você ficasse trancado aqui o dia todo."

A menção do nome de Isadora era uma palavra mágica. A determinação de Henrique vacilou. Ele olhou do rosto de Karina para mim, seu dever em guerra com o fantasma de seu desejo.

O fantasma venceu.

"Tudo bem", ele suspirou. "Só por um tempinho."

O "tempinho" se transformou em uma gala de caridade naquela noite. Um evento brilhante e esmagador onde a elite da cidade se reunia para ostentar sua riqueza e virtude. Henrique foi um cavalheiro perfeito, segurando meu braço, me trazendo um copo de água em vez de champanhe, garantindo que minha cadeira fosse confortável. As mulheres ao nosso redor suspiravam de inveja.

"Ele te adora", uma delas sussurrou para mim. "Ele te trata como se você fosse de cristal."

Eu sorri fracamente. Ela estava certa. Ele me tratava como um objeto, não como uma pessoa. Um objeto insubstituível e inestimável.

Karina o encontrou perto do bar, seu vestido vermelho um contraste gritante com o meu azul pálido.

"Henrique, dance comigo", ela implorou, a voz alta o suficiente para eu ouvir.

"Estou com a Marina", disse ele, seus olhos percorrendo a sala como se procurassem ameaças invisíveis ao meu bem-estar.

"Só uma dança", Karina insistiu, tocando seu braço. Ela inclinou a cabeça e, por um momento, na luz fraca, ela era a imagem cuspida de sua irmã. "Pela Isadora."

Ele era uma marionete, e ela sabia exatamente quais cordas puxar. Ele suspirou, derrotado.

"Uma dança."

A noite se arrastou. Henrique estava bebendo mais do que o normal, seus movimentos se tornando menos precisos. Karina pairava ao seu lado, um pássaro belo e predatório.

"Você parece cansado, Henrique", disse ela, a voz carregada de preocupação. "Deixe-me ajudá-lo a subir para um dos quartos de hóspedes para descansar."

Era a minha deixa. Eu não tinha interesse em assistir a essa peça patética se desenrolar.

"Eu vou indo", eu disse, caminhando até eles.

Eu só precisava dizer a ele que estava saindo. Subi as escadas, para a suíte de hóspedes que eles haviam indicado. A porta estava entreaberta. Empurrei-a para dizer que ia chamar meu motorista.

Congelei na porta.

Karina tinha Henrique pressionado contra a parede. Ela estava na ponta dos pés, as mãos no peito dele, o rosto a centímetros do dele. Ela estava tentando beijá-lo.

Mas Henrique, mesmo em sua névoa de embriaguez, a estava afastando.

"Não", ele rosnou, a voz grossa, mas firme. "Você não é ela."

Karina recuou, o rosto uma máscara de mágoa e incredulidade.

"Mas eu pareço com ela! Por que não é o suficiente? Eu te amo, Henrique!"

"Você nunca será a Isadora", disse ele, a voz fria e final. "Saia."

Ele passou por ela e saiu furioso do quarto, sem nem me ver parada no corredor.

Karina ficou ali por um momento, o rosto se desfazendo. Então ela se virou, lágrimas escorrendo por suas bochechas, e saiu correndo do quarto.

Ela correu direto para mim.

Ela parou, a respiração presa. A dor em seu rosto se transformou em algo venenoso.

"Você", ela sibilou. "Você acha que venceu, não é? Acha que ele te quer?"

"Karina, eu só estou de saída." Tentei passar por ela.

Ela agarrou meu braço, as unhas cravando na minha pele.

"Ele não te ama. Ele só se casou com você por causa do coração dela. Ele te chama de memorial ambulante. E assim que ele superar o luto, vai te jogar fora como lixo."

Capítulo 3

As palavras de Karina não doeram. Eram apenas a confirmação de uma verdade que eu já havia aceitado. Meu amor por Henrique era um cadáver, e ela estava apenas chutando-o.

"Me solta, Karina", eu disse, minha voz neutra.

Tentei puxar meu braço. Ela segurou mais forte, o rosto contorcido por uma raiva feia e desesperada.

"Você tem tudo o que deveria ser meu!", ela gritou.

Na luta, ela perdeu o equilíbrio. Tropeçou para trás, seu salto alto prendendo no tapete felpudo. Ela caiu com força, o braço batendo na quina afiada de um aparador.

Houve um estalo medonho.

O rosto de Karina ficou branco. Então ela soltou um grito agudo que ecoou pelo corredor vazio.

A porta da suíte de hóspedes se abriu com um estrondo. Henrique estava lá, a névoa de embriaguez sumiu de seus olhos, substituída por um alarme agudo.

"O que aconteceu?", ele exigiu.

Karina já estava chorando, agarrando o braço. "Ela me empurrou! Henrique, ela me empurrou!"

Ela apontou um dedo trêmulo para mim.

"Ela disse que ia estragar meu rosto porque eu pareço com a Isadora! Ela está com ciúmes!"

Eu apenas fiquei ali, em silêncio. Qual era o sentido de negar? Ele acreditaria no que quisesse acreditar. Ele acreditaria na mulher que se parecia com seu amor morto.

Os olhos de Henrique se moveram do rosto de Karina, manchado de lágrimas, para o meu, calmo. Seu olhar endureceu, sua expressão se tornou gelo.

Sem outra palavra, ele caminhou até Karina, a pegou nos braços e começou a descer o corredor.

Ele parou ao passar por mim.

"Traga-a", ele ordenou secamente ao segurança que havia aparecido ao seu lado.

O homem pegou meu braço com um aperto firme. Eu não resisti. Eu era uma prisioneira sendo escoltada de volta para minha cela.

O corredor do hospital era branco e estéril. Sentei-me em uma cadeira de plástico duro enquanto Henrique andava de um lado para o outro do lado de fora da sala de emergência.

Um médico saiu, o rosto sério.

"É uma fratura feia", disse ele a Henrique. "Uma fratura exposta da ulna. Há um dano tecidual significativo. Ela precisará de cirurgia para colocar o osso no lugar e, provavelmente, de um enxerto de pele para reparar a ferida."

O rosto de Henrique era uma nuvem de tempestade. Ele olhou para o médico, mas sua próxima pergunta não foi sobre Karina.

"O enxerto de pele", disse ele, a voz perigosamente baixa. "De onde vocês tirariam a pele?"

"Normalmente, tiraríamos da própria coxa da paciente ou..."

Henrique o interrompeu. Seus olhos frios pousaram em mim.

"Tire dela", disse ele.

O médico pareceu confuso. "Sr. Moraes, isso é altamente incomum..."

"Ela causou a lesão", afirmou Henrique, como se fosse um fato inegável. "Ela fornecerá os meios para consertá-la. É responsabilidade dela."

Levantei-me de um salto. Um tremor percorreu meu corpo. "Não. Eu não fiz isso. Foi um acidente."

Henrique caminhou em minha direção, sua figura alta bloqueando a luz fluorescente forte. Ele se agigantou sobre mim, uma figura aterrorizante de julgamento.

"Você já causou problemas suficientes esta noite, Marina", disse ele, a voz um rosnado baixo. "Você vai fazer isso. Você vai assumir a responsabilidade por suas ações."

Ele acenou para seu segurança. O homem agarrou meus braços.

"Não!" Lutei, mas foi inútil. Ele era imensamente forte.

"Henrique, por favor! Juro que não a empurrei!" Eu estava implorando, minha voz falhando.

Seus olhos piscaram com algo — dúvida? hesitação? — mas desapareceu em um instante.

"Eu só acredito no que vejo", disse ele, a voz neutra e fria.

Eles me arrastaram para uma sala de tratamento e me forçaram a deitar em uma maca.

O médico, parecendo profundamente desconfortável, se aproximou. "Sr. Moraes, precisaremos administrar anestesia para este procedimento..."

"Não temos o suficiente para dois procedimentos completos à mão", interveio outra enfermeira. "Podemos sedar a Srta. Bastos para a cirurgia dela, ou podemos usar para a extração do enxerto."

Karina, que havia sido trazida para a sala, começou a chorar. "Henrique, dói tanto. Por favor, eu preciso."

Henrique nem olhou para ela. Seus olhos estavam no médico, o rosto frio e clínico.

"Realizar a extração na minha esposa sem anestesia representa algum risco para o coração dela?"

O médico hesitou. "A dor será extrema, o que pode causar um pico na pressão arterial, mas... não. Não deve representar um risco direto e de longo prazo para o transplante em si."

"Então dê a anestesia para a senhorita Bastos", ordenou Henrique.

O mundo pareceu inclinar. O ar saiu dos meus pulmões. Olhei para o homem que um dia amei, o homem que era meu marido, e vi um monstro.

Uma risada amarga e histérica escapou dos meus lábios.

Ele ia deixá-los cortar um pedaço do meu corpo, sem nada para a dor, tudo para consertar uma lesão que eu não causei. Tudo porque ele estava mais preocupado com o órgão no meu peito do que com a pessoa a quem pertencia.

O cirurgião se aproximou com um bisturi. Vi o brilho do aço.

Mordi o lábio até sentir o gosto de sangue.

A lâmina cortou a pele da minha coxa. A dor era aguda, elétrica, uma agonia branca e incandescente que roubou meu fôlego. Senti o mundo escurecer nas bordas.

Mas a dor física não era nada. Era um eco surdo da agonia que fora esculpida em minha alma nos últimos cinco anos.

Este casamento não era uma gaiola de ouro. Era uma tortura lenta e meticulosa.

E naquela noite, atingiu seu auge.

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