Capítulo 2

Ponto de Vista de Amanda:

Bruno diminuiu a distância entre nós, seus sapatos caros rangendo no cascalho. Minha respiração ficou presa, uma agitação desesperada no meu peito. Era isso. O momento em que ele me reconheceria, como em todos os meus sonhos febris. Ele me envolveria em seus braços, lágrimas escorrendo pelo seu rosto, pedindo desculpas por ter duvidado.

Ele parou a alguns metros de distância, sua expressão indecifrável. Então, ele pegou a carteira. Tirou uma nota nova de duzentos reais e a estendeu em minha direção.

"Toma", disse ele, sua voz plana, desprovida de qualquer calor. "Vá comprar uma refeição. E fique longe da minha propriedade."

O mundo girou. A nota de duzentos reais, um frágil retângulo verde, tremulou entre nós. Não um abraço. Não uma palavra de reconhecimento. Uma esmola. Para uma mendiga. Suas palavras foram um golpe físico, uma parede fria se chocando contra minha esperança.

Minha mão disparou, não para pegar o dinheiro, mas para tocá-lo. Para provar que eu era real. Para fazê-lo sentir minha presença. "Bruno, sou eu. Amanda." Minha voz era um sussurro rouco.

Ele recuou, como se meu toque fosse veneno. Seu rosto se contorceu em repulsa. "Não me toque!", ele rosnou, dando um passo apressado para trás. "Sua mulher louca."

A nota de duzentos reais escorregou de seus dedos, caindo no chão, uma folha verde na poeira. Pousou perto dos meus pés, um símbolo da minha dignidade estilhaçada.

"Bruno, o que você está fazendo?" A voz de Carla, doce e preocupada, veio de trás dele. Ela se aproximou, passando o braço pelo dele. Seus olhos, no entanto, encontraram os meus. Um lampejo de reconhecimento, um brilho de triunfo. E então, um véu de falsa piedade.

Ela sabia. Ela com certeza sabia.

"É só uma louca, querido", Bruno murmurou, puxando Carla para mais perto. Ele me deu as costas, protegendo ela e Enzo da minha presença. Ele era o escudo dela. Meu mundo desmoronou.

Enzo, que observava em silêncio, seu rostinho uma mistura de confusão e medo, olhou para mim uma última vez. Seus olhos continham uma estranha e triste curiosidade. Então, Carla apertou sua mão, e ele se virou, desaparecendo dentro de casa com ela e Bruno. A pesada porta de carvalho se fechou, ecoando a finalidade do meu abandono.

Minhas pernas cederam. Caí no chão, a terra fria e implacável contra minha pele. Minha alma parecia oca, esvaziada. A nota de duzentos reais ainda estava lá, zombando de mim. Automaticamente, estendi a mão para pegá-la, meus dedos se contraindo.

"Aposto que você não esperava que ele fosse tão cruel, não é?", o guarda zombou, chutando uma pedrinha em minha direção. "Dizem que o Sr. Sharpe vai ficar noivo da Srta. Watkins no próximo mês. Ele diz que ela o ajudou a seguir em frente depois que a esposa dele fugiu com um gringo. Você é apenas uma lembrança dolorosa agora, moça. E uma bem feia, por sinal."

Ele cutucou a nota com a bota. "Vá em frente, pegue. Ele não vai querer que a nova noiva dele veja você por aqui. Vá comprar uma passagem para sair daqui."

A dor no meu peito se intensificou, uma agonia lancinante que fez minha visão turvar. Não era apenas meu coração se partindo; minhas velhas feridas, as da captura, inflamaram. Meu corpo tremia incontrolavelmente.

"Levanta!", o guarda latiu, uma mangueira aparecendo de repente em sua mão. Um jato de água gelada me atingiu, tirando o ar dos meus pulmões. A força rasgou minhas roupas esfarrapadas, lavando a sujeira, mas deixando minha pele em carne viva e ardendo. Engasguei, meus pulmões lutando por ar. "Saia daqui antes que eu chame a polícia por invasão de propriedade!"

Rastejei, meio cega pela água, arrastando meu corpo quebrado pela longa entrada de carros, agarrando-me às sombras. Cada movimento era uma agonia, mas eu continuei, para longe da casa bem iluminada, para longe da família feliz lá dentro.

Desabei em um beco escuro atrás de uma fileira de latas de lixo, o concreto frio um substituto pobre para uma cama. O mundo ficou preto.

Um aroma doce e enjoativo me despertou. Meu estômago roncou, um som oco e desesperado. Eu estava faminta. Meus olhos se abriram. Um bolo pela metade, jogado descuidadamente em uma lixeira, me chamava. Avancei, minhas mãos procurando as migalhas açucaradas. Tinha gosto de cinzas e paraíso.

Então, uma dor aguda e lancinante na minha boca. Cuspi um pedaço de vidro, sangue florescendo na minha língua. Um ato deliberado. Alguém me queria fora. Permanentemente.

Nesse momento, uma explosão de luz irrompeu no céu. Fogos de artifício. Vermelhos, dourados e verdes. Eles floresceram sobre a cidade, formando palavras que eu quase conseguia ler: "Case-se Comigo, Carla."

Uma risada amarga escapou dos meus lábios, um som seco e arrastado. Ele estava pedindo ela em casamento. Para ela. Em uma noite em que eu comia bolo descartado de uma lixeira, sangrando por um ferimento deliberado, e assistindo minha vida se desenrolar com ela no meu lugar.

A última centelha de esperança no meu coração morreu. Não apenas morreu, mas foi incinerada.

Tirei a nota de duzentos reais, ainda agarrada na minha mão. Estava suja, amassada, mas era dinheiro. O suficiente para comprar um celular pré-pago. O suficiente para fazer uma ligação. Minha última tábua de salvação.

Meus dedos desajeitados discaram um número que eu não usava há quatro anos. Tocou uma, duas vezes... então um clique. "Aqui é o Cláudio."

"É a Amanda", murmurei, minha voz mal humana. "Eu voltei. Eu quero entrar. Projeto Rouxinol."

Houve um longo silêncio do outro lado, depois um suspiro. "Rouxinol? Amanda, você sabe o que isso implica. Um apagamento completo. E sua condição..."

"Eu não me importo", cortei-o, minha voz ganhando força. "Não tenho mais nada a perder. Queime tudo. Quero construir algo novo das cinzas."

Projeto Rouxinol. A mais secreta das operações secretas, projetada para agentes que precisavam desaparecer completamente, corpo e alma. Significava desistir de tudo, até da minha identidade. Minha vida como Amanda Park. Minhas memórias, minhas emoções. Uma reengenharia psicológica completa. Eu já sonhei com uma vida tranquila, uma família, uma existência normal. Esse sonho estava morto.

Fechei os olhos. "Diga ao Bruno", falei, minha voz fria, desapegada, "que Amanda Park está oficialmente morta. Ele conseguiu o que queria. Diga a ele para ser feliz com a Carla. Ela é toda dele. E o meu filho também."

As palavras pareceram uma incisão cirúrgica, cortando as últimas terminações nervosas que me conectavam ao meu passado. Não havia mais volta.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Amanda:

O show de fogos de artifício, uma celebração espalhafatosa do amor deles, continuou a explodir acima de mim, cada explosão um eco zombeteiro do meu coração em chamas. Observei, entorpecida, enquanto novas palavras se formavam no céu: "Somos um, para sempre." Uma paródia distorcida da promessa que Bruno uma vez esculpiu para mim.

Eu sempre soube que Bruno era inconstante. Suas paixões queimavam intensas e rápidas. Eu até me preparei para a possibilidade de que ele pudesse seguir em frente, encontrar outra pessoa depois de quatro anos da minha suposta morte. Uma parte de mim, a agente lógica, entendia. Quatro anos era muito tempo. As pessoas mudam. A vida continua.

Eu não fui uma boa esposa por quatro anos. Não fui uma boa mãe. Estive ausente. Talvez, raciocinei no beco escuro, ele merecesse a felicidade. Ele merecia uma vida normal.

Mas não com a Carla. Nunca com a Carla. Minha meia-irmã, a sombra perpétua, sempre cobiçando o que era meu. Esse era o pecado imperdoável. A traição suprema. Ela não era apenas uma substituta; era uma usurpação deliberada.

A última explosão de fogos de artifício se desvaneceu, deixando o céu noturno parado e vazio, muito parecido com a minha alma. A cidade zumbia com um barulho distante e comemorativo. Mas aqui, no beco, apenas o silêncio do meu desespero permanecia.

Meu corpo gritava em protesto, mas uma estranha e fria determinação se instalou em mim. Eu precisava de um lugar para descansar, um lugar para planejar. E só havia um lugar que eu conhecia. A casa de Bruno. A fonte da minha dor seria agora meu santuário temporário.

Arrastei-me de volta, cada passo um testemunho de uma nova e aterrorizante indiferença. Ao me aproximar da propriedade, uma multidão de jovens festeiros impecavelmente vestidos saía pelos portões, suas risadas ecoando no ar fresco da noite. Eram barulhentos, turbulentos, seus rostos corados pela bebida. Cheiravam a perfume caro e emoções baratas.

Um deles, um jovem com cabelo penteado para trás e um sorriso arrogante, me viu. "Olha o que o vento trouxe! Uma prostituta de rua da vida real!", ele arrastou as palavras, empurrando seus amigos. "Ei, quanto por uma rapidinha?" Ele tirou um maço de dinheiro, abanando-o zombeteiramente.

Eu o encarei, meus olhos vazios. Meu corpo era uma ruína, mas minha dignidade, o pouco que restava, ainda era minha para defender. Afastei sua mão, o dinheiro se espalhando pelo chão.

Seu sorriso se transformou em um rosnado. "Ah, uma orgulhosa, é? Assim como o velho disse, algumas pessoas precisam aprender uma lição." Ele avançou, seus amigos se aproximando.

Meu treinamento entrou em ação, um eco fantasma de uma vida que eu pensei ter desaparecido. Anos de combate corpo a corpo, de desviar de golpes, de usar a agressão de um oponente contra ele. Meus movimentos eram desajeitados, meu corpo rígido de dor, mas a memória muscular estava lá. Abaixei-me sob um golpe selvagem, dei uma joelhada na virilha de outro agressor e girei, usando o impulso deles para criar uma abertura.

"Peguem ela!", alguém gritou.

Corri, a adrenalina bombeando por minhas veias exaustas. Eles subiram em suas motocicletas, os motores rugindo para a vida, uma sinfonia predatória na noite. Pneus cantaram, faróis brilhando na minha visão periférica.

Pressionei-me contra a parede de um prédio, esperando despistá-los, mas a moto era rápida. Rápida demais. Ela me atingiu por trás. Senti o impacto, um estalo brutal de osso e metal, antes de ser arremessada. Minha cabeça bateu no pavimento com um baque nauseante. A dor explodiu atrás dos meus olhos, depois a escuridão.

Fracamente, ouvi vozes. "Meu Deus, ela está morta?" "Nós a atingimos com muita força!" "O que fazemos?" "Chame uma ambulância! Chame a polícia!"

Um feixe de luz cortou a escuridão, pousando no meu rosto. Minhas pálpebras se abriram, minha visão embaçada. Meu corpo era um peso de chumbo, cada centímetro gritando.

"Espere... essa não é... Amanda Park?" Uma voz de mulher, sussurrada e aterrorizada.

"Não, é impossível! Ela morreu há quatro anos!", outra respondeu.

"Não, não, é ela!" A primeira mulher ofegou. "A esposa de Bruno Sharpe! A que desapareceu!"

Um silêncio súbito caiu sobre a multidão. Então, uma voz familiar, afiada de irritação. "Que comoção é essa?"

Bruno. E Carla. Até mesmo Enzo. Eles estavam na beira da multidão, seus rostos uma mistura de curiosidade e aborrecimento, iluminados pelas luzes piscantes de uma ambulância que chegava.

"Sr. Sharpe", um policial começou, "parece ser sua esposa desaparecida, Amanda Park. Ela foi atingida por uma motocicleta."

Os olhos de Bruno se arregalaram, depois se estreitaram. Ele avançou, abrindo caminho entre os curiosos. Ele olhou para mim, seu rosto uma máscara de incredulidade.

"Não", disse ele, sua voz fria, desdenhosa. "Não pode ser. Ela é... ela é apenas uma moradora de rua que se parece vagamente com ela. Amanda está morta."

Enzo, meu doce Enzo, puxou a mão de Carla. "Papai, essa é a mulher louca de novo? Aquela que se chamava de mamãe? Ela não é minha mãe, né? Minha mãe é a Carla!" Ele olhou para Bruno, seus olhos arregalados, buscando confirmação.

O olhar de Bruno endureceu. Ele se ajoelhou ao meu lado, seus olhos examinando meu rosto arruinado. "Ela não é a Amanda", repetiu ele, sua voz desprovida de emoção. "Amanda nunca teria essa aparência. Ela não estaria aqui." Ele afastou uma mecha de cabelo emaranhado do meu rosto, seus dedos roçando uma cicatriz irregular. "Além do mais", acrescentou ele, uma provocação cruel em sua voz, "Amanda era linda."

Meus olhos, já nadando em lágrimas, finalmente cederam. Elas escorreram pelas minhas bochechas, misturando-se com o sangue dos meus arranhões. Meu mundo se fragmentou. Eu vi seu rosto, o rosto do homem que jurou me amar para sempre. O rosto do homem que disse que nunca deixaria nada me machucar.

E lembrei-me de suas palavras, ditas tantos anos atrás, sussurradas contra meu cabelo: "Eu sempre vou te proteger, meu amor. Sempre."

Era tudo mentira. Ele era como seu pai, e o pai de seu pai. Uma linhagem inteira de homens que descartavam mulheres quando elas não eram mais convenientes. Minha visão ficou em branco, engolida por uma escuridão consumidora.

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