Capítulo 2

Os papéis do divórcio pareciam uma declaração de guerra em minhas mãos. Os advogados da família de Angela eram tubarões, mas meu sacrifício tinha um preço. Dez anos da minha vida como cônjuge político de uma Medeiros significava que eu tinha direito a uma parte significativa dos bens conjugais, todos provenientes da dinastia de sua família. Era uma pílula amarga para eles engolirem, mas era a lei.

O advogado explicou o período de espera obrigatório. Uma janela de trinta dias antes que qualquer coisa fosse finalizada.

Angela sorriu com desdém quando ouviu isso. "Trinta dias para você cair em si, Alex. Você vai perceber que não consegue sobreviver sem mim."

Helena, imitando a arrogância da mãe, acrescentou: "Você vai implorar para voltar em uma semana, papai. Quem mais vai cozinhar para você?"

Suas palavras tinham a intenção de machucar, e machucaram. Uma nova onda de dor me atingiu, a crueldade casual da minha própria filha. Mas eu apenas olhei para elas, meu rosto uma máscara de calma.

"Eu não vou voltar", eu disse, minha voz firme. "Nunca."

Angela riu, um som curto e agudo de descrença. "Ah, Alex. Tão dramático." Ela se aproximou, seu perfume caro enchendo o ar. Era o mesmo perfume que ela usava no dia em que nos casamos. Agora, só cheirava a mentiras.

"Não faça isso", ela sussurrou, sua voz baixando para um tom baixo e ameaçador. "Você vai se arrepender."

Antes que eu pudesse responder, o celular dela vibrou. Sua expressão se suavizou instantaneamente ao ver a tela.

"Gio", ela arrulhou. "Sim, estamos quase terminando aqui... Claro, querido. Helena e eu te encontramos para o jantar."

Ela se virou para nossa filha. "Helena, o Tio Gio vai nos levar àquele novo restaurante com estrela Michelin que você queria experimentar."

O rosto de Helena se iluminou. "Eba! Podemos ir agora? Não quero mais ficar aqui com ele." Ela apontou um dedo para mim, como se eu fosse um pedaço de lixo.

Angela nem sequer olhou para trás. Ela pegou a mão de Helena e saiu do escritório do advogado, me deixando em um rastro de silêncio e traição.

Fiquei ali por um longo momento, o eco da partida delas soando em meus ouvidos. Então, metodicamente, guardei meus poucos pertences pessoais do escritório estéril.

De volta à casa — a casa dela — caminhei pelos cômodos. Tudo nela, do piano de cauda que eu não tocava mais aos móveis de design, era um testamento da riqueza de sua família e da minha identidade apagada. Por uma década, eu atendi aos seus gostos, sua agenda, suas ambições. Minhas próprias paixões estavam enterradas tão fundo que eu quase esqueci que existiam.

Não mais.

Fui direto para o banheiro principal e encarei meu reflexo. O homem que me olhava de volta era um fantasma. Contido, cansado, com olhos tristes e um corte de cabelo que gritava "pai de subúrbio". Este não era Alex Schwartz, o produtor musical que conseguia ouvir um sucesso em três notas. Este era o marido de Angela Medeiros.

Peguei uma tesoura e comecei a cortar meu cabelo de qualquer jeito. Depois, encontrei uma caixa velha de tinta de anos atrás e transformei meu cabelo castanho apagado em um preto forte e sem desculpas.

Em seguida, fui ao meu armário. Estava cheio de camisas polo seguras e sem graça e calças cáqui. O uniforme de um cônjuge político. Enfiei tudo em sacos de lixo. Dirigi até a butique mais cara da cidade, na Rua Oscar Freire, e comprei uma jaqueta de couro, jeans pretos justos e botas que me fizeram sentir como eu mesmo novamente.

Olhando no espelho da loja, vi um vislumbre do homem que eu costumava ser. Confiante. Carismático. Perigoso.

Senti uma onda de liberdade tão potente que era estonteante. Para comemorar, decidi ir ao mesmo restaurante com estrela Michelin para onde Angela estava levando Helena e Giovanni. Eu merecia.

A recepcionista me levou a uma pequena mesa. Ao me sentar, eu os vi. Do outro lado do salão, sentados na melhor mesa perto da janela, estava minha antiga família. Angela estava rindo, a cabeça inclinada na direção de Giovanni. Helena mostrava algo a ele em seu iPad, o rosto radiante. Pareciam tão felizes, tão completos.

Dois garçons passaram pela minha mesa, sussurrando. "Aquela é a vereadora Medeiros. Que família linda, né? O marido dela é tão bonito."

O comentário foi uma facada de ironia amarga. Eles achavam que Giovanni era o marido dela. O homem que roubou minha vida agora a estava vivendo em público.

A dor era aguda, uma dor física no meu peito. Quase me levantei para ir embora, para fugir daquela visão.

Mas então Giovanni olhou para cima e me viu. Seu sorriso vacilou por um segundo, seus olhos se arregalando de surpresa. Ele se recuperou rapidamente, inclinando-se para sussurrar algo para Angela.

Ela se virou, e seu queixo caiu. Ela encarou meu novo cabelo, minhas roupas novas. Seus olhos, pela primeira vez em muito tempo, continham algo além de desprezo. Era confusão. Choque.

Helena me viu também e imediatamente fez uma careta. "O que ele está fazendo aqui? Ele está nos perseguindo?"

Eu apenas levantei meu copo para eles, um sorriso pequeno e frio no rosto. Eu não ia fugir. Não mais.

Eu estava apenas começando.

Capítulo 3

Giovanni se recuperou primeiro, sua máscara de político escorregadio voltando ao lugar. Ele chamou um garçom. "Nosso... amigo está jantando sozinho. Por favor, traga-o para cá. Ele vai se juntar a nós."

O garçom, confuso mas obediente, veio à minha mesa. Antes que eu pudesse recusar, o próprio Giovanni estava de pé sobre mim, a mão no meu ombro em um gesto de falsa amizade. "Alex, vamos lá. Não seja um estranho."

Ele estava se divertindo com isso, a performance pública de magnanimidade. Angela e Helena observavam, suas expressões uma mistura de irritação e curiosidade. Eu sabia que recusar só me faria parecer mesquinho, então deixei que ele me levasse até a mesa deles.

"Olha quem está aqui", Giovanni anunciou grandiosamente.

"O que você está vestindo?", Helena perguntou, o nariz enrugado de nojo. "Você está ridículo."

"Helena, seja legal", disse Angela, mas não havia força em suas palavras. Seus olhos ainda examinavam minha aparência, um brilho de algo indecifrável em suas profundezas.

"Decidi que precisava de uma mudança", eu disse simplesmente, sentando-me.

Giovanni recostou-se na cadeira, passando um braço em volta de Angela. "Bem, mudança é bom. Estávamos falando sobre a campanha. As coisas estão indo fantasticamente." Ele sorriu para mim, um sorriso de predador. "Você deve estar muito orgulhoso de Angela."

Eu não respondi. Um garçom chegou para anotar meu pedido.

"Alex não come comida apimentada", disse Angela automaticamente, sem nem olhar para mim. "Ele vai querer o robalo."

Por dez anos, eu cozinhei todas as refeições. Eu conhecia todas as suas preferências, todas as suas alergias. Eu havia adaptado meus próprios gostos para se adequarem aos dela, evitando as comidas picantes e saborosas que eu realmente amava.

Ela não tinha ideia do que eu gostava. Depois de uma década de casamento, ela não sabia a primeira coisa sobre mim.

O pensamento era tão desolador que era quase engraçado.

"Na verdade", eu disse, olhando diretamente para o garçom, "vou querer o cordeiro à vindaloo. Extra picante. E uma garrafa do seu melhor uísque."

A cabeça de Angela se virou bruscamente para mim. "Você não gosta de comida apimentada."

"Você está enganada", eu disse friamente. "Eu adoro."

Helena interveio, irritada. "O Tio Gio é alérgico a cordeiro. Você não pode pedir isso."

Eu apenas olhei para ela. "Ele não vai comer. Eu vou."

A tensão na mesa era densa o suficiente para ser cortada com uma faca. Angela me encarava, a testa franzida, como se tentasse resolver um quebra-cabeça. O sorriso de Giovanni estava forçado.

"De onde você está tirando dinheiro para isso, papai?", Helena exigiu. "Este lugar é super caro."

"Estou usando meu dinheiro", eu disse, meu olhar varrendo Angela. "O dinheiro que ganhei por dez anos de serviço a esta família. Decidi começar a gastá-lo comigo mesmo."

"O que isso quer dizer?", Angela perguntou, a voz afiada.

"Significa que eu cansei", eu disse, minha voz baixa e clara. "Cansei de ser sua equipe de apoio. Cansei de colocar minha vida em espera pela sua ambição. Vou viver para mim agora."

Nesse momento, um garçom carregando uma bandeja de sopa quente tropeçou perto da nossa mesa.

Aconteceu em uma fração de segundo. A bandeja inclinou, e uma sopeira de sopa escaldante deslizou em direção a Giovanni.

Sem um momento de hesitação, Angela se jogou na frente dele, empurrando-o para fora do caminho. Ela recebeu o impacto do líquido quente em seu braço, gritando de dor.

A sopeira, desviada do curso, voou para o lado e se espatifou no meu lado da mesa. Sopa quente espirrou no meu braço e peito. A dor foi lancinante, imediata. Eu ofeguei, um som rouco arrancado da minha garganta.

Mas ninguém estava olhando para mim.

"Gio! Você está bem?", Angela gritou, pegando as mãos dele, inspecionando-o freneticamente.

"Estou bem, estou bem", disse ele, sacudindo-a. "Não me tocou."

Helena estava gritando. Não por mim, seu pai, que estava agarrando seu braço queimado. Ela correu ao redor da mesa e, em vez de me ajudar, me empurrou com força.

"Foi você!", ela berrou, o rosto contorcido de raiva. "Você fez o garçom tropeçar! Você tentou machucar o Tio Gio!"

O empurrão me desequilibrou. Caí da cadeira, meu braço ferido batendo no chão. Uma nova explosão de dor me atravessou, e não consegui reprimir um gemido.

Eu estava ali, no chão do restaurante chique, meu braço em chamas, e minha própria família estava sobre mim, seus rostos cheios de acusação.

"Olha o que você fez, Alex", disse Angela, a voz pingando nojo. Ela embalava o próprio braço, onde uma marca vermelha já se formava. "Você sempre causa problemas."

Ela não perguntou se eu estava bem. Nem sequer olhou para o meu ferimento.

Helena estava soluçando, agarrada a Giovanni. "Seu braço está bem, Tio Gio? Dói?"

"Estou bem, querida", disse ele, acariciando o cabelo dela. Ele olhou para mim, seus olhos cheios de fria satisfação.

Eles se ajudaram a levantar, os três, uma frente unida de culpa. Não me ofereceram a mão. Não chamaram um médico.

Eles simplesmente foram embora.

Saíram do restaurante, me deixando no chão em meio à porcelana quebrada e aos olhares de estranhos. A dor no meu braço não era nada comparada à certeza fria e morta em meu coração.

Eu estava total e completamente sozinho. E estava, finalmente e irrevogavelmente, livre.

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