Capítulo 2

O médico estudava sua prancheta com uma intensidade fascinante, encontrando interesse na parede, no chão de linóleo — em qualquer lugar, menos no meu rosto.

O quarto fedia a antisséptico e fracasso.

"Fizemos tudo o que podíamos, Sra. Moretti", disse ele, sua voz baixando para um murmúrio praticado e profissional. "A hipotermia foi severa. O estresse em seu corpo... o aborto foi incompleto. Tivemos que operar para parar a hemorragia."

Mantive meu olhar fixo nas placas do teto. Contei as perfurações. Qualquer coisa para evitar a pena em seus olhos.

"E?", perguntei. A palavra arranhou minha garganta, oca e seca.

Ele hesitou. "Houve uma cicatrização significativa. É altamente improvável que você consiga levar uma gravidez a termo no futuro. Eu sinto muito."

Eu não chorei. Acho que deixei minha capacidade de luto na lama gelada do lado de fora da mansão. Em vez disso, uma estranha e fria leveza se instalou em meu peito. A corda que me prendia a Dante — a esperança de uma família, o imperativo biológico de amá-lo — finalmente se rompeu.

Assinei os papéis da alta eu mesma.

Dante não veio. Mario, de cabeça baixa, me disse que o Don estava ocupado. Leo teve um pesadelo.

Quando voltei para a mansão, a casa estava agressivamente silenciosa. Passei pela sala de estar e congelei. Ali, emoldurada pelo arco, havia uma cena doméstica perfeita.

Dante estava sentado no tapete, montando uma pista de trem de madeira. Elena ria, servindo chá de um serviço de prata. Leo batia palmas, seu rosto brilhando de alegria.

Eles pareciam uma família. Eu parecia um fantasma assombrando minha própria vida.

Passei por eles sem uma palavra.

Dante ergueu o olhar, seus olhos se estreitando enquanto percorriam minha forma pálida e desgrenhada.

"Você voltou", disse ele. Seu tom era desdenhoso, como se eu tivesse acabado de voltar de uma ida ao supermercado, não da emergência onde o filho dele havia morrido. "Aprendeu sua lição?"

Eu não parei de andar. Nem sequer olhei para ele. Fui direto para o quarto principal.

Abri as portas do closet. Puxei todos os vestidos que ele já me comprou. O de seda vermelha de Milão. O de veludo de Paris. Eu os arranquei de seus cabides e os joguei no chão.

Fui até a caixa de joias na penteadeira. O colar de diamantes do nosso primeiro aniversário. As esmeraldas do meu vigésimo primeiro aniversário.

Joguei tudo na lixeira de metal. A cacofonia do ouro batendo no aço foi satisfatoriamente final.

"O que você está fazendo?"

Dante estava na porta. Ele parecia irritado, não preocupado.

"Limpando", eu disse.

Ele entrou no quarto, sua presença sombria preenchendo instantaneamente o espaço. Ele cheirava a tabaco e ao perfume barato de baunilha de Elena.

"Pare de drama, Sera. Você nos envergonhou. Elena é uma convidada. Ela salvou minha vida. Você vai tratá-la com respeito."

Eu o ignorei e caminhei até a parede onde nosso retrato de casamento estava pendurado. Tinha um metro e meio de altura, um monumento a uma mentira. Parecíamos tão felizes em óleo sobre tela. Ele me olhava como se eu fosse o sol e ele um homem faminto por calor.

Peguei o pesado abridor de cartas de latão da escrivaninha.

"Sera", Dante avisou, sua voz baixando uma oitava.

Eu rasguei a tela. Cravei a lâmina bem no meio de seu rosto sorridente, rasgando o tecido pelo meio. O som do linho se rasgando foi um grito no silêncio.

Ele se moveu com uma velocidade aterrorizante. Atravessou o quarto e me empurrou.

Bati com força na penteadeira. Meu quadril se chocou contra a madeira maciça, tirando o ar dos meus pulmões.

"Você está louca", ele sibilou.

Elena apareceu na porta, agarrando uma boneca de pelúcia contra o peito. "Oh, meu Deus, Dante! Ela está bem?"

Ela estendeu a boneca para mim, seus olhos arregalados e inocentes. "Leo queria que você ficasse com isso. Como uma oferta de paz."

Olhei para a boneca. Depois olhei para Elena. Seus olhos dançavam com malícia.

Estendi a mão para o brinquedo. Quando meus dedos se fecharam em torno do tecido macio, senti uma dor aguda no meu polegar. Puxei minha mão para trás. Uma gota de sangue brilhante brotou instantaneamente.

Uma agulha. Enterrada com a ponta para cima, no fundo do enchimento.

Elena ofegou, levando as mãos à boca. "Oh, não! Devo ter deixado uma agulha de costura aí quando a consertei! Sou tão desastrada!"

Ela não parecia desastrada. Ela parecia predatória.

Dante agarrou meu pulso, olhando para o sangue, depois para o rosto choroso de Elena.

"Foi um acidente, Sera", disse ele, seu aperto se intensificando a ponto de machucar. "Não se atreva a acusá-la de nada."

Olhei para ele. Olhei para o homem que costumava matar qualquer um que sequer pensasse em machucar minha pele. Agora era ele quem estava fazendo isso.

"Não estou acusando ninguém", disse suavemente.

Arranquei minha mão. Não limpei o sangue. Deixei-o pingar no tapete caro, uma mancha carmesim na lã imaculada.

"Eu só estou cansada, Dante. Tão cansada."

Capítulo 3

Gritos me arrancaram do sono.

Não era um pesadelo. Os sons crus e aterrorizantes eram reais, e ecoavam da sala de jantar.

Forcei-me a sair da cama. Meu corpo gritava em protesto, cada centímetro doendo da cirurgia do aborto, do empurrão, da chuva. Mover-se parecia caminhar através de uma lama pesada.

Lá embaixo, o pânico havia consumido a casa.

Leo estava ofegante, seu rosto inchado e manchado de vermelho, urticárias florescendo violentamente em seu pescoço. Era inconfundível — uma reação anafilática.

Elena gritava, apontando um dedo maníaco para a mesa. "Foi ela! Ela tentou matá-lo!"

Dante segurava o menino, gritando ordens para seus homens pegarem a epinefrina. Ele ergueu o olhar quando entrei cambaleando no cômodo. Seus olhos não eram humanos. Eram vazios de toda luz — os olhos do Ceifador.

"O que você colocou no mingau dele?", ele rugiu.

Fiquei parada no batente da porta, agarrando a madeira para não desabar. "Eu não estive na cozinha", gaguejei. "Eu estava dormindo."

"Mentirosa!", Elena gritou. Ela apontou um dedo trêmulo para mim. "Eu a vi! Eu a vi perto da despensa. Ela sabe que ele é alérgico a amendoim! Ela o quer morto porque não pode te dar um! Ela é estéril!"

A palavra me atingiu como um golpe físico. Estéril.

Como ela sabia? Eu ainda não tinha contado a Dante. Eu não tinha contado a ninguém.

Dante não pediu provas. Ele não chamou o chef. O medo por seu filho havia eclipsado toda a razão. Ele entregou o menino ofegante a um médico e marchou em minha direção.

Ele me agarrou pelos cabelos.

"Dante, por favor", ofeguei, arranhando seu pulso. "Verifique as câmeras."

"Eu confiei em você", ele cuspiu, sua voz um rosnado letal. "Eu te trouxe para minha casa. Eu te dei tudo. E você ataca uma criança?"

Ele me arrastou. Ele não me puxou para seu escritório. Ele não me levou para a porta da frente. Ele me levou para a pesada porta de ferro atrás da cozinha.

O Porão.

Era uma câmara de pedra úmida, construída durante a Lei Seca para esconder bebidas e, mais tarde, corpos. Inundava sempre que chovia.

"Dante, não", implorei, meus calcanhares derrapando inutilmente no chão. "Estou doente. Por favor."

Ele me jogou escada abaixo.

Caí na escuridão, meu corpo batendo contra a pedra fria antes de mergulhar em uns dez centímetros de água estagnada.

"Pense no que você fez", disse ele.

Ele bateu a porta. A fechadura engatou com um som de tiro.

A escuridão total me engoliu. A água encharcou instantaneamente meu pijama, congelando-me até os ossos. Eu podia ouvir coisas se movendo nos cantos. Correndo. Chiando.

Subi para o ponto mais alto, um palete de madeira no centro da sala, e me encolhi em uma bola apertada e trêmula.

Horas se passaram. Ou talvez dias. O tempo não existia no escuro.

Então, a fresta na porta se abriu. Um feixe de luz cortou a penumbra, me cegando.

O rosto de Elena apareceu no retângulo. Ela estava sorrindo.

"Você parece confortável, Princesa", ela sussurrou.

"Me deixe sair", eu disse. Minha voz era um coaxar quebrado.

"Ainda não", disse ela. "Dante está muito chateado. Ele está no hospital com Leo. Ele me disse para vir checar a prisioneira."

Ela ergueu um saco de estopa à vista.

"Pensei que você poderia se sentir sozinha", disse ela.

Ela virou o saco pela fresta.

O conteúdo atingiu a água com baques úmidos e pesados.

Guinchos. O arranhar frenético de garras na pedra.

Ratos.

O pânico, primal e avassalador, tomou minha garganta. Eu gritei. Gritei até sentir o gosto de cobre.

Elena riu. Era um som suave e tilintante que me gelou mais do que a água.

"Não se preocupe, Sera. Vou cuidar muito bem do Dante. Ele vai ser um ótimo pai para o meu filho. Você era só um tapa-buraco."

Ela bateu a fresta, fechando-a.

Fui deixada sozinha com as garras arranhando e a água subindo. Eu não gritei mais. Sentei-me no palete, abraçando meus joelhos, e deixei o medo queimar até que não restasse nada além de cinzas.

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