Ponto de Vista de Beatriz
O escritório do Sr. Abreu cheirava a dinheiro antigo e mogno polido.
Com a mão trêmula, ele deslizou a escritura pela vasta extensão de sua mesa brilhante. Ele claramente não estava acostumado com clientes quitando suas contas com fundos de contas no exterior, impossíveis de rastrear.
"A ilha não está no mapa, Srta. Dantas", ele avisou. "Sem rede elétrica. Sem torres de celular. Está completamente fora do radar."
"Perfeito", respondi.
Assinei os papéis, minha mão firme.
Eu não estava comprando uma casa de férias.
Eu estava garantindo uma sepultura para ressuscitar.
Saí de seu escritório com as coordenadas gravadas na memória. O jato particular estava agendado para daqui a dois dias.
Eu só precisava sobreviver às próximas quarenta e oito horas.
Chamei um táxi de volta para a mansão Almeida.
Eu ainda tinha roupas lá, mas mais importante, eu tinha meu passaporte escondido sob as tábuas do assoalho.
Os portões de ferro forjado se abriram automaticamente para mim. Eles ainda não haviam revogado meu acesso biométrico.
Esse foi o erro deles.
Entrei na casa.
Estava silenciosa.
Silenciosa demais.
Fui para a cozinha.
A cena diante de mim me paralisou.
João Pedro estava no fogão.
Ele mexia uma panela de risoto, usando um avental de chef sobre sua camisa social impecável.
Em cinco anos, João Pedro nunca tinha sequer fervido água para mim.
Ele nunca havia cozinhado uma refeição.
Ele mal jantava comigo, a menos que fosse um evento de negócios obrigatório.
Helena estava sentada no balcão de mármore da ilha, balançando as pernas como uma criança mimada.
Ela segurava uma taça de vinho em uma das mãos.
Diego e Bruno estavam encostados na geladeira, comendo azeitonas de um pote casualmente.
Eles pareciam uma família.
Uma família distorcida, violenta e perfeita.
E eu era a intrusa.
João Pedro se virou e seus olhos encontraram os meus.
A suavidade doméstica em seu rosto desapareceu instantaneamente.
A máscara do subchefe voltou ao lugar.
"Onde você esteve?", ele exigiu, sua voz fria como gelo.
"Esperávamos você na cerimônia", Helena interveio.
Ela tomou um gole demorado de vinho.
"Teria sido legal ter minha irmã lá para me apoiar."
"Apoiar você se casando com o meu noivo?", perguntei.
As palavras tinham gosto de cinzas na minha língua.
Diego zombou.
"Ele nunca foi seu, Beatriz. Você só estava esquentando o lugar dela."
"Por cinco anos?", retruquei.
Olhei para João Pedro, procurando por um pingo de humanidade.
"Eu esquentei sua cama por cinco anos, João Pedro. Eu cuidei de você quando levou aquele tiro no ombro no inverno passado. Eu estive ao seu lado quando seu pai morreu."
João Pedro voltou-se para o risoto, dispensando-me completamente.
"Era seu dever", disse ele, sem sequer se dignar a olhar para mim.
"Helena é minha esposa. Você é irmã dela. Aja como tal."
"Ela tem câncer", disse Caio, saindo da despensa. "Mostre um pouco de respeito."
"Ela parece saudável o suficiente para beber vinho", contestei.
Os olhos de Helena se estreitaram.
Ela pulou do balcão e caminhou até mim.
Ela estendeu uma pequena caixa de veludo.
"Comprei um presente para você", disse ela, sua voz escorrendo uma doçura falsa. "Uma oferta de paz. Por ter perdido o casamento."
Eu não queria pegar.
João Pedro desligou o fogão.
"Pegue, Beatriz", ele ordenou. "Não seja difícil."
Peguei a caixa.
Parecia perturbadoramente leve.
Levantei a tampa.
Algo escuro e rápido se moveu lá dentro.
Uma dor explodiu no meu dedo.
Gritei e deixei a caixa cair.
Uma aranha-viúva-negra correu pelos azulejos impecáveis do chão.
Meu dedo latejava com um fogo agudo e ardente.
"Meu Deus!", Helena gritou.
Ela apertou o peito, cambaleando para trás contra o balcão.
"Ela tentou jogar em mim! Ela trouxe uma aranha para me matar!"
Eu a encarei em choque, minha respiração presa.
Minha mão já estava inchando, o veneno correndo pelo meu braço.
"Você me deu", eu disse, ofegante.
"Mentirosa!", Helena gritou. "João Pedro, meu coração! É o estresse!"
João Pedro estava ao lado dela em um piscar de olhos.
Ele a pegou nos braços como se ela fosse feita de vidro.
"Peguem o carro!", ele rugiu para os irmãos.
Diego me empurrou para o lado enquanto corria para a porta.
Bati na parede com força.
Minha visão ficou turva.
"João Pedro", sussurrei. "Ela me picou."
João Pedro olhou para mim.
Ele olhou para minha mão, que estava rapidamente ficando em tons furiosos de vermelho e roxo.
Então ele olhou para Helena, que soluçava lágrimas secas em sua camisa.
"Fique aqui", ele rosnou para mim.
"Se algo acontecer com o coração dela por causa do seu ciúme, você está morta."
Ele se virou e saiu correndo pela porta com ela.
Meus irmãos o seguiram sem olhar para trás.
Eles me deixaram sozinha na cozinha com a aranha.
O cômodo começou a girar.
Deslizei pela parede.
Meu coração martelava contra minhas costelas, irregular e aterrorizado.
Eles me deixaram.
Eles realmente me deixaram para morrer.
Ponto de Vista de Beatriz
Acordei com o bipe rítmico e monótono de um monitor.
A luz era forte e fluorescente, queimando minhas retinas.
Não era uma suíte particular na clínica da família Almeida, com seus lençóis de alta contagem de fios e discrição.
Era uma divisória de cortina em um hospital público da cidade.
"Ela acordou", disse uma voz suave.
Maria.
A governanta.
Ela estava sentada em uma cadeira de plástico duro, segurando seu rosário com tanta força que seus nós dos dedos estavam brancos.
Seus olhos estavam vermelhos e inchados.
"Maria?", grasnei.
Minha garganta parecia uma lixa.
"Eu te encontrei", ela sussurrou, sua voz tremendo. "Vim limpar a cozinha. Você estava no chão. Espumando pela boca."
Ela estendeu a mão, sua mão calejada e quente acariciando meu cabelo.
"Eu chamei a ambulância. Não o médico da família. A ambulância."
"Onde eles estão?", perguntei.
Eu já sabia a resposta.
"Com a Helena", disse Maria, desviando o olhar. "Ela... ela disse a eles que teve palpitações."
"E eu?"
Maria olhou para o colo.
"O Sr. João Pedro disse que você estava querendo chamar atenção."
Uma lágrima escorreu do meu olho.
Era quente e furiosa, queimando um rastro pela minha bochecha.
"Há quanto tempo?", perguntei.
"Dois dias", disse Maria.
"Hoje é meu aniversário", sussurrei.
Maria apertou minha mão.
"Eu sei, bambina. Eu sei."
Ela pegou um cupcake de sua bolsa.
Estava esmagado contra a embalagem, mas tinha uma única vela apagada enfiada na cobertura arruinada.
"Feliz aniversário, Beatriz."
Eu comi o cupcake.
Tinha gosto de sal e luto.
Assinei os formulários de alta contra o conselho médico uma hora depois.
Os médicos protestaram, alertando-me sobre toxinas residuais e estresse cardíaco, mas eu saí.
Eu tinha um voo para pegar amanhã.
Eu precisava pegar meu passaporte.
Peguei um táxi de volta para a mansão.
O som grave da música batia vindo da casa, vibrando pelas solas dos meus sapatos enquanto eu pisava na calçada.
Carros de luxo enfileiravam-se na entrada.
Era uma festa.
Entrei pela porta da frente.
A sala de estar estava lotada de soldados, associados e mafiosos de alto escalão.
Uma faixa enorme pendia na escadaria.
Bem-vinda de volta, Helena.
Não Feliz Aniversário, Beatriz.
Apenas Helena.
Helena estava no centro da sala, comandando a atenção.
Ela usava um vestido vermelho escandaloso.
Ela estava abrindo presentes.
Brincos de diamante de Diego.
A chave de um carro novo de Bruno.
João Pedro estava atrás dela, a mão possessivamente em seu ombro.
O Don perfeito.
O marido perfeito.
A sala ficou em silêncio quando me viram.
Eu ainda usava minhas roupas de hospital — pijama cirúrgico e uma jaqueta fina.
Eu parecia um desastre.
"Você está viva", disse Caio.
Ele parecia desapontado.
"Pare de fazer cena, Beatriz", disse João Pedro. Sua voz era baixa, perigosa. "Vá se trocar."
"É o nosso aniversário", eu disse, minha voz vazia.
Helena riu, um som tilintante e cruel.
"Ah, Beatriz. Sempre fazendo tudo ser sobre você. Eu quase morri de um ataque cardíaco por causa da sua brincadeira."
"Minha brincadeira?", perguntei.
"A aranha", disse ela, revirando os olhos. "Todo mundo sabe que você coleciona coisas estranhas."
A sala murmurou.
Eles acreditaram nela.
Claro que acreditaram nela.
Ela era a estrela.
"Vamos ver o vídeo!", Helena gritou, batendo palmas. "João Pedro fez uma montagem do meu tempo na Europa!"
Ela apontou o controle remoto para a tela enorme na parede.
João Pedro sorriu.
Ele mesmo tinha editado.
Um trabalho de amor.
A tela piscou e acendeu.
Mas não era Helena na frente da Torre Eiffel.
Era uma filmagem granulada.
Um quarto.
Helena estava lá.
E também o filho do líder da Máfia Russa.
Nossos inimigos jurados.
O áudio estalou pelos alto-falantes.
"A família Dantas é uma piada", a voz de Helena soou, cristalina. "João Pedro é um careta chato. Só estou esperando o velho morrer para poder vender os códigos do território."
A sala congelou.
O ar foi sugado do espaço.
Helena deixou sua taça de vinho cair.
Ela se estilhaçou, o som como um tiro no silêncio.
João Pedro encarou a tela.
Seu rosto ficou pálido, depois vermelho escuro.
Isso era traição.
Isso era uma sentença de morte.
Eu encarei a tela.
Eu não fiz isso.
Eu não troquei o vídeo.
Helena se virou.
Seus olhos se fixaram em mim.
O pânico brilhou em seu olhar.
Ela apontou um dedo trêmulo para mim.
"Foi ela!", Helena gritou. "Ela falsificou! É inteligência artificial! É um deepfake! Ela está tentando me incriminar porque está com ciúmes!"
João Pedro se virou para mim.
Seus olhos eram buracos negros.
A lógica não importava.
A verdade não importava.
Ele precisava de um alvo para sua raiva.
Ele precisava proteger a imagem de sua esposa, mesmo que ela fosse uma traidora.
"Beatriz", disse João Pedro.
Foi um rosnado.
"O que você fez?"
Diego deu um passo à frente.
"Ela está tentando destruir a honra da família", disse ele.
"Ela precisa aprender uma lição", acrescentou Bruno.
Eles estavam se aproximando de mim.
Como lobos.
Recuei até bater na parede.
"É a voz dela", eu disse, minha voz tremendo. "João Pedro, escute."
"Silêncio!", João Pedro rugiu.
Ele agarrou meu braço.
Seu aperto era brutal.
"Tirem todos daqui", ele ordenou aos guardas. "Agora."
Os convidados correram para as saídas.
Eles sabiam o que acontecia a portas fechadas quando a família Almeida estava com raiva.
Olhei para João Pedro.
"Por favor", sussurrei.
"Você queria atenção, Beatriz?", ele sibilou, me arrastando em direção à porta do porão. "Agora você tem."