Ponto de Vista: Alícia
Meu coração parecia um peso de chumbo no peito enquanto eu me afastava da galeria. O ar, denso com fumaça de charuto e o cheiro enjoativo do perfume barato de Serena, era sufocante. Eu precisava sair. Precisava respirar um ar que não estivesse contaminado pela traição.
Peguei a escada dos fundos, minha mão deslizando pela parede de pedra fria, evitando a celebração, evitando os olhares de pena ou desprezo.
Quando cheguei ao pé da escada, uma figura saiu do corredor, bloqueando meu caminho.
Serena.
Ela segurava uma taça de champanhe, um sorriso presunçoso e vitorioso em seus lábios perfeitamente pintados. "Alícia. Não esperava te ver aqui embaixo. Você não deveria estar descansando?" A falsa preocupação em sua voz era como unhas em um quadro-negro.
"Eu já estava de saída", disse eu, minha voz neutra. Tentei contorná-la.
Ela se moveu comigo, me bloqueando novamente. "Saindo tão cedo? Mas a festa é para nós. Para o meu filho. Seu futuro enteado."
"Ele nunca será meu enteado", disse eu, as palavras frias e afiadas.
Sua máscara de amizade caiu, substituída por um sorriso venenoso. "Ah, mas ele será. Dante o adora. Ele me adora. Ele está cansado de uma esposa fria que nem sequer lhe dá atenção." Ela deu um passo deliberado para mais perto, sua voz baixando para um sussurro conspiratório. "Ele me contou tudo. Ele vai te rejeitar. Amanhã. Na frente de todo mundo."
Suas palavras confirmaram o pensamento que eu havia interceptado, mas ouvi-las de seus lábios foi uma nova onda de dor. Meu corpo balançou, e estendi a mão para me apoiar na parede.
"Eu serei a esposa do Dom", ela sibilou, seus olhos brilhando de triunfo. "E você... você não será nada."
O laço que eu compartilhava com Dante, o vínculo sagrado que conectava nossas almas, parecia estar sendo esticado até o ponto de ruptura. Uma dor aguda e lancinante me atravessou, tão intensa que minha visão turvou.
Nesse exato momento, no final do longo corredor, uma figura emergiu do salão principal.
Dante.
Os olhos de Serena piscaram em sua direção e, em um instante, toda a sua postura mudou. Seu sorriso triunfante desapareceu, substituído por um olhar de terror de olhos arregalados.
Antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo, ela soltou um grito agudo. Sua mão, a que não segurava o champanhe, voou para o próprio braço, suas unhas afiadas cravando em sua carne, fazendo sangue escorrer.
"Não, Alícia, por favor!" ela gritou, sua voz cheia de pânico fabricado. "Não me machuque! Me desculpe!"
Dante estava lá em um piscar de olhos, o borrão de seu movimento um testemunho do poder que ele comandava. Ele nem sequer olhou para mim. Todo o seu foco estava em Serena, suas mãos gentilmente segurando o braço dela, seus olhos escuros de fúria ao ver os arranhões sangrentos.
"O que você fez?" ele rosnou, seu olhar finalmente se voltando para mim. Estava cheio de tanto ódio que pareceu um golpe físico.
"Dante, eu não..."
"Silêncio", ele comandou.
Ele usou o Comando do Dom. Não foi um grito; foi uma ordem baixa e gutural infundida com seu poder, uma força que exigia obediência. Ela me atingiu, um punho invisível que roubou meu fôlego e calou minha vontade. Meu corpo congelou, minha boca se recusando a formar as palavras da minha defesa. Minha própria alma, ligada à dele, estava sendo usada como uma arma contra mim.
"Saia da minha frente", ele comandou, sua voz tremendo de raiva enquanto embalava Serena contra o peito.
Cada instinto gritava para eu ficar, lutar, fazê-lo ver a verdade. Mas o Comando era absoluto. Era uma força física, me empurrando, me compelindo. Meus pés começaram a se mover contra a minha vontade, cada passo uma traição agonizante do meu próprio corpo.
Minha loba interior, o núcleo do meu ser, choramingou em confusão e dor. Ele era nosso companheiro. Ele deveria ser nosso protetor. Por que ele estava nos machucando?
"Dante, por favor", consegui sussurrar, as palavras rasgando minha garganta apesar da força que me mantinha em silêncio. "Eu sou sua companheira. Eu carrego seu filho."
Ele nem sequer olhou para mim. Seus olhos estavam fixos em Serena, sua expressão se suavizando enquanto a confortava. "Saia", disse ele, sua voz fria e final. "Agora."
Meu coração não apenas se partiu. Ele se estilhaçou. Os pedaços viraram pó dentro do meu peito.
Enquanto eu me virava, forçada a me afastar por seu poder, sussurrei uma última coisa, tão baixo que sabia que ele não ouviria por cima dos soluços falsos de Serena.
"Adeus, Dante."
Cada passo para longe dele era uma agonia, seu poder um peso esmagador em minha alma. Mas a cada passo, o pó do meu coração estilhaçado começava a se solidificar, não em amor, mas em algo duro, frio e inquebrável.
Gelo.
Ponto de Vista: Alícia
A caminhada de volta para nossa ala da casa parecia atravessar território inimigo. O cheiro dele, deles, estava por toda parte. O perfume floral barato de Serena misturado com o cheiro masculino de couro e especiarias de Dante. Era uma violação, uma invasão que revirava meu estômago.
Este não era mais meu lar. Era uma jaula manchada por mentiras.
Quando abri a porta do nosso quarto, o cheiro combinado era tão forte que pareceu um tapa. Vi as coisas dela — um robe de seda jogado sobre minha poltrona de leitura, um par de sapatos dela ao lado da cama.
Algo dentro de mim se quebrou.
Uma energia crua e desesperada surgiu através de mim. Entrei no quarto, peguei o robe de seda e o joguei no corredor. Depois os sapatos dela. Um livro que ela estava lendo. Eu não me importava com quem visse. Não me importava com o que pensassem. Eu estava limpando meu espaço, exorcizando a presença dela com uma fúria que eu não sabia que possuía.
Eu estava no meio de arrastar as roupas de Dante do armário, com a intenção de jogá-las fora também, quando um carro preto elegante parou na entrada principal.
Dante saiu, Serena agarrada ao seu braço. Ele segurava o filho dela, sussurrando palavras reconfortantes para ele.
"Este será seu novo lar agora, pequeno", ouvi-o dizer, sua voz se espalhando pelo ar parado da noite. "Eu protegerei vocês dois."
Uma membro mais velha da alcateia, Dona Bianchi, estava passando e parou, seu rosto se abrindo em um sorriso caloroso. "Dom Rossi! Que família linda. Parabéns pelo seu herdeiro."
Serena sorriu, se exibindo sob o elogio.
Meu sangue gelou. A mentira estava se espalhando. Estava se tornando verdade aos olhos do nosso povo.
Dante não a corrigiu. Ele nem hesitou. Ele simplesmente assentiu, uma mão possessiva pousando na cintura de Serena, puxando-a para mais perto. Era uma declaração clara e pública.
Aos olhos deles, eu já havia sido substituída.
Ele finalmente olhou para cima e me viu parada na porta, suas roupas em uma pilha aos meus pés. Um lampejo de irritação cruzou seu rosto.
"Alícia", disse ele, sua voz tensa. "Pensei ter dito para você me esperar."
Era uma mentira tão descarada, uma tentativa tão transparente de me pintar como a desobediente, que uma risada amarga quase escapou dos meus lábios.
"Por que você não contou a verdade a ela, Dante?" perguntei, minha voz perigosamente baixa. "Por que você não disse a ela que essa criança não é sua? Que sou eu quem carrega seu herdeiro?"
"Não faça uma cena", ele sibilou, seus olhos se movendo para ver se alguém estava ouvindo.
O bebê em seus braços começou a choramingar, um choro fino e agudo que instantaneamente capturou toda a atenção de Dante. Ele me deu as costas completamente, focando em acalmar a criança.
"Serena e o menino ficarão aqui", disse ele por cima do ombro, sua voz desprovida de qualquer emoção. "Na suíte principal. Você pode ficar com o quarto de hóspedes no fim do corredor."
O quarto de hóspedes. Os aposentos dos ômegas. Era o quarto de status mais baixo da casa, reservado para membros visitantes sem importância. Era uma humilhação pública e deliberada.
Ele não estava apenas me substituindo. Ele estava me rebaixando. Me apagando.
Qualquer lampejo de esperança, qualquer brasa minúscula e estúpida do amor que eu senti um dia, foi extinta. Não restava nada agora além de um vazio oco e dolorido.
Ele queria me colocar no meu lugar. Tudo bem.
Eu encontraria um novo lugar.