POV Elena
Passei os três dias seguintes fazendo as malas, movendo-me com uma eficiência fria e mecânica.
Não embalei tudo.
Levei apenas as roupas que comprei com meu próprio dinheiro, meus cadernos de desenho e as poucas joias que minha mãe me deixou antes de pular da varanda.
Todo o resto ficou.
Deixei os colares de diamantes que Dante me deu como pedidos de desculpas por seus casos. Eram coisas lindas e pesadas, sobrecarregadas de mentiras.
Deixei os vestidos de alta costura que ele gostava de me ver usar em galas.
Mudei minhas coisas para o quarto de hóspedes na extremidade da Ala Leste.
Dante não me impediu.
Ele não voltou para casa por três noites.
Eu sabia onde ele estava.
Ele estava com ela.
Sofia Rossi.
O domingo chegou, trazendo consigo o pesado temor da obrigação.
O Jantar de Família obrigatório na mansão principal dos Vitiello.
A presença não era opcional.
Vesti um vestido preto simples, com gola alta e mangas compridas. Diante do espelho, o reflexo que me encarava não era de uma esposa.
Eu parecia uma viúva.
Quando cheguei à mansão, a entrada estava cheia de SUVs blindados, brilhando como besouros negros sob o sol da tarde.
Entrei no salão principal.
O ar estava denso, pesado com o cheiro enjoativo de charutos e carne assada. Cheirava a excesso. A poder.
Meu pai estava lá, o Chefe dos Greco, bebendo com os tios de Dante.
Ele me viu e zombou, seu lábio se curvando em desgosto.
"Onde está seu marido?" ele perguntou. "Uma esposa deve chegar com seu marido."
"Pergunte a ele", eu disse, minha voz desprovida de emoção enquanto passava por ele.
Entrei na sala de jantar.
Dante já estava lá.
Ele estava sentado na cabeceira da mesa, um rei sombrio em seu trono.
Sofia estava ao lado dele, a mão dela descansando casualmente em seu ombro.
Ela usava um vestido vermelho que era muito justo e decotado para um jantar de família. Era um grito por atenção em uma sala cheia de sussurros.
Ela parecia vibrante, viva e vitoriosa.
Ela era filha de um associado de baixo escalão, mas esta noite desfilava como a Rainha.
"Elena!" Sofia cantou quando me viu, sua voz doce como sacarina. "Estávamos nos perguntando se você ia aparecer. Dante disse que você estava se sentindo... instável."
A mesa ficou em silêncio.
Os Chefes, os soldados, as esposas — todos olharam para mim.
Alguns com pena, a maioria com desprezo.
Dante não olhou para mim. Ele simplesmente tomou um gole de seu vinho, seu perfil esculpido em pedra.
"Estou bem", eu disse.
Sentei-me na outra ponta da mesa, o mais longe possível de Dante.
O jantar foi uma sessão de tortura.
Sofia ria alto das piadas de Dante.
Ela cortava a carne para ele.
Ela sussurrava em seu ouvido, a mão dela demorando em seu pescoço.
Na minha vida passada, eu teria feito uma cena.
Teria jogado minha taça de vinho.
Teria chorado e exigido que Dante me respeitasse.
Era o que eles esperavam.
A "Princesinha Mimada".
Mas eu apenas comi minha sopa.
Concentrei-me na textura do pão.
Concentrei-me no plano que se formava em minha cabeça.
Paris.
Eu só precisava chegar a Paris.
Quando os homens foram para a sala de fumo e as mulheres para o salão, eu escapei.
Caminhei pelo corredor silencioso até a Capela da Família.
Era o único lugar nesta casa que parecia sagrado.
Era onde as cinzas do Velho Don eram mantidas em uma urna de jade no altar.
Ele foi o avô que forçou este casamento, sim, mas também foi o único que já me disse que eu tinha talento.
Ajoelhei-me diante do altar.
Peguei meu rosário.
Era de jade, combinando com a urna.
"Sinto muito, Avô", sussurrei. "Não posso mais manter sua promessa."
Coloquei o rosário em cima da urna.
A pesada porta de carvalho rangeu atrás de mim.
Eu não me virei.
O clique agudo dos saltos no chão de pedra me disse quem era.
"Rezando por um milagre?" A voz de Sofia ecoou no pequeno espaço.
Levantei-me e me virei para encará-la.
"Saia, Sofia."
"Esta é minha capela agora", disse ela, aproximando-se. "Ou será em breve. Dante me prometeu."
"Ele prometeu muitas coisas", eu disse.
"Ele te odeia", ela cuspiu, sua máscara escorregando para revelar o ciúme feio por baixo. "Você sabe disso, certo? Ele te chama de algema. Um fardo."
"Eu sei", eu disse calmamente.
Minha falta de reação a enfureceu.
Ela queria a briga.
Ela queria o drama que poderia usar para chorar no peito de Dante mais tarde.
Ela subiu até o altar.
"Você não merece estar aqui", disse ela. "Você não merece carregar o nome Vitiello."
Ela estendeu a mão e agarrou a urna de jade.
"Não toque nisso", avisei, minha voz baixando uma oitava.
"Ops", disse ela.
Ela sorriu, uma coisa cruel e distorcida.
E então ela jogou a urna no chão de pedra.
O som foi doentio — um estalo agudo seguido pelo estilhaçar oco da cerâmica.
Jade se quebrou.
Cinzas cinzentas explodiram no ar, cobrindo o chão imaculado, o altar e a barra do meu vestido.
Os restos do homem que construiu este império foram reduzidos a pó sob seus saltos.
Olhei para a bagunça, congelada de horror.
Sofia não parecia horrorizada.
Ela parecia animada.
Com um brilho maníaco nos olhos, ela estendeu a mão e rasgou a alça de seu próprio vestido.
Suas unhas cravaram em sua pele enquanto ela arranhava o próprio peito, tirando sangue vermelho vivo.
Então ela abriu a boca e gritou.
"Socorro! Dante! Me ajude!"
Ela se jogou no chão, rolando nas cinzas.
"Ela está louca! Ela está destruindo tudo!"
As portas se escancararam.
Dante foi o primeiro a entrar.
Ele viu a urna quebrada.
Ele viu as cinzas.
Ele viu Sofia chorando no chão, agarrando seu vestido rasgado.
E ele me viu, de pé sobre eles, silenciosa e imóvel.
O rosto de Dante ficou pálido, depois vermelho.
A veia em sua testa pulsava violentamente.
"Elena", ele rugiu.
Sua voz sacudiu os vitrais.
Não era uma pergunta.
Era um veredito.
POV Elena
"Ela me atacou!" Sofia lamentou, rastejando em direção a Dante pelo chão manchado de fuligem. "Eu a peguei tentando destruir a urna porque ela odeia seu avô pelo casamento! Eu tentei impedi-la, e ela... ela me bateu!"
Ela mostrou o peito arranhado como prova.
Era uma mentira patética e transparente.
Minhas mãos estavam impecáveis. Minhas unhas estavam feitas e lisas, sem pele ou sangue.
Mas Dante não olhou para minhas mãos.
Ele olhou para a pilha de poeira cinza que costumava ser a única figura paterna que ele já havia respeitado.
Ele olhou para a mulher que ele pensava ser seu consolo, chorando na sujeira.
"Você profanou esta casa", disse Dante, sua voz terrivelmente baixa.
Atrás dele, meu pai e os outros Chefes preenchiam a entrada, um muro de julgamento.
Eles murmuravam, um zumbido baixo de condenação.
Desrespeito aos ancestrais era um pecado capital em nosso mundo.
"Eu não fiz isso", eu disse.
Minha voz estava firme, mas meu coração martelava contra minhas costelas.
"Mentirosa!" meu pai gritou de trás, ansioso para se distanciar de minha suposta vergonha. "Ela sempre foi uma pirralha rancorosa!"
Dante passou por cima das cinzas, suas botas esmagando os restos de seu legado.
Ele me agarrou pela garganta.
Ele não apertou o suficiente para matar, apenas o suficiente para controlar, para dominar.
Ele me empurrou para trás até minha espinha colidir com a borda fria do altar de pedra.
"Olhe o que você fez", ele sibilou. "Olhe para isso!"
"Eu vejo o que *ela* fez", engasguei.
Dante me soltou com um empurrão de nojo.
"Levem Sofia para a enfermaria", ele ordenou a seus homens.
Dois soldados entraram correndo e ajudaram Sofia a se levantar.
Ela me lançou um olhar de pura malícia por cima do ombro enquanto mancava para fora, soluçando com uma teatralidade ensaiada.
"Dante", Enzo, seu melhor amigo e braço direito, deu um passo à frente. "Talvez devêssemos verificar as..."
"Verificar o quê?" Dante retrucou. "A urna está em pedaços, Enzo. Meu avô está no chão."
Ele se virou para mim.
"Você queria uma separação?" ele perguntou. "Você queria agir como se não pertencesse a esta família?"
"Eu não fiz isso", repeti.
"Silêncio!" ele gritou. O som ricocheteou nas paredes de pedra.
Ele desafivelou o cinto.
O couro pesado deslizou pelos passadores com um silvo letal.
A sala ficou mortalmente silenciosa.
Punição física não era incomum para soldados que falhavam.
Mas para uma esposa?
Era inédito.
Era a humilhação suprema.
"Vire-se", ele ordenou.
Eu olhei para ele.
Procurei pelo garoto que eu havia salvado do lago congelado.
Procurei pelo homem que eu amava desde os doze anos.
Ele não estava lá.
Apenas o Don permanecia.
"Dante, não", disse Enzo, aproximando-se. "Isso é ir longe demais."
"Ela precisa aprender a ter respeito", disse Dante. "Vire-se, Elena. Ou farei os guardas te segurarem."
Eu não lhe daria a satisfação de lutar.
Eu me virei.
Coloquei minhas mãos na pedra fria do altar.
Encarei o vitral acima.
Mordi o interior da minha bochecha até sentir o gosto de cobre.
*Crack.*
O cinto cortou minhas costas.
Parecia uma linha de fogo sendo desenhada em minha pele.
Meu corpo se projetou para frente, mas não fiz nenhum som.
*Crack.*
A segunda chicotada foi mais forte.
Rasgou a seda do meu vestido.
Senti a pele se romper.
"Implore", Dante rosnou. "Peça desculpas à família."
Eu não disse nada.
Concentrei-me na dor.
Deixei a dor queimar os últimos resquícios da minha esperança.
Cada golpe era uma memória morrendo, arrancada do meu coração.
*Crack.*
A vez que lhe dei meu sangue. *Foi-se.*
*Crack.*
A vez que levei a facada por ele. *Foi-se.*
*Crack.*
Os votos de casamento. *Foram-se.*
Contei até dez.
Meus joelhos cederam.
Deslizei contra o altar, caindo no chão.
Minhas costas estavam molhadas e pegajosas.
A sala estava girando.
Dante parou.
Ele respirava com dificuldade, seu peito subindo e descendo com a raiva exercida.
Ele largou o cinto. Ele caiu nas cinzas, levantando uma pequena nuvem cinza.
"Tirem-na daqui", disse ele aos guardas. "Tranquem-na em seu quarto. Nenhum médico até de manhã. Deixem-na pensar no que fez."
Ele se virou e saiu da capela sem olhar para trás.
Dois guardas agarraram meus braços.
Eles me arrastaram pelas cinzas.
Meus sapatos deixaram dois longos rastros na poeira cinza, marcando o caminho da minha ruína.
Eu não desmaiei.
Gostaria de ter desmaiado.
Em vez disso, senti cada passo, cada solavanco, cada momento da vergonha queimando em minha alma.
Eles me jogaram na cama do quarto de hóspedes e trancaram a porta.
Fiquei ali no escuro.
Não chorei.
Lágrimas eram para pessoas que tinham esperança.
Eu não tinha nada além do fogo marcando minhas costas e o gelo envolvendo meu coração.