Capítulo 2

Ponto de Vista: Sofia

Meu celular vibrou na mesa de cabeceira. Uma resposta, quase instantânea. Minha respiração ficou presa.

Luan Castilho: Estou surpreso em ouvir de você, Sra. Almeida. Mas não totalmente.

Meus dedos voaram pela tela, as palavras uma confissão frenética.

Sofia: Ele vai me pedir em casamento amanhã para me calar. Ele está pegando o trabalho da minha vida, Ecos da Metrópole, e dando para a Olívia Monteiro. Eu vou deixá-lo. Não tenho para onde ir.

Os três pontos apareceram e desapareceram. Ele estava pensando, calculando.

Luan Castilho: Essa é uma acusação séria contra um capitão. Por que vir a mim? Seu rival?

Sofia: Porque você é o único que ele teme. E porque os projetos são tudo o que me resta. Eu vi o artigo sobre meu trabalho na sua estante. Você entende o valor dele.

A pausa desta vez foi mais longa. Pensei que talvez tivesse exagerado, que ele me descartaria como uma mulher desprezada e histérica.

Luan Castilho: Sempre admirei seu talento. E seu espírito. Venha para o Rio de Janeiro. Meu carro irá encontrá-la no Santos Dumont. Mas saiba disto, Sofia. Uma vez que você der este passo, não há como voltar atrás.

Um alívio me invadiu, tão potente que me deixou tonta. Não há como voltar atrás. As palavras ecoaram em minha mente — uma promessa, não uma ameaça. Não hesitei. Abri um aplicativo de viagens no meu celular, meus dedos garantindo o primeiro voo só de ida para o Rio de Janeiro na tarde seguinte.

Heitor não voltou para casa naquela noite. Sua assistente, Cláudia, ligou, a voz tensa de desculpas, para dizer que ele estava com Olívia, lidando com uma "emergência de família". Eu sabia o que isso significava. Eles estavam comemorando.

Ele voltou na manhã seguinte, entrando como um herói conquistador, vibrando com uma energia extasiada que me deu arrepios.

"Meu bem, você não vai acreditar na surpresa que eu tenho para você esta noite", disse ele, beijando minha bochecha. O gesto pareceu uma marca de ferro.

O baile de gala beneficente foi um borrão de flashes de câmeras e sorrisos forçados. Eu me sentia como um fantasma, movendo-me por um mundo que não era mais meu. Heitor segurava minha mão com força, um aperto possessivo que deveria parecer afeto, mas parecia uma algema.

Então veio o momento. Ele me conduziu ao palco, sob o brilho quente dos holofotes. Ele se ajoelhou, segurando um diamante tão grande que parecia obsceno. A multidão ofegou.

"Sofia Almeida", ele começou, sua voz ressoando com falsa emoção, "você me faria o homem mais feliz do mundo?"

A sala prendeu a respiração. Meu próprio coração era uma pedra no peito. Esta era a gaiola. A bela e cintilante gaiola que ele projetou para mim.

Antes que eu pudesse responder, um suspiro coletivo percorreu a plateia. Do outro lado do palco, Olívia Monteiro, vestida com um vestido vermelho-sangue, desabou dramaticamente nos braços de seu pai.

A cabeça de Heitor virou-se para a comoção. Ele largou minha mão sem pensar duas vezes, a caixa do anel caindo no chão com um baque. O homem que acabara de me pedir para ser sua esposa, seu tudo, me abandonou em um palco sob o olhar impiedoso de cem câmeras.

Ele correu para o lado de Olívia, pegando-a nos braços e carregando-a para fora do salão de baile como se ela fosse a única pessoa no mundo.

Senti centenas de olhos se voltarem para mim. As lentes das câmeras me seguiram. Então, os sussurros começaram, uma maré crescente de especulação. A humilhação, quente e aguda, me invadiu.

Mas por baixo do calor ardente de tudo aquilo, uma calma estranha e fria começou a se instalar em meus ossos.

Ele havia feito sua escolha. Agora eu faria a minha.

Virei as costas para o palco, para os sussurros, para a vida que tinha sido uma mentira. Caminhei calmamente pela multidão atônita, para fora das grandes portas do hotel, e entrei em um táxi que esperava.

"Aeroporto de Guarulhos", disse ao motorista, minha voz firme. "E, por favor, se apresse."

Capítulo 3

Ponto de Vista: Sofia

O táxi se afastou do meio-fio, a fachada cintilante do hotel diminuindo no espelho retrovisor. Meu voo era só no dia seguinte, mas o aeroporto parecia o único santuário em uma cidade de inimigos.

Enquanto entrávamos na rodovia, o motorista olhou para mim pelo retrovisor. "Tem certeza sobre o aeroporto, senhora? Sem bagagem."

Sua simples observação perfurou minha névoa de adrenalina. Ele estava certo. Eu não podia simplesmente fugir. Ainda não. Sair agora significava deixar tudo para trás — meu notebook com os arquivos originais, meu passaporte, as poucas coisas que eram exclusivamente minhas. Essa fuga tinha que ser limpa. Definitiva.

"Mudança de planos", eu disse, minha voz encontrando um novo tom, mais duro. "Leve-me para casa."

O silêncio na casa era uma presença física. Heitor não havia voltado. Andei pelos cômodos que ele havia preenchido com sua ambição e suas mentiras, e comecei a demolição. Tirei uma caixa de sapatos do fundo do meu armário, aquela cheia de fotos nossas. Nós sorrindo em Paris, nós rindo em uma praia em Trancoso, nós em uma dúzia de eventos de gala, seu braço possessivamente em volta da minha cintura.

Uma por uma, eu as rasguei ao meio. O som agudo do papel brilhante rasgando era visceralmente satisfatório. Enfiei cada presente, cada lembrança, cada pedaço dele em um saco de lixo preto.

Enquanto eu estava sentada no meu carro na manhã seguinte, o motor desligado depois de entregar minha demissão, meu celular tocou. Era Heitor.

"Meu bem! Você nunca vai adivinhar o que aconteceu", disse ele, sua voz extasiada — totalmente alheia. "Vamos estar na capa da revista *Caras*. Nosso noivado! Precisamos começar a planejar o casamento imediatamente. Algo grande, algo que todos vão se lembrar."

Eu podia ouvir a risada aguda de Olívia ao fundo. "Diga a ela para escolher uma data em junho, querido", ela arrulhou.

Heitor murmurou algo para ela, depois voltou a falar no telefone. "Preciso ir, meu bem. Coisas grandes estão acontecendo. Te amo."

Ele desligou. Nem sequer perguntou onde eu estava ou se eu estava bem. Ele apenas presumiu que eu estava esperando ao lado do telefone por ele, pronta para voltar à linha.

Minha mão tremeu. Abri o Instagram. Olívia já havia postado. Uma foto dela e de Heitor, brindando com taças de champanhe. A legenda era um dardo envenenado: *A novos começos com o homem que sempre teve meu coração. Algumas coisas simplesmente estão destinadas a ser.*

Meu celular tocou novamente. Um número desconhecido.

"Sofia? É o Nuno." O braço-direito de Heitor parecia cansado, sua calma profissional desgastada. "Houve um... incidente. Heitor viu a cobertura da imprensa do baile, Olívia disse algumas coisas... ele está no Sírio-Libanês. Ele está perguntando por você."

Eu não senti nada. Um espaço vasto e vazio onde a preocupação deveria estar. Uma crise nervosa? Depois de tudo o que ele tinha feito, eu não acreditei por um segundo. Isso não era um colapso; era uma estratégia. Ele falhou em me prender com um diamante, então agora tentaria me acorrentar com a culpa.

"Ela simplesmente o deixou no pronto-socorro e foi embora", acrescentou Nuno, uma nota de genuíno nojo em sua voz. "Ele está fazendo um belo show."

*Ele está perguntando por você.* As palavras eram uma convocação, uma tentativa de acionar o velho reflexo da mulher que consertava tudo. A mulher que o salvava.

Mas aquela mulher se foi. Ela havia morrido naquele palco na noite anterior.

Respirei fundo, o som pesado no carro silencioso. "Estou a caminho."

Uma última vez. Eu iria assistir à performance. E então, finalmente, eu estaria livre.

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