Giselle não tinha chegado nem na metade do corredor quando uma muralha de músculos bloqueou seu caminho. Dois dos guarda-costas da família estavam parados ali, de braços cruzados, com os rostos impassíveis.
"Indo a algum lugar?" a voz de Buna ecoou atrás dela.
Giselle se virou. Ela segurava outro documento, abanando-o como um leque. "Não tão rápido. Precisamos acertar as contas."
"Eu assinei os papéis", disse Giselle, abraçando o próprio corpo. "Estou indo embora."
"Você assinou o divórcio", Buna zombou, aproximando-se. "Agora vamos executar o acordo pré-nupcial. Cláusula 14: Em caso de fraude, todos os bens, presentes e joias fornecidos pela família Villarreal devem ser devolvidos imediatamente."
Ela estalou os dedos. "Revistem-na."
Os olhos de Giselle se arregalaram. "O quê? Não. Vocês não podem-"
A governanta-chefe se adiantou. Giselle recuou, suas costas batendo no peito do guarda-costas. Ela se sentiu violada enquanto mãos apalpavam seus bolsos, verificando o forro de seu casaco.
Joseph estava parado na porta do escritório. Ele estava encostado no batente, observando. Ele não se moveu. Ele não falou. Apenas observou.
"O colar", Buna ordenou.
A mão de Giselle foi para o pescoço. O solitário de diamante. Foi um presente de aniversário. "Joseph me deu isto", ela sussurrou, olhando para ele. "É meu."
"Foi pago com o dinheiro do fundo fiduciário da família", o advogado declarou monotonamente. "Tecnicamente, pertence ao patrimônio."
Giselle olhou para Joseph. Diga alguma coisa, ela implorou em silêncio. Por favor, tenha um pingo de decência.
Ele olhou para o relógio.
Algo dentro de Giselle se partiu. O último fio de esperança, o último desejo patético de que ele se importasse, se desintegrou.
Ela abriu o fecho do colar. Não o entregou a Buna. Deixou-o cair na bandeja de prata que o mordomo segurava. Aterrissou com um barulho metálico e agudo.
Os olhos de Buna caíram para a mão esquerda dela. "E o anel."
A respiração de Giselle falhou. O diamante rosa. Ele o colocara em seu dedo. Ele havia prometido...
"Ela não merece usá-lo", Buna sibilou. "Essa pedra pertence à futura senhora desta casa. A Clydie."
Giselle agarrou o anel. Seus nós dos dedos ficaram brancos enquanto ela o puxava com força por cima da junta. Ele arranhou sua pele, deixando uma marca vermelha.
Ela não o colocou na bandeja.
Ela se virou para Joseph. Encarou-o nos olhos. E o atirou.
O anel voou pelo ar e atingiu o tapete bem em frente aos seus sapatos polidos. Quicou uma vez e parou perto da ponta do seu pé.
Joseph olhou para o anel. Seu maxilar se contraiu. Sua mão tremeu ao lado do corpo, quase como se quisesse pegá-lo. Uma estranha corrente de eletricidade percorreu seu braço, um impulso primitivo de parar aquilo, mas ele o esmagou instantaneamente. Permaneceu imóvel no lugar.
"Fora daqui", Buna gritou. "Tirem este lixo da minha casa!"
Giselle correu. Correu escada acima para o quarto de hóspedes para onde a haviam mudado na semana passada. Pegou a mala velha e surrada com a qual chegara três anos antes. Jogou lá dentro seu jeans, seus suéteres velhos, sua identidade. Nada que eles tivessem comprado. Nada que cheirasse a esta casa.
Ela arrastou a mala pela grande escadaria. As rodinhas batiam ruidosamente em cada degrau.
A porta da frente se abriu. Uma rajada de vento e chuva entrou, junto com uma mulher em um vestido de coquetel cintilante.
Clydie Woods.
Ela sacudiu o guarda-chuva, entregando-o a uma empregada. Parecia seca, aquecida e cara. Viu Giselle parada ali, com os olhos marejados e despenteada, arrastando uma mala quebrada.
"Oh, Giselle", ela arrulhou, sua voz gotejando falsa simpatia. Aproximou-se, seus saltos estalando. Inclinou-se para perto, para que apenas Giselle pudesse ouvir. "Não se preocupe. Vou cuidar muito bem dele. Melhor do que uma farsa como você jamais poderia."
Ela se afastou e sorriu radiante. "Boa viagem."
Giselle não confiava em si mesma para falar. Passou por ela com um empurrão. O mordomo segurava a porta aberta, o rosto cheio de pena.
"Sra. Villarreal...", ele começou.
"Não", disse Giselle.
Ela saiu para a varanda. A chuva era torrencial. Caía em lençóis, encharcando sua blusa instantaneamente.
"Sem carro", Buna gritou do foyer. "Os carros dos Villarreal são para a família. Ela vai a pé."
Giselle agarrou a alça da mala. A entrada de carros era longa. Uma milha até o portão principal.
Ela começou a andar. O vento açoitava seu cabelo contra o rosto, cegando-a. A chuva fria encharcou suas roupas, gelando-a até os ossos. Seus sapatos chapinhavam nas poças.
Na metade do caminho, a rodinha da mala prendeu em uma fenda nos paralelepípedos. Ela puxou com força. A alça quebrou. A mala virou, derramando suas roupas humildes na lama.
Giselle parou. Encarou suas roupas encharcando na água suja.
Ela caiu de joelhos. A represa se rompeu. Ela soluçou, o som arrancado de sua garganta, perdido no rugido da tempestade. Juntou seus suéteres enlameados, abraçando-os contra o peito. Tinha vinte e três anos e não tinha nada. Nenhuma família. Nenhum dinheiro. Nenhum marido.
Lá no alto, na janela do quarto principal, Joseph estava no escuro. Ele observava a pequena figura desabar na chuva. Pressionou a mão contra o vidro frio. Seu peito doía com uma dor estranha e oca que ele não conseguia nomear. Parecia a síndrome do membro fantasma, uma dor por algo que não estava mais lá.
Giselle se levantou. Empurrou as roupas molhadas de volta para dentro da mala quebrada. Limpou a lama e as lágrimas do rosto.
Sobreviva, ela disse a si mesma. Apenas sobreviva.
Ela arrastou a mala pelo resto do caminho. Chegou aos portões de ferro. Eles se abriram lentamente.
Ela saiu para a estrada pública. Estava um breu total.
Então, uma luz branca e ofuscante inundou sua visão.
Giselle ergueu o braço para proteger os olhos, semicerrando-os contra o brilho ofuscante. Ela pensou que era um caminhão, talvez um motorista de entrega que a respingaria com mais lama.
Mas o veículo não passou. Ele desacelerou até parar com um ronronar suave bem na sua frente.
Era um Rolls Royce Phantom. Distância entre eixos estendida. Preto-azeviche. O ornamento do capô, o Spirit of Ecstasy, brilhava sob as luzes da rua, mas, ao contrário da frota ostensiva dos Villarreal, este carro não exibia bandeiras nem brasões. Era um fantasma na noite, irradiando um poder silencioso e aterrorizante.
Atrás dele, um segundo carro parou. Depois um terceiro. Um quarto. Era uma comitiva digna de um chefe de estado.
A porta traseira do primeiro carro se abriu bruscamente antes mesmo que o motorista pudesse chegar lá. Um homem de terno cinza saiu correndo na chuva. Ele não se importou com seus sapatos de couro italiano afundando na lama.
"Giselle!"
Era seu pai. Ou o homem que ela só tinha visto em memórias turvas e em recuperação.
Ele a alcançou em duas passadas e a puxou para um abraço esmagador. Ele cheirava a tabaco antigo e a conforto. "Eu te encontrei. Meu Deus, nós te encontramos."
Uma mulher o seguiu, soluçando abertamente. Sua mãe. Ela envolveu os braços em volta dos dois, prensando Giselle em um sanduíche de calor. "Meu bebê. Minha doce menina."
Giselle ficou parada, paralisada, a chuva colando o cabelo em seu crânio, a lama manchando sua bochecha. Ela estava chocada demais para chorar.
Então, as portas do segundo carro se abriram.
Três homens saíram. Altos. Imponentes. Eles se moviam com uma graça predatória que exalava poder.
Kordell Hines. O mais velho. Ele deu uma olhada em Giselle — tremendo, molhada, destruída — e seu rosto se fechou com uma raiva que poderia queimar cidades. Ele tirou seu trench coat de caxemira e o colocou sobre os ombros dela. Era pesado e quente.
"Quem fez isso?", ele perguntou, sua voz baixa e perigosa. Ele olhou em direção aos portões dos Villarreal.
"Vamos levá-la para dentro", disse o segundo irmão, Silas. Ele caminhou até a mala quebrada dela. Olhou para ela com desdém e a chutou para o lado. "Deixe isso aí. Você não precisa mais de lixo."
O terceiro irmão, o mais novo, Asher, se aproximou. Ele tirou um lenço de seda do bolso e limpou gentilmente a lama da testa dela. Seus olhos estavam avermelhados. "Temos uma cobertura pronta para você em Coast City. Ou a propriedade nos Hamptons. Para onde você quiser ir, Elle."
Elle. O apelido de uma infância que ela quase esquecera.
"Vamos para casa", disse seu pai, guiando-a em direção à porta aberta do Rolls Royce.
Giselle entrou no banco de trás. Era como entrar em um mundo diferente. O ar era climatizado a perfeitos vinte e dois graus. Os assentos eram mais macios que sua cama na mansão.
Sua mãe sentou-se ao seu lado, segurando sua mão com tanta força que seus anéis cravaram na pele de Giselle. Ela lhe entregou uma garrafa térmica com chocolate quente.
"Temos os melhores médicos de prontidão", disse Silas do banco auxiliar. "Vamos consertar o que quer que eles tenham quebrado."
Kordell entregou-lhe uma pasta de couro. "Isso é apenas o começo", disse ele. "Dez por cento da Hines Global. Está em seu nome. Com efeito imediato."
Giselle olhou para os papéis. Os números eram astronômicos. No espaço de cinco minutos, ela passou de indigente a bilionária.
"Por que...", sua voz falhou. "Por que agora?"
"Nós nunca paramos de procurar", disse seu pai, com a voz embargada. "A família Woods... eles esconderam você bem. Mas encontramos a discrepância nos registros. Viemos o mais rápido que pudemos."
Enquanto a comitiva começava a se mover, afastando-se do meio-fio, Giselle olhou pela janela traseira de vidro fumê.
Através da chuva, ela viu a silhueta imponente da mansão Villarreal. Agora parecia uma prisão. Um mausoléu frio de pedra.
Dentro daquela casa, Joseph provavelmente estava se servindo de uma bebida, aliviado por ter se livrado da "fraude". Ele não fazia ideia. Pensava que tinha jogado fora o lixo, mas acabara de declarar guerra a um império.
De volta à mansão, Joseph estava parado junto à janela. Ele viu as luzes traseiras vermelhas da comitiva desaparecerem na névoa.
"Senhor", Kieran, seu assistente, entrou na sala. "Nós a perdemos."
Joseph franziu a testa, virando-se. "O que você quer dizer?"
"Tentei rastrear o celular dela. Tentei verificar as estações de trem, os terminais de ônibus. Nada. O sinal dela simplesmente... desapareceu. É como se ela tivesse deixado de existir no momento em que saiu pelo portão."
Joseph girou o líquido âmbar em seu copo. "Ela está se escondendo", murmurou ele. "Vai aparecer em algum motel barato em alguns dias, quando precisar de dinheiro."
Mas um nó de inquietação se apertou em seu estômago. Ele se lembrou do olhar dela antes de partir. Não era o olhar de uma mulher derrotada. Era o olhar de alguém que não tinha mais nada a perder. E aquela comitiva... ele não tinha visto os logotipos, mas a precisão daqueles carros, a maneira como se moviam em formação — aquilo não era um serviço de táxi. Aquilo foi um resgate.
No Rolls Royce, Giselle tomou um gole do chocolate quente. O calor se espalhou por seu peito. Ela encostou a cabeça no ombro da mãe.
A garota que chorou na lama não existia mais.