Do outro lado da linha, um homem de presença marcante, vestido de preto com uma elegância natural, permanecia calado. Seus traços eram afiados e atraentes, mas o que chamava atenção nesse instante era o brilho de surpresa em seus olhos.
O silêncio se prolongou até que Amelia não conseguiu esperar mais e quebrou a pausa: "Desculpe, fui impulsiva. Esqueça o que eu disse…"
"Sim." A resposta veio firme, em um tom baixo que fez Amelia prender a respiração, atônita.
A verdade era que ela se arrependera quase no mesmo instante em que as palavras haviam escapado de sua boca.
Romper o noivado com Jaxton já era, por si só, um passo arriscado, mas aceitar, ainda que em tom de brincadeira, se casar com Wyatt Stewart parecia brincar com fogo.
Deitada na escuridão, sua mente voltou, sem pedir licença, para a noite de um ano atrás.
Assim como agora, era tarde da noite quando ela saiu do hospital, encontrou um homem quase inconsciente em um beco escuro no lado oeste de Kretol e o ajudou.
O homem era Wyatt, mas, naquela época, Amelia não fazia ideia de quem ele realmente era.
Wyatt insistiu em retribuir o favor, e ela, rindo levemente, disse que, se ele estava realmente disposto a qualquer coisa, então poderia se casar com ela.
Fora apenas uma piada, um impulso infantil. O que ela jamais imaginou foi que ele levaria a sério.
Naquele tempo, seu noivado com Jaxton já estava firmado — um acordo arranjado por sua mãe, antes de falecer. Então, na hora, ela explicara que não passara de uma brincadeira.
Wyatt, contudo, não recuou e, com a calma que lhe era peculiar, afirmou que, se um dia ela rompesse o compromisso com Jaxton, ele se casaria com ela, promessa que valeria por dois anos.
E até hoje, o prazo ainda não havia expirado.
Quando desligou o celular, Amelia não sabia ao certo como a ligação terminara, mas as últimas palavras de Wyatt permaneciam claras em sua mente: em trinta dias, haveria um casamento.
Ela realmente ia se casar — e não seria com Jaxton.
Exausta, tentou dormir, mas o sono não vinha. Foi então que o celular começou a vibrar sem parar.
Como sua avó estava internada, Amelia jamais desligava ou deixava o aparelho no silencioso.
Ela pegou o celular e a tela iluminou a noite: uma foto que mostrava pedaços de tecido rasgados.
Bastou um instante para reconhecer o que era — o terno usado por Jaxton mais cedo, costurado por suas próprias mãos.
Logo abaixo, havia uma mensagem de Dayna: "Desculpe, Amelia. Eu não fazia ideia de que tinha sido você quem fez o terno do Jaxton. Achei que fosse uma roupa qualquer, e como estava suja, resolvi cortar em pedaços e jogar fora. Espero que não esteja brava comigo."
As palavras vinham carregadas de uma falsa inocência, quase triunfante.
Antes que Amelia pudesse reagir, outra mensagem chegou: "Jaxton disse que não é nada de mais. Só uma roupa que não vale tanto assim."
Amelia suspirou, pois sabia que, se não respondesse, Dayna continuaria insistindo.
Então, ela respondeu: "Jaxton tem razão, é só uma roupa qualquer. Não estou brava."
Em seguida, bloqueou o número da meia-irmã e deixou o celular de lado.
Não havia mentira em sua resposta — não estava brava mesmo, pois já havia perdido as contas das pequenas humilhações sofridas nos últimos dois anos e, caso se deixasse abalar por cada uma, já teria perdido a razão.
De volta à cama, porém, o sono não vinha.
Um pensamento doía como um sussurro insistente: se sua mãe pudesse vê-la agora, sentiria arrependimento por tudo o que planejara?
Dayna era fruto de uma traição de seu pai, Ricky Flynn, e nascera apenas alguns meses depois dela.
Quando Katrina Davis, sua mãe, descobriu a existência da filha bastarda de seu marido, a enviou para o exterior. Mas os anos de trabalho exaustivo cobraram sua saúde, que começou a definhar ao longo dos dias.
Foi nesse momento de fragilidade dela que Ricky trouxe de volta Dayna e Janessa Patel, a amante, para o páis e que, aos poucos, assumiu o posto de madrasta de Amelia.
Katrina sabia muito bem o que isso significava para sua filha. Ricky nunca fora um homem bondoso, e a presença de Janessa e Dayna transformaria a vida dela em um fardo ainda maior.
Por isso, Katrina arquitetou o noivado de Amelia com Jaxton — a escolha lhe parecia segura, pois ela e Laura Morrison, mãe do rapaz, cultivavam amizade de longa data, e Amelia crescera ao lado de Jaxton. Na sua cabeça, a união asseguraria estabilidade e proteção.
No entanto, Katrina não tinha como saber o quanto as pessoas podiam mudar.
Nos últimos dias de vida, a mulher chegou a chamar Jaxton diante dela e de Laura, exigindo que ele prometesse cuidar bem de Amelia. E ele prometeu, com tanta convicção que até Amelia acreditou.
Mas agora...
Quando o amanhecer chegou, Amelia foi despertada bruscamente. Abrindo os olhos, encontrou Jaxton diante dela, o rosto distorcido pela raiva, os dedos cravados em seu pulso.
A dor a fez se encolher. "Qual é o seu problema, Jaxton? Por que me tratar assim logo cedo?"
"Você se acha esperta, não é? Além de correr para se queixar com a minha mãe, o que mais sabe fazer?", Jaxton disparou.
Amelia franziu a testa. O vídeo havia se espalhado pela internet, e, inevitavelmente, Laura já sabia de tudo. Mas Jaxton não hesitou em culpá-la, deduzindo que ela devia ter contado.
Amelia não tinha forças para discutir. Na verdade, a atitude de Jaxton apenas fortaleceu sua determinação de romper o noivado.
Seu silêncio, porém, foi interpretado como confissão.
Durante todo o caminho até a casa da família Morrison, ele a bombardeou com acusações e palavras amargas.
No entanto, ao cruzar a porta da residência, sua postura mudou como se uma máscara tivesse sido trocada.
De súbito, Jaxton se transformou no filho atencioso e no noivo exemplar, enquanto Amelia o observava em silêncio, sentindo a repulsa dentro de si se intensificar.
Como pudera ser tão cega a ponto de acreditar nesse teatro por tanto tempo?
Assim que Amelia entrou na sala de estar, Laura se levantou depressa, tomou-lhe a mão com delicadeza e disse com a voz carregada de ternura: "Você já passou por tantas coisas, Amelia... sinto muito."
Apesar de já ter passado dos cinquenta, o cuidado incansável com a própria aparência fazia com que Laura parecesse facilmente dez anos mais jovem, como se o tempo não tivesse deixado marcas sobre ela.
Neste momento, porém, o semblante que normalmente transparecia serenidade estava tomado por uma preocupação genuína.
Desde que Amelia podia se lembrar, Laura sempre fora gentil. Todas as vezes em que seu filho ultrapassava os limites, era ela quem intervinha, a defendendo com repreensões brandas que, no fim, pouco adiantavam.
Hoje não era diferente.
Laura lançou um olhar severo ao filho e ordenou: "Peça desculpas à Amelia agora."
Normalmente, Amelia teria se apressado em dizer que não havia problema algum, que não valia a pena criar atrito. Mas, dessa vez, o cansaço lhe pesava nos ombros.
Antes mesmo que Jaxton pudesse abrir a boca, ela murmurou: "Laura, estou com dor de cabeça... vou me deitar um pouco no andar de cima."
O rosto pálido de Amelia foi suficiente para que Laura entendesse. "Claro, querida. Vá descansar. Pedirei para chamá-la quando o jantar estiver pronto."
Amelia acenou com a cabeça discretamente e subiu as escadas em silêncio.
Assim que ela desapareceu de vista, a paciência de Laura se rompeu. Com os olhos faiscando de indignação, ela se virou para Jaxton e disse: "Você ficou maluco? Como pôde se envolver com a filha ilegítima do Ricky?"
"Mãe, ilegítima ou não, ela continua sendo filha dele. Além disso, Janessa conheceu Ricky antes de todo mundo. O que eles tinham era amor verdadeiro."
"Seu..." A fúria subiu tão rápido que Laura precisou se apoiar no encosto da poltrona para não perder o equilíbrio.
Ela respirou fundo, se recompondo, e declarou com firmeza: "O que você faz com Dayna é problema seu. Mas grave bem o que vou dizer — Amelia é sua noiva, e será a única aceita nesta família como sua esposa."
Jaxton já ouvira o mesmo discurso inúmeras vezes, mas desta vez, ele retrucou com ironia: "Me diga, mãe... Você quer Amelia como nora por causa da sua amizade com Katrina, ou pelos sessenta por cento das ações que ela herdou?"
O lucro sempre vinha em primeiro lugar no mundo dos negócios, e Laura não fugia à regra.
A amizade com Katrina pesava, sim, mas o verdadeiro alicerce do noivado eram as ações que Amelia possuía no Grupo Flynn — sessenta por cento da empresa da sua mãe.
Laura manteve o tom firme: "Já que sabe disso, trate Amelia como ela merece. Jaxton, faço tudo isso pelo seu próprio bem. Casando-se com ela, você garante o futuro. Dayna nunca poderá se comparar à Amelia, nem em beleza, nem em capacidade. Se insistir em envolver Dayna, só conseguirá ferir Amelia e fazê-la se decepcionar com você. Um dia, você vai se arrepender. Você..."
"Pare, mãe. Já chega. Eu nunca disse que não me casaria com Amelia." Claramente irritado, Jaxton subiu as escadas.
No quarto do segundo andar, Amelia se sentou no sofá junto à janela, olhando o jato delicado da fonte no jardim.
Um silêncio pesado a envolvia, até que o celular vibrou em sua mão com uma mensagem.
Seus olhos se arregalaram com o que viu: uma foto exibia dois anéis prateados, simples e elegantes, exatamente de seu gosto.
Logo abaixo, uma pergunta curta de Wyatt: "Você gostou?"
Amelia demorou a digitar, confusa, e respondeu: "Para que são?"
"Você gostou?", Wyatt apenas repetiu a pergunta.
Amelia respirou fundo e hesitou por alguns segundos, mas enfim admitiu: "Sim, gostei."
Nenhuma resposta veio do outro lado — silêncio que a deixou inquieta, sem imaginar que, ao ler a mensagem, um leve sorriso brotava nos lábios de Wyatt.
O gesto, tão raro, chamou a atenção de Marc, que estava ao lado do homem. "Espere aí... você está sorrindo? Quem é você e o que fez com o verdadeiro Wyatt?"
O sorriso desapareceu de imediato, sendo substituído por uma expressão fria que quase convenceu Marc de que ele havia imaginado a cena.
"Como está a senhora Davis?", Wyatt perguntou, se referindo à avó de Amelia.
Marc suspirou, sua voz carregada de preocupação: "Não houve melhora. O coração dela está cada vez mais fraco. Mesmo me esforçando ao máximo, temo que não reste muito tempo."
"Então, no fim das contas, você não é tão competente assim como médico."
Ofendido, Marc se irritou, pois, como todo profissional de renome, detestava ter sua habilidade posta em dúvida. "O que você quer dizer com isso? Sou médico, não um milagreiro. Falando em senhora Davis, há algo que não entendo. Você me pediu para tratá-la, mas por que me fez fingir que aceitei esse caso pelo pedido da família Morrison?"
Isso fez parecer que ele, um prodígio médico, estava apenas interessado em dinheiro.
Mas Wyatt, por sua vez, em vez de se justificar, desviou a atenção para os papéis espalhados sobre a mesa: esboços detalhados do par de alianças que mostrara a Amelia instantes antes.